Michel Temer demite garçom acusado de ser “petista. Haja tolerância!

A nota sobre a demissão do garçom José Catalão (ver imagem abaixo) foi publicada nesta terça-feira na coluna Painel da Folha de São Paulo pela jornalista Natuza Nery (Aqui!). Catalão era tido como um trabalhador modelo e serviu no Planalto durante oito anos. Seu crime? Ser “petista”.

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A jornalista Natuza Nery nos informa que Catalão não possui filiação partidária e é muito querido pelos habitués do Palácio Planlto, tendo servido o próprio Michel Temer várias vezes, e se orgulhar do fato!

Agora, convenhamos, essa demissão de José Catalão está totalmente de acordo com todas as declarações sobre os planos desse governo interino. É que não é preciso nem olhar nas letras pequenas das publicações do Diário Oficial da União para notar que pessoas como Catalão são as principais vítimas do golpe parlamentar que apeou Dilma Rousseff do seu mandato. 

A diferença neste caso é que Catalão é uma face conhecida até da imprensa, e deverá arrumar logo um novo  emprego. O problema mesmo vão sentir os milhões de josés invisíveis que abundam neste país tão desigual.

Crise política no Brasil: quando 6 são mais do que 60

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Lí uma análise interessante do Prof. Aldo Fornazieri, da Escola de Sociologia e Política da USP, onde aponta para uma suposta “desorientação das esquerdas” frente ao que ser feito em relação ao governo interino de Michel Temer (Aqui!). Apesar do conteúdo ser interessante, creio que o Prof. Fornazieri errou no título. É que penso que até pelo conteúdo, o correto teria sido escrever “Os  frutos da capitulação do PT”.

É que frente ao que vem acontecendo em termos de resistência popular, pode já dizer que esta ocorre apesar do PT e dos sindicatos e movimentos sociais que o partido controla. A impressão que fica é que dentro do PT ainda tem gente que acredita que será recuperada a possibilidade de um governo de conciliação de classes.

Mas essa impressão já estava clara para mim nos debates dentro da Câmara de Deputados acerca da aceitação ou não do impeachment de Dilma Rousseff quando coube às bancadas do PSOL e do PC do B a principal via de resistência ao rolo compressor montado por Michel Temer e seus aliados da direita parlamentar. Vendo a ação de parlamentares como Heloísa Erudina, Chico Alencar, Glauber Braga, Jean Wyllys e Jandira Fegalli era indisfarçável a diferença de tom em relação à bancada do PT onde apenas Paulo Pimenta e Wadih Damous expressavam qualquer sinal de aguerrimento frente ao que estava sendo construído. 

Pode se dizer que boa parte desta inação da banca do PT foi construída a partir de um longo processo de emasculação que resultou de alianças espúrias e relações promíscuas com fontes de financiamento. Eu, aliás, tenho a opinião de que o tamanho da bancada parlamentar do PT poderia ter sido maior nas eleições de 2014 se bons candidatos não tivessem sido sacrificados em nome do supostamente amplo arco de alianças. Aqui abro inclusive espaço para reconhecer que o senador Lindbergh Farias soube superar as traições que sofreu na eleição de governador para cumprir um papel digno na luta contra a aceitação do impeachment pelo senado federal.

Agora, qual será o caminho a ser adotado pelo PT? Sinceramente não tenho a menor ideia, pois é óbvio o controle ainda mantido sobre a direção nacional pelo ex-presidente Lula. Se Lula escolher o caminho da coabitação com Michel Temer, o caminho para o cadafalso do PT estará definitivamente selado, e suas porções ainda saudáveis seguirão outros caminhos dentro da esquerda. Agora, se Lula decidir que enfrentar Michel Temer será o caminho a seguir, talvez possamos inverter a situação de pasmaceira atual da bancada federal do PT. Daí talvez possamos superar a condição atual onde os 6 deputados do PSOL (a maioria deles oriunda do próprio PT) valem mais do que os 60 do PT. A ver!

