Crítica à exportação de agrotóxicos altamente tóxicos produzidos na Suíça e na UE para o Brasil

Padrões duplos na proteção da saúde humana e do Ambiente. Protestos contra a Ministra da Agricultura Tereza Cristina durante a Semana Verde em Berlim

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Protesto contra a Ministra da Agricultura do Brasil durante a Semana Verde em Berlim Fonte: Chris Grodotzki / GREENPEACE

Por Von Ulrike Bickel para a Amerika21

Zurique / Berlim. A organização suíça Public Eye acusa o grupo agrícola Syngenta de exportar toneladas do inseticida altamente tóxico profenofós da Suíça para o Brasil, 37 toneladas somente em 2018. Este inseticida, um organofosforado, está proibido em solo suíço por causa de seu perigo para os seres humanos e o meio ambiente desde 2005. Segundo a ecotoxicologista Nathalie Chèvre, da Universidade de Lausanne, o profenofós é uma neurotoxina como Sarin. No Brasil, é um dos agrotóxicos mais comuns na água potável, escreve Public Eye em um relatório de pesquisaO profenofós usado principalmente no cultivo de algodão, milho, beterraba, soja, batata e legumes.

O maior número de agrotóxicos no mundo é usado no Brasil, com aproximadamente 7,3 litros de consumo de agrotóxicos per capta por ano . Além disso, mais de 1.200 novos agrotóxicos foram autorizados pelos governos dos presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro nos últimos três anos .

A Syngenta, líder global em produtos químicos para proteção de culturas, teve mais de US $ 10 bilhões em vendas em 2018 e é a única empresa autorizada a vender agrotóxicos que contêm profenofós no Brasil. Segundo a Public Eye, apenas as vendas da Syngenta devem responder por cerca de um quarto do mercado global da profenofós, que é de cerca de US $ 100 milhões por ano.

Como resultado das revelações sobre as exportações da Syngenta, a conselheira nacional suíça Lisa Mazzone (Verdes) já havia feito campanha pela “proibição de exportação de agrotóxicos proibidos na Suíça” no final de 2017, e contou com o apoio de 41 parlamentares de todos os campos políticos. No entanto, a iniciativa parlamentar foi anulada porque o período de dois anos para seu tratamento havia expirado. O Conselho Federal reconheceu em 2018 que o uso desses agrotóxicos, principalmente nos países em desenvolvimento, poderia causar sérios problemas de saúde ou ambientais, mas considerou uma proibição de exportação “não proporcional”.  O Conselho Federal prefere a adoção de medidas que “restrinjam menos a liberdade econômica”.

Agora, no contexto do “Pacote Ambiental”, o Conselho Federal só quer mudar a regulamentação suíça de agrotóxicos nesta primavera, para que as exportações de pesticidas proibidos na Suíça dependam de consentimento prévio e expresso do país importador. A Syngenta rejeitou esta emenda ao regulamento “porque levaria a uma regulamentação ineficaz e desnecessária que colocaria em risco a atratividade da Suíça como local de produção”.

Paralelamente à Semana Verde em Berlim, cerca de 40 pessoas do Greenpeace, do Centro de Pesquisa e Documentação Chile-América Latina, e a Rede de Informações e Ações Foodfirst se manifestaram contra a ministra da Agricultura do governo de extrema direita do Brasil, Tereza Cristina, que estava presente no evento. Tereza Cristina foi a porta-voz do grupo de deputados de proprietários de terras (a chamada “Bancada Ruralista”) no parlamento brasileiro, e ficou conhecida em todo o país por meio de uma lei que ela havia introduzido para facilitar a aprovação acelerada de agrotóxicos. Isso lhe rendeu o apelido de “musa de venenos agrícolas” ou “rainha do veneno”. Em seu primeiro ano no cargo, Tereza Cristina aprovou recentemente 503 agrotóxicos, muitos deles proibidos na Europa. Na crítica, Tereza Cristina também se destaca porque promove o cultivo de culturas geneticamente modificadas (OGMs), e está comprometida com a legalização de terras ilegalmente apropriadas às custas de pequenos agricultores, povos indígenas e reservas naturais.

