Ufal suspende 218 diplomas emitidos no Paraguai: podemos estar diante da ponta de um iceberg?

O caso expõe possíveis fragilidades no reconhecimento de títulos estrangeiros e exige que MEC e universidades públicas investiguem quantos diplomas sem o necessário respaldo das autoridades dos países de origem podem ter atravessado o sistema brasileiro

A decisão da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) de suspender cautelarmente o reconhecimento de 218 diplomas de mestrado e doutorado emitidos pela Faculdade Interamericana de Ciências Sociais (FICS), do Paraguai, coloca diante do sistema universitário brasileiro um problema que dificilmente poderá ser tratado como episódio localizado. O número de títulos envolvidos em uma única universidade é suficientemente elevado para levantar uma questão inevitável: estamos diante de uma excepcionalidade administrativa ou apenas da parte visível de um problema muito maior?

Segundo a própria Ufal, informações obtidas junto às autoridades paraguaias indicaram problemas graves. A Dirección General de Universidades, Institutos Superiores e Institutos Técnicos Superiores informou que títulos emitidos a partir de 2013 não estariam devidamente registrados, enquanto o Conselho Nacional de Educação Superior do Paraguai (Cones) comunicou que o Instituto Superior Interamericano de Ciencias Sociales (Isics) não possuía ofertas acadêmicas legalmente habilitadas, inclusive de mestrado e doutorado. A Ufal ressalva que a suspensão é cautelar e que os interessados poderão comprovar individualmente a regularidade de seus títulos, razão pela qual não cabe antecipar a conclusão dos processos.

Entretanto, há uma questão institucional que precisa ser enfrentada: como 218 diplomas provenientes da mesma origem chegaram a ser reconhecidos por uma única universidade brasileira sem que os problemas agora apontados pelas autoridades paraguaias fossem identificados anteriormente? A própria Ufal admite em sua nota a possibilidade de ter sido induzida a erro quanto à legitimidade da documentação apresentada. Isso torna indispensável esclarecer quais procedimentos de verificação foram adotados, quais documentos comprovaram a regularidade da instituição e dos cursos e se houve consulta direta às autoridades educacionais paraguaias antes dos reconhecimentos.

Mas seria precipitado transformar a Ufal na única responsável antes de examinar o funcionamento do próprio sistema brasileiro. A Plataforma Carolina Bori, administrada pelo Ministério da Educação, organiza nacionalmente a tramitação dos pedidos, embora a decisão sobre o reconhecimento caiba às universidades. Surge então uma segunda pergunta: o problema decorreu de falhas específicas nos procedimentos internos da Ufal ou estamos diante de uma vulnerabilidade mais ampla de um sistema que pode ter confiado excessivamente na documentação apresentada pelos requerentes sem estabelecer mecanismos suficientemente robustos de verificação diretamente nas fontes oficiais dos países de origem?

Essa distinção é fundamental. Uma coisa é verificar se um processo contém diploma, histórico, dissertação, tese, ata de defesa e demais documentos exigidos. Outra é confirmar junto às autoridades competentes do país estrangeiro que a instituição estava legalmente autorizada a funcionar, que aquele programa de mestrado ou doutorado possuía reconhecimento oficial e que o diploma apresentado efetivamente estava registrado e possuía validade naquele país. Se essa segunda verificação não ocorreu de maneira sistemática, existe uma vulnerabilidade que ultrapassa a Ufal.

Por isso, o Ministério da Educação deveria utilizar a própria base da Plataforma Carolina Bori para realizar um pente-fino nacional. O primeiro passo seria relativamente simples: identificar quantos diplomas provenientes da FICS/Isics foram submetidos a reconhecimento no Brasil, quantos foram deferidos, quais universidades realizaram esses reconhecimentos, em quais períodos e em quais áreas. O mesmo procedimento deveria alcançar outras instituições estrangeiras sobre as quais existam questionamentos formais das autoridades educacionais de seus países.

Esse levantamento permitiria responder a uma questão decisiva. Se a grande maioria desses títulos estiver concentrada na Ufal, será necessário explicar por que aquela universidade se transformou no aparente epicentro brasileiro do caso. Se, entretanto, forem encontrados centenas ou milhares de diplomas semelhantes reconhecidos por diferentes universidades, estaremos diante de algo muito mais grave: uma possível fragilidade sistêmica do modelo brasileiro de reconhecimento de títulos estrangeiros.

