O Pantanal, no Brasil, um paraíso de biodiversidade devastado pelas chamas

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Por Bruno Meyerfeld para o Le Monde

O Pantanal, lar de flora e fauna excepcionais, é apenas uma sombra de si mesmo. Mais de 16.000 disparos foram registrados na região desde o início do ano.

Aqui, um jacaré morreu carbonizado, seu eterno sorriso reptiliano nos lábios. Mais adiante, o crânio de um grande búfalo repousa sobre o solo rachado e cor de carvão. Em outro lugar, entrelaçados com raízes e troncos de árvores chamuscados, estão os restos sinistros de uma serpente do pântano, congelada em sua fuga desesperada das chamas.

No final da estação seca, o Pantanal brasileiro parece um cemitério. Assolada por gigantescos incêndios desde julho, essa área de excepcional biodiversidade, que abriga cerca de 650 espécies de aves, 98 de répteis e 159 de mamíferos, já perdeu, segundo especialistas, de 20% a 25% de sua área, ou 3 milhões a 4 milhões de hectares viraram fumaça. O equivalente à área da Bélgica ou Suíça.

Para compreender toda a extensão da hecatombe, é necessário seguir pela Transpantaneira, uma estrada lendária que, durante 150 km, atravessa a região de norte a sul, da cidade de Poconé à de Porto Jofre. Há alguns meses, o visitante que passava era transportado para lá em uma paisagem preservada, toda de turfa e lagoas, vasto pântano que lembra a Camargue dos trópicos, reino das onças, antas, tamanduás e sucuris gigantes, araras de plumagem azul meia-noite e limícolas tuiuiú com babados ruivos… Um paraíso do ecoturismo.

panta 1Ao longo da Transpantaneira, estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil, em 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Tudo mudou neste ano com a chegada da seca. Neste mês de setembro, abaixo de 40 ° C, o Pantanal não é mais do que uma sombra de si mesmo: florestas carbonizadas, cor de carvão, sucedem-se a rios e lagos secos, listrados como pergaminho velho.

Desde o início do ano, foram registrados 16.000 incêndios na região, contra apenas 6.000 no mesmo período de 2019. Apesar da calmaria recente, graças a poucas chuvas, podemos ver aqui e ali, ainda muitos incêndios começam. Uma espessa fumaça ocre cobre constantemente o horizonte, às vezes até o céu. Durante o dia, o sol costuma ser invisível.

É impossível saber quantos milhares de animais morreram no desastre. Os sobreviventes, por sua vez, parecem pobres. Ao longo da estrada percorrem macacos exaustos, lontras e raptores, impelidos pela seca, em busca de alimentos indetectáveis. Na borda dos últimos pontos de água, muitas vezes grandes poças de lama, crocodilos e aves pernaltas se reúnem às dezenas, competindo ferozmente pelos últimos centímetros de remanso disponível. A menor carniça torna-se presa de abutres de barriga vazia.

panta 2Bombeiros combatem incêndios na ecorregião do Pantanal, dos quais mais de 2,9 milhões de hectares foram afetados pelos incêndios. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“É o caos total”

Não são apenas os animais que sofrem. Os homens estão exaustos e exaustos, a começar pelos bombeiros da região, que vieram combater as chamas. Encontramos um grupo, ao cair da noite, bem perto de Poconé, em um cara a cara com uma fogueira. Um pequeno caminhão-tanque descarregou rapidamente e uma escavadeira: os meios são irrisórios para este punhado de bombeiros, confusos sobre o que fazer a seguir, sem estratégia ou proteção adequada.

“É o caos total”, covarde, irritado, o coronel Paulo Barroso, carioca de 49 anos, carismático chefe dos bombeiros da região. “Não temos helicópteros, estou perdendo pelo menos vinte tanques e só tenho algumas dezenas de homens para lidar com centenas de incêndios. Devemos apagar o fogo cuspindo neles! Ele ficou furioso. Por falta de alternativa, os bombeiros ficam reduzidos a abrir aceiros, “corredores” cavados com retroescavadeira no mato e borrifados com água para cortar o caminho do incêndio e evitar que se alastre, na maioria das vezes por vão.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros.

Um dos muitos incêndios que devastaram o Pantanal, uma vasta área de biodiversidade que abriga 650 espécies de pássaros. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Esses incêndios são incontroláveis”, resmunga o Coronel Barroso, que explica: “No Pantanal, as estradas são poucas e o acesso é muito difícil. O vento aqui muda constantemente de direção. Os lagos estão secos e você precisa viajar de 80 a 100 quilômetros para recarregar as baterias. “

As chamas são particularmente traiçoeiras: “No Pantanal, temos o que se chama de“ incêndios subterrâneos ”: com secas e enchentes sucessivas, muita matéria orgânica altamente inflamável se acumula no subsolo. O fogo pode se espalhar, se espalhar sob a superfície do solo e explodir em qualquer lugar, a qualquer hora! », Explica o bombeiro.

O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil.O esqueleto de uma cobra em uma árvore carbonizada ao longo da Transpantaneira, a estrada que corta o Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“O parque foi abandonado”

No parque regional Encontro das Águas, o maior santuário de onças pintadas do planeta, logo ao sul da Transpantaneira, próximo a Porto Jofre, a ajuda foi esperada durante semanas. Em vão. 85% dos 109.000 hectares da reserva viraram fumaça. “Ninguém, nenhum bombeiro veio nos ajudar. O parque foi abandonado. Tivemos que combater o fogo sozinhos e fazer  aceiros  ” , afirma Ailton Lara, 40, guia turístico e gerente do hotel Jaguar Camp, considerado um dos melhores conhecedores do Pantanal.

“Os bombeiros intervieram prioritariamente para salvar fazendas ao invés de parques. O governo defendeu o agronegócio em vez do turismo e da pecuária ”, lamenta o guia. Resultado: onde se cruzam os rios São Lourenço e Piquiri, quase tudo se incendiou, desde as florestas secas de palmeiras até a grama úmida na superfície da água. “O fogo foi tão forte que conseguiu pular rios  [às vezes com mais de 200 metros de largura]  ”, ainda se espanta Ailton Lara. As onças assustadas, geralmente ferozes, encontraram refúgio até nas casas e hotéis de Porto Jofre.

panta 3Um incêndio no coração do Pantanal, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Precisando de turistas, os rios do parque agora são percorridos por grupos veterinários de barco, despachados pelo estado de Mato Grosso, que vieram ver os estragos e salvar o que pode ser salvo. Sob um arbusto, eles avistam uma onça sonolenta com as patas queimadas. “Está tudo bem, cura bem!” », Tranquiliza um dos zooterapeutas em fadiga. Rio acima, um búfalo de olhar opaco e cascos carbonizados não consegue mais se levantar. Jogamos repolho, cenoura, mamão, que ele engole com dificuldade. Mais tarde, ao anoitecer, os cientistas retornarão para acabar com ele com uma arma. “Ele estava condenado. Abreviamos o seu sofrimento ”, explica um deles. 

panta 4Veterinários tratam de uma paca, um roedor endêmico do Pantanal, cujas pernas foram queimadas pelos incêndios de 22 de setembro. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Meios muito limitados para salvar animais

É difícil ajudar os animais. Perto dos últimos pontos de água, bombeiros e veterinários estão instalando dezenas de comedouros, caixas azuis cheias de frutas e vegetais tropicais. “O problema número um agora é a fome, que pode matar ainda mais do que as chamas”, insiste Luciana Cataldi, 46, veterinária voluntária que veio de São Paulo para dar uma mão e ajudar. A operação não é isenta de riscos: “Se alimentarmos os animais em demasia, eles correm o risco de perder o instinto selvagem e de se tornarem dependentes dos humanos. É um verdadeiro dilema ”, explica ela .

panta 5Um búfalo selvagem, cujas pernas foram queimadas nas fogueiras, recebe alimento, no Parque Nacional Encontro das Águas, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

Às vezes, as equipes ainda conseguem capturar e resgatar um animal ferido. “Usamos zarabatanas e flechas embebidas em tranquilizante. Mas isso também é muito complicado ”, continua Luciana. O jaguar, nadador experiente, pode, após ser atingido por uma dessas flechas, mergulhar em um rio para fugir e se afogar, com os músculos paralisados ​​pelo sedativo.

