Ciência em risco: a emergente venda de falsas cartas de aceite

Fake journal acceptance letters

A entrevista abaixo foi publicada originalmente em inglês no site “Retraction Watch” que é uma espécie de vigilante da boa ciência e que se especializa em acompanhar a “despublicação” de artigos científicos cujos conteúdos são fisgados com todo tipo de problemas, incluindo plágios e falsificação de dados [1].

A entrevista em questão, com a Editora Associada da Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE), Angela Cochran, trata de mais um tipo de esquema ilegal para pegar pesquisadores incautos (ou não) por meio da venda de cartas falsas de aceite em revistas científicas de renome.

Como Angela Cochran alerta, o problema pode ser muito maior do que já se sabe neste momento, e o conhecimento acerca do tamanho deste tipo de esquema ilegal pode estar sendo minimizado pelo fato de que os pesquisadores que tenham sido enganados não estão se apresentando por várias razões.

De toda forma, a leitura desta entrevista pode ser útil a quem não quer ser a próxima vítima do esquema das cartas de aceite falsas.

Parabéns! Seu papel foi aceito. (Exceto se a carta de aceite for falsa).

counterfeit bill

Você trabalhou duro em sua pesquisa, passou um tempo escrevendo e, finalmente, a boa notícia vem: o periódico com o qual você se inscreveu aceitou seu artigo. O problema é que, para vários autores, essa boa notícia fica ruim – a aceitação era falsa.

Recentemente, em Scholarly Kitchen, Angela Cochran, Editora Associada da Sociedade Americana de Engenheiros Civis (ASCE), revelou uma nova tendência perturbadora na publicação predatória: Intermediários que prometem ajudar pesquisadores a obter suas descobertas publicadas, mas, em vez disso, cobrem as taxas. Conversamos com Cochran sobre sua experiência com esse novo tipo de falsificação e como ela acha que editores (e autores) podem reagir.

Retraction Watch (RW): parece um truque bastante elaborado para fazer alguém acreditar que um periódico aceitou o trabalho quando não o fez. Como você suspeita que o processo funciona?

Angela Cochran (AC): Eu não sei o quão complicado isso precisa ser, na verdade. Suspeito que um intermediário fraudulento esteja, de alguma forma, anunciando seus serviços a autores que normalmente têm problemas para navegar pelo sistema ou para obter documentos após a revisão por pares. No caso mais antigo que descobrimos, o autor enganado nos enviou uma foto de um cartão postal em seu quadro de avisos do departamento, oferecendo ajuda para ser publicado em três periódicos na mesma área de assunto. Outro autor nos falou de uma conexão mais pessoal. Esse autor encontrou alguém que disse que era amigo do editor da revista. Mais recentemente, recebemos três cartas de aceitação fraudulentas com pelo menos um autor em cada trabalho proveniente da mesma universidade iraniana.

O intermediário está cobrando uma taxa ou dizendo aos autores que cobramos as taxas de submissão e publicação de artigos. Nós também não cobramos. Em pelo menos um caso, os autores receberam até comentários de revisores falsos. Os autores, em seguida, recebem uma carta de aceitação e, eventualmente, entre em contato conosco para perguntar quando o jornal irá publicar ou por que ele não apareceu na edição prometida da revista.

RW: Dos sete autores que você conhece e que foram enganados, dois estão baseados no Irã e cinco na China. Você apresenta um dilema: você deve alertar suas instituições sobre o que aconteceu? Você pode dizer mais sobre por que você acha que deveria (ou não deveria) fazê-lo?

AC: Recebemos uma 8ª carta desde o meu post do Google Scholarly Kitchen sobre o assunto. Alertar as instituições pode ser complicado. Quando pedimos aos autores mais informações, eles geralmente ficam em silêncio [2]. Eu suponho que eles estão ou envergonhados ou preocupados que eles estarão em apuros. Até recentemente, não vimos um padrão. No entanto, recebemos uma terceira carta do Irã e uma instituição é a mesma em todos os três. Pretendemos notificar a universidade como alguém claramente está tirando proveito dos pesquisadores daquela instituição em particular.

