No Dia Mundial do Oceano, mulheres cientistas ainda estão longe da equidade

Arraias e peixes nadando em ambiente marinho azul, representando a biodiversidade do oceano

A vida marinha é tema central da ciência oceânica, mas as mulheres seguem sub-representadas na produção científica 

Por Germana Barata e Washington Segundo para a Agência Bori

Neste Dia Mundial do Oceano (8), ainda não há o que comemorar quando se trata da equidade de mulheres cientistas. A Década do Oceano chega à metade em 2025, e a primeira avaliação sobre a contribuição de mulheres na produção científica sobre o oceano no Brasil não é nada animadora.

Por meio da rede Ressoa Oceano em parceria com o Instituto Brasileiro de Informação de Ciência e Tecnologia (Ibict) avaliamos 1,3 milhão de artigos, de 2018 a 2024, com ao menos uma autoria brasileira, disponíveis no banco de dados OpenAlex, um dos mais representativos bancos de publicações científicas do mundo. Desse total, 4,6% estão relacionados ao oceano.

A partir desse vasto universo de publicações, selecionamos 31 tópicos categorizados no OpenAlex relacionados ao oceano e identificamos a autoria de especialistas homens e mulheres, a partir do primeiro nome, além de sua posição de liderança na autoria e o tipo de acesso do artigo.

O levantamento mostra que as mulheres estão próximas de atingir a equidade na produção científica quando consideramos todas as áreas do conhecimento, com 46% de participação contra 48% de homens. Porém, quando se trata do oceano, elas ainda são minoria: 38% contra 57%. O percentual residual corresponde a artigos em que não foi possível definir o gênero pelo primeiro nome.

E as perspectivas futuras não são animadoras, já que os valores têm se mantido estáveis desde 2018, sem perspectivas de mudanças para as mulheres que investigam o oceano. O mais impressionante é que os dados do Censo do Ensino Superior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (Inep), realizado entre 2009 e 2022, informam que mais de 56% de estudantes de graduação em oceanografia são mulheres – 60,9% no mestrado e 52,2% no doutorado. Portanto, elas são maioria na área mais diretamente ligada ao oceano, a oceanografia.

Além disso, identifica-se no estudo realizado que há um claro crescimento do número de coautores por publicação.  O que isso quer dizer? Que, apesar da produção científica ter diminuído mundialmente, principalmente com a pandemia da Covid-19, como algumas análises reforçam (vide a realizada em 2023 pela Agência Bori com a editora científica Elsevier), a colaboração de cientistas do Brasil cresceu, saindo da média de 4 autores por artigo em 2018 para chegar ao valor médio de 6 coautores por artigo em 2024.

A colaboração pode ser uma alternativa aos impactos negativos provocados pela diminuição de recursos para a ciência combinada ao aumento nos custos de publicação, que podem variar de US$ 2.000 a US$ 3.400, e chegar a chocantes US$ 12.000! Esses efeitos, se não mitigados, poderão seguir impactando as mulheres cientistas, e suas representações de liderança na pesquisa.

Esse é o primeiro levantamento de uma série anual que visa monitorar a produção científica sobre o oceano ao longo da década do Oceano, uma iniciativa da Unesco para melhorar as condições de degradação da saúde do oceano até 2030.

Até aqui, os dados mostram que será preciso grandes investimentos das agências de fomento e instituições de pesquisa voltadas para o oceano. Apesar de ocupar pouco mais de 70% da superfície do planeta, o oceano recebe apenas 1,7% dos recursos para a ciência. E, neste dia,  lembramos que o oceano é absolutamente essencial para a vida neste planeta azul, como pede a comunidade científica. Acrescenta-se o fato de que hoje se inaugura o Congresso do Oceano das Nações Unidas, na cidade litorânea francesa de Nice, quando negociações serão acordadas pelos países membros, incluindo o Brasil.

Políticas científicas precisam ser desenhadas e executadas para que as mulheres cientistas que se dedicam a desvendar o oceano possam comemorar, em 2030, a equidade de gênero.

Sobre os autores

Germana Barata é pesquisadora do Laboratório de Estudos Avançados em Jornalismo da Unicamp e coordena a rede de comunicação sobre o oceano Ressoa Oceano, que produz e compartilha conteúdos sobre oceano, além de analisar dados relacionados à produção científica e a cobertura jornalística sobre o oceano.

Washington Segundo é coordenador-geral de informação científica e técnica do Instituto Brasileiro de Informação em Ciência e Tecnologia (Ibict) e lidera projetos voltados à Ciência Aberta, repositórios digitais, interoperabilidade de sistemas e gestão de dados científicos.


Fonte: Agência Bori

Corrida por “impacto” torna academia refém de grupos editoriais

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Por Marcelo Yamashita 

No último 8 de dezembro, a Universidade de Sorbonne anunciou que em 2024 vai deixar de assinar o serviço Web of Science, uma plataforma que agrega dados e artigos de várias revistas científicas, e também interromperá o contrato com os demais produtos da Clarivate, uma empresa de serviços relacionados à publicação científica e propriedade intelectual, com produtos voltados principalmente para o meio acadêmico, entre eles a Web of Science.

