Maurício Tuffani analisa o rebaixamento do “trash science” no Qualis Capes

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O jornalista Maurício Tuffani que vem há algum  tempo noticiando a contaminação da produção científica brasileira por revistas predatórias e reprodutoras de lixo científico agora nos dá as novas em seu blog hospedado na Folha de São Paulo sobre o início da limpeza que a Capes no seu ranking de publicações científicas.

Apesar de considerar que este início é ainda tímido, já que muitas revistas sequer deveriam ser incluídas em qualquer ranking que se pretenda sério, alguma coisa é melhor do que nada. Principalmente porque sinaliza a intenção de acabar com o faroeste caboclo em que estávamos envolvidos por causa do apoio explícito de aumentar a quantidade de publicações sem que se olhasse para a qualidade. Com isso, uma série de  de docentes terão que repensar seus caminhos.

Uma coisa que me preocupa é sobre se essa primeira limpeza vai ficar por ai ou se começaremos uma verdadeira discussão das causas da incapacidade da ciência brasileira de produzir com qualidade e na quantidade em que o Brasil requer.  

De toda forma, agora que o gato foi colocado para fora do saco, vamos ver se mais pesquisadores ousam falar do problema. É que foi a indisposição da maioria de confrontar, ou sequer reconhecer, a existência do problema é que chegamos à situação vergonhosa de rotular de ciência o que não passa de lixo científico.

Capes rebaixa revistas científicas de má qualidade

POR MAURÍCIO TUFFANI

Má notícia para professores universitários, pesquisadores e pós-graduandos brasileiros que andaram publicando nos chamados periódicos predatórios, aquelas revistas acadêmicas que aceitam artigos sem os submeter previamente a uma rigorosa avaliação conforme os padrões tradicionais da comunidade científica, mas também sem deixar de lucrar cobrando taxas de autores.

Nada indica que parece ser a grande limpeza que precisa ser feita. Mas muitas publicações desse tipo começaram a ser rebaixadas e até mesmo eliminadas da classificação que tiveram na avaliação trienal de 2010 a 2012 feita pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do Ministério da Educação.

A classificação de revistas científicas pela Capes tem sete níveis —A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C, em ordem decrescente. Acessível pela base de dados on-line Qualis Periódicos, ela tem sido amplamente usada em processos seletivos para contratações e promoções de docentes e pesquisadores e também em avaliações individuais para concessões de bolsas e auxílios à pesquisa.

PREJUÍZO

Os periódicos predatórios são desprestigiados por cientistas mais conceituados e também por instituições de pesquisa de destaque. O motivo disso é que essas revistas não só facilitam a publicação de trabalhos de baixa qualidade, mas também porque sua má reputação prejudica os bons estudos que elas possam veicular. E pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários, que são quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil.

Com a ajuda de alguns pesquisadores, este blog revelou em março deste ano uma primeira relação dessas publicações e a ampliou no mês seguinte (“Sobe para 235 a lista de predatórios da pós-graduação brasileira”).

As novas avaliações, que são relativas a 2013 e 2014, estão acessíveis desde segunda-feira (21.set) em outra base de dados da Capes, a Plataforma Sucupira, que passou a integrar informações de vários programas da agência.

LIMPEZA COMPLETA

Casos típicos de periódicos predatórios que foram eliminados nas novas avaliações da Capes foram “Transactions on Biology and Biomedicine“, “Transactions on Computers”“Transactions on Environment and Development” e “Transactions on Power Systems”. Os quatro são publicados pela editora chinesa WSEAS (World Science and Engineering Academy Society), famosa na internet por promover conferências científicas caça-níqueis.

Também não houve chance nas novas avaliações da Capes para o “Trends in Applied Sciences Research”, que havia sido classificado nas áreas de Geociências (B4), Interdisciplinar (B4), Biotecnologia (B5) e Biodiversidade (C). O periódico é editado pela Academic Journals Inc., que tem 57 revistas com códigos ISSN registrados nos EUA e indica endereço nesse mesmo país. No entanto, seu domínio de internet é de Faisalabad, no Paquistão, onde, de fato, estão suas operações editoriais.

DUROS DE MATAR

Mas ainda não dá para comemorar. Apesar de não terem mais registro em algumas da áreas em que foram pontuadas anteriormente, muitas revistas de publishers acadêmicos de má reputação ainda sobrevivem no Qualis Periódicos. Isso acontece pelo simples fato de elas continuarem com algumas classificações, por mais baixas que sejam, em vez de serem definitivamente descartadas.

Embora não tenham sido eliminadas como as quatro revistas da WSEAS apontadas acima, pelo menos foram rebaixadas em suas classificações todas as outras 13 revistas dessa editora que também haviam sido pontuadas na avaliação de 2010-2012 da agência do Ministério da Educação.

É o caso também do “African Journal of Agricultural Research”, publicado pela editora nigeriana Academic Journals (não confundir com a do parágrafo anterior, embora sejam ambas predatórias), que tem 13 revistas classificadas no Qualis. Enquanto isso, na Malásia o Ministério da Educação Superior não reconhece e também não dá apoio para artigos publicados por esse publisher, como já mostrou este blog ( “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, 7.mar).

Esse periódico nigeriano não só deixou de constar com a elevada —e absurda— classificação A2 que havia obtido no grupo Administração, Ciências Contábeis e Turismo, mas também nem sequer foi incluído nessa área nas avaliações de 2013 e 2014. A não inclusão também aconteceu no segmento Interdisciplinar, no qual a revista havia sido classificada como B1, como mostra a tabela a seguir.

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VAI LONGE

Além das duas não inclusões acima indicadas, o “African Journal of Agricultural Research” teve também dois rebaixamentos (de B2 para B3 em Biodiversidade, e de B2 para B5 em Engenharias III). Apesar de sua péssima reputação internacional, bastaria manter essas duas classificações para ele permanecer no Qualis como alternativa para professores, pesquisadores e pós-graduandos que não conseguem coisa melhor.