No final de novembro de 2019, o Ministério Federal Alemão de Cooperação e Desenvolvimento Econômico assumiu 81,9 milhões de euros em novos compromissos em negócios bilaterais com o Brasil, incluindo 40,4 milhões em projetos do Ministério da Agricultura.

A Pestizid-Action-Netzwerk eV há muito critica o fato da União Europeia aplicar padrões duplos para a proteção da saúde e do meio ambiente. Por exemplo, agrotóxicos altamente perigosos, que há muito são proibidos na Europa, podem continuar sendo exportados para países em desenvolvimento e lá podem causar sérios danos à saúde humana e ao meio ambiente. Muitos agrotóxicos podem ser encontrados em grandes quantidades nos solos e na água em todo o mundo,. Os agrotóxicos são os principais responsáveis ​​pelo dramático declínio da biodiversidade e causam uma série de doenças graves.

Portanto, juntamente com a organização de ajuda católica Misereor, Slow Food Germany e Bioland, em novembro de 2019, o governo alemão pediu a proibição mundial de agrotóxicos altamente perigosos e interrompeu imediatamente a exportação de agrotóxicos proibidos na Alemanha. Alternativas práticas à proteção química das culturas e formas de agricultura mais ecologicamente compatíveis estão disponíveis e devem ser implementadas.

Ontem, em Berlim, 27.000 pessoas foram às ruas pela décima vez na manifestação “Estamos fartos” por uma “reviravolta agrícola”, ou seja. para agricultura amiga dos animais, do ambiente e do clima, em vez de agricultura industrial. O protesto também foi dirigido contra o Acordo da União Europeia com o Mercosul, que, entre outras coisas, reduzirá as tarifas sobre as exportações europeias de agrotóxicos de 14 para 0%, e pede “comércio justo mundial, respeito aos direitos dos agricultores em todo o mundo, e proteção consistente das florestas”.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Amerika21 [Aqui!].

Brasil consome 18% dos agrotóxicos do mundo, mesma porcentagem dos Estados Unidos

Relatório da ONG Public Eye mostra que a Syngenta despeja no país 32% de seus produtos classificados como “extremamente tóxicos”; multinacional fica na Suíça, país que não autoriza o consumo interno desses pesticidas

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Foto: Pixabay

Por Maria Lígia Pagenotto para o site “Desacato”

O Brasil e os Estados Unidos se igualam no consumo de agrotóxicos, apesar da diferença de população e da área agrícola cultivada. Os dois países respondem por 18% do total de pesticidas utilizados no mundo, segundo relatório da organização não governamental suíça Public Eye divulgado ontem (22), com dados de 2017.

A distribuição por países é completada pela União Europeia, com 13% do total, e por China e Argentina, com 11% cada. Menos de um terço dos agrotóxicos (29%) são consumidos por todos os demais países do mundo.

Public Eye organizou dados sobre agrotóxicos por países. (Imagem: Reprodução)

Brasil, China e Argentina representam cerca de 40% do total de agrotóxicos consumidos em 2017, corroborando a tese da Public Eye de que mais da metade do uso de pesticidas no mundo ocorre em países de baixa e média renda. Estados Unidos e União Europeia somam 31%.

Esses números foram estimados pela organização a partir de dados da indústria e das estatísticas oficiais de cada país.

SYNGENTA VENDE NO BRASIL 51 PRODUTOS PROIBIDOS NA SUÍÇA

A Public Eye chama atenção para os produtos fabricados pela multinacional Syngenta, com sede na Suíça, uma das principais indústrias de agrotóxicos qualificados como “extremamente tóxicos”.