Com um faturamento anual na casa dos bilhões de dólares, editoras de periódicos científicos são pagas por agências públicas, instituições de ensino e pesquisa e governos para disponibilizar o acesso a artigos científicos, muitos deles financiados pelos próprios clientes: as agências de fomento financiam a pesquisa, pagam às editoras para publicar o artigo (caso a publicação se dê na modalidade de acesso aberto) ou pagam para acessá-lo (no caso de acesso restrito). Se isto parece estranho para alguém não acostumado com os trâmites da pesquisa universitária, é simplesmente porque é mesmo esquisito.

Apesar desses serviços serem importantíssimos para a maioria dos pesquisadores, o custo é elevado. Para se ter uma ideia, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) paga perto de R$ 48 milhões por ano para que pesquisadores de diversas universidades possam acessar revistas científicas. É, portanto, inevitável refletir sobre a conveniência de manter essa espiral de dependência voluntária em que a própria comunidade científica se colocou.

Em outro contexto mais abrangente, já que neste caso a interrupção dos serviços traria um problema generalizado, atingindo setores além da pesquisa científica, o Google começou a cobrar caro para manter dados na nuvem. Isto requer decisões complicadas por parte dos gestores, com restrições rigorosas de disponibilização de espaço, principalmente por não haver uma alternativa que dê conta dos arquivos que estão sob a guarda de empresas que estão no seu direito de estabelecer políticas de uso e preços para seus produtos.

Deve haver, é claro, um ponto intermediário entre a dependência plena e a desconexão total. No caso das publicações científicas, porém, é preciso que haja algum movimento, principalmente das agências de fomento, no sentido de mostrar para a comunidade científica que existe vontade de mudar o cenário de subserviência.

A necessidade que se impõe aos pesquisadores, em boa parte pelas exigências das políticas de concessão de auxílios à pesquisa, acaba criando um preocupante vínculo entre riqueza e pesquisa. Paga-se caro não somente para consultar os artigos, mas também para publicá-los nas revistas que são consideradas “boas” – valores que muitas vezes são abusivos e não se justificam: os pareceristas não são remunerados e o artigo não passa de umas poucas páginas em formato digital.

Movimentos drásticos vindos de universidades, similares ao da Sorbonne, podem dificultar a vida dos pesquisadores se as agências que estabelecem o destino do dinheiro continuarem a valorizar somente revistas onde se paga R$ 60 mil para publicar um artigo em acesso aberto. Nesses casos, por exemplo, o discurso retoricamente bonito de valorização da qualidade do trabalho torna-se vazio no momento em que os editais descartam deliberadamente, sem análise prévia, artigos com base no fator de impacto da revista.

A política de acesso aberto, uma importante iniciativa no sentido da democratização da ciência, teve início nos anos 1970, com o Projeto Gutenberg. Na prática, algumas áreas do conhecimento já teriam condições de adotar esta política desde 1991, quando foi criado o repositório de preprints (artigos preliminares, antes de serem avaliados por especialistas) arXiv pelo físico Paul Ginsparg. Nessa plataforma qualquer artigo pode ser acessado sem a necessidade de senhas em paywalls. Diferentemente dos artigos publicados em revistas, onde um escrutínio prévio já foi feito por outros pesquisadores, esses repositórios demandam que cada artigo seja analisado com um pouco mais de cuidado pelo autor que pretende considerá-lo.

Na área de física, a grande maioria dos artigos publicados tem uma versão gratuita em preprint. Ou seja, nesta situação, não existe a impossibilidade de acessar os resultados da pesquisa de outros grupos, mas o prestígio vem do processo de convencer os pares de que o seu estudo é bom o suficiente para estar em algum periódico revisado – já escrevi em outro artigo sobre o equívoco que se comete ao associar qualidade a um artigo ao fator de impacto do veículo onde é publicado.

Embora seja animador vislumbrar ações objetivas na direção de tornar o conhecimento mais acessível, é sempre bom lembrar que, como se diz por aí, não existe almoço grátis. Neste contexto, há estratégias de acesso aberto em que o lucro das grandes empresas editoriais é mantido (ou aumentado) mudando-se apenas a fonte pagadora: em vez de vender assinaturas para bibliotecas, vendem-se cotas de publicação para universidades, agências de fomento ou outras entidades, como ministérios de Ciência, por exemplo – o dinheiro, diga-se de passagem, é proveniente da população.

Esse deslocamento do ônus financeiro tem o efeito colateral de deslocar, também, a estrutura de incentivos da publicação: se no modelo de assinaturas o “cliente” é o leitor, no de cotas de publicação é o autor – com possível impacto sobre o rigor dos critérios de aceitação de artigos.

