Desvendando Moro

Por Rogério Cezar de Cerqueira Leite*

O húngaro George Pólya, um matemático sensato, o que é uma raridade, nos sugere ataques alternativos quando um problema parece ser insolúvel.

Um deles consiste em buscar exemplos semelhantes paralelos de problemas já resolvidos e usar suas soluções como primeira aproximação. Pois bem, a história tem muitos exemplos de justiceiros messiânicos como o juiz Sergio Moro e seus sequazes da Promotoria Pública.

Dentre os exemplos se destaca o dominicano Girolamo Savonarola, representante tardio do puritanismo medieval. É notável o fato de que Savonarola e Leonardo da Vinci tenham nascido no mesmo ano. Morria a Idade Média estrebuchando e nascia fulgurante o Renascimento.

Educado por seu avô, empedernido moralista, o jovem Savonarola agiganta-se contra a corrupção da aristocracia e da igreja. Para ele ter existido era absolutamente necessário o campo fértil da corrupção que permeou o início do Renascimento.

Imaginem só como Moro seria terrivelmente infeliz se não existisse corrupção para ser combatida. Todavia existe uma diferença essencial, apesar das muitas conformidades, entre o fanático dominicano e o juiz do Paraná -não há indícios de parcialidade nos registros históricos da exuberante vida de Savonarola, como aliás aponta o jovem Maquiavel, o mais fecundo pensador do Renascimento italiano.

É preciso, portanto, adicionar um outro componente à constituição da personalidade de Moro -o sentimento aristocrático, isto é, a sensação, inconsciente por vezes, de que se é superior ao resto da humanidade e de que lhe é destinado um lugar de dominância sobre os demais, o que poderíamos chamar de “síndrome do escolhido”.

Essa convicção tem como consequência inexorável o postulado de que o plebeu que chega a status sociais elevados é um usurpador. Lula é um usurpador e, portanto, precisa ser caçado. O PT no poder está usurpando o legítimo poder da aristocracia, ou melhor, do PSDB.

A corrupção é quase que apenas um pretexto. Moro não percebe, em seu esquema fanático, que a sua justiça não é muito mais que intolerância moralista. E que por isso mesmo não tem como sobreviver, pois seus apoiadores do DEM e do PSDB não o tolerarão após a neutralização da ameaça que representa o PT.

Savonarola, após ter abalado o poder dos Médici em Florença, é atraído ardilosamente a Roma pelo papa Alexandre 6º, o Borgia, corrupto e libertino, que se beneficiara com o enfraquecimento da ameaçadora Florença.

Em Roma, Savonarola foi queimado. Cuidado Moro, o destino dos moralistas fanáticos é a fogueira. Só vai vosmecê sobreviver enquanto Lula e o PT estiverem vivos e atuantes.

Ou seja, enquanto você e seus promotores forem úteis para a elite política brasileira, seja ela legitimamente aristocrática ou não.

ROGÉRIO CEZAR DE CERQUEIRA LEITE *, físico, é professor emérito da Unicamp e membro do Conselho Nacional de Ciência e Tecnologia e do Conselho Editorial da Folha*

FONTE: http://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2016/10/1821713-desvendando-moro.shtml

Eleições 2016: Uma grande derrota, dois casos significativos e algumas hipóteses

O voto que se desloca do petismo, vai em grande parte para a desilusão

mauro-iasi-eleicoes-2016

Por Mauro Iasi*

Não há nenhuma dúvida que o resultado das eleições municipais apontam para uma grande derrota das forças progressistas e de esquerda, portanto, uma vitória para as posições conservadoras. No entanto, o que podemos extrair pela análise, ainda preliminar, dos resultados deve ir além desta constatação.

Quando olhamos de perto dois casos significativos, o de São Paulo e do Rio de Janeiro, ao lado de alguns indicativos nacionais, podemos arriscar algumas hipóteses para entender o tempo presente e as perspectivas que se abrem.

A derrota vista mais de perto

Os dados parecem demonstrar que o PT é o maior derrotado nestas eleições, sem dúvida pela intensa campanha de ataques jurídicos, midiáticos e políticos que culminaram no afastamento da presidente e continuaram depois disso. Não apenas caiu em número de cidades na qual elegeu prefeitos, caindo de 630 em 2012 para 265 em 2016 (uma queda de 59,4%), mas perdeu em locais significativos, como é o caso da capital paulista e na região metropolitana de São Paulo (Guarulhos, ABCD, Santos, etc.), teve desempenho abaixo do esperado no nordeste, foi derrotado em Porto Alegre e no interior gaúcho. Elegeu no primeiro turno apenas em uma capital (Rio Branco, no Acre) e foi para o segundo turno no Recife. Se considerarmos seu principal escudeiro, o PCdoB, apenas agregamos o segundo turno em Aracajú e, no conjunto, o crescimento de 51 para 80 cidades que governará, sabe-se lá com que alianças e com qual personagem.