Em 2017, a empresa faturou, de acordo com a ONG, US$ 3,9 bilhões. O Brasil tem expressiva participação nesse mercado, como mostra o relatório, intitulado “Lucros de Alto Risco – como a Syngenta fez bilhões vendendo pesticidas tóxicos“.

Protesto na Suíça contra a Syngenta. (Foto: Dominik Plüss/Public Eye)

O levantamento da Public Eye mostra que cerca de um terço dos produtos disponíveis para venda na Syngenta corresponde à classe de substâncias altamente perigosas classificadas pela Pesticides Action Network, a PAN, uma rede internacional de ação contra os pesticidas.

Das substâncias altamente tóxicas produzidas pela empresa (quinze, segundo a ONG), 32% são consumidas no Brasil – o país que mais compra essa classe de venenos. Os Estados Unidos respondem pela fatia de 19% do consumo desses produtos; em seguida estão Argentina, 6%; China, com 4%; e França, com 2%.

Cinquenta e um dos 120 ingredientes ativos de pesticidas produzidos pela Syngenta comercializados em vários lugares, inclusive no Brasil, não estão autorizados para uso na Suíça, por conta do impacto que provocam na saúde e no meio ambiente.

EM 1990, PAÍS CONSUMIA 3% DOS AGROTÓXICOS NO MUNDO

Os números relativos ao Brasil apontam franca ascensão do consumo de agrotóxicos. Em 1990, o país respondia por apenas 3% dos volumes globais, estimado em 1,8 milhão de toneladas. Desse total, 75% estava concentrado em países de alta renda. Em 30 anos, o consumo mundial subiu para 3 milhões de toneladas ao ano. O relatório mostra que o crescimento nesse período se deu justamente em países de baixa renda.

Ativistas do Greenpeace em campanha contra o glifosato na Europa. (Foto: Greenpeace)

No Brasil, o emprego de agrotóxicos hoje é nove vezes maior do que em 1990, colocando o país como o maior usuário do mundo, ao lado dos Estados Unidos, com cerca de 540 mil toneladas de pesticidas aplicados em 2017.

Se depender do governo, o Brasil tende a se manter à frente desse ranking. Somente nos cem primeiros dias na Presidência, Jair Bolsonaro, por meio do Ministério da Agricultura, aprovou 152 novos agrotóxicos. De Olho nos Ruralistas contou em março quais são as empresas beneficiadas por essas liberações, das mais conhecidas, como a própria Syngenta, às mais desconhecidas.

Os dados mostram ainda que cerca de 370 mil toneladas de pesticidas “altamente tóxicos” foram pulverizados na produção agrícola do Brasil  em 2017 – o que corresponde a aproximadamente 20% do uso mundial. Entre esses produtos, três são classificados pela PAN como cancerígenos, dois são acusados de causarem problemas endócrinos e outro de provocar doenças congênitas.

O relatório divulgado serviu como base para uma nova denúncia pública da Public Eye contra a Syngenta. A principal acusação é que a empresa lucra com a venda de substâncias altamente tóxicas para países como o Brasil (o maior comprador), enquanto na Suíça esses pesticidas não podem ser comercializados.

1/4 DOS MUNICÍPIOS TEM ‘COQUETEL’ DE VENENOS NA ÁGUA

Os agrotóxicos no Brasil contaminam também a água: resíduos de pesticidas foram encontrados em 86% das amostras de água potável testadas em 454 municípios com uma população de 33 milhões de habitantes, conforme relata a ONG. Um nível de contaminação muito superior ao encontrado na Suíça ou em outros países da União Europeia.

 

Embalagens de agrotóxicos no Rio Santa Maria da Vitória, no Espírito Santo. (Foto: Reprodução)

Nessas localidades, apenas 0,1% das amostras de água potável ultrapassa o limite de 0,1 microgramas por litro, enquanto no Brasil 12,5% dos resultados dos testes encontraram resíduos de pesticidas acima dessa concentração.