Existem movimentos organizados, como a cOAlition S, para tornar todas as publicações científicas imediatamente em acesso aberto. O grupo foi formado em 2018 e recentemente lançou uma proposta com valores diferenciados para alguns países com base em indicadores do Banco Mundial – dar-se-iam descontos das taxas de publicação de acordo com as rendas dos países. A despeito da pertinência desses indicadores para a classificação dos países, estabelecer um compromisso de descontos com empresas que não estão submetidas a um teto de preços segue a mesma lógica ingênua da lei de meia-entrada brasileira: paga-se a metade do dobro.

É desejável que se caminhe para um modelo de política universitária que seja conectada com o mundo, mas não excessivamente dependente – estabelecer um bom equilíbrio para os pratos dessa balança não é simples. Mas qualquer solução deve pressupor uma análise mais qualitativa dos critérios de avaliação das agências que fornecem os financiamentos para as pesquisas. Afinal, não é sempre que, a exemplo de Grisha Perelman – matemático que resolveu a conjectura de Poincaré, um problema formulado no ano 1900 –, encontramos pessoas dispostas a publicar um artigo importantíssimo em uma plataforma de preprint e, com isso, “perder pontos” na corrida do fator de impacto, correndo o risco de ficar sem recursos para desenvolver a sua pesquisa.

Marcelo Yamashita é professor do Instituto de Física Teórica (IFT) da Unesp e membro do Conselho Editorial da Revista Questão de Ciência


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Este texto foi originalmente publicado pela Revista Questão de Ciência [Aqui!].

Produção de ciência no BR caiu pela 1ª vez em 2022; queda em número de artigos foi observada em 23 países

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Foto: Julia Klobitz / UNSPLAS

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A produção científica mundial cresceu 6,1% em 2022 em relação ao ano anterior. Apesar do saldo global positivo, 23 países tiveram queda no número de artigos científicos publicados em 2022 em relação a 2021 — incluindo, de maneira inédita, o Brasil. O país vinha crescendo sua produção de artigos anualmente desde que os dados começaram a ser tabulados (em 1996).

Nesse cenário, 2022 se tornou o ano com a maior quantidade de países que perderam produção científica na história. O recorde anterior tinha sido em 2002, quando 20 países observaram queda no número de artigos científicos publicados em relação ao ano anterior (2001).

As informações inéditas são do relatório da Elsevier-Bori “2022: um ano de queda na produção científica para 23 países, inclusive o Brasil” lançado nesta segunda (24). Os dados são da base Scopus/Elsevier e, para os cálculos, foi usada a ferramenta analítica SciVal/Elsevier. O relatório analisou todos os países que publicaram mais de 10 mil artigos científicos em 2021 — em um total de 51 países.

O documento mostra que o Brasil teve um decréscimo de 7,4% na sua produção científica em 2022 em comparação ao ano anterior. A queda na quantidade de ciência brasileira em 2022 se assemelha à da Ucrânia, país que entrou em guerra naquele ano. Brasil e Ucrânia tiveram a maior perda de produção científica entre os países analisados.

Fonte: Elsevier

Os dados vêm à tona na semana da reunião anual da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), que acontece de 23 a 29 de julho na Universidade Federal do Paraná (UFPR), em Curitiba. É o principal evento científico do país, que debate, também, o estado da arte e os rumos da ciência brasileira.

“É muito provável que o decréscimo no último período se deva, em boa parte, aos efeitos da pandemia, especialmente considerando-se o número de países afetados”, diz Carlos Henrique de Brito Cruz, Vice-presidente Sênior de redes de Pesquisa da Elsevier.

Em sentido contrário, países como China e Índia apresentaram crescimento significativo na produção científica em 2022 em relação a 2021 — em torno de 20%. A Índia, aliás, superou o Reino Unido pela primeira vez, passando a ser o 3º país com mais publicações no mundo, depois de China e EUA.

Ciência brasileira

No Brasil, com exceção da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), todas as instituições de pesquisa do país sofreram redução importante na produção científica em 2022 em relação a 2021. Foram consideradas as instituições de pesquisa do país com mais de mil artigos científicos publicados em 2021 — o que resultou em um total de 35 analisadas.

O relatório Elsevier-Bori mostra, ainda, que as Ciências Agrárias — área especialmente importante para o país — teve um decréscimo maior na produção científica do que a média nacional: 13,7% artigos científicos publicados de 2021 para 2022.

“A queda inédita da produção científica brasileira também acompanha os expressivos cortes orçamentários de recursos públicos para pesquisas dos últimos anos, o que precisa ser analisado em futuros documentos”, diz Estêvão Gamba, cientometrista e cientista de dados da Agência Bori.

Este é o segundo relatório da parceria entre a editora científica Elsevier e a Bori, que pretende analisar, periodicamente, a ciência brasileira e disponibilizar essas informações para jornalistas. O primeiro, A pesquisa brasileira sobre oceanos – Estado da arte da produção científica do Brasil de 2017-2022”, trouxe uma análise da produção científica especificamente na área de Oceanos. A ideia é ter um retrato da produção científica nacional e munir o debate público com informações relevantes para políticas científicas e para tomadas de decisão.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Pesquisa sobre microplástico dispara no Brasil; tema se tornou um dos principais na área de Oceanos

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Foto: Soren Funk/ Unplash

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Em seis anos (2017 a 2022), o número de pesquisas no Brasil sobre “microplástico” aumentou 560%. O tema insere-se num universo de mais de oito mil artigos sobre oceanos publicados por instituições brasileiras no período. Os dados estão em relatório inédito lançado na segunda (5) pela editora científica Elsevier com a Bori. O documento inaugura a parceria entre Elsevier e Bori no sentido de analisar, periodicamente, dados da produção científica brasileira e disponibilizá-los a jornalistas.