Com estes resultados, num quadro geral que parece não será alterado significativamente com as disputas ainda em aberto no segundo turno, o PT caí do terceiro para o décimo lugar quanto ao número de prefeituras. Considerando o número de votos recebidos pelo PT constatamos uma queda de 60%, passando de 17,2 milhões para 6,8 milhões.

Mas, quem ganhou? É bom lembrar que o PT já em 2012 estava apenas em terceiro lugar em número de cidades governadas. O PMDB que era o primeiro neste quesito, manteve a posição, no entanto, com um crescimento relativamente pequeno, passando de 1015 para 1027 cidades, amargando derrotas importantes em capitais como São Paulo e Rio de Janeiro.

A mídia monopolista isola este critério para transformar o PSDB no grande vencedor. Ainda que tenha crescido de 686 para 791 (crescimento de 15,3%), vencido em capitais importantes e estar disputando o segundo turno no maior número de cidades, permanece em segundo lugar atrás do PMDB, posição em que já estava em 2012.

O que marcou este primeiro turno foi a pulverização, tanto à esquerda como à direita – por motivos opostos. Se na esquerda ela marca a defensiva da derrota, à direita a fragmentação é resultado da confiança que permite disputar entre si os despojos da derrota do petismo. Estas eleições têm grande importância no posicionamento das forças políticas para as eleições presidenciais. A pulverização de siglas neste multipartidarismo carente de conteúdo divide o botim entre coisas como o PSD de Kassab, PRB do Bispo Crivella e uma miríade de legendas como PSC, PHS, PTN e outras, preparando o mercado político dos apoios aos projetos e ambições visando as eleições nacionais que virão.

Disso resulta uma primeira constatação: considerando as duas principais legendas golpistas (PMDB e PSDB), podemos considerar que seu crescimento foi menor que a queda do PT. Em números absolutos, os dois levaram 117 prefeituras a mais do que em 2012 e o PT perdeu 374. Ainda que tenham migrado na maior parte para forças comprometidas com a interrupção do mandato da presidente eleita, podemos afirmar que a aventura oportunista rendeu menos do que esperavam as grandes legendas do conservadorismo. O desempenho pífio da REDE de Marina Silva e a queda do PSB comprovam nossa hipótese. Os balões de ensaio não decolaram. A tradicional expressão da direita não dá conta da tarefa, mas é ela que ocupa o espaço. Esta não é uma boa notícia para a direita.

Um dos efeitos deste fato é o crescimento da extrema direita. No Rio, a candidatura do filhote do Bolsonaro teve votação expressiva e elegeu com folga o outro filho para a câmara municipal. Ainda não é, entretanto, uma alternativa nacional para os propósitos das classes dominantes brasileiras.

Mas para onde foi o descontentamento produzido tão paciente e profissionalmente? Os índices de abstenções, votos brancos e nulos podem ser uma pista interessante. A soma dos votos brancos, nulos e abstenções ganhou as eleições em nove capitais e a oscilação que eleva para 17,58% o percentual de abstenções (em 2012 havia sido algo entorno de 12%), mascara que em algumas cidades este número ultrapassou a marca dos 30%.

Em São Paulo, por exemplo, as abstenções somaram 21,84%, os nulos 11,35% e os brancos 5,29%, ultrapassando em números absolutos os votos recebidos por João Doria. Este foi vitorioso com algo próximo de um terço dos votos considerando o universo total e não apenas os válidos, o que lhe garantiu a vitória no primeiro turno com o percentual de 53%.

No Rio, as abstenções chegaram à marca de 24,28% dos votos, os brancos foram 5,5% e os nulos 12,76%. Caso consideremos o universo dos eleitores da cidade do Rio de Janeiro, isto significa que, em conjunto, o volume de votos não dados aos candidatos chega à marca de 1.877.000, o que representa 38,32% em relação aos 4.898.045 eleitores da cidade. Desta forma, em números absolutos, os votos brancos, nulos e abstenções somados representam um volume maior que os votos de Crivella e Freixo juntos (1.377.625 votos, contra 1.877.000).

Não podemos afirmar com segurança o conteúdo destes “não votos”, que vão desde a impossibilidade de estar na cidade em que ocorre o pleito, o erro na hora da digitação, até o protesto. Mas, podemos apresentar como nossa segunda constatação que o principal efeito das manobras golpistas foi o crescimento do desencanto com as formas da democracia representativa no Brasil. Dito em outras palavras, o voto que se desloca do petismo, vai em grande parte para a desilusão.

São Paulo e Rio de Janeiro como dois casos exemplares

Mesmo com as considerações feitas, a vitória do PSDB em primeiro turno na capital paulista é um fato politicamente devastador para o PT. O fato de Haddad ter ficado em segundo lugar, ameniza mas não evita a profundidade da derrota. São Paulo já conheceu esta alternância antes, entre governantes ligados diretamente ao PSDB e ao PT, isso não seria de se estranhar nestas condições. O que chama a atenção é o volume da derrota (a diferença entre o candidato tucano e o petista foi de mais de 2,1 milhões de votos), considerando quem é João Doria e o que foi a administração petista, isso é surpreendente.