Os poucos animais sobreviventes são conduzidos a um pequeno posto de cuidado na entrada da Transpantaneira. Aqui, novamente, os meios são muito limitados: o local só pode acomodar um pequeno número de animais, colocados em um pequeno abrigo de concreto. No dia da nossa visita, um wader tuiuiú nervoso com a asa quebrada e um pequeno roedor de paca , queimado nas pernas, dividiram o local. Os veterinários atuam ali com os meios disponíveis, à luz de uma luminária de mesa e sobre uma toalha de banho suja. “Os animais estão traumatizados, muito estressados. É comum eles morrerem depois de serem trazidos para cá ”, admite Luciana Cataldi.

panta 6Voluntários vêm em auxílio do jabiru-americano, uma grande ave pernalta às vezes chamada de tuiuiu, emblema do Pantanal. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

No entanto, há um animal que resistiu aos incêndios melhor do que os outros: a vaca da fazenda de casaco branco, cujas dezenas de milhares de cabeças ainda pastam pacificamente nas vastas planícies úmidas do Pantanal. Como se nada tivesse acontecido.

“A responsabilidade dos agricultores! “

Segundo as ONGs, isso está longe de ser uma coincidência: “Este desastre é antes de mais nada o resultado da ação humana e a responsabilidade dos agricultores é óbvia! », Denuncia Alcides Faria, biólogo e diretor da organização ambientalista Ecoa.

panta 7Quatis, pequenos mamíferos próximos a guaxinins, em busca de alimento em uma área queimada do Pantanal, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Todos os estudos mostram que esses incêndios começaram com queimadas [apagadas] em várias fazendas próximas a Poconé”, continua, lembrando que “todos os dias, 70 km 2 a 80 km 2 de floresta pantaneira são arrasadas pelos criadores ”, ajudando a secar um pouco mais o solo.

Acusações rejeitadas em bloco pelos agricultores locais – os pantaneiros -, que apontam em primeiro lugar para uma seca histórica em curso, provável consequência do aquecimento global. Durante a última estação chuvosa, entre outubro de 2019 e março de 2020, o nível de precipitação no Pantanal caiu 40% em relação à média. Como resultado, o rio Paraguai, principal “torneira” e fornecedor de água do grande pântano, de repente secou. Em junho, atingiu seu nível mais baixo em cinco décadas: 2,1 metros de profundidade, contra pelo menos 5,6 metros usuais.

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Uma área queimada ao longo da Transpantaneira, no estado de Mato Grosso, Brasil. VICTOR MORIYAMA PARA “O MUNDO”

“Não temos nada a ver com este drama! “, Insiste Arlindo Moraes, um forte e bronzeado dirigente do sindicato rural da região, que recebe nas suas instalações em Poconé, cuidadosamente pintadas de verde. “O agricultor pantaneiro ama a natureza, ele protege. Sua maior felicidade é ouvir o canto dos pássaros no início da manhã! », Explica Ele , incriminando os defensores do meio ambiente. “A carne é um bombeiro natural, limpa o solo das ervas daninhas, evita o acúmulo de biomassa, que é usada como combustível para incêndios. Ao contrário do que dizem as ONGs, esta região precisa de mais gado! “

“Vai demorar muito para a natureza se regenerar”, explica o guia Ailton Lara

O drama parece resultar de uma série de fatores. Mas se há alguém cuja responsabilidade é quase unânime, é o presidente Jair Bolsonaro. “O governo não tomou medidas preventivas para se antecipar aos incêndios e acabou com as operações de fiscalização dos órgãos ambientais, que intimidavam os agricultores”, lembra o biólogo Alcides Faria. Cientistas também apontam para o papel do desmatamento na Amazônia, incentivado pela atual potência. Isso teria um impacto significativo no ciclo das chuvas no Brasil, em particular no centro e no sul do país.

Com um presidente Bolsonaro firmemente no poder e as mudanças climáticas continuando, as perspectivas são sombrias para o Pantanal. “Vai demorar muito para a natureza se regenerar, não apenas dois ou três anos”, explica o guia Ailton Lara. Não tenho certeza se os pantaneiros vão esperar tanto tempo. “Para sobreviver ao declínio do turismo, as pessoas provavelmente se voltarão ainda mais para a pecuária. Aumenta o risco de desmatamento e queimadas… ” Um círculo vicioso que pode acabar transformando o pântano em deserto.

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Este texto foi escrito originalmente em francês e publicado pelo jornal Le Monde [Aqui!].

Brasil caminha para militarizar o monitoramento do desmatamento e das queimadas

fogo

  • Em um anúncio recente, o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, defendeu a criação de uma nova agência que teria autoridade total sobre o desmatamento na Amazônia e alertas de monitoramento de incêndios por satélite. Por três décadas, o INPE, agência espacial civil do Brasil, tem exercido essa função, disponibilizando dados publicamente.
  • O VP afirma que o monitoramento por satélite do INPE está desatualizado e não enxerga através das nuvens. Os críticos do governo observam que os sistemas Prodes e Deter do instituto espacial continuam a fornecer dados excelentes sobre incêndios e desmatamento na Amazônia, utilizáveis ​​para fiscalização, enquanto as nuvens pouco importam na estação seca, quando ocorre a maioria dos incêndios.
  • Os críticos afirmam que os vários movimentos do governo para enfraquecer o INPE são prováveis ​​formas de negar a transparência, acabando com a autoridade civil do INPE e colocando satélites de monitoramento de desmatamento e fogo sob controle militar secreto.
  • Até agora, um esforço para financiar novos satélites militares falhou. Enquanto isso, a Noruega fez parceria com as empresas Planet e Airbus para oferecer imagens de satélite gratuitas para monitorar florestas tropicais, incluindo a Amazônia. Essas imagens publicamente disponíveis do Planeta, NASA e outras fontes podem frustrar a possível tentativa de sigilo de Bolsonaro.

Por  Jenny Gonzales  para a Mongabay

Se alguma vez houve alguma dúvida – após os principais disparos neste ano e no ano passado – sobre se o governo Jair Bolsonaro pretende desempoderar e desmontar o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), agora resta pouca incerteza. Ações recentes mostram a firme intenção do governo de desvincular o órgão de sua missão de monitorar o desmatamento e as queimadas no Brasil, realizada com sucesso há mais de três décadas.

Desde a posse do Bolsonaro, há quase dois anos, o instituto de renome internacional tem sofrido demissões , difamações de alto nível, críticas infundadas e intervenções em sua estrutura organizacional (em violação ao próprio regulamento do INPE). Além disso, o governo demonstrou sua determinação em transferir a responsabilidade pelo desmatamento e monitoramento de incêndios para os militares brasileiros.

Na semana passada, o governo deixou seu objetivo ainda mais claro. Em transmissão ao vivo pelo Instituto para a Reforma do Estado e das Relações Corporativas (IREE), o vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão – que também chefia o recém-fundado Conselho Amazônico do Bolsonaro – defendeu a criação de uma nova agência que concentra autoridade para os sistemas de monitoramento da Amazônia e alertas de satélite.

“O Prodes e o Deter [sistemas de monitoramento de desmatamento do INPE] são bons sistemas, mas ainda apresentam falhas”, explicou o General Mourão. Mas “Precisamos avançar para uma agência que tenha essa capacidade de forma mais consistente, e que nos dê alertas,  semelhante ao NRO [o US National Reconnaissance Office]  que integra todos esses sistemas [de satélite] e, portanto, com um custo mais baixo e sendo mais eficiente. ”

Vinculado ao Departamento de Defesa dos Estados Unidos, o NRO é uma das maiores agências de inteligência militar dos Estados Unidos; opera a rede de satélites de reconhecimento altamente classificada do país. O monitoramento ambiental nos Estados Unidos é realizado por agências civis.