RW: Em um exemplo, você conseguiu rastrear a falsificação para um serviço de edição baseado na China. Como você fez isso, e você tem algum plano para agir sobre a informação?

AC: Nesse caso, o autor nos forneceu algumas correspondências por email. Eu pesquisei o endereço de e-mail e ele foi vinculado a um serviço. Eu verifiquei o site, que não estava em Inglês, para ver se eu poderia encontrar qualquer menção de nossos periódicos. Muitos desses sites, seja na China, na Rússia ou na Ucrânia, realmente publicam capas de periódicos e convidam autores a se submeterem a esses periódicos. Não consegui encontrar nenhuma menção aos periódicos da ASCE no site chinês. Sem um caso de representação falsa, não tenho certeza se há algo que um editor possa fazer. Suponho que o editor cuja assinatura forjada aparece em cartas de aceitação poderia apresentar algum tipo de queixa, mas isso provavelmente seria uma perda de tempo.

RW: Em um exemplo, você conseguiu rastrear a falsificação para um serviço de edição baseado na China. Como você fez isso, e você tem algum plano para agir sobre a informação? 

AC: Nesse caso, o autor nos forneceu algumas correspondências por email. Eu pesquisei o endereço de e-mail e ele foi vinculado a um serviço. Eu verifiquei o site, que não estava em Inglês, para ver se eu poderia encontrar qualquer menção de nossos periódicos. Muitos desses sites, seja na China, na Rússia ou na Ucrânia, realmente publicarão capas de periódicos e convidarão autores a se submeterem a esses periódicos. Não consegui encontrar nenhuma menção aos periódicos da ASCE no site chinês. Sem um caso de representação falsa, não tenho certeza se há algo que um editor possa fazer. Suponho que o editor cuja assinatura forjada aparece em cartas de aceitação poderia apresentar algum tipo de queixa, mas isso provavelmente seria uma perda de tempo. 

RW: Desde que você compartilhou sua experiência com cartas de aceitação falsas, outros editores se manifestaram para compartilhar histórias semelhantes? Quantos incidentes você conhece agora? 

AC: Em resposta a minha postagem no Google Scholarly Kitchen, vários editores comentaram que viram cartas de aceitação fraudulentas. Curiosamente, os números parecem baixos, mas suspeito que há muito mais por aí do que sabemos. Os editores só descobrirão essas cartas fraudulentas se o autor entrar em contato conosco. 

RW: Você escreve: “Esses serviços falsos prejudicam a reputação dos serviços de edição de idiomas legítimos e dos editores freelancers da mesma maneira que os jornais predatórios tiram uma mordida de periódicos responsáveis.” Você pode falar mais sobre isso? 

AC: Existem muitos serviços legítimos que ajudam os autores com edição de idioma, formato de manuscrito e até mesmo encontrar um diário apropriado para trabalhos. Serviços fraudulentos que não cumprem o que prometeram podem deixar os autores de países em desenvolvimento desconfiados de serviços legítimos que podem realmente ajudá-los. 

RW: Você sugere fazer alterações nas diretrizes do autor para que os autores fiquem menos propensos a serem enganados. Você pode explicar algumas das mudanças e como elas podem ajudar a evitar isso? 

AC: Acho que se os editores forem mais explícitos sobre o que acontecerá durante o processo de submissão e revisão por pares, os autores terão uma melhor compreensão de quando as promessas são boas demais para ser verdade. Por exemplo, se as diretrizes do autor deixam claro de onde os e-mails do autor virão (como um sistema de submissão), como será o número do manuscrito, quanto tempo levará um processo típico, se os artigos serão aceitos sem alterações e tipo de informação será contida na correspondência, eles podem identificar melhor a fraude. Por outro lado, muita informação dá aos serviços fraudulentos uma ideia de como falsificar o processo.