A pesquisa faz um mapeamento da produção científica do Brasil sobre os oceanos, de 2017 a 2022, com uso das ferramentas Scopus e SciVal, essa última desenvolvida pela Elsevier, que mapeia publicações científicas em documentos públicos utilizados em tomadas de decisão mundo afora. A ideia é entender o foco que a ciência brasileira dá ao Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 14 (ODS 14), “Vida abaixo da água”, da Organização das Nações Unidas (ONU), já que o Brasil tem uma das maiores zonas costeiras do mundo, com 8 mil quilômetros de extensão em linha contínua de costa.

O documento mostra que, de 2012 a 2021, houve um crescimento de 12% ao ano nas publicações brasileiras sobre Oceanos. Além do tema “microplástico”, os temas “seashore” (costa marinha), “aquaculture” (aquicultura) e “Oreochromis Niloticus” (tilápia) compõem a lista de temas mais relevantes dos artigos produzidos por pesquisadores brasileiros relacionados ao ODS 14. Apesar de aparecerem em 2.000 (seashore), 1.230 (aquaculture) e 562 (Oreochromis Niloticus) artigos, a referência a esses temas diminuiu – principalmente a partir de 2021.

A possibilidade de relacionar o conteúdo de publicações científicas com Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS) tem trazido informações importantes sobre os alvos de pesquisa em regiões ou instituições, segundo aponta Carlos Henrique de Brito Cruz, Vice-presidente Sênior de redes de Pesquisa da Elsevier. Ele observa que, no caso brasileiro, há um crescimento acima da média do país em estudos sobre o ODS 14. “Este crescimento mostra como a comunidade científica no país tem escolhido focalizar seus esforços em temas de grande relevância para o avanço do conhecimento e, ao mesmo tempo, para os objetivos de sustentabilidade planetária”.

Na 11ª posição mundial entre países que mais publicam estudos sobre oceanos, o Brasil tem uma pesquisa com importância internacional: cerca de 40% das publicações são fruto de colaborações com instituições de pesquisa estrangeiras. Além disso, elas alcançaram um impacto de citações 2% acima da média mundial de citações.

Esse é o caso do artigo Studies of the effects of microplastics on aquatic organisms: What do we know and where should we focus our efforts in the future?, publicado em 2018 na revista “Science of the Total Environment”. Com colaboração brasileira, da Universidade Federal de Goiás (UFG), e autoria de pesquisadores das universidades da Suécia, de Aveiro, em Portugal, e de Queensland, na Austrália, o trabalho é uma das cinco publicações mundiais mais citadas sobre microplástico. Seu impacto de citações normalizado é igual a 7,79, ou seja, 679% acima da média mundial de citações, que é 1. O impacto de citações é medido pela quantidade de vezes que um artigo científico é mencionado em outras publicações do mesmo tipo, disciplina e ano de publicação.

A Universidade de São Paulo (USP), a Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (Unesp) e as universidades federais do Rio de Janeiro (UFRJ), Santa Catarina (UFSC) e de Rio Grande (FURG) são as instituições que mais publicaram pesquisas sobre oceanos nos cinco anos analisados, reunindo mais de 3 mil publicações. Em seguida, aparecem as universidades federais do Paraná (UFPR), Fluminense (UFF), Pernambuco (UFPE) e Ceará (UFC). A maioria dos estudos são das áreas de agricultura (57%), ciências ambientais (42%) e ciências da terra (25%).

Os impactos da pesquisa em políticas públicas

Os dados dão, ainda, uma dimensão sobre o impacto da pesquisa brasileira sobre oceanos em políticas públicas: 4.8% dos 8 mil artigos foram citados e embasaram tomadas de decisão sobre proteção de oceanos. Grande parte das menções aos estudos foram feitas pela FAO (Food and Agriculture Organization), União Europeia e United Nations Environment Programme.


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Este texto foi originalmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Hegemonia chinesa chega na produção científica e evidencia corrosão da hegemonia dos EUA e o aumento do atraso do Brasil

china eua produçãoChina superou pela primeira vez os EUA na publicação de artigos científicos

Graças ao jornal “Folha de São Paulo”, temos agora mais uma prova de que a hegemonia chinesa se consolida cada vez mais em plano global. É que a partir de um levantamento feito sobre a publicação de artigos científicos, a matéria mostra que a China ficou em primeiro lugar, deixando os EUA em segundo. Além disso, a matéria mostrou que a liderança chinesa se dá a partir de publicações nas áreas de de biologia molecular e a farmacologia, principalmente com pesquisas relacionadas diretamente à COVID-19.  Além disso, a China também está em primeiro lugar em assuntos como astronomia, agricultura, ciências da computação e engenharias.  Essa situação representa um verdadeiro rearranjo na “tectónica de placas” que controlam a dinâmica da ciência mundial.