Karl Marx manda recado a Lula: enquanto houver capitalismo, a luta de classes não será anulada

As últimas semanas têm sido pródigas nas idas e vindas da tentativa de golpe parlamentar contra a presidente Dilma Rousseff. De um lado, temos personagens do calibre de Eduardo Cunha, Paulinho da Força e Aécio Neves.  Já do outro lado, o principal personagem é o ex-presidente Lula a quem eu credito a origem de todo o problema quando abandonou as alianças clássicas com partidos de esquerda que o  Partido dos Trabalhadores (PT ) fez até 2002 para cair nos braços de José Sarney et caterva.

Aqui começo a falar do objeto desta postagem: o problema das disputas insolúveis no plano do Capitalismo entre capital e trabalho ao qual Karl Marx sintetizou sob o conceito de “luta de classes”.

Exemplos de governos de conciliação de classes abundam desde o Século XIX quando a social democracia efetivamente rompeu com a perspectiva de transformação revolucionária da sociedade capitalista.  O fracasso desse movimento conciliatório dentro da direção do aparelho de Estado, principalmente na Europa, é que deu origem ao Fascismo na Itália e a Nazismo na Alemanha. 

Mas as lições históricas do fracasso dos governos de conciliação de classe não serviram para nenhum tipo de aprendizado para o ex-presidente Lula e seu círculo mais próximo. Tanto isto é verdade que hoje o PT depende de personagens ilustríssimos como Paulo Maluf, Fernando Collor e Renan Calheiros para impedir o golpe parlamentar disfarçado de impeachment que  foi gestado por associações obscuras de interesses que um dia conheceremos melhor nos livros de História.

E o pior é que ao longo da última década nos foi vendida a falácia de que a única possível saída para alavancar o desenvolvimento brasileiro e diminuir a abissal diferença de renda no Brasil era abraçar de forma acrítica as políticas emanadas do governo de conciliação de classes que Lula comandou e, depois, passou para Dilma Rousseff.

Para mim a grande pretensão do ex-presidente Lula, um reconhecido gênio nos processos de articulação, foi acreditar que favorecendo a anulação do potencial transformador do Partido dos Trabalhadores também conseguiria anular a luta de classes no Brasil. É esse o pior dos erros de Lula, e não as relações pantanosas com empreiteiras como a Odebrecht e a OAS que  resultaram nos traques jornalísticos dos pedalinhos de Atibaia e o do tríplex do Guarujá.

O problema é que, enquanto a militância genuína que ainda existe dentro do PT não ver a inevitabilidade de derrotas ainda maiores por causa da volúpia colaboracionista de Lula, teremos milhões de brasileiros desarmados para o combate em defesa de minguados direitos sociais duramente conquistados.

E lá do cemitério de High Gates no norte de Londres, os ossos de Karl Marx, se pudessem enviar alguma mensagem, diriam a Lula: enquanto houver capitalismo, haverá luta de classes, meu irmão!

Lava Jato: uma narrativa desconstruída pela realidade

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A chamada Operação Lava Jato serviu para a construção de uma narrativa ao longo dos dois últimos anos: tudo o que era ruim e corrupto no sistema político brasileira. Tudo ia bem até que surgisse o impávido colosso conhecido como “Listão da Odebrecht”.

O surgimento do famigerada listão caiu como uma bomba na narrativa da Lava Jato. É que querendo a Rede Globo ou não, boa parte dos brasileiros hoje sabe que no verdadeiro “coração de mãe” das doações da Odebrecht, só não couberam quatro partidos: PCB, PCO, PSOL e PSTU.  O resto dos 28 partidos existentes em 2014 receberam algum tipo de doação, por vias legais ou não.

Mas não bastasse a lista da Odebrecht, veio em sequência a informação de que o ex-deputado Pedro Correa, do insuspeito Partido Popular (PP), revelou que o sistema de corrupção eleitoral (notem que ele teria dito SISTEMA, o que implica em algo muito além de um partido. E mais, Pedro Corrêa teria dado detalhes sobre como o falecido banqueiro Olavo Setúbal, do Banco Itaú que hoje apoia Marina Silva, teria comprado a reeleição de Fernando Henrique Cardoso do PSDB.

O listão da Odebrecht mais a delação de Pedro Correa implodem a narrativa construída pelo Lava Jato, e ainda servem para lançar uma questão: será que os braços das empreiteiras se estenderam apenas sobre o executivo e o legislativo, ou cedo ou tarde (ou talvez mais cedo do que se imagina) veremos alguma figura ilustre do judiciário aparecer em outras listas de generosidades, seja da Odebrecht ou das outras empreiteiras enroladas na Lava Jato?