Dois mitos se dissolvem em poeira nas eleições em São Paulo. De um lado a crença que os “feitos” administrativos pesam muito na hora da definição do voto, como se a “obra” de um prefeito falasse mais do que ele próprio em uma disputa eleitoral (no Rio, também, Eduardo Paes sofreu desta síndrome). Haddad fez uma boa administração, ainda que como tudo que marcou o ciclo petista tenha sido desastrosa do ponto de vista político, mas isso pesou pouco. O candidato de proveta fabricado nos laboratórios Alckmin (ou seria ACME dos famosos personagens Looney Tunes), que gosta de dizer que começou do zero e trabalhou muito para chegar onde chegou, pode com tom farsesco fazer com que uma pilheria ganhasse das realizações em políticas públicas e na gestão “moderna” da cidade.

Alguns podem agora culpar a falta de divulgação ou a qualidade da comunicação realizada pela prefeitura (tenho certeza que o custo monetário foi bem alto pelos serviços prestados) ou a conhecida injustiça com a qual o povo trata aqueles que o amam. Ainda que tenha seu peso, não creio que seja aí que encontraremos a raiz da questão. Não basta realizações de uma gestão, ou sua correta divulgação, se não houver forças sociais que a defendam. A pergunta é, então, o que corroeu as bases sociais de sustentação política do governo petista em São Paulo.

A falta de autocrítica do petismo governista é um assombro. Diante de uma gestão, diríamos nós, decente, como explicar que as próprias bases sociais tenham preferido o Richie Rich (Riquinho)?

O fato é que segmentos sociais e indivíduos “compraram” a imagem de um “empresário de sucesso”, um “gestor privado da coisa pública”, um “não político”, enquanto os supostamente beneficiados pela gestão decente, não se dispuseram a defende-la, fora, evidentemente, do circulo da “militância” que o fez por dever de ofício ou vínculo empregatício. A nosso ver, isso está diretamente relacionado ao esvaziamento político da gestão. A gestão é do Haddad, as conquistas são de sua personalidade ou mérito do modo petista de governar. Lutas sociais e lutadores são eclipsados, quando não combatidos por atrapalhar a genialidade dos operadores políticos. Reduzida a uma questão de personalidade e capacidade política ou de gestão da cidade, a população expropriada de sua dimensão política, responde despolitizadamente.

Isso remete ao segundo mito que agora desmorona: a crença do petismo que no momento decisivo as bases sociais correm em seu apoio e a esquerda, na falta de outra alternativa para fazer frente à direita, salva o petismo de suas derrotas. Os dois fatos se interligam. Nem as “bases sociais” compareceram, nem a esquerda se moveu nesta direção. Não falo apenas da decisão das direções que poderiam estar certas ou erradas de acordo com o juízo que se faça, mas do movimento objetivo daqueles que não votaram em Haddad. E o motivo dos dois movimentos é o mesmo.

O petismo no governo, da mesma forma que nacionalmente, optou por uma governabilidade pelo alto e muitas vezes contra sua base social e sua identidade de esquerda. Paciente e cotidianamente destruiu as bases identitárias com que agora precisava contar. Haddad empenhava-se em conseguir acordos com os empresários do transporte, afirmando a necessidade de aumentar as tarifas, no momento em que a juventude explodia as ruas naquilo que levaria a junho de 2013. Abraçou Alckmin e recorreu ao governo federal contra as mobilizações, enfiando a cabeça na areia e torcendo para que tudo passasse rápido. Muito daquilo que agora se apresenta como “gestão moderna da cidade”, ocorreu como tentativa tardia e, talvez, insuficiente, em dar uma resposta ao que explodiu em 2013. É louvável que pelo menos tenha tentado, coisa que o governo federal não fez.

Empenhado em cobrar que todos “naturalmente” o apoiassem para derrotar a direita em São Paulo, não se apercebeu que o PT não é mais o ponto em que a esquerda e amplos segmentos dos movimentos sociais vêem como forma de derrotar a direita, mas como uma força que se aliou a esta direita para impor uma série de derrotas profundas aos trabalhadores. O fato do PT estar aliado em quase dois mil municípios aos “golpistas” que diz combater, não ajuda muito. Haddad não procurou a esquerda porque arrogantemente acreditava que ela viria como sempre, mas empenhou-se em atrair para sua governabilidade o PMDB e seus satélites, o Chalita e outras figuras de natureza e caráter deploráveis. Como sempre. Mas, desta vez… não deu certo.

O caso do Rio de Janeiro

Neste ponto o Rio de Janeiro é um contra-exemplo que nos ajuda a compreender este complexo cenário. Enquanto em São Paulo se conclamava a união de todos em torno de Haddad, no Rio dividia-se a esquerda lançando a candidatura do PCdoB que quase consegue levar ao pesadelo de um segundo turno entre Crivella e Pedro Paulo. Este não é um aspecto menor, revela esta arrogância que descrevíamos. Jandira Feghali tentou desesperadamente construir o discurso daqueles que estando contra o governo Temer deveriam unir forças para derrotar o PMDB no Rio, como se tivessem um DNA ou o registro fundiário registrado em cartório de “vitimas do golpe”, de forma que todos estariam obrigados a cerrar fileiras com ela, porque ela poderia derrotar o PMDB no Rio.

