A sabotagem de um projeto revolucionário: o desmonte silencioso da Universidade do Terceiro Milênio

Como a Uenf se afastou do projeto transformador de Darcy Ribeiro em meio à captura das riquezas do interior fluminense e à erosão de seu modelo original

O levantamento realizado pela diretoria da Associação de Docentes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Asduerj), que divulguei neste blog, constitui uma evidência contundente de um processo de sabotagem do projeto da chamada “Universidade do Terceiro Milênio”, concebido por demanda da população campista sob a liderança de Leonel Brizola e Darcy Ribeiro.

Fundada a partir de um modelo inovador, a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf) introduziu mudanças estruturais decisivas. Em primeiro lugar, abandonou o modelo departamental clássico, adotando os laboratórios de pesquisa como eixo organizador de sua estrutura institucional. Em segundo, estabeleceu a pós-graduação como fundamento do seu modelo acadêmico, ancorado na produção científica, o que permitiu um início ágil e altamente qualificado. Por fim, definiu como princípio a contratação exclusiva de docentes com título de doutorado, em regime de dedicação exclusiva. Com esses pilares, a Uenf avançou de forma rápida e notável, tornando-se uma espécie de laboratório vivo de um novo modelo universitário no Brasil.

Esse projeto, contudo, estava intrinsecamente ligado a uma condição essencial: a valorização material de seu corpo de servidores, por meio dos melhores salários do país. Para Darcy Ribeiro, esse não era um detalhe, mas um elemento estruturante. Afinal, tratava-se de implantar uma universidade de excelência fora dos grandes centros metropolitanos, em uma região marcada por desigualdades profundas e estagnação econômica — um desafio que exigia medidas igualmente extraordinárias.

Passados quase 33 anos de sua fundação, a Uenf encontra-se distante do modelo originalmente idealizado. A própria expressão “Universidade do Terceiro Milênio” desapareceu dos documentos institucionais recentes, como se o projeto tivesse sido silenciosamente abandonado. O que se observa hoje é uma adaptação resignada ao possível, em contraste com o horizonte transformador que orientava a concepção original.

Ainda que nem todos os problemas tenham origem externa, é difícil ignorar que parte significativa do esvaziamento da Uenf resulta de decisões estratégicas que limitaram seu potencial como polo dinâmico no interior fluminense. Caso esse projeto tivesse sido plenamente desenvolvido, é plausível supor que certas dinâmicas regressivas observadas no estado do Rio de Janeiro encontrariam maior resistência. Ao inviabilizar a consolidação desse modelo inovador, evitou-se também o “mau exemplo” de uma ciência de excelência florescendo fora dos circuitos tradicionais de poder e riqueza.

Nesse contexto, é impossível dissociar esse processo da forma como as rendas petrolíferas foram apropriadas no interior do estado, transformando a região em uma espécie de “Oriente Médio brasileiro”. Bilhões foram gerados, mas amplamente capturados por interesses privados, sem promover transformações estruturais significativas. Ao contrário, reforçou-se um modelo social e economicamente excludente. Enfraquecer a Uenf — retirando-lhe capacidade crítica e potência transformadora — acabou sendo funcional a esse arranjo.

Ainda assim, instituições atravessam ciclos, e não há destino irreversível, sobretudo no caso de uma universidade com o DNA da Uenf. No entanto, se os fatores externos foram determinantes para sua inflexão, a retomada de seu projeto original dependerá, em primeiro lugar, de uma transformação interna. Será necessário romper com a paralisia e a anemia intelectual que se escondem sob o verniz de um empreendedorismo superficial — muitas vezes apenas um rebaixamento de expectativas travestido de inovação. O desafio colocado é recuperar a capacidade de pensar e agir à altura do momento histórico, honrando o legado de Darcy Ribeiro e Leonel Brizola.