Essa revista também teve estabilização em seis outras áreas e uma única “promoção” (de B4 para B3 em Ciência de Alimentos). Sem falar na inclusão em Arquitetura e Urbanismo (B4), Ciências Ambientais (B2), Ciência da Computação (B5), Economia (B4) e até mesmo nas mais exigentes Ciências Biológicas III (C)  e Química (C) , que pelo menos aplicaram a classificação mais baixa, mas mainda assim permitem espaço para artigos que merecidamente podem ser considerados lixo acadêmico.

Houve também desclassificações e rebaixamentos de outros periódicos “famosos” que pretendo comentar nos próximos dias. Ainda é cedo para saber se eles serão excluídos na próxima avaliação, que será quadrienal (2013-2016).

LIXO ACADÊMICO

Concluída em 2013, a avaliação trienal de 2010-2012 do Qualis Periódicos envolveu cerca de 2 mil especialistas, distribuídos por 48 comitês assessores da Capes, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores.

Apesar de não ser ainda a limpeza que tem de ser feita e de a avaliação quadrienal 2013-2016 ainda estar em curso, as informações parciais de 2013 e 2014 indicam que a divulgação sobre o chamado “lixo acadêmico” começou a fazer efeito.

O que importa é que agora, com a atualização do Qualis na Plataforma Sucupira, será possível para a comunidade acadêmica monitorar o processo antes da conclusão da avaliação quadrienal. E, quem sabe, teremos melhores condições para compreendermos se esse tipo de avaliação de periódicos realmente funciona.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/09/23/capes-rebaixa/

Trash science: depois de negar o problema, CAPES começa a limpar o Qualis Capes

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Após objetivamente negar o problema da contaminação do Qualis Capes por revistas predatórias em matéria feita pelo jornalista Maurício Tuffani (Aqui!), a Capes parece ter começado o necessário esforço para deixar de reconhecer centenas de revistas “trash” como fontes de produção científica qualificada. Esta informação foi passada a todos os coordenadores de programas de pós-graduação reconhecidos pela Capes, numa mensagem tão breve quanto direta:  

Prezados Coordenadores seguem algumas informações sobre os títulos de periódicos suprimidos pelo JCR, Editores e Revistas consideradas predadoras (que sairão do Qualis caso não tenha cites per doc ou JCR)”

A mesma mensagem ainda traz a lista de editoras predatórias organizada pelo professor da University of Colorado-Denver, Jeffrey Beall, o que pode ser entendido como uma indicação aos pesquisadores brasileiros de que evitem várias centenas de revistas pseudo-científicas que vinham engordando a produção científica dos programas de pós-graduação certificados pela Capes.

Como o professor Beall deverá vir ao Brasil no final de maio para participar do 4o. Congresso Mundial de Integridade na Pesquisa, evento que ocorrerá na cidade do Rio de Janeiro, é provável que a Capes esteja evitando novos embaraços públicos frente aos pronunciamentos que esse especialista em “trash science” deverá fazer. 

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De toda forma, vamos esperar que a partir de agora a Capes pare efetivamente de premiar programas contaminados por produções científicas que não valem nem o papel em que são impressos. E, sim, que essa postura saneadora se estenda também ao CNPq, onde o processo de concessão de bolsas de produtividade e concessão de fomentos também deve estar sofrendo com essa contaminação da ciência trash. A ver!

Trash science e a contaminação dos concursos públicos nas universidades brasileiras

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Venho falando aqui neste blog dos problemas causados pela difusão em ritmo espetacular de publicações de baixa qualidade em revistas com nível ainda mais baixo sobre o processo de alocação de recursos financeiros pelas agências de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Por sua vez, o jornalista Maurício Tuffani já alertou em seu blog hospedado no site do jornal Folha de São Paulo sobre a presença de revistas predatórias (i.e., produtoras de lixo científico) no Sistema Qualis Capes, o que confere a estas publicações uma legitimidade indevida (Aqui!).

Pois bem, conversando hoje com um colega que acaba de retornar de uma banca de concurso numa universidade pública localizada fora do estado do Rio de Janeiro, ele compartilhou a situação inusitada por que passou ao avaliar o currículo de um candidato que havia acumulado impressionantes número de de artigos num período de dois anos numa revista científica publicada um país sul americano sem muita tradição na área do concurso. A banca, mesmo suspeitando dessa proficuidade concentrada, não teve saída a não ser assinalar o número de pontos a que o montante de publicações fez por um simples e prosaico motivo: a revista em questão estava classificada no Sistema Qualis Capes por 29 comitês, e com notas variando entre B3, B4, B5 e C! Em outras palavras, tinha a chancela de legitimidade que terminou garantindo a aprovação do candidato.  Mas como era de se esperar,  o concurso em questão está sendo alvo de vários recursos, já que os candidatos perdedores se sentiram lesados.

O problema é que esse caso parece estar se repetindo em escala ampliada nos concursos sendo realizados ao longo do território brasileiro! Um perigo que emerge dessa situação é que essa faceta ainda obscura do “trash science” sobre a contratação de docentes pelas universidades públicas poderá ser usada para questionar o rigor e transparência do próprio mecanismo do concurso público via exames de conhecimento e títulos!

Nesse sentido me parece inadiável que se faça uma revisão do processo de ranqueamento no Sistema de Qualis Capes. É que se o sistema nacional de pós-graduação depende de quadros docentes bem preparados, não há como aceitar que a Capes continua ignorando a necessidade de estabelecer critérios que considerem não apenas a quantidade, mas principalmente a qualidade e o impacto do que está sendo publicado.  A falta de ação da Capes neste caso poderá resultar no colapso completo da pós-graduação no Brasil. Simples assim!

Do “Salami Science” ao “Trash Science”: como pudemos afundar tanto e tão rápido no precipício da ciência predatória?