Outro dado alarmante do relatório: um coquetel de 27 substâncias tóxicas foi encontrado, com regularidade, num período de quatro anos, na água potável de 1.396 municípios municípios brasileiros. Sete dessas substâncias são atualmente vendidas pela Syngenta no Brasil.

Dos mil tipos de agrotóxicos identificados em todo o mundo, 310 são classificados como extremamente perigosos pela PAN. A indústria de agrotóxicos, de forma geral, lucra 42% com a venda dos pesticidas mais prejudiciais à saúde – segundo o documento da Public Eye, isso equivalia, em 2017,  a US$ 22 bilhões.

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Este artigo foi originalmente publicado pelo site “Desacato” [Aqui!]

Syngenta lucra no Brasil com venda de agrotóxicos proibidos na Suiça

Três milhões de toneladas de agrotóxicos são espalhados a cada ano em todo o mundo, especialmente no Brasil. Em seu relatório publicado na segunda-feira, a Public Eye acusa a Syngenta de ganhar bilhões de francos com produtos proibidos na Suíça.

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A organização não-governamental (ONG) suíça Public Eye, fundada em 1968, realizou uma nova denúncia pública contra a Syngenta, companhia do mesmo país que produz agrotóxicos. A entidade afirma que o modelo de negócios da empresa se baseia na venda de substâncias altamente tóxicas, vedadas pelas autoridades da Suíça.

O posicionamento da Public Eye, veiculado pela rede pública de comunicação RTS, ocorreu esta semana após uma liberação recorde de novas substâncias pelo governo Jair Bolsonaro (PSL). O Brasil, segundo a ONG,  cumpre um papel fundamental nos negócios da Syngenta. 

A entidade afirma que, de todos os agrotóxicos vendidos no mundo, 310 são qualificados como extremamente perigosos pela Pesticide Action Network (Rede de Ação sobre Pesticidas, em inglês). Pelos cálculos do Public Eye, 42% das receitas da indústria de agrotóxicos são provenientes da venda desse tipo de veneno, o equivalente a 22 bilhões de francos suíços, na estimativa de 2017. 

principais mercados Syngenta

Mercado brasileiro representou 32% das vendas de agrotóxicos extremamente perigosos da Syngenta em 2017.

A Syngenta é parte importante deste montante: de acordo com a ONG, de 32 substâncias que a empresa comercializa, 15 são extremamente perigosas. “Apenas em 2017, estimamos que a Syngenta tenha lucrado 3,9 bilhões de francos com substâncias extremamente perigosas”, afirmou Geraldine Viret, porta-voz da Public Eye, à RTS. 

O Brasil ocupa uma posição crucial no modelo da Syngenta. Daqueles 3,9 bilhões de francos, 32% foram obtidos com a venda para o Brasil, que o ocupa o primeiro lugar nas vendas de extremamente perigosos, seguido pelos EUA. 

“No Brasil, a agroquímica e o agronegócio podem tudo. E as empresas como a Syngenta também. Lá, há cada vez mais e mais estudos mostrando as taxas de mal formação congênita, as taxas de câncer e de outras doenças crônicas muito elevadas em regiões nas quais a maior parte dos agrotóxicos são empregados”, apontou Viret. 

Roman Mazzota, diretor da Syngenta na Suíça, afirmou que, apesar da liberação brasileira de produtos vedados no próprio país, a regulação no Brasil é tão rigorosa quanto no país que sedia a companhia.

“É verdade que as autoridades brasileiras chegam a uma conclusão diferente. Eu não nego isso. Mas o fato de as autoridades brasileiras decidirem de forma diferente do que o Public Eye teria gostado não significa que as autoridades brasileiras sejam incapazes”, rebateu. 

* Colaborou Rafael Tatemoto.

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Esta matéria foi originalmente publicada pelo jornal Brasil de Fato [Aqui!]