De toda forma, as próximas semanas deverão ser interessantes para que saibamos como os envolvidos vão tentar estabelecer a narrativa que melhor lhes sirva na luta pelo poder que hoje assola o Brasil. O problema vai ser convencer a maioria dos brasileiros sobre a efetiva relação entre narrativa e realidade. É que se pode enganar muitos por algum tempo, mas jamais todos o tempo inteiro. 

 

Após as manifestações de hoje, como estão os que pularam precocemente da nau petista?

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Uma das artes mais difíceis na política é a hora de saber quando se deve pular de um barco que se julga predestinado ao naufrágio.  Se alguns portadores de cargos eletivos que recentemente abandonaram o Partido dos Trabalhadores (PT) pudessem ter consultado algum rato que tivesse a habilidade de transmitir a informação sobre a hora correta de dar o famoso pulo para fora, talvez não estivessem tão arrependidos neste momento.

Exemplos sobre esses puladores precoces abundam no PT, principalmente no Rio de Janeiro. Para apenas listar alguns cito o serelepe ex-ambientalista  e deputado estadual profissional Carlos Minc, o prefeito de Niterói, Rodrigo Neves, e aqui em Campos dos Goytacazes, o vereador Marcão.

Ajudei a fundar o PT e militei no partido de 1981 até 1990 quando parti para outras atividades fora do Brasil. Quando finalmente voltei em 1997 vi que o partido que eu havia ajudado a criar já não era mais o mesmo, e que sua política de alianças não me contemplava mais e, muito menos, as formas pouco claros de angariar financiamentos com empresas. Sai pela porta da frente, e não me arrependo, nem de ter ajudado o partido nos seus primeiros anos, nem de ter pulado da nau por motivos que não fossem aqueles voltados para preservar mandatos conseguidos com a ajuda da aura e carisma de Luís Inácio Lula da Silva.

Agora, após todos esses anos, me reservo apenas a ser um professor que procura ensinar para além dos muros da Uenf, e a estar com aqueles que foram abandonados pelo PT ao longo de suas alianças com gente que agora quer destruir o partido e sua maior liderança. Com isso, vivo plenamente calmo com minha consciência.  

Será que os ratos precoces também vão conseguir ter um sono leve após as massivas manifestações que ocorreram nos 27 entes federativos em defesa do governo Dilma e de Lula? Penso que não. É que eles sabem que seus eleitores são mais do PT do que deles. Agora, quem mandou pular do navio em vez de defender o capitão?

Não, nem todos os partidos são corruptos. As doações das empreiteiras mostram isso

Uma reportagem publicada pelo jornal paranaense Gazeta do Povo no já distante dia 27 de Novembro (Aqui! ) trouxe uma informação impressionante mesmo para mim: nas eleições de 2014, as empreiteiras envolvidas na Lava Jato (ou seja no escândalo de corrupção na Petrobras) “doaram” nada menos do que R$ 277 milhões para 28 dos 32 partidos que concorrem no pleito  (ver gráfico abaixo).

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E o leitor deste blog poderia se perguntar sobre quem seriam os 4 partidos que ficaram de fora desta lista de recebedores das generosidades agora sob fogo cerrado das empreiteiras. Pois bem, aí é que a porca torce o rabo para os manifestantes “coxinhas”: Partido Comunista Brasileiro (PCB), Partido da Causa Operário (PCO), Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) e Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado (PSTU).  

Em suma, ficaram de fora os partidos da esquerda nos quais eu venho votando de forma consistente desde 1998 quando retornei ao Brasil  e vi que o Partido dos Trabalhadores (PT) havia feito uma opção programática que eu considerava equivocada e antipopular em nome de uma questionável viabilidade eleitoral.

Agora que os principais partidos políticos estão literalmente chafurdando na lama, fico imaginando o que me dirão os profetas do pragmatismo neopetista que me diziam que os partidos de esquerda eram inviáveis eleitoralmente porque não aceitavam fazer o jogo como estava dado. Pois bem, eu não tenho outra saída a não ser concluir que é melhor se inviabilizar eleitoralmente do que entregar bandeiras históricas.