A mudança do Brasil na responsabilidade pelo desmatamento e monitoramento de incêndios de uma autoridade civil, onde sempre esteve, para os militares marcaria uma mudança sísmica nas políticas de regulamentação ambiental brasileiras.

Um foco de incêndio na floresta amazônica no estado de Mato Grosso, Brasil, julho de 2020. © Christian Braga / Greenpeace.

Uma mudança de supervisão civil para militar

O anúncio de Mourão reflete as iniciativas do governo Bolsonaro de tirar o poder do Ibama, a agência ambiental do Brasil, que teve sua autoridade para investigar crimes ambientais transferida para o Conselho Amazônico de Mourão. Em maio passado, o IBAMA também foi proibido de usar dados de desmatamento e fogo do INPE como forma de direcionar a fiscalização às localidades da Amazônia. Essa função passou a ser do CENSIPAM, Centro de Gestão e Operação do Sistema de Proteção da Amazônia do Ministério da Defesa. Em junho, o presidente, pelo segundo ano consecutivo, substituiu amplamente os bombeiros do IBAMA ao ordenar que unidades do Exército entrassem no bioma para combater incêndios – uma missão para a qual os críticos dizem que os militares não são adequados.

A Amazônia já registrou mais incêndios florestais neste ano do que em todo o ano de 2019, segundo dados de satélite disponibilizados em agosto de 2020 pela NASA . Mais de  1.000 grandes incêndios  já foram detectados este ano em meados de setembro em todo o bioma, impactando a floresta tropical e  comunidades indígenas e tradicionaisO número de queimadas na floresta amazônica em pé também aumentou nas últimas semanas. De todos os principais incêndios detectados na Amazônia este ano, 43% foram em florestas em pé, até 21 de setembro (contra apenas 13% em agosto), de acordo com o  MAAP, sem fins lucrativos . A floresta tropical queimada é estimada em cerca de 4,6 milhões de acres (1,8 milhões de hectares) – uma área com cerca de três quintos do tamanho da Bélgica.

General Hamilton Mourão, vice-presidente do Brasil (à esquerda), e presidente Jair Bolsonaro, durante a cerimônia de assinatura de criação do Conselho da Amazônia. Imagem de Valter Campanato / Agência Brasil.

Mourão, no entanto, desconsiderou este registro horrendo de incêndios obtido de fontes de monitoramento independentes, que se correlaciona bem com os números do INPE que indicam 16.949 focos de incêndio registrados no bioma pantanal Pantanal e 69.527 focos de focos encontrados na Amazônia entre 1º de janeiro de 2020 e 27 de setembro.

Em vez disso, Mourão declarou erroneamente que a agência espacial se contradiz em seus números de desmatamento, alegando que “alguém do INPE que se opõe ao governo só divulga dados negativos sobre os incêndios [para a imprensa]”. Na verdade, Mourão estava comparando dois conjuntos de dados diferentes, um do INPE mostrando uma redução de incêndios entre 1º de janeiro e 31 de agosto em relação a 2019, e outro conjunto atualizado de números publicados na mídia mostrando um aumento de incêndios entre o primeiro dia ano e 9 de setembro.

No dia seguinte ao depoimento, o General Mourão afirmou não saber que os números do INPE são divulgados ao público. “Se isso for verdade, é muito grave que o vice-presidente desconheça a política de transparência que rege o serviço público [do INPE]”, disse Acioli de Olivo ao Mongabay. O pesquisador aposentado do INPE e atual diretor de comunicação do Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT) acrescentou: “Duvido, porém, que ele não soubesse que os dados são acessíveis a todos . Foi [ao invés] uma forma de justificar sua retirada em face das [críticas] ao seu discurso. ”

Acioli de Olivo, diretor do Sindicato dos Servidores Públicos Federais na Área de Ciência e Tecnologia do Setor Aeroespacial (SindCT), destacou que o diretor temporário do INPE, Darcton Damião, eliminou departamentos, tirou coordenadores de seus cargos e nomeou novos sem consulta prévia aos comitês internos do instituto. Imagem de Fernanda Soares / SindCT.

“Nem mesmo os governos da ditadura militar [de 1964-1985] questionaram os dados científicos de forma infundada”, disse um dos três pesquisadores do INPE que falaram ao Mongabay sob a condição de anonimato por medo de represálias do governo. O INPE, “instituto respeitado mundialmente e que fará 60 anos no próximo mês de agosto, vive uma crise sem precedentes”, acrescentou a pesquisadora.

“Outra falsidade [perpetrada pelo] General Mourão é que, segundo ele, não podemos contabilizar focos de incêndio, porque se dividirmos o número de focos de incêndio [em curso] pela área total da Amazônia Legal, mostra que há menos de um local de incêndio em cada 200 quilômetros quadrados [77,2 milhas quadradas]. O problema desse raciocínio é que os surtos não se espalham de maneira uniforme na região ”, disse um pesquisador anônimo do INPE.

“Os incêndios estão concentrados em áreas de interesse para a base de Bolsonaro: aquelas com infraestrutura viária para acesso aos mercados consumidores e potencial exploração econômica [via desmatamento ilegal]; [e] Terras indígenas, com o objetivo de matar dois coelhos com uma cajadada – exterminar índios e abrir atividades de mineração ”, disse o mesmo pesquisador do INPE.

Imagem de satélite dos incêndios deste ano no Pantanal, 14 de setembro de 2020. Crédito NOAA-20 / VIIRS (fronteiras: contribuidores do OpenStreetMap).

Lojas brasileiras de satélites militares

O Ministério da Defesa, por sua vez, tem planos ambiciosos de contornar totalmente o INPE, e está tentando adquirir novos satélites de monitoramento por radar a um custo de R $ 577,9 milhões (US $ 105,4 milhões).

O plano, no entanto, deve ser rejeitado nesta semana pelo Conselho de Execução Orçamentária do Brasil, que assessora o governo federal em questões de política fiscal e que solicitou uma redução no orçamento do ministério da defesa. A mudança do INPE para um sistema de satélite militar não seria uma decisão fiscalmente sólida: os R$ 577 milhões desejados pelos militares são quase cinco vezes o orçamento do INPE para 2020 de R$ 118 milhões (US $ 21,1 milhões).

Se aprovado, o novo sistema militar de desmatamento e monitoramento de incêndios será gerenciado pelo CENSIPAM. O Ministério da Defesa, junto com o General Mourão, justifica a tomada militar com base no fato de que os satélites ópticos usados ​​pelo INPE não conseguem ver a floresta quando há nuvens, enquanto os satélites de radar conseguem um melhor monitoramento.

Contactado pela Mongabay, o Ministério da Defesa através do seu gabinete de comunicação afirmou: “Desde 2016, o CENSIPAM desenvolve o projeto SipamSAR. A tecnologia SAR é capaz de enxergar o terreno, mesmo que esteja debaixo de nuvens … Cumprindo sua vocação de produzir informação e integrar o trabalho intersetorial, o CENSIPAM reuniu, desde maio último, uma equipe com representantes de dez instituições governamentais para a realização de dados integração para otimizar a atuação das equipes de campo durante a operação de Garantia da Lei e da Ordem (GLO) [do Exército] de combate aos crimes ambientais na Amazônia”.

No entanto, quando solicitado a explicar o fracasso do Exército em combater efetivamente os incêndios e o desmatamento na Amazônia e Pantanal nos últimos meses, o Ministério da Defesa não respondeu.