O mito que desmorona no Rio é outro, mas tem parentesco como os dois que apontamos em São Paulo. Cai a crença de que a única maneira de enfrentar a direita é uma aliança ampla na qual os setores populares têm que se submeter a alianças com segmentos da política conservadora, inclusive com segmentos da própria direita.

O que as eleições municipais parecem demonstrar é que o PT e seus aliados receberam um voto de desconfiança além das eleições em si, mas como protagonistas da luta contra o governo Temer e o PMDB. No caso do Rio isso se explica facilmente. Ainda que considerarmos o movimento de “voto útil” que desidrata a candidatura do PCdoB e seus aliados petistas em benefício de Freixo, somente isso não pode explicar a razão pela qual não ocorreu o contrário, isto é, porque desta vez o voto útil não beneficiou os ex-governistas.

A nosso ver, a resposta é relativamente simples. Se por um lado o golpismo de certa forma incensou o PT e seus aliados, por outro lado é transparente que até pouquíssimo tempo estas forças políticas estavam aliadas na rapinagem que se presenciou no governo do Estado e na cidade do Rio de Janeiro. O PT e o PCdoB, mesmo diante do terremoto de 2013, demoraram a largar o osso das administrações estadual e municipal. O apoio à Cabral, Pezão e Paes cobraram um alto preço e destruíram qualquer possibilidade da candidata do PCdoB apresentar-se como alternativa de fato àquilo que ela participava até ontem.

Aquilo que se consolidou como caminho de resistência ao PMDB e contra a extrema direita que mostra sua força, foi uma frente de esquerda, restrita nos termos daqueles que insistem em usar este qualitativo porque gastaram o termo para fazer frentes exatamente com o PMDB e outras siglas conservadoras. No Rio vai ao segundo turno uma frente formada pelo PSOL e PCB e apoiada por muitas outras organizações de esquerda e movimentos sociais, com pouco tempo de televisão, poucos recursos, sem apoio de máquinas, sem alianças espúrias, mas que logrou mobilizar uma militância e uma energia social que o petismo desprezou, ou no mínimo relativizou, como recurso de governabilidade. Nos parece significativo.

O ensinamento que pode se tirar disso é mais importante para o futuro do que para explicar o passado. O petismo parece imune à autocrítica, com exceção de seus segmentos mais lúcidos e infelizmente minoritários. O segundo turno no Rio pode levar-nos a compreender que aquilo que pode no médio e longo prazo ser construído como alternativa real de poder não passa pela repetição dos erros da experiência que agora se encerra, mas pela redescoberta da independência de classe e capacidade de enraizamento social que possa resistir agora para depois fazer frente à ofensiva reacionária que se implantou em nosso país. A ilusão de recompor as alianças que tornaram possível o ciclo passado, por conta de qualquer deslocamento do bloco conservador, não passa disso: uma ilusão, e uma ilusão perigosa.

Isso significa que a ida ao segundo turno, a possibilidade difícil de vitória contra o fundamentalismo obscurantista, não pode levar a uma ampliação de alianças e acordos políticos que venham a diluir a identidade de esquerda de nossa alternativa. Este caminho sedutor é o caminho do pântano. O volume dos votos nulos e das abstenções é um recado que precisa ser compreendido. Os limites da democracia representativa, que já se mostravam evidente em 2013, apontam rapidamente para sua falência. Se não soubermos dirigir este descontentamento em uma direção revolucionária, pode ser o caldo de cultura necessário para alternativas reacionárias.

A resistência no Rio, neste sentido, é mais simbólica do que efetiva. Mesmo um resultado favorável no Rio, assim como a possibilidade de alguma vitória em Belém ou Recife, não serão capazes de reverter a derrota no quadro geral para as forças conservadoras. Mas não devemos menosprezar resistências simbólicas, elas podem ser o ponto entorno do qual se articulam esforços e lutas que podem, mais adiante, reverter a correlação de forças hoje tão desfavorável.

***

Mauro Iasi é professor adjunto da Escola de Serviço Social da UFRJ, pesquisador do NEPEM (Núcleo de Estudos e Pesquisas Marxistas), do NEP 13 de Maio e membro do Comitê Central do PCB. É autor do livro O dilema de Hamlet: o ser e o não ser da consciência (Boitempo, 2002) e colabora com os livros Cidades rebeldes: Passe Livre e as manifestações que tomaram as ruas do Brasil György Lukács e a emancipação humana (Boitempo, 2013), organizado por Marcos Del Roio. Colabora para o Blog da Boitempo mensalmente, às quartas.