Se algo de bom existe nessa crise vergonhosa que assola a política partidária brasileira é oferecer aos partidos de esquerda a possibilidade, com todas as suas fragilidades e limitações, de buscarem pontes de contato com a maioria da população brasileira que nas últimas décadas votou no PT como forma de buscar a construção de uma sociedade mais justa no Brasil.   

Entretanto, para que isso ocorra os partidos de esquerda vão ter que superar a comodidade de manter isolados na periferia da luta de classes como fizeram ao longo dos anos de hegemonia eleitoral do PT dentro da classe trabalhadora.  Esse é um desafio formidável, e resta saber se a esquerda vai aceitar fazer as correções internas para, enfim, dialogar com a maioria da classe trabalhadora brasileira.

 

Voz da Alemanha e os protestos sob o olhar do morro

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Mais uma vez,  um órgão da imprensa internacional dá um show na mídia corporativa brasileira ao apresentar a visão de quem não foi ao protesto de domingo no Rio de Janeiro. E a visão que surge não é aquela que a elite branca gosta de pintar de pobres alienados que preferem ficar no bar bebendo cachaça em vez de procurar um futuro melhor.

Essa reportagem da Deutsche Welle (Voz da Alemanha) deveria ser lida não apenas por pessoas como eu que não apoiam nem o protesto, nem o governo Dilma. Essa reportagem deveria ser lida, principalmente, por aqueles que ainda querem salvar o governo Dilma, já que as críticas apresentadas pelos moradores da Pavão-Pavãozinho parecem refletir exatamente o sentimento daquela porção da população que deu o segundo mandato a Dilma Rousseff, apenas para verem instaladas políticas claramente neoliberais e antipopulares.

E lapidar é a frase de um porteiro sobre as manifestações de domingo: “todos os ricos foram”.  Minha síntese sobre essa declaração: melhor os ricos prestarem bem atenção no que estão desejando!

Do alto do morro, outra visão dos protestos

Moradores de comunidade em Copacabana não escondem ponta de decepção com governo e medo da atual crise. Mas ainda são poucos os que veem motivo para descer e se juntar às manifestações contra Dilma.

Vista da comunidade Pavão-Pavãozinho: crise política divide a comunidade de cerca de 20 mil pessoas

Apenas 500 metros separam a rua Saint Roman, principal acesso à comunidade do Pavão-Pavãozinho, da praia de Copacabana. Mas, mesmo diante de um futuro de incertezas, foi lá do alto do morro, de onde se tem uma vista privilegiada do mar, que a maioria dos moradores acompanhou a manifestação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff no último domingo (13/03).

A crise política divide a comunidade de cerca de 20 mil pessoas na zona sul do Rio de Janeiro. Nos bares, frequentadores fazem questão de acompanhar pela TV as últimas notícias. E ainda que o assunto seja recorrente nas rodas de conversa em escadarias e vielas, poucos viram motivo para descer e se juntar aos manifestantes. Entre as razões, a crença de que a corrupção é maior do que o Partido dos Trabalhadores (PT) e os governos de Dilma, e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

A comunidade foi pacificada em 2009, mas ainda sofre com as obras incompletas prometidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2008. O destino dos 43 milhões de reais previstos em obras, os moradores desconhecem. Por ali, ainda faltam investimentos em mobilidade e serviços básicos, como saneamento e rede de energia elétrica.

Cátia F., que tem um pequeno comércio na favela Cantagalo não quis participar dos protestos

Mas, apesar de uma ponta de ressentimento com o governo federal, gente como a operadora de caixa Maria de Lurdes Silva, de 44 anos, acredita que os problemas do Pavão-Pavãozinho e do Brasil são fruto de uma corrupção que assola o país bem antes da chegada do PT ao poder, em 2002. No domingo, ela preferiu ficar em casa. E garante que a maioria dos vizinhos também. Para ela, as manifestações são “uma burrice sem tamanho”.

“Vão tirar a Dilma e colocar quem no lugar? Ela está sendo usada como bode expiatório. Todo mundo rouba no Brasil, e até acho que o Lula tenha roubado também. Quem não? Mas o governo dele melhorou a vida dos pobres. Quando o Fernando Henrique governou, roubou também. O problema foi causado porque o Lula não conseguiu colocar rédeas na roubalheira”, argumenta Maria de Lurdes.