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Em 14 de Dezembro de 2013 usei o espaço deste blog para tratar do problema do “Salami science” que é uma prática bastante conhecida de partir uma mesma pesquisa em diversas publicações com fins de aumento de pontos na comunidade científica (Aqui! e Aqui!). Naquele momento, o número de acessos foi relativamente baixo e a repercussão entre os meus pares na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) foi marcada por uma indiferença quase total. Apenas uns poucos colegas se dispuseram a comentar sobre o que eu estava apontando, e esses eram normalmente os que não tinham a prática de fatiar para multiplicar suas pesquisas. Em suma, quem não devia é que se dispôs a refletir sobre um problema que se espraia pela comunidade científica mundial.

Mas eis que menos de dois anos depois das minhas postagens, nos vemos defrontados com algo muito pior do que o “Salami science” que é a prática ainda mais nefasta (como se o “Salami science” já não fosse extremamente danoso e antiético) que é da publicação de pseudo-artigos em editoras especializadas em publicar lixo científico. Mais uma vez o que eu tenho visto é um silêncio quase ensurdecedor que normalmente ocorre quando ninguém quer falar sobre um crime praticado por uma facção criminosa dentro de uma das centenas de milhares de comunidades carentes que existem no Brasil.

Mas o problema aqui é que não estamos falando de gente pobre e esquecida pelo Estado brasileiro. Aliás, muito pelo contrário, pois ainda são raros os pesquisadores que saíram das camadas mais pobres da população para ocuparem postos em universidades públicas e centros de pesquisa de excelência. E, apesar dos pesares e eles são muitos, ainda há bastante dinheiro público circulando para incentivar a produção da ciência no Brasil.

Então por que este fenômeno de mutismo frente à disseminação de lixo científico que serve para turbinar currículos na Base Lattes do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), e que serve para determinar progressões funcionais, concessão de bolsas de mérito por produtividade científica, e financiamentos de projetos de pesquisa como corretamente apontou em artigo recente (Aqui!) o jornalista Maurício Tuffani? Ao menos para mim, esse silêncio é explicado pela inaptidão da universidade brasileira de exercer o elemento básico da autocrítica que, pasmemos todos, é um dos bastiões da construção de sistemas universitários sólidos. E, além disso, esse silêncio revela que poucos estão dispostos a nadar contra a corrente, pois sabem que esse exercício traz mais riscos do que prêmios.

Agora, um fato que não pode ser escondido é de que ou os dirigentes da CAPES e do CNPq tomam medidas drásticas para banir as publicações predatórias do Qualis Capes para restabelecer critérios de credibilidade nesse ranking ou estaremos diante de um precipício bem fundo, de onde poucos conseguirão se levantar. E o problema é que mesmo na atual fase do Capitalismo, marcado pelo domínio das operações financeiros, a produção de ciência de excelente qualidade é a única forma das universidades contribuíram para o desenvolvimento nacional. Se abdicarmos de cobrar que não premie o lixo científico que bate nas nossas portas com a volúpia em que o lixo urbano invade nossos rios e baías, é melhor logo fechar as portas e partir para outra atividade que seja menos exigente em termos de critérios de validação.

Maurício Tuffani põe o dedo na ferida: lixo científico e o silêncio da academia

THREE

O Qualis e o silêncio dos pesquisadores brasileiros

POR MAURÍCIO TUFFANI

Enquanto aqui no Brasil a comunidade científica praticamente ignora a presença de mais de 200 revistas acadêmicas de reputação suspeita que foram aceitas no Qualis Periódicos, fora do país já começaram discussões sobre essa base de dados serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Tudo começou na semana passada, quando o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos, enviou para uma lista de discussão os links de alguns de meus recents posts sobre sobre a aceitação dessas publicações pela Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de  Pessoal de Nível Superior).

O Qualis abrange cerca de 30 mil títulos, segundo a Capes. Sua classificação nos níveis A1, A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C é usada também em processos seletivos para contratações e promoções e em avaliações individuais e institucionais para concessões de bolsas e auxílios.

Para decepção do colega, eu expliquei a ele que o assunto certamente despertaria muita atenção, mas não geraria muitas discussões, pelo menos publicamente. A apuração que eu realizara até aquele momento já me permitia prever o que acabou acontecendo: o silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros sobre o assunto, apesar de os posts terem .

Acesso livre

Os periódicos predatórios são revistas acadêmicas editadas por empresas que exploram sem rigor científico uma importante iniciativa de comunicação científica que surgiu com a internet. Trata-se do Open Access (acesso aberto), o modelo editorial de publicação de artigos em acesso livre, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no Open Access como no modelo tradicional mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Lixo acadêmico

Os publishers predatórios não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo.

É importante ressaltar que bons estudos também têm sido publicados em periódicos predatórios. Mas isso só agrava o problema, pois significa que salários de pesquisadores, seu tempo de trabalho e recursos para pesquisas acabaram se transformando em artigos largados em publicações desprestigiadas e até mesmo consideradas “lixo acadêmico” pela comunidade científica internacional. No caso do Brasil, quase todo o dinheiro envolvido nessa atividade vem de cofres públicos.

Avisos

Nas entrevistas que realizei, cientistas de alto prestígio nacional e internacional afirmaram que a inclusão dos chamados periódicos predatórios no Qualis era uma falha grave por parte da Capes. Mas quase todos eles pediram para não serem identificados.

No início dessa apuração, o que me deixou intrigado foi o fato de que eu havia selecionado pesquisadores não só com bons currículos, mas também que já haviam assumido posicionamentos autênticos, críticos e firmes sobre questões em torno da ciência no Brasil.

O total de periódicos que listei em meu post Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’ (9.mar) corresponde a 0,67% do total de 30 mil títulos. Isso não seria motivo para tanta preocupação.

Maquiagem

O tamanho da encrenca, porém, começou a ficar claro logo depois. Apesar de esse percentual de predatórios no Qualis ser pequeno, ele mostra uma vulnerabilidade indesejável dessa base de dados. Além disso, esse problema começou a mostrar a conexão com outras aberrações, como a realização deeventos caça-níqueis, em condições até anedóticas e constrangedoras.

