A expansão das revistas de”trash science”: por que devemos nos importar?

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Não sei se estou sendo alvo pessoal de uma campanha de marketing de diferentes “editoras” de revistas que disseminam “trash science”, mas minhas contas de correio eletrônico estão sendo especialmente bombardeadas nas últimas semanas com anúncios me convidando a publicar artigos em áreas que vão desde a pediatria até a engenharia de materiais (vejam abaixo três amostras destes convites)

A coisa é tão escancarada que nem é preciso visitar o blog do Prof. Jeffrey Beall (Aqui!) para verificar se editora e revista estão na sua lista de revistas predatórias.  E só esse fato explicita o fato de que o mercado de lixo científico está em processo de florescimento e não o contrário.

A pergunta que se sucede, por que o mundo do “trash science” para estar tão bem a despeito de esforços localizados para mostrar a verdadeira natureza dessa parte da indústria das publicações científicas? A primeira ideia que me ocorre é que seguindo as leis de mercado, oferta e demanda acabam se retroalimentando. Mas a coisa me parece ser mais complexa, pois se olharmos os custos envolvidos para que se publique nessas revistas caça-níqueis, há também que se introduzir análises sobre quais são os ganhos que os pesquisadores ou proto-pesquisadores acabam recebendo em troca pelos investimentos que fazem.

O mais crítico disso tudo é que ao se banalizar e incorporar como válidos artigos que não seriam publicados em revistas que sejam minimamente sérias no uso do processo de revisão por pares (ou peer-review), temos uma contaminação perigosa não apenas no que é tomado como sendo ciência, mas também nos processos de premiação e contratação. 

Outro aspecto que me preocupa com o caminho praticamente livre que essas revistas trash possuem é o processo anti-pedagógico que elas cumprem junto às novas gerações de pesquisadores. É que se tacitamente legitimar a publicação nesses veículos, e ainda por cima premiar quem faz isto, o que estamos dizendo a jovens pesquisadores é que o vale-tudo está oficializado na disseminação do conhecimento científico. Se isto já é um problema em países onde a comunidade científica já é robusta e bem consolidada, imaginemos o que isto causa nos países da periferia capitalista.

Finalmente, no caso brasileiro afora algumas tentativas de expor os malefícios do “trash science” (cito explicitamente os esforços do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!)), o silêncio é quase total e as publicações de baixa qualidade em inglês canhestro abundam.  No caso brasileiro, o silêncio sepulcral do CNPq e da CAPES  sobre este problema, bem como a objetiva falta de ação para coibir  a premição do “trash science” são sinais de que temos um árduo desafio pela frente. Resta saber quem vai querer comprar esta briga, especialmente num tempo em que convivemos com um encurtamento brutal de verbas para a pesquisa.

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