Independentemente do resultado dessa investigação, todas as universidades públicas brasileiras deveriam aproveitar o episódio para estabelecer critérios mais explícitos de controle.  É necessário criar procedimentos que permitam identificar e rejeitar diplomas provenientes de instituições ou programas sem reconhecimento das autoridades educacionais dos países de origem, preferencialmente mediante consultas a bases oficiais e, quando necessário, comunicação direta com essas autoridades.

Essa precaução também protege quem obteve títulos estrangeiros legítimos. Um pente-fino não deve partir da presunção de que diplomas paraguaios sejam irregulares, mas separar claramente instituições e programas reconhecidos daqueles que eventualmente tenham funcionado sem o necessário respaldo legal. Generalizar a suspeita seria injusto; deixar de investigar diante dos indícios agora existentes seria igualmente irresponsável.

Há ainda uma dimensão que poderá tornar esse caso particularmente explosivo. Diplomas de mestrado e doutorado podem ter sido utilizados para progressões funcionais, adicionais ou retribuições por titulação, concursos e outras vantagens no serviço público. Se forem definitivamente anulados reconhecimentos concedidos a títulos sem validade no país de origem, poderão surgir consequências financeiras e administrativas relevantes. Dependendo da legislação aplicável e das circunstâncias individuais, elas poderão envolver perda de vantagens remuneratórias e, nos casos em que determinado diploma tenha sido requisito indispensável para ingresso ou permanência em cargo público, até questionamentos sobre o próprio vínculo funcional. Isso não significa presumir má-fé dos portadores, pois alguns podem ter acreditado legitimamente na validade dos cursos que realizaram, mas torna ainda mais urgente determinar responsabilidades institucionais e individuais.

Os 218 diplomas identificados somente na Ufal podem, portanto, ser apenas a ponta de um iceberg de dimensões ainda desconhecidas. Antes de concluir que estamos diante de uma falha localizada daquela universidade, precisamos saber quantos títulos da mesma procedência atravessaram o sistema brasileiro e onde foram reconhecidos.

Se o problema estiver concentrado na Ufal, teremos uma grave questão institucional a explicar. Se estiver espalhado por diferentes universidades, o problema alcançará também a arquitetura criada pelo MEC para organizar o reconhecimento de títulos estrangeiros. Em qualquer das hipóteses, já existem elementos suficientes para justificar uma auditoria nacional. Dependendo do que surgir desse pente-fino, poderemos estar diante de um escândalo acadêmico, administrativo e financeiro de grandes proporções. Afinal, talvez os 218 diplomas da Ufal não sejam propriamente o iceberg, mas apenas o ponto em que o sistema universitário brasileiro finalmente colidiu com ele.

PF apertou o cerco às quadrilhas de falsificação de diplomas

Entre 2024 e 2025, operações se multiplicaram e expuseram redes de falsificação e revalidação fraudulenta de títulos acadêmicos

PF apertou o cerco às fábricas de diplomas nos últimos dois anos

A Operação Side Job 2, da PF, investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. Fotos: Polícia Federal/Divulgação

Por Marcelo Menna Barreto para “Extra Classe” 

Nos últimos anos, a Polícia Federal (PF) brasileira tem deflagrado operações específicas para combater a falsificação e o uso fraudulento de títulos stricto sensu no país. Trata-se de um verdadeiro mercado paralelo de certificados acadêmicos, cursos superiores irregulares e instituições ditas estrangeiras que operam à margem da legislação brasileira.

Titulações falsas têm se revelado, nos últimos anos, um filão lucrativo que envolve não apenas estelionatários, mas também instituições de ensino superior nacionais que revalidam títulos de mestrado e doutorado supostamente obtidos no exterior, mas eivados de irregularidades. A ameaça à credibilidade do sistema educacional pátrio e o risco oferecido à sociedade colocaram esse ecossistema criado por golpistas no radar da PF.