Outra distorção que constatei foi a maquiagem serial de trabalhos apresentados em conferências, como se eles fossem artigos aprovados por peer review de periódico. E isso aconteceu em um evento na Unicamp, uma das melhores universidades brasileiras, a única com a USP no ranking das melhores do mundo do Times Higher Education.

Disparidades

Para complicar, minha apuração dos periódicos predatórios do Qualis revelou uma outra esquisitice que atinge dessa base de dados que pode prejudicar publicações de boa reputação: uma mesma revista pode ser classificada em diversos níveis de qualidade. Essa variação não seria problemática se ela se restringisse a níveis de qualidade próximos e envolvesse áreas de especialidades muito distintas.

Acontece que há oscilações que vão desde o pior e mais baixo nível de classificação —aplicável somente a publicações com deficiências extremas— aos mais elevados, relativos a padrões de excelência. E, o que é pior, entre áreas muito próximas  (A avaliação ‘quântica’ de revistas científicas no Brasil, 16.mar)

Estagnação

Como vimos acima, a vulnerabilidade e a inconsistência dessa base de dados indicam que o problema é maior que a presença dos predatórios. Após a criação do Qualis em 1998, houve o crescimento da publicação de trabalhos acadêmicos brasileiros, que na prestigiada base de dados Web of Science quase quadruplicou de 2000 a 2013.

No entanto, os indicadores de qualidade dessas publicações mostraram estagnação nesse mesmo período. Pior: esses índices cresceram em poucas instituições de pesquisa de grande produção quantitativa. Isso matematicamente significa que o conjunto do restante da  produção nacional não estagnou, mas caiu em qualidade.

Iceberg

Nesse mesmo período, currículos têm sido recheados com base nesse crescimento quantitativo sem correspondência na qualidade. Isso influenciou não só contratações e promoções, inclusive salariais —tudo por meio de concursos públicos—, mas também avaliações de produtividade individuais e institucionais, concessões de bolsas e auxílios.

O silêncio quase absoluto dos pesquisadores brasileiros não é, portanto, devido aos predatórios, mas aos os buracos que eles revelam no Qualis. Esses buracos expõem uma parte importante de todo um sistema de avaliação de desempenho no qual carreiras e reputações acadêmicas foram sendo construídas nestes últimos anos.

Limpeza

Remover do Qualis os periódicos predatórios poderia certamente resultar em muitas reclamações e protestos. Isso levaria a Capes e outras instituições a deixarem de contabilizar os artigos publicados nessas revistas.

Mas acredito que de uma forma ou de outra é o que acabará acontecendo. E será muito mais rápido se a defesa da manutenção desses títulos depender dos próprios publishers. (Muitas vezes tenho dificuldades para usar os argumentos deles como defesa.)

Acredito que a eliminação dos predatórios acontecerá apesar do silêncio da quase totalidade dos pesquisadores brasileiros.  Muitos dos coordenadores e coordenadores adjuntos dos 48 comitês assessores da Capes são pesquisadores respeitados em termos de excelência acadêmica e reputação por seriedade. Conheço pessoalmente alguns que certamente não compactuarão com essa avacalhação.

Mas não acredito em uma reformulação que leve nosso sistema nacional de pós-graduação a combater a tolerância com revistas de baixa qualidade. É grande demais o contingente que nos últimos anos se formou, cresceu e adquiriu direitos, inclusive trabalhistas, fazendo uso de publicações fracas e desprestigiadas. E tudo isso aconteceu dentro de nossa tradição brasileira de apostar no crescimento da quantidade com a promessa de um posterior aumento da qualidade que nunca acontece.

Vespeiro

Com essas e outras, dá para entender muito bem o motivo pelo qual alguns célebres pesquisadores não estavam dispostos a dar entrevistas e arrumar mais um confronto na vida. O problema deles era “mexer com um vespeiro”. O célebre “Epitáfio para M.”, de Berthold Brecht (1898-1956), que em tradução livre transcrevo a seguir, ilustra bem o que poderia ser esse embate.

Dos tubarões eu escapei./Os tigres eu matei./Fui devorado pelos percevejos.
(Den Haien entrann ich./Die Tiger erlegte ich./Aufgefressen wurde ich von den Wanzen.)

Entendo eles. Eu mesmo muitas vezes tenho dito que o mais desgastante não é enfrentar leões, mas os bandos de hienas. Felizmente alguns pesquisadores brasileiros já estão passando da preocupação para a indignação.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/04/01/o-qualis-e-o-silencio-dos-pesquisadores-brasileiros/

Avaliação de revistas científicas no Brasil é ‘quântica’

Por MAURÍCIO TUFFANI

 Publication

O grupo editorial alemão Springer, um dos maiores do mundo na área acadêmica, abriu na recente sexta-feira 13 uma investigação sobre uma de suas revistas, a Cell Biochemistry and Biophysics”. Em um comunicado em seu site, o publisher sediado em Berlim afirmou que “a integridade científica do periódico não pode ser garantida”, na medida em que uma apuração interna revelou “um padrão inadequado e comprometido” de seu processo de revisão de artigos científicos.

Um porta-voz do Springer afirmou que o grupo editorial não dará mais informações a respeito do assunto enquanto não for concluída a investigação sobre a revista, informou o blog norte-americano “Retraction Watch”, que monitora correções e retratações de artigos de revistas científicas.

O grupo Springer não pode ser comparado as editoras de reputação duvidosa que têm sido assunto deste blog. O post mais recente sobre isso foi “Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas “predatórias’” (9.mar). Mas constatei que com a “Cell Biochemistry and Biophysics” acontece também um fenômeno interessante que observei em algumas das publicações desses “publishers predatórios” em sua classificação no Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior).

Ao mesmo tempo que recebeu A2, a segunda maior classificação no Qualis, a “Cell Biochemistry and Biophysics” obteve também o grau C, o mais baixo de todos, que se aplica a publicações que nem sequer atenderem a requisitos meramente formais de edição.

