Povos indígenas estão sob ataque porque protegem as florestas e a biodiversidade amazônica

Imagem relacionada

Já está mais do que claro que os povos indígenas terão vida difícil (que dizer, ainda mais difícil) no governo de Jair Bolsonaro. Afora as declarações contrárias à auto determinação e a soberania territorial dos povos originários, há agora a transformação da Fundação Nacional do Índio (Funai) numa espécie de entidade defunto para o qual não há sequer destino garantido.

Mas qual é o grande problema por detrás da evidente propensão a atacar os direitos dos povos indígenas, em especial os localizados na bacia Amazônica? A explicação mais comum é de que há terra demais para pouco índio, como se não houvesse já terra demais para pouco agricultor, fruto de quase 6 décadas de expansão da fronteira do desmatamento.

A verdade é que a tentação de atacar os povos indígenas se dá por razões essencialmente econômicas, na medida em que as reservas indígenas possuem vastas riquezas florestais e minerais para os quais não faltam interessados, dentro e fora do Brasil. E aí que talvez more um detalhe ainda mais essencial para debates estratégicos acerca não apenas da Amazônia, mas do próprio planeta.

É que as reservas indígenas estão se transformando em ilhas de biodiversidade em meio a uma colcha de retalhos formada por pequenas ilhas de vegetação em meio a vazios gigantescos que representam as áreas desmatadas, supostamente para a prática da pecuária e da agricultura de exportação.  Esse fato fica evidente quando verificamos imagens de satélite onde as reservas indígenas são demarcadas como mostrado na apresentação abaixo.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Qualquer um que já tenha estudado minimamente o avanço da fronteira agrícola na Amazônia sabe que não seria necessário cortar mais uma árvore sequer para que haja espaço suficiente para a prática agrícola e da pecuária. Na verdade, a área abandonada e improdutiva seria mais do que suficiente para que se elevasse a produção naquela parte do Brasil.

Mas o fato é que o avanço do arco de desmatamento na Amazônia obedece a outros interesses, começando pela especulação de terras e pela aplicação de formas insustentáveis de apropriação de suas vastas riquezas. 

Porém, é interessante notar que o processo em curso na Amazônia brasileira se estende a outras regiões cobertas por florestas tropicais onde o avanço da fronteira também implica em desmatamento e ataques diretos aos povos indígenas e outros grupos que historicamente habitam essas regiões.   Esse fato é mostrado em um artigo científico que acaba de ser publicado pelo “Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America” sob o título “Resource extraction and infrastructure threaten forest cover and community rights” [1]. Nesse artigo, uma atenção especial é dada aos casos da Amazônia, América Central e da Indonésia, e os problemas mostrados são basicamente os mesmos. 

Mas destaco a figura abaixo onde  Anthony Bebbington e seus colaboradores deixam explicito não apenas o papel de contenção das áreas protegidas (as reservas indígenas inclusas) sobre o avanço do desmatamento, bem como os vastos interesses de mineração que estão em jogo, e que explicam a ojeriza demonstrada contra os povos indígenas pelo futuro presidente.

pnas 1

Fonte: Bebbington et al. PNAS

Como Bebbington e colaboradores alertam, o futuro das florestas tropicais dependerá da capacidade de se organizar os povos que nelas vivem para que garantam seus direitos no controle do território e da forma de uso das riquezas ali existentes. Sem essa proteção aos povos das florestas, o mais provável é que haja não apenas uma maior dilapidação das florestas tropicais e da sua biodiversidade, mas também de um ataque ainda maior aos povos que as protegem.

E no caso do Brasil, por mais paradoxal que possa parecer, de que sindicatos e movimentos sociais do sul e do sudeste se organizem para realizar uma poderosa campanha de defesa das florestas amazônicas e dos povos indígenas que as defendem.


[1] http://www.pnas.org/content/early/2018/11/26/1812505115

Pesquisa sobre contaminação de águas de superfície por agrotóxicos mostra que o problema é muito maior do que o esperado

pesticides

Um estudo realizado no Instituto de Ciência Ambiental da Universidade de Koblenz-Landau  na Alemanha avaliou, pela primeira vez, a contaminação em nível global de inseticidas  para as águas de superfície agrícolas que utilizam agrotóxicos dentro dos níveis legalmente aceitos pelas agências ambientais dentro dos chamados “limites regulatórios aceitáveis” (RTLS). Os RTLs são definidos durante os procedimentos oficiais realizados para a autorização da comercialização deste tipo de insumo agrícola.

pesticides contamination water

Os resultados do estudo podem ser considerados alarmantes: em mais de 40% das amostras de água, os valores para inseticidas excederam os respectivos RTLS.  Já no que diz respeito à exposição dos sedimentos (isto é, material depositado na parte inferior das massas de água de superfície), mais de 80% das concentrações de inseticidas excederam os RTLS. È importante notar que  a contaminação de sedimentos é frequentamente menos avaliada no processo de regulamentação de agrotóxicos para fins de comercialização.

No geral, os resultados deste estudo indicam que os inseticidas representam ameaças significativas para a biodiversidade de águas globais de superfície agrícola, e que os sistemas de avaliação de riscos  vigentes e procedimentos de autorização de agrotóxicos não são suficientes para proteger o meio aquático.

Quem quiser acessar o trabalho publicado pelos pesquisadores Sebastian Stehle e Ralf Schulz nos Proceedings of the National Academy of Sciences, basta clicar (Aqui!)