Como um todo, o golpe não é novo nem exclusivo do Brasil. Seguindo um modus operandi semelhante, falsários e estelionatários operam praticamente em todo o território nacional.

A ação pública mais recente da PF foi realizada em 17 de dezembro passado. Dois mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Cabo Frio, na Região dos Lagos do Rio de Janeiro. A Operação Side Job 2 investiga uma organização criminosa suspeita de produzir e comercializar diplomas falsos de cursos superiores, técnicos e de ensino médio em diversos estados. De acordo com a PF, a apuração teve início em outubro de 2024, após denúncia do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Rio de Janeiro (Crea-RJ).

No Distrito Federal, site falso simulava sistemas de verificação

Em junho de 2025, a PF cumpriu 25 mandados de busca e apreensão no Distrito Federal e em outros 11 estados. A ação integrou a Operação Código 451, voltada à desarticulação de uma rede criminosa de falsificação e venda de diplomas de ensino superior.

Segundo as investigações, os documentos ilegais eram utilizados para obtenção de registros em conselhos profissionais, permitindo o exercício irregular de profissões regulamentadas. Entre as áreas identificadas estão direito, engenharia, psicologia, biomedicina, fisioterapia, administração e educação física.

O esquema incluía a criação de um site fraudulento que simulava sistemas oficiais de verificação. Os investigados podem responder por falsificação de documento público, estelionato e exercício ilegal da profissão.

A PF não divulga os nomes dos alvos da operação. O Extra Classe, no entanto, teve acesso à ata da Reunião Plenária do Conselho Regional de Psicologia da 1ª Região (CRP-DF), realizada em 29 de julho passado. No documento, os conselheiros foram informados sobre um inquérito policial que envolvia diplomas de psicologia falsificados. Entre eles, o de Ângelo Ribeiro Froes.

Fábrica de diplomas

Froes já havia sido citado na série de reportagens Fábrica de Diplomas, produzida pelo Extra Classe desde 1º de agosto. Ele é identificado como vice-reitor da Emil Brunner World University (EBWU), organização sediada na Flórida, nos Estados Unidos.

A matéria Prisão em SP expõe ligações entre FICS e um circuito crescente de IES fictícias registrou que Froes tentou obter registro profissional no Conselho Regional de Medicina de São Paulo (Cremesp).

Para isso, apresentou um diploma falsificado e um termo no qual se declarava “bacharel em Medicina” por uma empresa que se apresenta como instituição de ensino superior norte-americana. Alertado pelo conselho de que diplomas de graduação obtidos no exterior precisam, por lei, ser revalidados por universidades públicas ou institutos federais, ingressou com mandados de segurança contra a Universidade Federal de Goiás (UFG) e, posteriormente, contra a Universidade Federal do Amazonas (Ufam), buscando a revalidação simplificada do título.

Nos dois casos, as ações foram abandonadas antes de decisão judicial, após as universidades levantarem questionamentos sobre a autenticidade da documentação. Os processos, ajuizados com o benefício da Justiça gratuita, foram extintos.

No mesmo mês da Operação Código 451, o vice-reitor da EBWU solicitou o cancelamento de seu registro no CRP.

Froes também figura como “chefe de reportagem” de um jornal digital que tem atuado na defesa de supostas instituições de ensino superior estrangeiras e na crítica ao trabalho do Extra Classe e do autor da série que denuncia fraudes atualmente sob investigação da PF.

Engodo em nome da Ufrgs

Até então, um dos casos mais emblemáticos conduzidos pela PF foi a Operação Engodo. Deflagrada em junho de 2024 e aprofundada em fevereiro de 2025, a investigação desarticulou um grupo criminoso que falsificava diplomas de mestrado e doutorado em nome da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs).

De acordo com a PF, o esquema produziu milhares de documentos acadêmicos falsos, incluindo diplomas, históricos escolares e certificados de conclusão de cursos de pós-graduação. Os títulos eram vendidos a interessados que buscavam vantagens funcionais, progressões na carreira pública ou reconhecimento profissional indevido.

Os documentos simulavam integralmente os padrões gráficos e administrativos da Universidade, com assinaturas, selos e registros inexistentes. A PF apura o uso desses títulos em órgãos públicos, instituições privadas e processos administrativos de concessão de adicionais salariais por titulação.