“Todos têm as mãos sujas”

Os laços do Pavão-Pavãozinho com a política são antigos. Na década de 1960, enquanto havia uma política de remoção em outras favelas da zona sul, empreendida pelo então governador Carlos Lacerda, a comunidade ganhou suas primeiras obras de urbanização, com melhorias nas escadarias e no abastecimento de água. Em 1984, no primeiro mandato de Leonel Brizola no governo do estado do Rio de Janeiro (1983-1987), foram realizadas algumas obras de urbanização, como a implantação de um plano inclinado no Pavão-Pavãozinho.

Moradores como o motorista Carlos Alberto da Silva, de 52 anos, lembram bem disso. Desempregado, ele faz bicos vendendo chinelos para sobreviver, se diz descontente com a corrupção, mas acredita que destituir a presidente não é solução para a crise.

“Eu preferi ir à igreja no domingo. Aqui todo mundo sempre votou no Brizola, ele vinha aqui e passava o dia, sentava, conversava com todos no bar. Depois, votamos no PT. Eu votei na Dilma e estou muito decepcionado, mas ela foi eleita e tem de terminar o trabalho. A vida mudou nos últimos anos para melhor, apesar de eu estar desempregado há seis meses. Se a Dilma e o Lula roubaram, terão de pagar pelos erros”, avalia.

O porteiro Jacinto e sua família preferiram ficar em casa

Em 2012, um estudo socioeconômico de 16 comunidades pacificadas do Rio feito pela Firjan indicava que o Pavão-Pavãozinho tinha a maior renda per capita (755 reais) e a segunda menor taxa de desemprego (5%). Mas, apesar de ter quatro escolas municipais e uma creche, registrava, ainda, a terceira pior escolaridade média entre pessoas com 25 anos ou mais –apenas 5,9 anos de estudo.

“Se você tem a tal da elite branca que faz o protesto, você ainda permite o governo sustentar essa narrativa de que o protesto é choro de perdedor. Isso está ficando cada vez menos sustentável. Você já tem, inclusive em classes com menos dinheiro e educação, algum nível de consenso pela responsabilidade da presidente e do partido dela pela crise”, opina o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie.

E quem tem medo de que a crise piore ainda mais, achou melhor ficar longe dos protestos, como Cátia Maria Marcelino, de 33 anos. Dona de uma loja de roupas e acessórios num beco da comunidade, ela se diz preocupada com a queda no movimento e teme um retrocesso econômico ainda maior. Segundo ela, derrubar a presidente sem alternativas concretas é “absurdo e perigoso”.

“O problema é que todos os partidos têm as mãos sujas. O que precisam fazer é continuar investigando e punir quem rouba. Se tirar a Dilma, entra o vice dela, que é corrupto. Se não for ele, tem o [presidente da Câmara] Eduardo Cunha, que é corrupto. Sobra quem? O PSDB e o PMDB, que também estão cheios de suspeitas? Esses dois aí só pensam em ajudar os ricos. Tenho a sensação de que estamos andando para trás”, lamenta Cátia.

“Todos os ricos foram”

Opinião semelhante tem o porteiro Manuel, de 40 anos. Morador do alto do morro, ele trabalha num edifício à beira-mar. Ele estava trabalhando no domingo, mas garante que, mesmo se tivesse tempo, não iria para as ruas porque “só havia ricos protestando”.

“Eu via no prédio onde trabalho. Todos os ricos foram. E rico não gosta do PT e de pobre. Rico só gosta do trabalho dos pobres. Não podemos confiar em quem defende os ricos. Votei no Lula, na Dilma e, se ele se candidatar em 2018, voto nele de novo. Pelo menos, eles pensam na gente. Dilma foi eleita e tem que ficar. Só não sei se ela vai ter força, esse negócio está muito embaraçado”, opina Manoel, pedindo para não ter o sobrenome revelado.

Milhares de manifestantes protestaram neste domingo em Copacabana

Segundo o cientista político Valeriano Costa, pesquisador da Unicamp, o não comparecimento das classes sociais mais baixas aos protestos se explica. Além da desconfiança quanto ao que está sendo discutido, o discurso dos organizadores não é dirigido aos interesses e preocupações dessa camada da população.