Segundo os jornalistas Sabine Righetti e Estêvão Gamboa, os dados obtidos da  Plataforma Scimago incluem métricas de mais 20.000 periódicos científicos listados pela base Scopus, sendo artigos do tipo “revisados por pares”, o que reforça a noção de que estes artigos todos não refletem apenas uma dominância quantitativa, mas também qualitativa.

Como alguém que acompanha o debate em torno da dualidade “quantidade versus qualidade”, acrescento ainda que o governo chinês vem adotando medidas para conter a publicação de artigos de baixa qualidade científica e até mesmo o envolvimento de seus pesquisadores com revistas “predatórias”. Em função disso,  o governo chinês vem adotando uma série de sanções contra pesquisadores pegos adotando práticas impróprias, a quais incluem proibições temporárias de solicitação de financiamento ou perda de bolsas e promoções – seguem uma política introduzida em setembro do ano passado com o objetivo de eliminar as fábricas de artigos científicos e lidar com outras condutas impróprias. 

O Brasil no caminho inverso ao da China

Um caminho oposto está sendo adotado no Brasil onde não apenas temos os piores níveis de financiamento em ciência e tecnologia em mais de uma década, mas também a ação livre, leve e solta de revistas predatórias que ajudam um número indeterminado de pesquisadores a terem vantagens indevidas na obtenção de recursos estatais para o custeio de suas pesquisas.

O resultado da adoção desse caminho inverso ao chinês é que estamos perdendo tração na produção científica, seja em termos de quantidade, mas principalmente de qualidade. O resultado dessa perda de tração não deverá se dar no plano imediato, mas principalmente em médio e longo prazo, causando danos consideráveis à capacidade do Brasil de estabelecer novos padrões de competição nas próximas etapas da produção capitalista, as quais vão depender justamente da capacidade de investir e produzir ciência em áreas de ponta, tal qual os chineses estão fazendo neste momento.

O domínio chinês veio para ficar?

Uma pergunta que sempre pode aparecer é se esse sucesso chinês é do tipo “gigante de pés de barro”. A minha impressão é que não, pois o nível de investimento que está em curso dentro de um planejamento de fortalecimento em linha da ciência chinesa é uma garantia de que mesmo removido o peso das publicações de baixa qualidade, a China vai continuar se consolidando como principal potência científica do planeta.

Como ciência será a principal commodity das próximas décadas, a grande possibilidade é que a migração do centro da ciência mundial dos EUA para a China não apenas vá se manter, mas também irá se aprofundar, causando profundos impactos no desenho econômico da economia mundial. 

Já para o Brasil, mantidas a atual situação criada pelo chamado “teto de gastos”, o que nos espera é um aprofundamento do processo de dependência tecnológica e, consequentemente, de atraso em relação às potências científicas globais. Por isso, na campanha presidencial de 2022, a comunidade científica brasileira terá que se organizar para oferecer um conjunto de propostas que nos permitam superar a atual dinâmica que mistura pobreza de financiamento com ação livre de pesquisadores que abraçaram as revistas predatórias para inflar seus números.

A ciência moderna tem nas métricas a sua Guantánamo

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Recentemente publiquei neste blog um texto publicado pela revista Nature acerca da difusão de práticas de captura de material científico por editoras predatórias que estão cada vez mais sofisticada em atrair pesquisadores ansiosos por melhorar sua performance em um amplo mercado de índices de mensuração (as chamadas métricas). Um colega que reputo ser da mais alta capacidade científica apontou que a discussão em torno dos métricas não é novo, mas que falta apontar um caminho que não fique apenas na crítica pela crítica, pois, suponho, há que se medir para conferir algum nível de chancela de qualidade que nos permita olhar para além da quantidade de artigos publicados, pois a imensa maioria não será lida uma mísera vez sequer.

Após refletir sobre esse chamado à produção de respostas práticas para sairmos da armadilha criada pelos operadores do mercado editorial para nos meter em uma espiral interminável de publicações que estão mais para lixo científico do que para conhecimento que mereça ser classificado como ciência, penso que não haverá saída para o atual imbróglio da quantidade sobre a qualidade se ficarmos tentando colocar o gato de volta dentro do saco. Em minha modesta opinião há que se jogar o saco fora, para voltarmos a nos preocupar com o que deveria ser essencial na produção do conhecimento científico, qual seja, que o produto das pesquisas realizadas sejam de fato baseadas no uso apurado da análise crítica, de forma a privilegiar não as necessidades de obtenção de recursos financeiros, seja para executar projetos de pesquisa ou, simplesmente, atender as necessidades econômicas pessoais dos pesquisadores.