Além dos diplomas falsificados em nome da Ufrgs, o grupo vendia a promessa de revalidação de diplomas obtidos em instituições estrangeiras da Venezuela, Colômbia, Equador e Estados Unidos.

A PF estima que mais de dois mil diplomas falsos de mestrado, doutorado, especialização e outros cursos estejam relacionados ao grupo criminoso desbaratado pela Operação Engodo.

PF investiga diplomas estrangeiros e revalidações fictícias

Outro eixo recorrente das investigações da PF envolve instituições estrangeiras utilizadas como fachada. Em agosto de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Fake Degree, voltada a um esquema de emissão de diplomas de mestrado e doutorado supostamente expedidos por uma instituição sediada na Venezuela.

A fraude, no entanto, não se limitava à emissão dos documentos. Segundo a PF, os diplomas eram irregularmente “validados” no Brasil por entidades sem competência legal, permitindo que os portadores utilizassem os títulos para obtenção de benefícios acadêmicos e funcionais, especialmente na docência.

Mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Rondônia e Roraima, estados onde se concentrava parte dos beneficiários do esquema. A investigação apura prejuízos aos cofres públicos e possível participação de intermediários que atuavam como “despachantes acadêmicos”.

O esquema permitia que diplomas falsos de mestrado e doutorado fossem utilizados por professores para requerer retribuição por titulação, resultando em aumentos salariais indevidos que poderiam ultrapassar R$ 70 mil por ano.

Mercado que cresce à sombra da regulação

O trabalho recente da PF dialoga com investigações anteriores, como a Operação Academus, deflagrada em 2021. Ela revelou um esquema de compra e venda de revalidações de diplomas de mestrado e doutorado obtidos no exterior, sobretudo em países da América do Sul.

Embora, nesses casos, os diplomas não fossem necessariamente falsos em sua origem, o processo de reconhecimento no Brasil era fraudado, com pareceres simulados e procedimentos administrativos inexistentes — prática que, na essência, transforma a titulação acadêmica em mercadoria.

As investigações apontaram que os envolvidos atuaram em estados como Alagoas, Mato Grosso, Pará, Piauí e Maranhão, sempre utilizando o mesmo modelo de atuação.

As operações da PF reforçam uma realidade preocupante: a expansão desordenada da oferta educacional, aliada à fragilidade na fiscalização e à crescente demanda por títulos formais para progressão de carreira ou pontuação em concursos públicos, criou um ambiente propício à atuação de verdadeiras fábricas de certificados.

No caso das titulações stricto sensu, o impacto é ainda mais sensível. Mestrados e doutorados falsos comprometem a credibilidade da produção científica, distorcem trajetórias acadêmicas e geram prejuízos diretos ao serviço público, especialmente nas áreas da educação e da pesquisa.

FICS, Carolina Bori e o mercado paralelo em atividade

Especialistas ouvidos pelo Extra Classe afirmam que os esquemas não são episódicos, mas parte de uma engrenagem estruturada, com atuação nacional e internacional. Instituições inexistentes, universidades estrangeiras de fachada e promessas de revalidação “garantida” seguem sendo ofertadas no mercado educacional paralelo.

Alguns casos chegam a ser apurados por ministérios públicos e polícias estaduais. No entanto, por se tratar de crime sem grave ameaça à pessoa, a repercussão midiática costuma ser limitada.

A organização paraguaia Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS) tem contribuído para lançar luz sobre o tema nos últimos meses. A quantidade expressiva de “diplomas” revalidados da FICS na plataforma Carolina Bori chamou a atenção e motivou questionamentos da PF às instituições de ensino superior credenciadas que têm concedido chancela na plataforma oficial de reconhecimento e revalidação de títulos acadêmicos do Ministério da Educação (MEC).

Apesar do que já vem sendo tratado como um escândalo no setor, a atuação do mercado paralelo não arrefeceu. Mesmo após a PF caracterizar a FICS como instituição que operou sem regularidade, contrainformações seguem sendo disseminadas em grupos de WhatsApp e em supostos veículos jornalísticos, com o objetivo de manter matrículas e mensalidades em dia.


Fonte: ExtraClasse