Qualis-CBM_ISSN_1085-9195

É importante observar também a pontuação 2,380 dessa revista no chamado fator de impacto, que é um indicador de qualidade referente à média de citações de artigos de um periódico. Comparado ao das publicações científicas brasileiras, esse número é superado apenas pelo da primeira colocada no ranking nacional, a “Diabetology & Metabolic Syndrome” (2,500), e com boa vantagem sobre a segunda colocada, que é a “Revista Brasileira de Psiquiatria” (1,638).

UPara ter uma ideia do que significa da tabela acima, vale a pena ler o artigoO Qualis e a rotina editorial dos periódicos científicos, publicado na terça-feira (10.mar) pela revista “ComCiência”, da Unicamp, por Mônica Frigeri, professora na Puccamp, e por Marko Monteiro, do Instituto de Geociências da Unicamp. Copio aqui um trecho que explica isso.

“As classificações do Qualis são publicadas trienalmente, a partir de critérios definidos pelos comitês de áreas da Capes3, constituídos por membros da comunidade científica. Cada área possui os seus critérios na definição dos estratos dos periódicos que podem ser A1 (nível mais alto), A2, B1, B2, B3, B4, B5 e C (com peso zero).”

Isso significa que para alguns comitês assessores da Capes —entre eles dois de biologia— a “Cell Biochemistry and Biophysics” é muito boa, enquanto para outros —um deles também de biologia— a revista é muito ruim.

Incerteza

Em conversas minhas com alguns pesquisadores sobre casos de classificações esdrúxulas como essa, referentes a “periódicos predatórios”, e não à revista do Springer, houve uma piada recorrente, inspirada grosso modo na mecânica quântica. Grosso modo, essa teoria explica que a observação de um fenômeno é influenciada pelo próprio observador. (Uma boa abordagem sobre essa teoria está em Partículas telepáticas”).

A piada é que, assim como na interferência na observação pelo próprio observador a que se refere a mecânica quântica, a avaliação de um periódico no Qualis parece também ser influenciada do olhar dos integrantes dos comitês assessores da Capes. Foram em média 20 consultores para cada um dos 48 comitês dessa agência do MEC na avaliação trienal do período 2010-2012, concluída em 2013.

Pode ser que a Capes, seus comitês assessores e muitos pesquisadores não vejam nada de engraçado nessa piada. O problema é que parece crescer cada vez a indignação dos que não vêm nada de sério nessa e em outras esquisitices do Qualis.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/16/avaliacao-de-revistas-cientificas-no-brasil-e-quantica/

Trash science no Qualis CAPES: o problema é grave!

Pós-graduação brasileira aceita 201 revistas ‘predatórias’

POR MAURÍCIO TUFFANI
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Acusados no exterior de publicarem artigos científicos sem o rigor e o cuidado dos publishers tradicionais, 11 editores acadêmicos estrangeiros têm juntos pelo menos 201 periódicos cadastrados na mais  recente avaliação trienal(2010-2012) da pós-graduação brasileira, realizada em 2013 pela Capes (Coodenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), órgão do MEC (Ministério da Educação).

Essas 201 revistas estão na base de dados online Qualis Periódicos, da Capes, que reúne cerca de 30 mil títulos e serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos a escolher publicações científicas para seus trabalhos.

Já havia na internet alertas de instituições e cientistas e também reportagens sobre esses 11 editores antes de suas revistas serem avaliadas por 48 comitês assessores, cada um deles com um coordenador e dois coordenadores adjuntos —eleitos por comissões de pós-graduação de todo o país—, com o apoio de, em média, 20 consultores. O trabalho envolveu cerca de 2 mil especialistas.

Falha grave

A inclusão de revistas desses 11 publishers predatórios no Qualis foi considerada como “falha grave” da Capes por 15 cientistas de renome do Brasil ouvidos por este blog nas duas últimas semanas. Quase todos eles, no entanto, preferiram não serem identificados para não se indisporem com a agência do MEC e, sobretudo, com os próprios colegas e suas respectivas equipes que publicam nessas revistas.

As avaliações trienais se baseiam em informações sobre periódicos em que foram publicados artigos no período de apuração, conforme informações prestadas por todas as comissões de pós-graduação. A não inclusão deles no Qualis significaria que artigos publicados neles não contariam pontos para a ascensão na carreira acadêmica nem para solicitar bolsas e apoios a pesquisas, viagens e participações em conferências.

Para 11 desses 15 entrevistados, a responsabilidade pela inclusão dessas revistas no Qualis se deve muito mais a grande parte das lideranças científicas do país, que deveriam impedir, em seus grupos de pesquisa, a publicação de artigos em revistas desses editores “predatórios”. Todos eles consideraram prejudicial para a pós-graduação e para a pesquisa do Brasil a publicação nesses periódicos que são desprestigiados e praticamente desconsiderados pela comunidade científica internacional.

Baixa qualidade

Uma das exceções a esse anonimato foi o biólogo Sidarta Ribeiro, professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte e um dos mais respeitados pesquisadores brasileiros em neurociências. Em junho do ano passado, ele já havia criticado a Capes por “valorizar a quantidade em detrimento da qualidade”, em uma nota na revista “Nature, uma das mais bem conceituadas do mundo, que o escolhera para comentar a ciência brasileira.

Destacando que pesquisas exigem tempo e investimentos em equipamentos, materiais e salários —quase totalmente custeados por recursos públicos no Brasil—, Ribeiro afirmou que trabalhos científicos importantes correm alto risco de serem desperdiçados quando são publicados em periódicos de baixa qualidade. “Essas revistas nunca poderiam ter entrado no Qualis”, disse o neurocientista.

Na sexta-feira (6.mar), como mostrou este blog com o post Falso professor edita revista selecionada pela Capes, três dessas revistas são editadas pela IACSIT (International Association of Computer Science and Information Technology ), sediada em Singapura. Questionado por este blog, Ron Wu, diretor-executivo desse publisher, afirmou o seguinte.