O problema é que como toda qualquer outra coisa, o Capitalismo transformou a ciência, e principalmente os artefatos que são usados para demonstrar a sua realização em um tipo específico de commodity (para os interessados no processo de comodificação da ciência sugiro a leitura do livro “The Commodification of Academic Research: Science and the Modern University” de Hans Radder) que, como qualquer outra, é objeto de opções mercadológicas que privilegiam o chamado “valor de troca” em detrimento do “valor de uso”. Em outras palavras, em situações corriqueiras, o interesse de quem financia  e de quem produz ciência não tem nada a ver com a melhoria da qualidade de vida das pessoas e da evolução das formas de relação com os sistemas naturais da Terra, mas simplesmente com a acumulação de riquezas.

Alguém que estiver lendo este texto poderá apontar que até aqui, a única coisa que propus de concreto foi rasgar o saco em vez de tentar colocar o gato de volta dentro dele.  E se alguém notou isso, não me resta dizer que rasgar o saco (entendido aqui como uma metáfora do processo de comodificação da ciência) será muito mais difícil do que parece em princípio. É que depois de décadas de ações para  premiar os bem comportados que estão plenamente satisfeitos em viver aprisionados no labirinto das métricas (a qual equivale a uma espécie de Guatánamo que aprisiona a produção de ciência com revestimento crítico), pois isto traz recompensas palpáveis, sejam eles materiais ou apenas de reafirmação de uma cultura acadêmica hedonística.

Ciência como “commodity” atinge novo patamar na Coréia do Sul com pesquisadores colocando filhos como co-autores

A respeitada revista “Nature” publicou no dia 02 de fevereiro de 2018 um artigo assinado pelo jornalista científico Mark Zastrow sobre um escândalo que emergiu nas principais universidades da Coréia do Sul em função de pesquisadores estarem colocando seus filhos como co-autores em artigos publicados em revistas científicas [1].

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A razão para esta prática seria a intenção dos pesquisadores melhorarem as chances de seus filhos para ingressar nas melhores universidades da Coréia do Sul, no que parece ser uma forma bem sofisticada de nepotismo.

O fato da prática estar disseminada nas melhores universidades sul coreanas levou ao governo da Coréia do Sul a iniciar uma investigação nas publicações indexadas em base de dados como Web of Science, Scopus e o Science Citation Index (SCI) para verificar o possível cruzamento de nomes dos 76.000 docentes de tempo integral existentes no país com seus filhos.

Segundo o que publicou Mark Zastrow, resultados iniciais da investigação cobrindo apenas a última década, e que foram publicados em janeiro de 2018, apontaram que a prática estava presente em 29 universidades sul coreanas, sendo detectadas 82 publicações, sendo que dentre estas em apenas 39 casos a participação de filhos como co-autores foi considerada legítima [2].

Como a investigação do Ministério da Educação foi encerrada apenas na semana passada é provável que os resultados finais desta investigação ainda demorem a ser conhecidos. Entretanto, o que já fica claro que o processo de comodificação da ciência que já havia resultado em graves distorções em prol da quantidade em detrimento da qualidade, agora atingiu um novo patamar de deterioração da integridade.

Resta saber se essa prática está presente em outros países e em qual intensidade.  É que se isto for um caso que vai além das universidades sul coreanas, os princípios meritocráticos que supostamente guiam a progressão profissional na carreira científica serão fortemente questionados, como já estão sendo na Coréia do Sul.


[1] https://www.nature.com/articles/d41586-018-01512-5

[2] http://www.koreatimes.co.kr/www/nation/2018/01/119_243144.html

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A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

Maurício Barreto: Se mudarmos a forma de avaliar a ciência, mudamos a forma de entender e valorar a publicação científica

Um dos cientistas brasileiros mais renomados no cenário internacional fala da importância de mudar os pesos da avaliação científica

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Membro da The World Academy of Sciences (TWAS), da Academia Brasileira de Ciências (ABC), e um dos mais profícuos pesquisadores da Saúde Coletiva, Maurício Barreto tem acompanhado de perto o debate sobre o papel da produção científica no mundo e alerta: se universidades e centros de fomento não abandonarem o atual modelo de avaliação, baseado unicamente na quantidade de publicações e citações, a própria ciência tende a ampliar o fosso que a aparta do resto da sociedade. “Cada vez mais, a consciência de que esse modelo baseado em índices e fatores de impacto não demonstram a importância do desenvolvimento científico e dos efeitos da ciência, o que exige esforços de propor e apresentar alternativas”.

Para ele, é fundamental que a academia tome para si o compromisso social da produção do conhecimento. Barreto não fica apenas nas palavras. A partir de seu estudo pioneiro sobre os impactos do Bolsa Família sobre a mortalidade infantil e demais aspectos do ciclo vital e de desenvolvimento, o governo federal, na figura do Ministério de Desenvolvimento Social (MDS), Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), Universidade de Brasília (UnB) e Universidade Federal da Bahia (UFBA) assinaram ano passado um acordo de cooperação técnica que possibilitará a realização de um estudo de corte baseado nos dados de cerca de 100 milhões de brasileiros que se beneficiam dos programas sociais e compõem a base de dados do Cadastro Único (CadÚnico).