FONTE: https://blogdaboitempo.com.br/2016/10/04/eleicoes-2016-uma-grande-derrota-dois-casos-significativos-e-algumas-hipoteses/

Resultados eleitorais trazem os ventos do confronto social

doria

Os resultados das eleições de ontem trazem uma notícia que vai ser provavelmente ignorada pelos vitoriosos e derrotados: em muitos colégios eleitorais os vencedores perderam para a soma das abstenções, brancos e nulos.  A situação de descrédito do sistema político é tão grande que em 9 capitais (incluindo São Paulo) a soma de abstenções, brancos e nulos venceriam as eleições (Aqui!).

A razão mais óbvia para esse crescimento da negação em apertar a tecla da urna eletrônica para beneficiar este ou aquele candidato nasce da profunda separação que existe entre a maioria da população e seus governantes. Esse processo, inclusive, tenderá a aumentar para 2018 porque os resultados que saíram das urnas tendem a privilegiar agendas de privatização e de precarização do Estado em nome de um suposto ganho econômico. Tal ganho econômico, já se sabe, vai privilegiar aquele segmento composto por algo em torno de 1% da população brasileira que poderá assim gastar mais em suas viagens a Miami e Paris.

Entretanto, essa eleição também incorporam elementos adicionais para contribuir para o descrédito do sistema político. É que os partidos majoritários optaram em muitos casos em rebaixar o debate e lançar candidatos que não possuem a menor condição de responderem aos problemas reais que terão de enfrentar. Sob a pecha de recusar o político, esses candidatos se travestiram da antipolítica da pior espécie, contribuindo para desacreditar ainda mais o que muitos já não acreditam para começo de conversa. Exemplos disso não faltam, mas a eleição do lobista tucano João “Dólar” Dória em São Paulo salta aos olhos como a aposta em algo que não tem como dar certo. 

No espectro dito de esquerda, o recolhimento do PT a cidades pequenas e médias e derrotas acachapantes em cidades que historicamente o partido controlava é a demonstração de que não se pode abandonar as raízes de forma impune. Mas, além disso, essas derrotas têm que se creditadas à direção do PT que a partir de 2002 trabalhou duro para deseducar as suas bases políticas.  O fortalecimento do Psol, um partido que nasceu a partir do rompimento de frações petistas que foram expurgadas por discordarem do giro à direita que a direção nacional do PT realizou, é mais uma prova de que não é preciso ir longe para enxergar as responsabilidades por detrás desta derrota eleitoral.

Finalmente, não tenho dúvidas de que assistiremos um profundo ataque aos direitos sociais nas prefeituras que elegeram partidos que deram sustentação ao golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. É que o golpe não foi dado senão para facilitar o desmonte do Estado e para aumentar o grau de vampirismo que as classes ricas consideram ser necessário para se manterem seus muitos privilégios. Agora, resta saber como vão reagir aqueles que terão negado o pouco que foi conquistado nas úiltimas décadas. Para mim, o que os ventos sinalizam é a abetura de um período de agudos confrontos no Brasil. 

Ação da Lava Jato é claramente partidária. Mas não haverá bateção de panelas por causa disso

coxinhas

A prisão hoje do ex-ministro Antonio Palocci (PT) é mais uma das demonstrações cabais que a chamada Operação Lava Jato é dotada de uma forte seletividade partidária e com efetivo senso de influência eleitoral.

Não que eu morra de amores por Antonio Palocci com quem militei na mesma organização nos 1980. Vejo sempre nele um quê de traição a ideais e causas. Mas que ele teve sua prisão premonizada ontem em um comício do PSDB em sua cidade pelo atual ministro da (in) justiça Alexandre Barros, isso ele teve.

Não é de hoje que há uma forte conotação seletiva nas ações da Polícia Federal e do Ministério Público Federal na apuração dos caso conhecido como “Petrolão”. E mais o uso corriqueiro da prisão preventiva que normalmente recai sobre dirigentes do PT é algo que já se tornou escancarado. Por isso, até juristas que defenderam a suposta capacidade higienizadora da Lava Jato já se mostram preocupados com as ações de exceção que marcam as suas ações de delação, prisões e julgamentos.

O fato é que se ilude quem acha que a corrupção é debelada pela justiça agindo de forma solitária e seletiva.  O maior exemplo disso foi a chamada Operação Mãos Limpas na Itália que fez e aconteceu, mas não tornou o sistema político italiano menos corrupto.  

A verdade é que corrupção é um dos muitos mecanismos de apropriação privada dos bens públicos  e é uma marca do sistema capitalista. Não há país capitalista que não tenha seu nível de corrupção, ainda que uns sejam mais afetados do que outros. A saída contra a corrupção é, contraditoriamente, política. E passa mais pela organização coletiva da sociedade do que pela crença de que um grupo de messias bem intencionados vão limpar o sistema político e econômico.