“Por sermos uma editora nova, temos de admitir que não temos comparação nenhuma com as editoras de renome, que têm melhores apresentações, artigos publicados e processo de revisão mais maduro em todos os aspectos dos periódicos. A IACSIT ainda está crescendo, e acho que vamos fazer melhor no futuro.”

Corrupção

Os “publishers predatórios” são caracterizados em sites de instituições de pesquisa e em blogs de cientistas de diversos países como empresários que exploram sem rigor científico o modelo editorial de publicação de artigos em acesso aberto na internet, baseado na cobrança de taxas de autores.

Tanto no acesso livre online, com taxas pagas por autores, como no tradicional modelo mantido por assinaturas anuais ou pela cobrança por artigo baixado pela internet, os periódicos bem conceituados demoram meses e até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los.

Acusados de priorizarem a minimização dos custos e a maximização dos lucros, os “publishers predatórios” não só reduzem a poucas semanas o intervalo entre a apresentação e a aceitação de artigos, mas também são menos seletivos e rigorosos nesse processo, como explicou a repórter Fernanda Perrin em sua reportagem Pagou, publicou, na Folha em 25 de janeiro.

Esses editores se concentram em atender às expectativas dos autores de publicação rápida e fácil, mas ignorar a necessidade da sociedade de somente serem publicadas pesquisas de boa qualidade, segundo o biblioteconomista Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, que mantém desde 2011 uma lista de “potenciais, possíveis ou prováveis publishers predatórios” em seu blog “Scholarly Open Access”.

“Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem”, disse Beall. “A prática de autores que fazem pagamentos aos periódicos criou muita corrupção na publicação acadêmica”.

‘Caça-níqueis’

Além de suas revistas, alguns “publishers predatórios” também descobriram uma nova forma de ganhar dinheiro com eventos. No Brasil, 116 conferências científicas no Rio de Janeiro, agendadas para o mesmo mesmo hotel nos dias 1 e 2 de fevereiro de 2016, foram organizadas pela Waset (World Academy of Science, Engineering and Technology), como mostrou a reportagem Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas” (3.mar).

Apesar da palavra “academia” em seu nome, a Waset é uma editora. Embora divulgue ter sede em Riverside, nos EUA, seu telefone para contato, e somente por SMS, é um celular dos Emirados Árabes Unidos. E, além de inválidos, os quatro registros de suas revistas no Qualis são da Turquia, segundo o cadastro internacional numérico de periódicos ISSN, sediado em Paris.

Sites como o do Laboratório de Tecnologia Quântica, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália, da ENNS (Sociedade Europeia de Redes Neurais) e blogs de cientistas reúnem depoimentos negativos contra a Waset.

Os relatos explicam que as conferências em série se tornam uma só, juntando especialistas de áreas diferentes e servindo apenas para a editora lucrar com taxas de inscrição. A Waset não respondeu às perguntas enviadas terça-feira (2.mar) por este blog sobre esses depoimentos.

Rejeição

Os posicionamentos de instituições contra “publishers predatórios” não acontecem somente em países com forte tradição científica e de publicação acadêmica, mas também nos chamados emergentes.

Como mostrou este blog no sábado (7.mar) com o post “Na ciência, o ruim para a Malásia é bom para o Brasil”, desde 2010 Ministério da Educação Superior daquele país não reconhece artigos de seus pesquisadores em revistas da editora acadêmica nigeriana Academic Journals —que usa nome semelhante ao da norte-americana Academic Journals Inc.— e também não dá apoio para a publicação de estudos nelas.

Mas no Brasil 13 revistas da Academic Journals estão no Qualis, apesar de alertas na internet sobre a má qualidade de publishers acadêmicos da Nigéria em veículos sobre a comunicação científica, como o “SciDev.Net” (21.jan.2013), e pela própria “Nature” (27.mar.2013). Também desde 2010 vários informativos acadêmicos da Malásia já incluíam essa editora em seus lembretes sobre os periódicos não reconhecidos pelo sistema de educação superior do país devido a práticas antiéticas e outras razões.

A Academic Journals não respondeu às perguntas deste blog enviadas na terça-feira (3.mar) por meio de seu formulário “fale conosco”, típico de muitos dos publishers acadêmicos mal-conceituados, que não fornecem e-mail para contato.

Confusão

Outra exceção ao anonimato entre os cientistas que se manifestaram contra a aceitação de “periódicos predatórios” no Qualis foi o físico Roland Köberle, professor aposentado da USP de São Carlos e membro da Academia Brasileira de Ciências. “É muito estranho esse fato”, disse o pesquisador referindo-se à inclusão da editora Waset, de Singapura, pela Capes. Segundo ele, o Qualis tem obrigação de alertar seus usuários sobre revistas fraudulentas.

Além de revistas “predatórias” serem aceitas no Qualis, elas muitas vezes também recebem diferentes classificações de seus 48 comitês de áreas. Um dos exemplos esdrúxulos dessa multiplicidade de avaliações, que não são raros, é o do JMPR” (“Journal of Medicinal Plants Research”), da nigeriana Academic Journals.

Esse periódico recebeu do comitê de Ciências Biológicas I a classificação máxima A1. Não teve A2, mas recebeu o nível imediatamente seguinte, B1, das áreas Interdisciplinar, Ciências Ambientais e Ciências Agrárias I, além de B2 de Nutrição, Biodiversidade, Biotecnologia, Medicina I, Medicina II e Engenharias I.

Mas a classificação da “JMPR” começa a ficar estranha com o baixo nível B3 em Ciência de Alimentos, Farmácia e Educação Física. E piora com o baixíssimo B5 não só do comitê de Química, mas também justamente de Ciências Biológicas II. E, para completar a disparidade de conceito com uma área muito próxima à que lhe deu conceito máximo, a revista recebeu C em Ciências Biológicas III,

Outros lados

Com 120 títulos de periódicos, 11 deles listados no Qualis, o publisher MDPI (Multidisciplinary Digital Publishing Institute), registrado na Suíça, mas com suas operações concentradas na China, ressalta cumprir corretamente o peer review e, destacando que Beall não tem Ph.D., afirma que sua lista negra é “desnecessária e não confiável”. Ao recomendar uma página de seu site com explicações sobre as acusações contra sua empresa, Shu Kum-Lin, presidente do MDPI, afirma:

“Críticas sérias a qualquer artigo publicado em nossas revistas são muito bem-vindas e devem ser endereçadas aos editores delas. Discussões, críticas e propostas para ajudar a melhorar outros aspectos do serviço de publicação em acesso aberto também serão apreciados.”