“Por exatamente serem pessoas que têm questões básicas de sobrevivência, elas têm, primeiro, um medo muito grande de perder o que ganharam. Não é sobre questões sociais e políticas públicas que está se falando nas manifestações, mas sobre um tema que toca diretamente uma classe média que, na verdade, se considera a grande vítima do Estado, do imposto de renda alto, das políticas sociais pesadas”, observa.

Para Jacinto Pedro da Costa, de 42 anos, protestar não adianta nada. Ele votou no PT nas últimas eleições e, decepcionado, diz que não pretende repetir a escolha. Nascido e criado no Pavão-Pavãozinho, ele se diz apartidário e promete pesquisar muito bem antes de decidir em quem votar no futuro. Mas, ele acredita ser injusto atribuir somente ao PT os problemas do país. E arrisca: se outros partidos fossem melhores, trabalhariam juntos por uma reforma política.

“Existem empresários ricos que não querem só derrubar a Dilma, mas querem acabar com o PT. Não é justo, mesmo que tenham cometido erros. Por causa do PT consegui abrir minha primeira conta em banco, consegui crédito para comprar as coisas e colocar mais comida dentro de casa. A corrupção fez os poderosos de todos os partidos se misturarem”, queixa-se Costa, porteiro de um edifício na vizinhança.

FONTE: http://www.dw.com/pt/do-alto-do-morro-outra-vis%C3%A3o-dos-protestos/a-19116649

PT: é o bode fedorento na sala de estar da política brasileira

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Acompanhando com alguma atenção as análises feitas no “day after” dos “coxinhatos” pelo Brasil afora, vejo ainda alguns analistas e políticos sem mandato se refastelando com o que eles percebem ser a colocação do Partido dos Trabalhadores (PT) como o símbolo da corrupção no Brasil. Alguns mais afoitos, como o “expert” e suposto filósofo Luiz Fernando Pondé, o colunista favorito das noites da Rede Globo, equipara o PT a uma seita que estaria em um anticlímax apocalíptico rumo ao seu juízo final.

Eu diria que nem tanto ao céu, nem tanto à terra. É que mesmo se provadas as principais acusações sendo feitas no âmbito da Operação Lava Jato, o PT não é nem de perto o partido que possua mais políticos barrados pelos variados tipos de crimes na constelação partidária brasileira (ver gráfico abaixo).

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Aliás, o PSDB tem bem mais gente enrolada neste momento, a começar pelo governador do Paraná, Beto Richa. MAs depois ainda temos PMDB, PP, PR, PSB, PTB e PSD com mais candidatos barrados. Como outros tantos devem ter passado pelo crivo dos tribunais, não há porque se imaginar que os partidos com mais candidatos barrados sejam que tenham detentores de cargos de caráter mais ilibado. 

Mas vá lá, que o mundo dos contos de fadas malvadas que foi criado pela mídia corporativa se transforme em realidade, a retirada de Dilma Rousseff e do PT do controle do governo federal longe de resolver a crise poderá significar um aumento inédito na instalabilidade política no Brasil.

É que usando outra metáfora zoológica, o PT se transformou numa espécie de bode na sala de estar da política brasileira. Se tem alguém que acha que ao retirá-lo de cena as hordas revoltadas da classe média e das elites que foram às ruas ontem serão acalmadas, indico que procurem ver o que efetivamente aconteceu com os senadores Aécio Neves e Aloysio Nunes, e com o governador Geraldo Alckmin e Aloysio Nunes nas mãos dos que deveriam tê-los recebido em glória. 

Além disso, alguém acha que se conseguirem tirar o PT do poder, a maioria pobre desse país não vai exigir o mesmíssimo tratamento para todos os outros partidos? E como os pobres não desfilam bebendo champanhe importado, o risco de instalabilidade contínua com a retirada do bode da sala será enorme. A ver!

Com um chargista como esse, quem precisa do Oráculos de Delfos?

Situado em Delfos na antiga Grécia, o Oráculo de Delfos era dedicado principalmente a Apolo e centrado num grande templo, ao qual vinham os antigos gregos para colocar questões aos deuses. Neste templo, as sacerdotisas de Apolo (Pitonisa) faziam profecias em transes. As respostas e profecias ali obtidas eram consideradas verdades absolutas.