“A comparação que Mourão e o Ministério da Defesa [Ministério] fazem não é verdadeira, é uma simplificação equivocada. … O sensor passivo, usado pelo satélite óptico [do INPE], é uma característica, não um problema”, disse um pesquisador do INPE. “A imagem produzida por um satélite de radar é muito mais difícil de interpretar e requer processamento e tratamento [altamente técnico]. [Mas] não mostra [tipos específicos de danos florestais] em uma área, seja [isso] degradação, queimada ou extração de madeira. ”

O mesmo pesquisador do INPE resumiu o argumento do governo em relação às nuvens: “Ao contrário do que diz Mourão, os incêndios ocorrem na época da seca, quando não há nuvens. E a maior parte do desmatamento na Amazônia também acontece na época da seca, porque o desmatamento é caro [fazer]. Ter acesso ao [local de extração], equipamento de transporte, combustível e madeira. Não é um processo para amadores; leva tempo e a chuva torna tudo mais difícil. De qualquer forma, o que os militares estão fazendo com os dados que [já] entregamos? Se não há fiscalização, se os recursos não estão sendo usados ​​para gerar ações de fiscalização, por que querem mais imagens? ”

Gilberto Câmara, diretor do INPE de 2005 a 2012 e atual diretor da secretaria do Grupo de Observação da Terra (GEO), disse ao Mongabay que o CENSIPAM dos militares brasileiros carece de histórico de satélites de informação: “Quais são as evidências verificáveis ​​de que o CENSIPAM sabe interpretar imagens ? Onde estão os testes? Não há nenhum. O Deter [do INPE] está em funcionamento desde 2005, e a precisão de seus dados vem melhorando continuamente. [Mesmo] com a tecnologia mais antiga [usada no passado], o desmatamento na Amazônia foi [muito] reduzido … entre 2005 e 2013 ”.

Segundo Câmara, questionar a validade dos dados do INPE é apenas uma forma de desviar a atenção da disseminação da destruição ambiental: “É a ‘notícia falsa’ mais cara do Brasil. O INPE mostra exatamente onde a Amazônia queima. A tecnologia que o Ministério da Defesa quer comprar foi projetada para mapear o gelo do Ártico, não para monitorar florestas. Tentar retirar a atribuição do INPE, sinaliza a intenção do governo de tornar os dados não transparentes. ”

Gilberto Câmara, diretor do INPE de 2005 a 2012 e atual diretor da secretaria do Grupo de Observação da Terra (GEO), acredita que o governo Bolsonaro está lançando dúvidas sobre os dados de desmatamento e incêndios do INPE para repassar o monitoramento a um corpo militar. Imagem cortesia de O Globo.

INPE em apuros

O nomeado por Bolsonaro, Darcton Damião, está no INPE desde a demissão do cientista Ricardo Galvão, em agosto de 2019. Na época, o presidente acusou Galvão de “provavelmente estar a serviço de uma ONG”, acusação sem respaldo.

Desde então, o INPE está “em processo de desmontagem. Nosso orçamento de pesquisa será zero em 2021 ”, disse um dos pesquisadores do INPE, referindo-se ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI) da Agência Espacial Brasileira.

“O diretor temporário do INPE Damião, em vez de defender os recursos escassos do INPE, não disse uma palavra”, disse um pesquisador anônimo ao Mongabay. “Existem ações cumulativas [no INPE] que parecem desconectadas. A pedido do MCTI, Damião, coronel da Aeronáutica, mudou a estrutura organizacional do INPE, [e] eliminou importantes departamentos e comitês consultivos, alegando que a gestão do INPE é falha, mas sem apresentar um diagnóstico claro. … [A] nova estrutura torna o controle [pela administração Bolsonaro] muito mais fácil. ”

“O Bolsonaro não se interessa pelo Brasil e seus problemas. Ele quer agradar sua base [política], composta de negadores [das mudanças climáticas], evangélicos fundamentalistas e militares de sua geração. É por meio [das ações dele] que a gente consegue entender o que está acontecendo no INPE ”, disse outro pesquisador. “Com a chegada de Bolsonaro [em 2019] à presidência, militares formados nas décadas de 1960 e 1970 chegaram ao poder com a visão de que a Amazônia precisa ser explorada. Eles vêem a região [brasileira] como um recurso mineral a ser extraído, os rios a serem [represados ​​para] gerar hidroeletricidade, as florestas para se transformarem em madeira e o solo a ser transformado em pasto, soja ou qualquer outra cultura de exportação ”.

A maior parte do desmatamento na Amazônia brasileira é impulsionada pela conversão de florestas em pastagens e áreas de cultivo – geralmente usando o fogo como uma ferramenta para limpar as árvores. Esta foto de satélite mostra fragmentação florestal significativa no estado de Rondônia. Imagem cortesia da NASA.

Segundo o mesmo pesquisador, Bolsonaro acredita, assim como muitos líderes militares, que o problema não é se a Amazônia será queimada ou desmatada, mas se essas atividades serão expostas ao mundo via monitoramento por satélite – via dados que o presidente afirma ser falso. Bolsonaro, em seu discurso gravado perante a Assembleia Geral da ONU na semana passada, declarou que a riqueza da Amazônia está sendo observada por sombrios interesses estrangeiros e que o governo é vítima de uma “campanha de desinformação brutal”.

Bolsonaro continuou: “A Amazônia é conhecida por ser muito rica. O Brasil está se destacando como o maior produtor mundial de alimentos. Portanto, há muito interesse em divulgar informações errôneas sobre nosso meio ambiente … Nossa floresta é úmida e não permite a propagação de fogo em seu interior. Os incêndios acontecem praticamente nos mesmos locais, nas [bordas] orientais da floresta, onde os  caboclos  [pequenos agricultores familiares] e indígenas queimam suas áreas para sobreviver, em áreas já desmatadas ”.

Dados de várias fontes, incluindo a NASA , lançam suspeitas sobre as declarações de Bolsonaro. A maioria dos grandes incêndios na Amazônia – incluindo aqueles em áreas protegidas – são pensados ​​para ser ateados por grileiros usando o fogo como uma ferramenta de desmatamento para converter florestas em pastagens de gado e terras agrícolas.

Em notícias relacionadas, a Noruega assinou na semana passada um acordo com as empresas Planet e Airbus para oferecer imagens de satélite de alta definição gratuitas para monitorar florestas tropicais, incluindo a Amazônia. Essas imagens em alta resolução estarão à disposição do público, que poderá acessá-las de qualquer lugar do mundo, com informações mensais atualizadas sobre a situação do desmatamento em mais de 64 países. O contrato será válido por 4 anos. Parece que não importa o que Bolsonaro faça, as florestas do Brasil serão visíveis de cima através da multiplicação dos serviços de monitoramento.

Imagem do banner: Um incêndio em agosto de 2020 em uma área desmatada vista da rodovia BR-230 em Apuí, estado do Amazonas, Brasil. Muitos grandes incêndios na Amazônia ocorrem perto das principais estradas brasileiras, o que dá aos granjeadores acesso à floresta. Imagem de Bruno Kelly / Amazônia Real.

Atualização : Em um novo anúncio esta semana, Mourão descartou a possibilidade de que a agência planejada para a coordenação do desmatamento no Brasil e sistemas de monitoramento e vigilância de incêndios seja apenas um comando militar. “Estou pensando em uma agência independente”, disse ao Valor . O novo órgão coordenaria a demanda de diversos órgãos, entre eles ICMBio, FUNAI, IBAMA, Polícia Federal (PF), e a produção de dados e imagens do INPE e do CENSIPAM, que faz parte do Ministério da Defesa.

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 Este texto foi escrito originalmente em inglês e publicado pelo Mongabay [Aqui!].

“Os Desafios da Qualidade do Ar no Brasil” discute entraves gerados ao país pela poluição do ar e possíveis soluções

Série de 3 webinars do WRI Brasil fomenta debate público sobre a economia nacional e a saúde da população no contexto da retomada verde pós-pandemia. Indústria automotiva é o primeiro tema

poluição do ar

O WRI Brasil – instituto de pesquisa que transforma grandes ideias em ações por meio de estudos e soluções em florestas, cidades e clima – promove em parceria com o Instituto Clima e Sociedade (iCS) a série “Os Desafios da Qualidade do Ar no Brasil” para incentivar o debate público em torno de um problema que afeta silenciosamente a população brasileira: a alta concentração de poluentes atmosféricos locais (e a urgência do Brasil em aderir à economia de baixo carbono).