Sediado na China e com cerca de 200 periódicos, o Scirp (Scientific Research Publishing) tem 38 revistas no Qualis. Seu presidente Barry Zhou recomenda a leitura da página de perguntas e respostas de seu blog e também seus posts de janeiro e de dezembro de 2014, no qual ele afirma:

“A experiência de Beall não é suficiente para fazer uma avaliação científica do conteúdo dos papers em tantos campos diversos. Suas declarações podem ser descartadas.”

Com cerca de 500 revistas, 30 delas no Qualis, o grupo editorial Omics, sediado em Hyderabad, na Índia, que anuncia em seu site “rápido processo de revisão em 21 dias”, respondeu por meio de nota que:

“As revistas de acesso aberto publicadas pelo OMICS Internacional se submetem a um procedimento de verificação obrigatória de qualidade e seguem uma política de padrão de revisão por pares, onde cada artigo submetido sofre um processo de profunda revisão pelos peritos nos domínios relevantes.
(…)
A Omics Internacional tem o orgulho de declarar que somos associados a mais de 1.000 sociedades acadêmicas de reputações bem estabelecidas e a personalidades eminentes que coroam os conselhos editoriais de revistas”

Wenwu Zhao, do CCSE (Canadian Center of Science and Education), com 12 revistas no Qualis, afirmou que o blog “Scholarly Open Access” de Jeffrey Beall, é pessoal e cheio de suposições pessoais e preconceitos, e que ele tenta construir seu próprio nome com a difamação dos outros. Afirmando que o CCSE desenvolveu um sistema sério para a seleção de artigos e que a taxa global de aceitação de trabalhos propostos por autores é de cerca de 55%, segundo ele “mais seletiva do que outros periódicos” nesse ramo. E acrescentou:

“Muitas revistas do CCSE foram indexadas pela Scopus, PubMed e outros bancos de dados de renome, que são mais responsáveis, sérios e rigorosos do que lista de Beall.”

O grupo editorial Benthan Science Publishers, proprietário do “predatório” Bentham Open, que tem 140 títulos em acesso aberto, dos quais com 43 no Qualis, se manifestou em mensagem enviada por seu diretor de publicações Mahmood Alam após o fechamento desta reportagem, na qual afirmou:

“Um processo rigoroso e padronizado de revisão é seguido por todas as nossas publicações. Os editores de nossas revistas desfrutam de total liberdade editorial sujeita aos procedimentos de controle de nosso padrão de qualidade.”

Sem comentar as afirmações do “Scholarly Open Access”, o diretor disse que seu grupo editorial tem 25 anos de atuação “séria” e 39 revistas com fatores de impacto, sendo “algumas delas as principais em seus respectivos campos”. No entanto, os exemplos de periódicos de alto impacto apontados por ele não são, na verdade, publicados pelo Bentham Open, mas pelo Benthan Science, que não adota o acesso aberto.*

Nada a declarar

Além do nigeriano Academic Journals, outros publishers considerados “predatórios” que também não responderam às perguntas deste blog foram David Publishing, com 12 revistas no Qualis, Ijens (International Journals of Engineering and Sciences), com 3, Science Publications, com 14, e WSEAS (World Science and Engineering Academic Society), com 17.

E, praticamente como copia-e-cola do que já disse este blog nos posts de sábado (7.mar) e de sexta-feira (6.mar), vale lembrar que a agência do MEC afirmou na quinta-feira (2.mar) que não se pronunciará mais, alegando que tudo o que poderia dizer já está em uma nota enviada na semana retrasada.

A nota da Capes, que pode ser lida na íntegra na reportagem  “Eventos científicos ‘caça-níqueis’ preocupam cientistas brasileiros”, desconsiderou as perguntas sobre irregularidades na inclusão de outras revistas. Segundo a resposta evasiva, a inclusão de periódicos no Qualis é feita com base na produção acadêmica brasileira no período correspondente ao da avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação.

A agência alegou também que

“nos casos em que existam evidências e referências de práticas editoriais incorretas ou inadequadas frente à comunidade, as revistas são retiradas da base do Qualis”.

Em outras palavras, pelo menos 201 revistas desses 11 publishers entraram no Qualis porque professores e pesquisadores brasileiros publicaram milhares de artigos nelas no período de 2010 a 2012. Mas a nota não explica por que os cerca de 2 mil especialistas de 48 comitês assessores da agência do MEC não viram objeções para essas publicações.

Para conhecer os 201 periódicos desses 11 publishers, clique aqui.


*Acréscimo feito às 7h40 em 11.mar.2015. A mensagem foi enviada às 12h46 no dia anterior.

Maurício Tuffani é jornalista especializado em ciência, educação e meio ambiente

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/09/pos-graduacao-brasileira-aceita-201-revistas-predatorias/

 

Trash science com selo de qualidade do Qualis Capes!

Falso professor edita revista selecionada pela Capes

POR MAURÍCIO TUFFANI
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A revista acadêmica bimestral de engenharia “Ijet” (“International Journal of Engineering and Technology”) está desde 2013 na seleção Qualis Periódicos, da Capes (Coordenadoria de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior), que serve para orientar pesquisadores, professores e pós-graduandos brasileiros a escolher revistas científicas para publicar seus artigos. Mas ontem (quinta-feira, 5.mar) a publicação teve seu nome temporariamente removido do site do seu próprio grupo editorial, que hoje reconheceu que seu trabalho ainda não pode ser comparado com o das editoras acadêmicas de renome.