Mas nada disso vai trazer aquelas massas coxinhas que iam às ruas vestidas com um dos maiores símbolos mundiais de como hospedar corruptos em quadros dirigentes,  a CBF. É que os “coxinhas” que se indignam com os casos de corrupção envolvendo o PT estão se lixando quando a coisa vai para partidos que representam os seus interesses públicos e privados. É uma forma bem brasileira de indignação seletiva que apenas reforça o fato de que a direita brasileira ama corruptos “bem nascidos” e detesta com a mesma intensidade quem ouse se intrometer nos seus nichos de bem vivência.

Esquerda, ma non troppo

lula

Agora que vemos o desgaste inevitável na imagem do Partido dos Trabalhadores (PT) como um legítimo representante de um pensamento de esquerda para o Brasil, há um processo concomitante de caça a partidos que ameaçam crescer no vácuo deixado pela derrocada da agremição liderada pelo ex-presidente Lula.

Como é de se esperar a ira é dirigida principalmente contra o Partido Socialismo e Liberdade (PSol), mas eventualmente sobra para o ressurgente Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Pior destino ainda sofre o Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (Pstu) que defende que não houve golpe de estado, mas golpe de ex-aliados do PT. Ao Pstu sobram as mais graves designações por sua posição de ultraesquerda.

As alegações que eu vejo aparecendo mais comumente é que ao criticar o PT e o partido satélite que lhe restou dos tempos de domínio absoluto, o pragmático Partido Comunista do Brasil (PC do B) é que equivalente a uma traição na luta contra o golpe de estado via parlamento que foi operado contra a presidente Dilma Rousseff.

Primeiro é importante dizer que a bancada do Psol com apenas 6 militantes foi mais atuante do que a do PT na luta pela manutenção do mandato legítimo de Dilma Rousseff. Sempre notei a desproporção da energia gasta pela bancada do PT em relação à do Psol que parecia ser sempre dez vezes maiores do que era. Segundo, que o Psol e o PCB não estão defendendo nada muito diferente do que defenderam ao longo dos últimos anos, quando criticavam as políticas de cunho neoliberal implantadas por Lula e Dilma.

Para mim, não há como cobrar total alinhamento e ausência de crítica aos candidatos do PT e do PC do B em nome da luta contra o golpe. É que, para começo de conversa, os golpistas eram até recentemente membros da suposta base aliada do governo Dilma. Segundo, é que ao longo dos anos, quem abandonou o campo das alianças de esquerda em nome de um governabilidade que se mostrou fajuta foram o PT e o PC do B.

Ainda que eu considere as posições do Psol como sendo marcadas por uma crença excessiva na capacidade de resolver os problemas nacionais via o parlamento, não há como negar que o partido se manteve coerente a partir de uma posição de defesa dos interesses da maioria da população pobre. Além disso, ao se aliar ao PCB na cidade do Rio de Janeiro, o Psol expressou um avanço no sentido da formação de alianças eleitorais que vão além dos interesses momentâneos e fisiológicos que partidos como o PT e o PC do B continuam adotando. Tanto isso é verdade que o PT está aliado aos chamados partidos golpistas em mais de 1.000 municípios nas atuais eleições.

Finalmente, como eleições são apenas uma espécie de momento “the flash” na luta de classes, a minha expectativa é que estejamos vivenciando um processo de reagrupamento da esquerda no Brasil.  Mas não aquela esquerda “ma non troppo” que só esquerda no momento de pedir votos. É que dessa esquerda, não há mais muito o que esperar.

 

Deltan Dallagnol e sua inoportuna imprecisão histórica sobre as origens da “propinocracia” brasileira

deltan

Para tentar se desvencilhar das críticas sobre a óbvia preferência da equipe da chamada “Operação Lava Jato ” sobre os  malfeitos que teriam sido cometidos durante os anos de governos federais comandados pelo Partido dos Trabalhadores, o procurador Deltan Dellagnol teria afirmado que “as pessoas podem questionar por que não denunciamos os crimes anteriores aos governos do PT. Porque os crimes prescreveram, demoramos muito para descobrir isso”, reconheceu.” (Aqui!).

Pois bem, se avaliarmos as quais pelas quais crimes cometidos em governos anteriores prescreveram, a desculpa de que isso deu porque os mesmos não foram descobertos em tempo beira o risível. É que os casos dos “mensalão do PSDB mineiro” como o do “trensalão” envolvendo os tucanos paulistas não deixaram de ser exemplarmente punidos por desconhecimento, mas por falta de apetite para punir.

Mas deixemos de lado essa parte mais óbvia do descompasso que parece existir no trato da corrupção no Brasil. Como o procurador Deltan Dallagnol nasceu justamente no crepúsculo do regime militar de 1964 ele talvez merecesse uma desculpa por não saber que a tal “propinocracia” que ele atribui a Lula e ao PT foi uma ferramenta utilizada ao cansaço pelos generais para manter o congresso nacional totalmente obediente e com aquele espírito de colaboração que o regime tanto precisava para continuar de pé.

Aliás, não é por outra razão que algumas das águias que continuam comandando o congresso e ocupam posições destacada dentro do governo “de facto” de Michel se beneficiaram dos mimos distribuídos pelo regime dos generais para manter o Brasil num regime de exceção.