“Esses eventos online são muito importantes para alimentar um debate aprofundado sobre a qualidade do ar que respiramos e suas implicações em uma dimensão macro, em que qualidade de vida, economia e mudanças climáticas precisam caminhar juntas, e nas políticas públicas que possam construir esse caminho”, diz o coordenador de Clima e Cidades do WRI Brasil, Walter F. De Simoni, economista especializado em estudos ambientais pela Universidade de Tufts, em Boston (EUA).

A adoção de um monitoramento e de controle da poluição do ar adequados, como parte de um plano maior de transição para a economia verde, evitaria ao Brasil mortes e danos à saúde da população brasileira, além de gravíssimas perdas em gastos públicos, produtividade no setor privado e detrimento do meio ambiente e clima. Estudo liderado pelo WRI Brasil indica que a economia verde tem potencial de gerar ao país um aumento acumulado adicional do PIB de R$ 2,8 trilhões nos próximos dez anos, criando 2 milhões de empregos a mais em 2030.

“Os Desafios da Qualidade do Ar no Brasil”, que acontece em outubro, terá especialistas do setor público e privado que são reconhecidamente referências em suas áreas de atividade – para inscrições antecipadas, acesse o link aqui.

A série de webinars começa com “ECONOMIA VERDE E A RENOVAÇÃO DO SETOR AUTOMOTIVO” no dia 1/10 (quinta-feira), das 11h às 12h30. A pergunta que se propõe aos debatedores é se a indústria automotiva brasileira, que responde por 1,3 milhão de empregos diretos e indiretos e faz do país o 8º fabricante mundial de veículos, será capaz de se modernizar e atender as demandas ambientais e econômicas da atualidade. Para o debate, participam Izabella Teixeira (ex-ministra de Meio Ambiente), Adalberto Maluf (diretor de Marketing, Sustentabilidade e Novos Negócios da BYD, empresa que atua no setor de energias limpas e mobilidade elétrica) e Roberto Schaeffer (professor de Economia da Energia da Coppe/UFRJ).

O segundo webinar, no dia 7/10 (quarta-feira), das 15h30h às 17h, será sobre “QUEIMADAS: UM PROBLEMA COLETIVO”. Além da evidente perda de biomas, as queimadas aumentam a emissão de poluentes no ar, afetando o clima como um todo, a água e a agricultura. A saúde das populações locais também fica comprometida, o que aumenta enormemente os custos sociais e econômicos. Para entender a dimensão do problema e os entraves locais para a adoção da economia verde, foram convidados Ane Alencar (diretora de Ciência do IPAM Amazônia), Carlos Nobre (cientista e pesquisador do clima e de mudanças climáticas) e Socorro Neri (prefeita de Rio Branco – uma das cidades mais atingidas pelas queimadas na região Norte).

A série de webinars termina com “O AR (POLUÍDO) QUE RESPIRAMOS”, em 21/10 (quarta-feira), das 11h às 12h30. Patologista e pesquisador, referência em Saúde e poluição do ar, Paulo Saldiva participa de uma conversa franca sobre os impactos evidentes e os não tão evidentes da poluição do ar na saúde individual e na coletiva, em especial no cenário que se desenha em um Brasil “pós COVID-19”. A gestão da qualidade do ar no Brasil é feita por poucos Estados e os padrões de concentração de poluentes permitidos no país são muito acima dos níveis considerados seguros pela OMS (Organização Mundial da Saúde). A combinação desses fatores colaboram diretamente com mais de 50 mil mortes por ano no Brasil em decorrência da poluição do ar, segundo a organização, que aponta para um dado ainda mais alarmante: 9 entre 10 pessoas respiram ar poluído no mundo.

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Sobre o WRI Brasil

O WRI Brasil é um instituto de pesquisa que transforma grandes ideias em ações para promover a proteção do meio ambiente, oportunidades econômicas e bem-estar humano. Atua no desenvolvimento de estudos e implementação de soluções sustentáveis em clima, florestas e cidades. Alia excelência técnica à articulação política e trabalha em parceria com governos, empresas, academia e sociedade civil. Conheça nosso trabalho em wribrasil.org.br.

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Na ONU, Bolsonaro mente em dizer que Brasil ajuda a alimentar o mundo

Mais de 60% das exportações do agronegócio vão para ração. A agricultura familiar, que produz comida de verdade, não tem incentivo para plantar. Muito menos para exportar

soja 1O que Bolsonaro não disse na ONU é que itens exportados pelo agro, como a soja, alimentam o gado e a indústria de alimentos ultraprocessados

Por Cida Oliveira para a Rede Brasil Atual

São Paulo – “No Brasil, apesar da crise mundial, a produção rural não parou. O homem do campo trabalhou como nunca. Produziu, como sempre, alimentos para mais de 1 bilhão de pessoas. O Brasil contribuiu para que o mundo continuasse alimentado.” Esta é mais uma das mentiras contadas pelo presidente Jair Bolsonaro em pronunciamento na abertura da assembleia geral da Organização das Nações Unidas (ONU) nesta terça-feira (22).

Criada pelos militares na década de 1970, essa propaganda reiterada por Bolsonaro, de que o Brasil é o celeiro do mundo, é enganosa e mal intencionada. E atende aos interesses de latifundiários que, incentivados pelo governo, passaram a se dedicar ao cultivo da soja regada a altas doses de agrotóxicos, que contaminam o solo, rios e aquíferos, em grandes extensões de terra para exportação. “Alimentar essa ideia é vender uma imagem positiva das grandes fazendas, como produtoras de alimentos para o Brasil e o mundo”, afirma o professor e pesquisador Marcos Pedlowski, da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Não mata a fome

O que Bolsonaro não falou na ONU é que a soja é o principal item da pauta de exportações do agronegócio. O setor é um dos responsáveis pela sustentação de Jair Bolsonaro. No entanto, o grão não tem na alimentação humana a sua principal aplicação. Na Europa e na China, principais compradores, é usado em grande parte na produção de ração animal. Outro item é o milho, igualmente destinado em grande parte à alimentação animal e à indústria de alimentos, entrando como matéria prima para a fabricação do xarope que adoça sucos e refrigerantes, entre outros produtos. E o algodão sabidamente não mata a fome de ninguém.

“O aumento do consumo de carne bovina, suína e de aves e peixes, no entanto, nada tem a ver com fome”, diz Pedlowski. “E sim com a manutenção de um padrão de dieta criado e dominado pelas grandes corporações do setor de alimentos, baseado na grande demanda poralimentos ultraprocessados, calóricos e pouco nutritivos. “

Mapa da fome

Entre outros argumentos que desmistificam a falaciosa propaganda, o agrônomo Leonardo Melgarejo destaca uma contradição. “Como pode esse agronegócio que diz alimentar um bilhão de pessoas no mundo estar alheio ao que acontece no Brasil? Entramos, de novo, no mapa da fome!”, questiona.

O abismo entre a lucratividade do setor, que em ano de supersafra deverá arrecadar perto de meio trilhão de reais, e o custo dos alimentos que penaliza os mais pobres também desconstroi o mito, segundo Melgarejo. Outra coisa que Bolsonaro escondeu da ONU é que o arroz e o feijão estão sumindo do mercado, com preços elevados em 30% e 18%, respectivamente. Odesemprego, contando os que desistiram de procurar trabalho, atinge 30 milhões de brasileiros. “São 60 milhões os que dependem do auxílio emergencial, de pouco mais de 100 dólares, para comer. Não é evidente que estas curvas, a do crescimento da fome e miséria, e a dos ganhos cumulados por este agronegócio que define as falas do governo, crescem juntas, mas com efeitos opostos? A soja matou a fome de quem? Seu avanço, nos rastros das queimadas, vai beneficiar a quem?”