Para o Portal Abrasco, ele fala do desafio da avaliação, da crise que já se abate sobre o custeio dos programas de pós-graduação, do debate sobre o produtivismo e do papel da ciência, temas que abordará em palestras e mesas redondas durante o Abrascão 2015,  que acontece entre 27 de julho e 1 de agosto, na Universidade Federal de Goiás, em Goiânia.

“O Abrascão é uma caixa de ressonância, por isso é vital falarmos de avaliação. Temos a oportunidade de pensar sobre a avaliação numa visão múltipla”, afirma Barreto. Leia a entrevista e confira ao final a programação.

Abrasco: Em sua conferência no 9º Congresso Brasileiro de Epidemiologia, o Epivixo senhor abordou como a epidemiologia vive um processo de atração e distanciamento dos demais campos científicos, sendo fundamental ter como centro os grandes projetos que afetam a saúde das populações. Isso é possível dentro do atual cenário da produção científica?

Maurício Barreto: O campo da Saúde Coletiva tem uma serie de desafios internos entre os quais inclui a articulação de conhecimento produzido em várias áreas científicas. Estamos dentro do campo geral das ciências da saúde, e vivemos os dilemas complexos inerentes a esse setor, gerador de expectativas e cujos resultados, de diversas formas, têm grande de interferir no cotidiano das pessoas e das populações. Mesmo com todas as nossas características específicas e tendo de seguir as regras universais da produção científica, temos que refletir sobre nossas especificidades e em especial os efeitos que nosso conhecimento gera sobre as sociedades humanas.

Abrasco: Quais são as deficiências da avaliação das ciências?

Maurício Barreto: A tradição da avaliação da ciência vem de uma disciplina chamada cienciometria. Ela parte da ideia central de aferir todos os campos do conhecimento científico por uma única métrica de uso universal baseada em índices do que se publica e do que se cita na produção científica mundial. Para isso, utiliza medidas, como o Fator de Impacto, o Índice H, medidas que têm pretensão de métricas universais, que sirvam para qualquer campo científico. Só que esta opção gera muitos dilemas e desafios. O mais importante é que as ciências são muito diferentes entre si. Veja a Cosmologia, que agora está na mídia discutindo sobre as condições de Plutão, por conta da aproximação da sonda da NASA a este planeta. Como comparar a Cosmologia com a Saúde Coletiva, que tem o potencial de gerar efeitos mais concretos no cotidiano da vida das pessoas? Os seja, como comparar estas duas ciências que geram efeitos tão diferentes?

Deve-se enfatizar que estas duas ciências não são tão diferentes na forma de publicar e de citar (os novos resultados obtidos sobre Plutão com certeza serão publicados em revistas científicas e certamente serão citados) – a maior diferença é nos efeitos que estas duas ciências geram sobre a sociedade. Porém, até o momento as avaliações científicas não levam (ou leva muito pouco) isso em consideração. Nesta perspectiva, eu partilho o ponto de vista de que a avaliação do conhecimento não pode ser somente baseada em parâmetros blibliométricos (publicar e citar). Nosso objetivo como pesquisadores deve ser o de modificar a realidade que vivemos e a avaliação científica de ajudar a entender como os efeitos do conhecimento cientifico por nós produzidos afetam a sociedade. A produção de uma nova vacina, contribuir para a organização de novos programas na saúde devem ser objetivos finais de nossos programas científicos, e não apenas as publicações que tratam desse tema. As publicações são estágios desses empreendimentos, não o seu fim.


Abrasco: No mundo atual, grandes grupos econômicos, como o Elsevier, dominam a publicação científica, o que vem gerado vários protestos da comunidade acadêmica internacional. O que é possível fazer para reverter esse quadro?

Maurício Barreto: De fato, quem domina o campo e formula as regras são, em boa parte, as grandes editoras internacionais. Quando falamos que o Fator de Impacto de uma publicação é alto, podemos também dizer que alto também é o valor econômico das empresas que detêm os direitos editoriais desta revista. Mas temos alternativas, como revistas online e de acesso aberto. Aqui no Brasil ainda temos a cultura das revistas e periódicos ligados às associações, sem objetivos empresariais por trás. O SciELO tem sido um bom exemplo de iniciativa que se contrapõe a lógica de como o capitalismo vem moldando o empresariamento editorial das ciências.

Nos países desenvolvidos é mais claro o campo de disputa econômica que se tornou a publicação científica. Como modificar este quadro tem sido tema de debates internacionais. Entretanto, não é uma tarefa simples, não há fórmulas prontas. O consenso é que o modelo atual é insuficiente e não transparece as aspirações do conhecimento científico como algo que pertence ao bem comum. O aparecimento de outro modelo exige grande consenso em torno desse reconhecimento. Introduzir outros elementos avaliativos, como qualidade, efeitos e impactos da produção científica geraria outros focos de debate, hoje tão centrado na publicação científica. Isso é fundamental para o campo da saúde, que precisa criar condições ou mesmo liderar e desenvolver alternativas em torno de como perceber e mesmo mensurar os efeitos da sua produção científica.