Entretanto, Deltan Dallagnol e seus companheiros de Lava Jato não podem alegar ignorância nem sobre a longevidade do sistema que eles alcunharam de “propinocracia” ou, tampouco, sobre suas origens. É que para chegar onde chegaram se supõe que tenham lido um pouco que seja sobre a história recente do Brasil.

A verdade é que, ao centrar de forma praticamente unilateral suas baterias contra os anos do PT no governo federal, a equipe da Lava Jato contribui de forma explícita para manter praticamente intacto o câncer que dizem querer remover do interior das instituições do Estado brasileiro.

E me desculpem os que vêem na Lava Jato “um evento de magnitude histórica e com potencial para contribuir para aperfeiçoar nosso Estado de Direito” (Aqui!).  Para mim, o que está realmente em jogo é um esforço, sob a capa de combater a corrupção, de impedir que reformas estruturais sejam efetivamente realizadas para modificar a esdrúxula concentração de riqueza que existe no Brasil. Concentração essa que existe desde quando os conquistadores portugueses fincaram no sul da Bahia as raízes de uma das mais longevas propinocracias da história da humanidade.

Qual unidade e de que esquerda se fala?

unidade

Sou do tempo em que findo o regime ditatorial, os partidos e organizações da esquerda revolucionária brasileira procuraram caminhos institucionais para levantar suas bandeiras e continuar a luta por outras vias que não as das armas. A principal experiência desse processo foi o surgimento do Partido dos Trabalhadores (PT) que, em sua gênese, abraçou matizes diferentes do pensamento da esquerda que sobreviveu ao massacre imposto pelo regime militar.

Mas lentamente a burocracia interna do PT conseguiu se livrar paulatina e meticulosamente das correntes que representavam obstáculos a uma adptação completa ao sistema partidário burguês e, por consequência, à realização de alianças com setores políticos que haviam colaborado com o regime militar.  

Não preciso nem ir longe para dizer que esta guinada para as alianças com a direita desembocou no golpe de estado parlamentar de 31 de março de 2016. Mas ao longo dos últimos 13 anos (engraçado como este número acompanha o partido  de Lula e José Dirceu!), o que a direção majoritária do PT fez foi impor a esquerda brasileira a um exílio siberiano em troca da viabilização de um governo de conciliação de classes. E, mais, qualquer crítica às alianças com Paulo Maluf, Renan Calheiros, José Sarney et caterva era tratada como coisa de esquerdistas infantis que não entendiam a necessidade de se aliar para governar, fosse ccm quem fosse.

Agora que estamos defrontados com um programa de desmanche de direitos sociais e de entrega completa do patrimônio público à sanha das potências centrais, eis que ouço chamados à unidade da esquerda para combater os inimigos da classe trabalhadora.  O problema que este chamado, ainda que correto em tese, não vem acompanhado de qualquer auto-crítica ou indicação de que o PT vai abandonar as políticas de cunho neoliberal que aplicou no Brasil, ainda que numa fórmula mais light do que a que o presidente de facto pretende aplicar.

Desta forma, considero compreensível que os partidos de esquerda que estão saindo do inverno siberiano enxerguem com alguma suspeita tais chamados à unidade. É que unidade sem auto-crítica é o caminho preferencial para que a história se repita. Aliás, como já disse Karl Marx  no ezoito Brumário de Louis Bonaparte, publicado inicialmente 1852, a ” história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”. E, convenhamos, de tragédias e de farsas já estamos todos fartos.

PT e a eleição de Rodrigo Maia: fazendo valer a máxima do “desculpa de aleijado é muleta”

camara

Tenho lido as explicações de parlamentares petistas para explicar porque votaram em Rodrigo Maia (DEM) para presidir a Câmara de Deputados. Segundo eles a culpa seria do PC do B e do Psol que teriam lançado candidatos em vez de apoiarem o candidato do PMDB no qual a maioria do PT votou no primeiro turno da eleição.

A soma hipotética que esses parlamentares petistas fazem (70+16+22) levariam Marcelo Castro para o segundo turno para enfrentar Rodrigo Maia. E eu pergunto: qual seria a real chance do chamado “centrão” votar no preferido dos petistas? Aparentemente muito pequena.

Mas é mais fácil do que explicar o não apoio às candidaturas de esquerda, culpá-las por mais um derrota vexaminosa. E, sim, desculpa de aleijado é muleta!

A vitória de Rodrigo Maia é o enterro definitivo do PT como partido de esquerda

camara

Faz tempo que eu enxergo o Partido dos Trabalhadores (PT) como uma organização de centro, com comportamento meramente reformista e prisioneiro da lógica da conciliação de classes. E isso é lamentável, pois no seu nascedouro o PT representava uma possibilidade concreta de oferecer à classe trabalhadora um instrumento poderoso para sua luta contra as elites oligárquicas que dominam há séculos o estado brasileiro.