Agronegócio nefasto

Em nome dessa pseudo missão de alimentar o mundo, o agronegócio avança sobre a Amazônia, o Pantanale o Cerrado, derrubando e queimando a floresta. “Recentes estudos envolvendo a cadeia da carne demonstram que os grandes empresas brasileiras, JBS, Minerva e Marfrig estão envolvidos com fazendas desmatadas ilegalmente. E quando são encontradas evidências, dizem que não têm como controlar a cadeia da carne. E aceitam animais criados e abatidos em áreas de desmatamento ilegal muitas vezes em unidades de conservação e territórios indígenas. Então a cadeia da carne é o principal exemplo de que não tem latifundiário bom e latifundiário ruim”, aponta Marcos Pedlowski, da Uenf.

Coautor de um estudo publicado na última semana na revista científica Science, que demonstra que a área degradada na Amazônia é ainda maior que a desmatada, Pedlowski explica que o crescimento do desmatamento, para abertura de novos pasto e áreas agrícolas, nada tem a ver com o aumento da demanda internacional pela soja e pela carne. E sim pela falta de investimento no aumento dessas atividades. Pois a natureza não fez a Amazônia para esse tipo de agricultura intensiva e de grande escala.

Pantanal

“A dinâmica ecológica não suporta isso, porque a fertilidade dos solos depende da ciclagem dos materiais orgânicos da floresta. Com a sua derrubada, os solos vão se exaurir em um período de 3 a 10 anos. Por isso os produtores de soja buscam cada vez mais áreas. Nas que ficam para trás não nasce nem capim. Em Rondônia, que tem alguns dos melhores solos da Amazônia, já vi terrenos que ficaram completamente imprestáveis. Se for nos solos totalmente arenosos, o ciclo é ainda mais curto. Por isso a agrofloresta não só faz mais sentido ecológico, mas também econômico”, diz Pedlowski.

Assim, essa ação danosa do agronegócio predatório na Amazônia, que não considera os danos ecológicos, afetam até o regime de chuvas no Brasil. A questão do Pantanal é a mesma coisa. “Essas queimadas de 2019 e 2020 foram feitas por latifundiários que querem aumentar a sua área para pasto e para o plantio de soja. É a expansão da mesma lógica da Amazônia ocorrendo no bioma Pantanal.”

O problema, segundo Pedlowski, é que os latifundiários, propalados como homens do campo que ajudam a matar a fome do planeta, não se importam com nada disso. “Estão se lixando para isso porque têm o poder político e bélico para ocupar cada vez mais áreas para praticar uma agricultura ecologicamente insustentável. Latifundiário com consciência ecológica é tão inviável quanto usaragrotóxico com segurança. Não é a toa que os dois sempre andam juntos. Isso sem falar do trabalho escravo.”

Agricultura familiar

Enquanto o latifúndio que não produz alimento é supervalorizado, dotado de estruturas de financiamento, crédito subsidiado e incentivos fiscais, a agricultura familiar tem cada vez menos área, crédito e direitos. Os verdadeiros homens do campo que trabalham de sol a sol para garantir os alimentos consumidos pelos brasileiros são perseguidos por Bolsonaro.

De acordo com a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura(FAO), em todo o mundo a agricultura familiar produz 70% dos alimentos mais consumidos.

O corte de recursos do setor, como o Programa de Cisternas e do Programa de Aquisição de Alimentos da Agricultura Familiar (PAA), foi só o começo.

Em maio, já durante a pandemia, Bolsonaro excluiu os pequenos agricultores, silvicultores, pescadores artesanais e aquicultores do auxílio emergencial de R$ 600 por “contrariedade ao interesse público e inconstitucionalidade”.

E um Projeto de Lei apresentado ao Congresso em março para socorrer esses produtores de alimentos, o PL 735, só foi aprovado em agosto. No entanto, Bolsonaro vetou a maior parte da proposta convertida na Lei 14.048/2020. A canetada excluiu 14 dispositivos fundamentais para o atendimento emergencial, como o pagamento do próprio benefício de R$ 600, a criação de novas linhas de crédito emergencial do Pronaf, o Programa de Atendimento Emergencial à Agricultura Familiar – complemento emergencial ao PAA, a prorrogação do prazo para pagamento de dívidas e a suspensão de cobranças judiciais e execuções.

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Este artigo foi originalmente publicado pela Rede Brasil Atual [Aqui!].

Greenpeace lança nota de R$ 2,3 milhões, em alerta sobre o Pantanal

Com criação da agência GUT, cédula traz o número de hectares queimados até o momento

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Um bioma inteiro ameaçado de extinção. Esta é a imagem de nota de R$ 2,3 milhões que o Greenpeace lança, em um protesto virtual nas redes sociais, para mostrar o real valor do descaso com o meio ambiente. O valor se refere à quantidade de hectares destruídos até o momento com o incêndio no Pantanal.

Somente nos 20 primeiros dias de setembro, o Pantanal registrou 5.820 focos de calor, um aumento de 101% em relação a setembro todo do ano passado. Além do Pantanal, a Amazônia também já registrou 27.486 focos entre os dias 1 e 20 de setembro, um aumento de 37% em relação ao mês de setembro inteiro de 2019.

Confira imagens do Pantanal aqui e da Amazônia aqui

“É devastador observar o quanto o Brasil está em chamas e vamos pagar uma conta muito alta por isso. A situação saiu do controle e atingiu um nível lamentável por conta do descaso das autoridades, colocando em cheque o nosso futuro, a biodiversidade e o clima. Precisamos urgentemente de medidas efetivas de curto, médio e longo prazo para combater e prevenir o desmatamento e as queimadas. O nosso patrimônio está sendo transformado em cinzas e essa nota é uma forma de alertar os brasileiros sobre a escala da destruição. Não são apenas nossos biomas queimando, mas também a nossa economia e o nosso futuro”, afirma Cristiane Mazzetti, porta-voz de florestas do Greenpeace.

A criação para a ação do Greenpeace é da Agência GUT, que trouxe a efígie da República chamuscada pela fuligem da queimada, no entorno da máscara, em referência aos tempos de Covid-19. Há ainda uma onça pintada caída e o retrato da queimada em árvores e nas matas.

Faça download da nota aqui

“As notas do Real trazem sempre uma espécie brasileira ameaçada de extinção e desta vez fizemos referência a um ecossistema inteiro que está em risco. Criamos a hashtag #NotadoPantanal para envolver a população nesta causa e engajar as conversas nas redes”, afirma Bruno Brux, ECD da GUT.

Assessoria de Imprensa Greenpeace

Mourão atribui a opositor divulgação de dados ruins de queimadas do Inpe que são públicos

fogo reutersFumaça e chamas de queimada no Pantanal, em Poconé, no Mato Grosso 03/09/2020 REUTERS/Amanda Perobelli

Por Lisandra Paraguassu para a agência Reuters

O vice-presidente Hamilton Mourão creditou a um suposto funcionário do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), opositor ao governo, a divulgação de dados sobre queimadas no país negativos para o governo.

“Eu recebo o relatório toda semana. Até dia 31 de agosto, nós tínhamos 5 mil focos de calor a menos do que 31 de agosto do ano passado, entre janeiro a agosto. Agora, o Inpe não divulga isso. Por quê? Não é o Inpe que está divulgando, é o doutor Darcton (Policarpo Damião) lá, que é o diretor do Inpe, que falou isso? Não. É alguém lá de dentro que faz oposição ao governo. Eu estou deixando muito claro isso aqui. Aí, quando o dado é negativo, o cara vai lá e divulga.  Quando é positivo, não divulga”, disse o vice-presidente, que também é coordenador do Conselho da Amazônia.

Os dados sobre queimadas no país, na verdade, são públicos e estão disponíveis em uma página especial do Inpe na Internet, aberta ao público em geral.

