PEC 241 e o engano de quem promete algo aqui e vota outra acolá

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Como preâmbulo quero observar que só pode estar no auto-engano ou no engano puro e simples quem dissemina a visão de que a simples eleição de um novo operador  pode mudar as relações de compadrio que vigoram na vida política brasileira. Essa impossibilidade se dá primariamente porque a imensa maioria dos partidos opera com base no princípio do “toma lá dá cá” e muitos muitos agentes que ocupam quase ad eternum a máquina pública sabem perfeitamente disso. 

Tanto o que eu disse é verdade que no caso da prefeitura de Campos dos Goytacazes existem personagens que estão ocupando cargos desde que o avô do prefeito eleito ainda reinava soberano na política local. E tenho certeza que já em Janeiro teremos várias figurinhas carimbadas novamente sentando em cadeiras para as quais a única habilitação que possuem é a capacidade de transmutação de lealdades.

E não adiantará nada os aliados de primeira hora do prefeito eleito franzirem a testa para esboçar sinais de reclamo.  É que se não houver a possibilidade de se permitir a adesão dos camaleões que vão passar da cor rosa para a verde, o novo alcaide não conseguirá uma semana de paz sequer para dizer a que veio.

Mas já que o tópico desta postagem é engano, eu vou ficar esperando para ver como o prefeito eleito dará conta de manter os programas sociais que têm impedido a cidade de explodir em conflito aberto com a implementação dos termos da PEC 241 cuja aprovação contou com a votação total do seu partido, o Partido Popular e Socialista (sic!). É que diante não apenas da pesada dívida que está sendo deixada para ele, e com os novos limites de gastos em áreas como saúde e educação, os cortes orçamentários serão inevitáveis e atingirão exatamente os mais pobres.

Esse “conundrum” (i.e, enigma) é que o prefeito eleito terá de resolver. É que não vai ter como continuar atendendo os pobres sem romper com as determinações que o seu partido ajudou a aprovar na PEC 241. E não vai adiantar nada a classe média reacionária apoiar o fim da passagem a R$ 1,00, a extinção do Cheque Cidadão ou o fim do Morar Feliz. É que esse apoio da minoria que se julga privilegiada terá como contrapartida a ira contida da maioria pobre. E haja concertina para colocar nos muros dos condomínios fechados e prédios nababescos que enfeitam as áreas mais abastadas desta pobre cidade rica.

Anthony Garotinho: derrotado, mas longe de ser terminado

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No dia 19 de Setembro, escrevi uma postagem onde comentava que as coisas não andavam nada fáceis para Anthony Garotinho na eleição para prefeito de Campos dos Goytacazes (Aqui!). Ontem, minha avaliação se confirmou com a vitória em primeiro turno do candidato Rafael Diniz do PPS.

Reconheço que minha percepção de dificuldade não me possibilitou ver que a derrota já ocorreria em primeiro turno, mas ela veio de forma avassaladora. Para mim, vários fatores contaram para essa derrota, a começar pelo desgaste de se estar no comando de uma prefeitura por 8 anos, sem que tivesse sido aberto um horizonte de mudanças. Aliás, muito pelo contrário. Além disso, a impossibilidade de que o próprio Garotinho pudesse ser candidato, a opção recaiu sobre um personagem que quando foi chamado a ocupar o posto de frente não mostrou o molejo necessário para ganhar a eleição. Por fim, a marcação cerrada da justiça eleitoral e a ação da Polícia Federal completaram o serviço.

Agora, sei que muitos desafetos de Anthony Garotinho estão festejando a sua derrota no dia de hoje. E, convenhamos, festejam com justiça porque derrotá-lo em Campos dos Goytacazes não é uma tarefa fácil. Mas que depois dos festejos ninguém se dê ao trabalho de desfilar com um caixão em praça pública para marcar o fim de sua influência local. É que além de outros já terem feito isso antes para depois aderir ao seu grupo, um simples olhar para os vereadores eleitos mostrará que Garotinho atuou com um claro Plano B nessas eleições. Se perdesse a Prefeitura, não poderia perder a Câmara de Vereadores. E isso ele conseguiu. Além disso, apesar de haver quem ache que aquela costumeira distribuição de afagos poderá melhorar a correlação, há que se lembrar que 2017 será um ano especialmente difícil para as finanças municipais. E mais do que ninguém, Anthony Garotinho saberá trabalhar essa realidade de vacas magras para, digamos, segurar o rebanho.

Além disso, basta dar uma olhada nos prefeitos eleitos em outros municípios para verificar que Anthony Garotinho não atuou apenas pensando em Campos dos Goytacazes, e a vitória de seu candidato em Itaperuna está aí para provar isso de forma clara. É esse olhar para além de Campos dos Goytacazes, que chega até a aliança com Marcelo Crivella no Rio de Janeiro, que mostra que apesar de ter tomado um torpedo na proa, não é ainda dessa vez que o encouraçado de Garotinho vai afundar.

Mais do que ninguém o prefeito eleito de Campos dos Goytacazes vai ter que se lembrar de rapidamente de que agora passou de estilingue para vidraça. E, pior, que na condição de vidraça, o principal estilingue que terá apontado contra ele será o de Anthony Garotinho. Como antecipo que, em nome da governabilidade, a coalizão vencedora vai começar um processo de cortes de custos que atingirá basicamente os programas sociais da Prefeitura, vamos como fica essa passagem de estilingue para vidraça. Enfim, que o novo prefeito festeje bastante até 31 de Dezembro, pois a partir de 01 de Janeiro vem chumbo quente por ai.