Abrasco: Os cientistas que lideram essas críticas centram fogo também na crítica ao produtivismo que impera nas academias. A crítica que o senhor faz à avaliação das ciências parte dos mesmos pressupostos?

Maurício Barreto: Historicamente, o conhecimento científico é apresentado em forma de publicações, isso faz parte do fazer científico. O modo de se publicar e a influência das publicações sobre a avaliação é que têm mudado. Acredito que o debate do produtivismo tem suas razões e não razões. O discurso contra o produtivismo acerta quando critica a obrigação do volume de produção, quando aponta a excessiva valorização de quantidades e métricas derivados do número de publicações e de citações. O erro advém de colocar todo o peso da avaliação – seja individual, seja coletiva – nas publicações. Se colocarmos no centro da avaliação os efeitos que tal conhecimento possa ter ou vir a ter na vida das pessoas e das sociedades, teríamos condições de produzir um novo debate e mudar o foco da avaliação centrado quase exclusivamente na publicação. Publicar com qualidade é importante e todos concordamos, faz parte do processo da ciência e de uma ciência feita de forma rigorosa – dessa lógica não escapamos, nem podemos escapar. O central é mudar a lógica do que queremos, o que é feito e o que podemos fazemos com a ciência que produzimos. Acredito que seja a forma de mudar o sentido do debate sobre o produtivismo e transformá-lo em um debate útil sobre os sentidos do labor científico.

Abrasco: Como o senhor vê o processo de avaliação das ciências na academia brasileira e o anúncio de cortes da Capes em importantes programas de custeio das Pós-Graduações? 

Maurício Barreto: A produção científica brasileira e nós, pesquisadores, continuamos presos a esse modelo sobre o qual existe certo consenso de que está superado, mas por razões nem sempre compreensíveis, continuamos utilizando-o. Continuamos destacando apenas como melhor aquele que mais publica, que é mais citado, esquecendo de que precisamos também destacar aqueles conhecimentos que afetam as nossas vidas. Mudanças na forma de avaliar o conhecimento produzido poderiam vir a ser uma valiosa contribuição na busca de sentido e mesmo utilidades para o conhecimento que produzimos. Porém, deve-se enfatizar que esta não é uma tarefa simples e que já está pronta, faz-se necessário o desenvolvimento de novos modos e mesmo de novas métricas de avaliação.

A atual crise só agrava e mostra as insuficiências do modelo de avaliação que usamos. Todo o nosso sistema nacional de pós-graduação é mal financiado, mesmo nos momentos de calmaria econômica. Espero que os cortes atuais sejam apenas momentâneos, pois sua manutenção, com certeza, será uma pá de cal em cima desse sistema, que exigiu imensos esforços da sociedade brasileira para a sua construção.

O debate sobre a avaliação é central nesse momento, pois pode propiciar um redirecionamento e alternativas, e mostrar que nossa missão é maior do que produzir artigos científicos. Não fomos criados para ser uma comunidade de produtores de artigos, mas sim de conhecimentos que contribuam para a compreensão abrangente dos problemas de saúde, para o fortalecimento do SUS e para as transformações necessárias nas condições de saúde da população brasileira. Esse deveria ser o norte do nosso sistema de avaliação. Porém, para que isso possa acontecer, os programas precisam continuar existindo e produzindo. À medida que se reduz cada vez mais o financiamento, a luta passa a ser apenas pela misera sobrevivência, perdendo o sentido de debates em torno da avaliação.

Abrasco: A defesa do SUS universal é o tema do Abrascão 2015. Qual é a importância desse debate no cenário brasileiro?

Maurício Barreto: Ao colocar a universalidade dos sistemas de saúde como tema central deste Congresso, a Abrasco reafirma-se como uma organização criada para defender o sistema de saúde brasileiro e contribuir para o desenvolvimento do SUS. Como parte da turbulência que vive a sociedade brasileira, o nosso sistema de saúde também atravessa momentos críticos. Muita coisa boa está acontecendo, por exemplo, a expansão da Rede de Atenção Primária e o nível de equidade que está se alcançando neste nível de atenção, porém e ao mesmo tempo, vários outros de problemas existem e precisam de soluções. Em todos os problemas a questão da universalidade é relevante. Na perspectiva da nossa comunidade científica, tudo isto implica em desafios de continuar contribuindo para o SUS integral, resolutivo, universal que almejamos. Esse debate é de grande relevância para nós, como parte da comunidade de produção científica e, certamente, de onde poderão sair os conhecimentos necessários para a emergência de soluções compatíveis com a grandeza dos problemas e desafios que é a construção de um SUS almejado pela sociedade brasileira.

(Abrasco)

FONTE: http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/2-mauricio-barreto-se-mudarmos-a-forma-de-avaliar-a-ciencia-mudamos-a-forma-de-entender-e-valorar-a-publicacao-cientifica/