Os números também são alimentados diariamente e relatórios automáticos são gerados mostrando os focos em todos os biomas do país, o crescimento nos últimos cinco dias e a comparação com o mesmo período do ano anterior. É possível ter dados nacionais, por Estado, por bioma e também os municípios com maior número de focos de incêndio 

Os dados do Inpe nesse momento mostram 133.974 focos de incêndio acumulados em todo país entre 1º de janeiro e 14 de setembro, um aumento de 13% em relação ao ano passado. No bioma Amazônia estão, ainda segundo o boletim do Inpe, 64.498 desses pontos de queimadas.

Os dados mostram, ainda, uma aceleração nas queimadas na região neste mês de setembro. Até 14 de setembro de 2019, o Inpe aponta que haviam 11.003 focos acumulados na Amazônia. Este ano, nos mesmos 14 primeiros dias do mês, já são 20.485, um aumento de 86%.

De fato, o mês de agosto, ainda pelos dados do Inpe, havia encerrado com a Amazônia com menos focos de incêndio que ano passado —44.013 contra 46.824 em 2019.  A aceleração em setembro, no entanto, reverteu essa tendência.

O crescimento das queimadas na região acontece apesar da operação da Garantia da Lei e da Ordem que está na Amazônia desde maio e era a aposta de Mourão para reduzir o desmatamento e os incêndios ilegais. 

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Este artigo foi inicialmente publicado pela agência Reuters [Aqui!].

Cidades amazônicas sob risco de grandes incêndios por causa das queimadas

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Área urbana de Tangará da Serra (MT) cercada pelas chamas no dia de ontem (11/09).

Um dos aspectos que é pouco considerado quando se pensa nas mudanças do uso da terra que estão ocorrendo na Amazônia brasileira é o fato de que a região Norte possui uma taxa de urbanização acima de 70% (no Brasil como um todo, esta taxa está em torno de 85%).

Decorrente dessa alta taxa de urbanização da Amazônia (para os interessados no processo, eu recomendo o livro de John Browder e Brian Godfrey intitulado “Cidades da floresta: urbanização, desenvolvimento e globalização na Amazônia Brasileiraque oferece uma análise regional completa do processo de urbanização acontecendo na Amazônia Brasileira), o que temos é uma proximidade grande entre as aglomerações urbanas e as regiões florestadas que já foram ou estão sendo alteradas pelos processos de desmatamento e degradação florestal em curso na região.

Por isso, as cenas das chamas oriundas de queimadas cercando diferentes cidades na Amazônia não deveria surpreender ninguém (ver abaixo a situação que ocorreu ontem na cidade de Tangará da Serra, localizada no sudoeste do estado do Mato Grosso) (ver video abaixo).

A verdade é que outras cidades com tamanho mais significativo do que Tangará da Serra estarão, cedo ou tarde (talvez mais cedo do que tarde) no caminho de grandes incêndios na Amazônia, com consequências incalculáveis.

Por isso, quando leio que apoiadores do governo Bolsonaro utilizam as cenas de grandes incêndios ocorrendo na Califórnia como uma espécie de desculpa minimizadora do que está acontecendo na Amazônia, eu só posso pensar que a ignorância é a causa desse esforço negacionista. 

É que, ao contrário da Califórnia, a maioria das cidades da Amazônia brasileira não possui equipamentos para combater grandes incêndios, o que amplia a chance de que uma grande quantidade delas esteja hoje vivendo sob o risco da devastação via o fogo. Como já estive fazendo trabalhos de campo por quase 20 anos em Rondônia, posso afirmar que essa proximidade com as áreas de queimada aumenta a chance de que áreas urbanas sejam atingidas em cheio por grandes incêndios por causa delas.

Enquanto isso, vemos o presidente e o vice-presidente da república, bem como o ministro do Meio Ambiente, envolvidos em esforços rocambolescos de negação da catástrofe ambiental que está ocorrendo tanto na Amazônia quanto no Pantanal Matogrossense.  Esse tipo de comportamento negacionista ainda poderá resultar em grandes perdas humanas, além da ambiental que já está em curso. O governo Bolsonaro neste momento literalmente brinca com fogo.

O Pantanal em chamas

Mudanças climáticas e agronegócio brasileiro ameaçam maior área alagada do mundo

pantanalNo final de agosto de 2020, a fumaça de um incêndio florestal sobe perto do rio Cuiabá, perto do Pantanal no Brasil.  Foto: Reuters / Amanda Perobelli

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

Este ano, o incêndio está mais forte do que nunca no Pantanal, no oeste do Brasil. O mar de chamas já devorou ​​vários milhares de quilômetros quadrados da maior zona úmida do mundo. A brigada de incêndio e as forças armadas têm lutado até agora contra o incêndio em vão. A área com status de patrimônio natural mundial da Unesco, que realmente requer proteção especial, enfrenta a pior tragédia ambiental de sua história.

De 1º de janeiro a 31 de agosto deste ano, o instituto de pesquisas espaciais INPE, responsável pelo monitoramento ambiental por satélite no Brasil, contabilizou 10.316 focos de incêndio no Pantanal, mais de três vezes mais do que no mesmo período do ano anterior. Desde o início da vigilância por satélite, em 1998, o INPE nunca registrou tantos incêndios nessa região nos primeiros oito meses do ano. No final de abril, as chamas devoraram uma área de 3.686 quilômetros quadrados, que é mais de quatro vezes o tamanho de Berlim.

Os especialistas presumem que, como em anos anteriores, a maioria dos incêndios foi deliberadamente iniciada para dar lugar a pastagens de gado e plantações de soja. “Quem ateia fogo no Pantanal é uma pessoa”, diz André Luiz Siqueira, da organização local de proteção ambiental Ecoa. »Os incêndios naturais são gerados por raios, que estão sempre associados à estação das chuvas. Mas como não choveu no Pantanal, fica claro que o homem é a causa principal «, explica a bióloga.

O desmatamento e a queimada andam de mãos dadas. Só em abril passado, um tribunal do estado de Mato Grosso do Sul autorizou a empresa agrícola Majora Participações a derrubar 42,5 mil hectares no Pantanal Sul. Mas a extensão da conflagração deste ano sugere outra causa: a possível mudança climática permanente. A zona úmida, que depende das chuvas e das inundações periódicas de seus afluentes do planalto central brasileiro, está passando atualmente por uma das piores estações de seca. De acordo com o Instituto Brasileiro de Pesquisa Agropecuária Embrapa, a estação chuvosa de outubro a março, importante para a bacia do Pantanal, registrou 40% menos chuvas do que a média dos anos anteriores.

Além disso, o principal afluente, o Rio Paraguai, tem tão pouca água este ano como não há quase cinco décadas. No município de Ladário, no Mato Grosso do Sul, onde os níveis de água são medidos há 120 anos, o nível de água em junho era de apenas 2,1 metros – 3,5 metros abaixo da média de longo prazo e o menor valor medido em 47 anos. Um estudo da Universidade Estadual de Mato Grosso também mostra que o volume de água do Rio Paraguai está diminuindo a cada ano. Para o diretor de pesquisas Ernandes Oliveira Júnior, isso é claramente uma consequência das mudanças climáticas. Marcos Rosa, geógrafo da rede de pesquisa MapBiomas, teme que “esta seja uma nova normalidade em decorrência das mudanças climáticas provocadas pelo homem, que estão mudando o ciclo das chuvas,

Já em 2015, seu colega Aguinaldo Silva, da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul em Corumbá, alertava sobre as consequências potencialmente catastróficas das mudanças climáticas para o Pantanal. Sua equipe internacional de pesquisadores tem estudado mudanças ambientais na importante zona úmida desde 2000. “Podemos dizer com alguma certeza que o clima global está mudando e as temperaturas estão ficando mais quentes”, disse Silva. »Isso pode ter consequências dramáticas para o ciclo da água do Pantanal e alterar as enchentes anuais do Rio Paraguai. Podem ocorrer longos períodos de seca que têm um impacto negativo na flora e na fauna. ”

Para ele, porém, a maior ameaça ao Pantanal vem do planalto e das mudanças no balanço hídrico que ali ocorrem devido ao desmatamento do Cerrado e à disseminação das monoculturas de soja. “Os rios que deságuam no Pantanal nascem no Cerrado”, explica o geógrafo Marcos Reis Rosa. O desmatamento faz com que o solo perca sua proteção, o que torna os rios mais planos e assoreados. Hidrelétricas e barragens agravaram a situação. De acordo com dados oficiais, havia 41 usinas hidrelétricas nos afluentes do Pantanal em 2017, e mais de 100 estão em planejamento.