Pois bem, a que mais poderia relacionar a charge que circula há tempos na internet com uma fotografia produzida em Copacabana no protesto deste domingo (13/03) senão uma incrível reincarnação de um das pitonisas de Delfos no chargista que a produziu de forma tão premonitória?

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Falem o que falarem esses que supostamente acorrem às ruas do Brasil para supostamente protestar contra a corrupção nos governos do PT. Mas a verdade nua e crua, e que a combinação da charge com a fotografia sintetiza, é que um bom número dos que protestam tem outro foco em sua ira, qual seja, os parcos avanços sociais que foram realizados por Lula e Dilma.  Simples, mas ainda assim, extremamente reveladores da nossa incrível pirâmide social.

E que ninguém estranhe que as empregadas domésticas sejam o primeiro alvo de um governo que emerja de um afastamento precoce de Dilma Rousseff do cargo para o qual ela foi eleita. É que as elites adorariam não ter mais que pagar férias, FGTS e 13o. daquelas mesmas pessoas a quem deixam os seus filhos para serem cuidados.

Governo Dilma: um caso clássico de boi de piranha

boi de piranha

Enquanto centenas de milhares de brasileiros, brancos em sua maioria esmagadora, se preparam para ir às ruas protestar contra a corrupção no governo federal vestindo a camisa da CBF (sou só eu que vejo uma tremenda ironia nisso?), uma questão básica continua me incomodando: será que alguém na Procuradoria Geral da República vai um dia tecer as relações das empreiteiras com o financiamento de campanhas em níveis estadual e municipal para verificar se não existem por ai vertedouros iguais ou maiores do que se encontrou na Petrobras?

É que até onde eu sei, as empreiteiras que hoje delatam pelos cotovelos suas relações com os governos do PT em Brasília também possuem contratos graúdos com estados e municípios. E por que até hoje não se explorou esse viés? 

Peguemos à guisa de exemplo o caso da Odebrecht. Em quantos projetos graúdos a empreiteira está ou esteve envolvido no estado do Rio de Janeiro. Eu me lembro logo da reforma do estádio do Maracanã (da qual a empresa se tornou controladora!), mas se procurarmos bem, acharemos outros inúmeros casos. Será que as práticas não republicanas ficaram contidas todas esses anos em Brasília e restritas aos mandatos de Lula e Dilma? Dificilmente!  

Por que então ninguém vai além da Petrobras? Alguém poderia dizer que o caso da petroleira já toma muito tempo dos procuradores em Curitiba. Sim, mais uma razão para decentralizar as apurações em torno das relações da Odebrecht e outras empreiteiras com outros níveis de governo e partidos políticos além do PT, não é?

O fato é que, cada vez mais, fico com a impressão que o cerco e a tentativa de derrubada do fraco governo Dilma, via a exploração do que aconteceu na Petrobras desde sempre, é apenas uma aplicação prática da tática empregada no Pantanal matogrossense para cruzar boiadas em rios infestados por piranhas, onde um animal doente e velho é colocado para cruzar primeiro e ser devorado para que o resto dos animais passem intactos. Em outras palavras, a derrubada de Dilma Rousseff servirá mormente para que tudo fique sempre onde esteve na ordem política, enquanto se trabalha para incorporar o Brasil de forma ainda mais subordinada ao sistema capitalista financeirizado.

Uma última reflexão vai para os que marcharão hoje. Em todas as outras manifestações dessa natureza, o que eu vi foram expressões puras de ódio de classe travestidas de combate à corrupção. Como se sabe que a corrupção no Brasil é algo sistêmico, a única coisa que eu posso inferir é que a classe média (as elites então nem se fale) se move por objetivos que nada têm para melhorar o nosso país que continua profundamente socialmente injusto. E, pior, se os prognósticos do que virá pela frente em termos de política econômica pós-Dilma se confirmaram, o que teremos é que muitos dos que vão hoje protestar por causa da corrupção vão ver seus sonhos de consumo e ascensão social serem esmagados. Bom, não sei se isso é um consolo, mas é uma forte possibilidade.