Trash science e a contaminação dos concursos públicos nas universidades brasileiras

PredatoryPublishers

Venho falando aqui neste blog dos problemas causados pela difusão em ritmo espetacular de publicações de baixa qualidade em revistas com nível ainda mais baixo sobre o processo de alocação de recursos financeiros pelas agências de fomento ao desenvolvimento científico e tecnológico no Brasil. Por sua vez, o jornalista Maurício Tuffani já alertou em seu blog hospedado no site do jornal Folha de São Paulo sobre a presença de revistas predatórias (i.e., produtoras de lixo científico) no Sistema Qualis Capes, o que confere a estas publicações uma legitimidade indevida (Aqui!).

Pois bem, conversando hoje com um colega que acaba de retornar de uma banca de concurso numa universidade pública localizada fora do estado do Rio de Janeiro, ele compartilhou a situação inusitada por que passou ao avaliar o currículo de um candidato que havia acumulado impressionantes número de de artigos num período de dois anos numa revista científica publicada um país sul americano sem muita tradição na área do concurso. A banca, mesmo suspeitando dessa proficuidade concentrada, não teve saída a não ser assinalar o número de pontos a que o montante de publicações fez por um simples e prosaico motivo: a revista em questão estava classificada no Sistema Qualis Capes por 29 comitês, e com notas variando entre B3, B4, B5 e C! Em outras palavras, tinha a chancela de legitimidade que terminou garantindo a aprovação do candidato.  Mas como era de se esperar,  o concurso em questão está sendo alvo de vários recursos, já que os candidatos perdedores se sentiram lesados.

O problema é que esse caso parece estar se repetindo em escala ampliada nos concursos sendo realizados ao longo do território brasileiro! Um perigo que emerge dessa situação é que essa faceta ainda obscura do “trash science” sobre a contratação de docentes pelas universidades públicas poderá ser usada para questionar o rigor e transparência do próprio mecanismo do concurso público via exames de conhecimento e títulos!

Nesse sentido me parece inadiável que se faça uma revisão do processo de ranqueamento no Sistema de Qualis Capes. É que se o sistema nacional de pós-graduação depende de quadros docentes bem preparados, não há como aceitar que a Capes continua ignorando a necessidade de estabelecer critérios que considerem não apenas a quantidade, mas principalmente a qualidade e o impacto do que está sendo publicado.  A falta de ação da Capes neste caso poderá resultar no colapso completo da pós-graduação no Brasil. Simples assim!

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