Outra causa da escassez de água no Pantanal é a destruição da floresta amazônica. Com a aceleração do desmatamento por lá, mudaram as estações das chuvas no Brasil, explica Vinícius Silgueiro, da organização não governamental Instituto Centro de Vida. “A Amazônia dá vida a praticamente todos os ecossistemas do continente.” No entanto, o aumento do desmatamento está afetando o “transporte fluvial”. Esse é um dos motivos pelos quais o Pantanal vive atualmente sua maior tragédia ambiental em décadas.

Os pesquisadores concordam que, se as ameaças não cessarem, o Pantanal de 150 mil quilômetros quadrados, lar de onças, jacarés e centenas de outras espécies de animais, extremamente rico em espécies, está prestes a entrar em colapso – e em um futuro não muito distante.

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Este artigo foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal Neues Deutschland [Aqui!].

No Dia da Amazônia, Salles continua passando sua boiada

Hoje, 5 de agosto, é celebrado o Dia da Amazônia. O que deveria ser um dia de celebração da preservação da maior área de florestas tropicais do planeta, acaba servindo para marcar e denunciar a situação catastrófica que reina naquela região sob o comando de Jair Bolsonaro, Hamilton Mourão e Ricardo Salles.

passando a boiada

Falando em Salles, esse dia 05 de agosto certamente celebrado por ele como um dos dias da Amazônia em que conseguiu atravessar a sua boiada sobre o conjunto de leis que deveriam proteger os biomas amazônicos.

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Somente neste 05 de agosto ocorreram 2494 incêndios na Amazônia

Mas não há de ser nada, e a devida reação já está ocorrendo em todas as partes da Terr. E cedo ou tarde, os custos políticos e econômicos obrigarão a uma mudança radical na forma pela qual o Brasil está hoje destruindo seus biomas altamente diversos para o plantio de soja e a criação de gado.

Enquanto, celebremos toda a resistência que já ocorre dentro e fora do Brasil. É que dessa resistência virão dias da Amazônia que serão dignos de serem celebrados.

Novas queimadas na floresta detectadas antes do Dia da Amazônia alcançam número assustador

Números alarmantes de novas queimadas foram detectadas na Amazônia brasileira, aponta a Anistia Internacional. As autoridades públicas seguem omissas na proteção da terra e dos direitos humanos dos povos da floresta amazônica.

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Antes do Dia da Amazônia, celebrado neste 5 de setembro, cerca de 63 mil focos de incêndios foram identificados este ano, até 31 de agosto, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE). O Exército brasileiro está posicionado na Amazônia, desde maio, ostensivamente para combater o desmatamento e os incêndios ilegais.

A Anistia Internacional também destacou que o desmatamento aumentou em 43,5% entre agosto de 2019 e julho de 2020, comparado com o mesmo período de 2018 a 2019, destruindo um total de 9.205 km² de floresta. A destruição recente pode, na realidade, ser muito maior, depois que os dados forem corrigidos para levar em conta um erro de satélite que afetou a captura de alguns focos de incêndio desde 16 de agosto.

“Com os incêndios novamente se multiplicando rapidamente nesta estação de queimadas, está mais do que claro que as forças armadas brasileiras não possuem a experiência ou habilidade técnica necessária para barrar a ação daqueles que ateiam fogo na floresta e promovem invasões ilegais de terras protegidas”, disse Richard Pearshouse, diretor de Meio Ambiente e Crises da Anistia Internacional.

Richard continua: “O envio de forças do Exército encobre a estratégia do governo brasileiro de intencionalmente enfraquecer a capacidade operacional de seus próprios órgãos ambientais, com a finalidade de abrir a Amazônia para a exploração comercial”.

“O governo deveria devolver o controle da fiscalização ambiental e implementação das leis ambientais às autoridades civis apropriadas. A única maneira de proteger a maior floresta tropical do mundo é o governo demonstrar apoio político inequívoco à proteção ambiental civil na Amazônia, começando por restabelecer as verbas e outros recursos e apoiar as agências governamentais para que implementem a legislação ambiental”, explica ele. 

Ao todo 74% dos focos de incêndios detectados pelo INPE foram registrados depois do governo brasileiro ter proibido queimadas, em meados de julho de 2020. Os incêndios muitas vezes são iniciados intencionalmente por grileiros, indivíduos que desmatam áreas de floresta e invadem as terras para convertê-las, posteriormente, em pastagem. Essa atividade ilegal sustenta a multibilionária indústria pecuarista brasileira.

Imagens de satélite captadas nos últimos dois meses também revelaram a existência de novos incêndios nas três áreas protegidas que a Anistia Internacional visitou recentemente no Estado de Rondônia: o território indígena Uru-Eu-Wau-Wau e as reservas extrativistas do Rio Jacy-Paraná e Rio Ouro Preto.

Fazendas de gado ilegais alimentam a destruição da Amazônia

A pecuária bovina é o principal fator causador das invasões e ocupações ilegais de terras em reservas extrativistas e territórios indígenas da Amazônia brasileira, alimentando o desmatamento e pisoteando os direitos dos povos indígenas e moradores tradicionais dessas áreas.

A região amazônica é palco do maior crescimento da lucrativa indústria pecuarista no Brasil. Desde 1988, o número de gado criado na região quase quadruplicou, chegando a 86 milhões de animais em 2018, ou seja, 40% do rebanho nacional total. Parte dessa expansão vem destruindo grandes áreas de floresta protegida em territórios indígenas e reservas extrativistas.

Ao todo 63% da área desmatada entre 1988 e 2014 tornou-se pastagem de gado – uma área cinco vezes maior que a superfície de Portugal. A Anistia Internacional documentou esse processo em detalhes em um relatório publicado , em novembro de 2019.

De acordo com dados governamentais, os territórios indígenas da Amazônia brasileira perderam 497km² de floresta entre agosto de 2018 e julho de 2019 – um aumento de 91% em relação ao período correspondente de um ano antes.

Gado criado ilegalmente em áreas protegidas é encontrado na cadeia de fornecimento da JBS

Em investigação recente , a Anistia Internacional constatou que gado criado ilegalmente em áreas protegidas da Amazônia brasileira foi identificado na cadeia de fornecimento da JBS, a maior empresa de processamento de carnes.

A Anistia Internacional não encontrou evidências que indicassem envolvimento direto da JBS com violações dos direitos humanos, mas a organização está pedindo à JBS que implemente um sistema de fiscalização efetivo, incluindo de seus fornecedores indiretos, até o final de 2020, para assegurar que nenhum bovino criado ilegalmente em áreas protegidas ingresse em sua cadeia de fornecimento.

A Anistia Internacional lançou uma petição online, “Diga não ao gado criado ilegalmente na Amazônia”, que pode ser assinada aqui.

Sobre a Anistia Internacional

A Anistia Internacional é um movimento global de mais de 7 milhões de pessoas que encaram a injustiça como algo pessoal. A organização realiza campanhas para que direitos humanos internacionalmente reconhecidos sejam respeitados e protegidos no Brasil e no mundo. Criada em 1961, pelo advogado britânico Peter Benenson, teve sua sede inaugurada no Brasil em 2012.