Mas principalmente de 2002 para cá, após o lançamento da chamada “Carta aos Brasileiros”, a maioria da direção do PT optou por uma política que transcende o reformismo e optou pela colaboração aberta com a classe dominante. O famoso abraço entre o ex-presidente Lula e Paulo Maluf para celebrar a aliança que acabaria elegendo Fernando Haddad como prefeito de São Paulo foi só apenas um momento mais emblemático da capitulação do PT.

Entretanto, o PT ainda arrebata milhões de brasileiros que ainda não fizeram o processo de ruptura entre o passado e o presente do partido que diz representar os interesses dos mais pobres.  E muito desses que ainda acreditam no PT estão sempre esperando a famosa “guinada à esquerda” que possibilitaria uma espécie de processo de purificação para todos os erros e traições cometidos na última década. Mas a verdade é que a direção do PT e a imensa maioria dos seus parlamentares não estão nem aí para os compromissos históricos firmados no seu processo de fundação.  A política virou apenas uma oportunidade de negócios, também para os dirigentes e parlamentares petistas (que eu chamo de neoPetistas).

Até aqui eu não disse nenhuma novidade em relação ao que eu penso sobre o processo de direitização do PT. Mas  a estas alturas do campeonato, eu confesso que não esperava ver o PT votando em Rodrigo Maia (DEM) para presidir a Câmara dos Deputados. É que tendo sido Maia um dos líderes (se ele é mesmo capaz de liderar qualquer coisa ainda está ser para resolvido tal a mediocridade de seu histórico como parlamentar) do golpe de estado “soft” cometido contra Dilma Rousseff. Ai, convenhamos, já seria demais, mesmo para o neoPT. Mas só que não foi!

Eu sinceramente desconfio que muitos desses parlamentares petistas se regojizaram quando o processo de impeachment foi aceito pela Câmara de Deputados, tal é a indisposição da presidente eleita de participar das flexões patrimonialistas que eles agora explicitamente demonstraram poder fazer sem muito remorso.

Por último considero que beira o patético querer imputar aos parlamentares do PSOL algum tipo de culpa pela vitória de Rodrigo Maia, seja qual for a alegação. É que o PSOL com seus muitos erros e vacilações apenas cumpriu o papel que cumpriria à esquerda parlamentar, estivessem seus deputados mirando ou não as próximas eleições municipais. Até porque se não lançassem a candidatura de Luiza Erundina, o que restaria a eles em Outubro? Provavelmente nem lançar candidatos para chamar o voto no PMDB ou em outros partidos que organizaram o golpe de estado.  Felizmente, essa opção suicida não foi cometida, e o PSOL agora poderá se apresentar com alguma chance de sucesso em um bom número de cidades brasileiras. E provavelmente, dado o arco de alianças que está formando, o PSOL ainda conseguirá que partidos como o PCB e o PSTU elejam vereadores em bom número, coisa que nunca conseguiram.

E o PT depois desse episódio? Com quase certeza irá se aferrar -se aos grotões. A ver!

As gravações reveladoras de Romero Jucá e o cinismo do impeachment

A eclosão de gravações envolvendo o ministro do Planejamento, Romero Jucá (PMDB/R (Aqui!) escancara de vez o fato de que o impeachment/golpe parlamentar de Dilma Rosseff representou um esforço escancarado para parar o combate à corrupção no Brasil.

Agora eu quero ver aquelas multidões vestindo, ironia das ironias, a camisa da CBF de volta nas ruas para exigir o impeachment do presidente interino Michel Temer. É que não há outra coisa a ser feita por quem dizia estar querendo ver o Brasil passado a limpo. Caso contrário o que teremos sacramentado o fato de que a corrupção só não é tolerada quando praticada pelo PT, o estranho no ninho das elites brasileiras.

Em relação ao PT, o que fica evidente é que a resposta tímida ao golpe pode ser decorrência dos mesmos interesses que foram escancarados pela divulgação das gravações de Romero Jucá. É que se o golpe tiver sucesso no controle das ações rotuladas de “Lava Jato”.  Resta agora ver como a direção do PT vai responder à afirmação de que o impeachment poderia ser a única via para salvar todos, inclusive Lula e Aécio.

Quanto a Jucá, o mais provável é que ele se torne um dos ministros mais breves da história da república, e que volte ainda hoje para o Senado preparar a sua defesa contra um inevitável pedido de cassação de seu mandato. É que, por comparação, as gravações envolvendo o ex-senador Delcídio Amaral e que motivaram a cassação relâmpago de seu mandato são brincadeira de criança. 

E, sim, como Romero Jucá disse ter conversado com vários ministros do STF sobre o impeachment de Dilma Rousseff como ferramenta para brecar a Lava Jato,  vamos ver o que dizem os digníssimos ministros daquele egrégio tribunal. O mínimo o que eu espero é que tenhamos declarações tão ou até mais ultrajadas do que aquelas proferidas quando uma gravação envolvendo o ex-presidente Lula mostrou uma fala dele dizendo que o STF estava de cócoras (ou coisa do gênero).