A exclusão temporária aconteceu após o o publisher IACSIT (Associação Internacional de Ciência da Computação e Tecnologia da Informação), sediado em Singapura, saber que o editor-chefe da revista, o paquistanês Abdul Razaque, é aluno de doutorado da Escola de Engenharia da Universidade de Bridgeport, dos Estados Unidos, e não professor dessa instituição, como ele se identifica pelo menos desde 2013 no site da publicação que ele dirige.

“Estamos realmente chocados por saber da verdade”, disse Yoyo Zhou, diretora-executiva do IACSIT, ao responder à mensagem deste blog, que lhe informou a divergência entre a forma de Razaque se identificar no site da “Ijet” e sua verdadeira qualificação acadêmica na página de pós-graduandos da Escola de Engenharia daquela universidade.*

Detalhe da página da Escola de Engenharia da Universidade de Bridgeport, que mostra sua relação de alunos de doutorado. Imagem: Reprodução

Razaque também se identificou como professor dessa universidade ao preencher o formulário que encaminhou à IACSIT para se candidatar ao cargo de editor-chefe. “Pedimos desculpas por não verificar a informação com cuidado”, disse Zhou ontem na mensagem em que encaminhou cópia do documento para este blog. “Se tudo o que está no formulário não for verdade, nós os desqualificaremos de nosso comitê e interromperemos nossa parceria com ele”, acrescentou.

‘Editora nova’

Mas não foi bem isso o que o publisher acabou fazendo, conforme mensagem enviada nesta manhã por Ron Wu, outro diretor-executivo da IACSIT.

“Com base nas informações que você forneceu sobre o editor-chefe da “Ijet”, Abdul Razaque, na pesquisa que fizemos sobre ele e em sua atitude evasiva, decidimos retirar a informação sobre ele do site da revista para eliminar qualquer influência negativa que possa causar à “Ijet” e ao público. E vamos reforçar nossa avaliação e nossa verificação para garantir que no futuro coisas como isso nunca venham a acontecer novamente.

Obrigado por fornecer essa informação importante para nós. Por sermos uma editora nova, temos de admitir que não temos comparação nenhuma com as editoras de renome, que têm melhores apresentações, artigos publicados e processo de revisão mais maduro em todos os aspectos dos periódicos. A IACSIT ainda está crescendo, e acho que vamos fazer melhor no futuro.”

“Predatórios”

A IACSIT publica em acesso aberto na internet 18 revistas acadêmicas que cobram a taxa de US$ 350 (R$ 1.050) dos autores para cada artigo aceito. A editora está incluída desde janeiro de 2012 anterior na lista de “publishers predatórios” do blog “Scholarly Open Access”, editado pelo biblioteconomia Jeffrey Beall, professor da Universidade do Colorado em Denver, nos Estados Unidos.

A lista relaciona editoras que exploram sem rigor científico revistas que cobram taxas de pesquisadores para publicar seus artigos em acesso aberto na internet. Tanto no acesso livre como no pago, periódicos bem conceituados demoram até mais de um ano para analisar e aceitar artigos, ou rejeitá-los. Os editores predatórios reduzem esse intervalo a poucos meses ou semanas, e raramente rejeitam papers.

“Quanto mais artigos eles aceitam e publicam, mais dinheiro eles fazem” disse Beall em entrevista para minha reportagem Eventos científicos ‘caça-níqueis” preocupam cientistas brasileiros”, publicada pela Folha na terça-feira (3.mar).

Seleção

Apesar de a IACSIT estar na lista de Beall desde 2012 e de ter as dificuldades editoriais que seu próprio diretor-executivo reconhece, a “Ijet” e duas outras revistas desse publisher —“International Journal of Modeling and Optimization” e “International Journal of Computer Theory and Engineering”— foram selecionadas em 2013 por quatro comitês da Capes, cada um deles com im coordenador, dois coordenadores-adjuntos e cerca de 20 consultores.

Dois desses comitês são de engenharia, um é de arquitetura e urbanismo e outro é de ciência da computação.

Nada a declarar

Procurada desde terça-feira (3.mar) para explicar por que selecionou para o Qualis periódicos da IACSIT e de outros publishers que constam nessa relação de predatórios, a Capes informou ontem (quinta-feira, 2.mar) que não se pronunciará mais sobre o assunto. Segundo a agência, tudo o que poderia dizer já está na nota que encaminhou na semana passada em resposta às perguntas que enviei para fazer a reportagem que citei acima.

A nota da Capes foi evasiva. Ela explica que a inclusão de periódicos no Qualis é feita com base na produção acadêmica brasileira no período correspondente ao da avaliação da qualidade dos programas de pós-graduação. Em outras palavras, as três revistas da IACSIT entraram no Qualis porque professores e pesquisadores brasileiros publicaram artigos nelas no período de 2010 a 2012 e os cerca de 200 coordenadores e consultores dos quatro setores envolvidos não viram objeções para selecioná-las.

A íntegra dessa resposta, que se omitiu sobre irregularidades na inclusão de outras revistas, está na versão online da citada reportagem.

Assim como a IACSIT, não consegui entrar em contato com Razaque. As mensagens que enviei a Razaque foram rejeitadas pelo servidor de e-mails da Universidade de Bridgeport. O número de telefone dos Estados Unidos fornecido por ele no formulário que enviou à editora está fora de serviço.

* Em seu perfil aberto no LinkedIn, Abdul Razaque se apresenta como “Research Associate” da Universidade de Bridgeport e mostra como endereço relacionado a essa função o mesmo que consta no formulário que ele submeteu à IACSIT.  A mesma informação foi registrada dessa forma por ele no portal acadêmico ResearchGate. Notei agora (6.mar, 14h39) pelo Google Maps que esse endereço não é da administração nem de unidade acadêmica da universidade, mas de um prédio de dormitórios de estudantes.

FONTE: http://mauriciotuffani.blogfolha.uol.com.br/2015/03/06/falso-professor-edita-revista-selecionada-pela-capes/