[1] https://retractionwatch.com/2018/06/05/congrats-your-paper-was-accepted-or-was-it/

[2] https://scholarlykitchen.sspnet.org/2018/04/18/paper-acceptedunless-letter-forged/

Governo dos EUA move ação contra editor de “trash science”

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A partir da página pessoal do jornalista Maurício Tuffani na rede social Facebook tomeiconhecimento de um desdobramento bastante peculiar em relação ao OMICS Group Inc, um dos principais produtores mundiais de “trash science”.  É que a partir do blog “Retraction Watch”, pudemos tomar conhecimento de uma ação movida por úm órgão do governo dos EUA, o Federal Trade Commission, contra o OMICS Group por uma série de violações de códigos de conduta, começando pelo anúncio de que usaria o sistema de “avaliações por pares”, quando este não seria o caso (Aqui!).

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Mas os problemas envolvendo as práticas comerciais do OMICS Group também envolveriam a ocultação dos altos custos associados à publicação de artigos em suas muitas revistas até que fosse dado o “aceite”. A partir começaria a ocorrer outra prática considerada prejudicial aos pesquisadores incautos que seria a dificuldade de retirar um dado determinado do processo de publicação. Ao fazer isto, o  OMICS Group impediria que o artigo pudesse ser resubmetido em outra revista. 

Outra parte da ação da FCT contra o OMICS Group envolve a realização de conferências (provavelmente caça-niqueis) com taxas de inscrição muito caras e que prometem a presença de pesquisadores renomados que acabam não comparecendo. Em outras palavras, o OMICS Group cobra caro e não entrega o prometido.

Essa ação de caráter pioneiro certamente não será a última que será movida contra editores predatórios. A novidade aqui é que está se inaugurando este novo momento na relação da comunidade científica com as editores predatórias se dá pela força da intervenção direta do governo dos EUA.  Mas é interessante notar que parte dos elementos utilizados para construir o caso contra o OMICS Group já eram de conhecimento de boa parte da comunidade científica,. Isto levanta a questão óbvia de porque tanta gente ainda se dispunha a enviar artigos científicos para serem analisados para possível (e quase certa) publicação por este editor de “trash science”.

Para quem quiser ler a íntegra da ação da FCT, basta clicar (Aqui!)

Jeffrey Beall desmonta um dos mitos do “trash science”: revistas predatórias e a transferência da propriedade intelectual

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Um dos mitos que cercam a rendição de muitos pesquisadores às revistas de “acesso aberto” é de que estas permitem, em troca de um taxa pela publicação de um dado artigo científico, que os autores mantenham seus direitos intelectuais sobre suas pesquisas. Essa “regra de ouro” das publicações de acesso aberto (muitas delas comprovadamente apenas esquemas de captação de dinheiro de pesquisadores incautos ou não) serve como desculpa para que muitos evitem as editoras tradicionais, onde o procedimento do “peer review” ainda é majoritariamente utilizado para que um artigo seja aceito.

Eu digo majoritariamente porque já existem evidências suficientes de que este não é necessariamente o caso, bastando para isso visitar sites como o “Retraction Watch” (Aqui!) para que se verifique que os problemas envolvendo a retirada de artigos publicados atingem tanto editores predatórios como as grandes corporações que dominan a publicação de documentos científicos.

Entretanto, voltando à questão do mito de que as revistas de “acesso aberto” não demandam a entrega de direitos intelectuais dos autores dos artigos que puiblicam, o professor Jeffrey Beall, responsável entre outras contribuições pela “Beall´s List” de editoras e revistas predatórias, acaba de demonstrar que isto não é verdade. Segundo o que o professor Beall apurou a maioria das revistas de acesso aberto mantidas por editoras predatórias demandam sim que os autores abram mão de seus direitos de propriedade intelectual, em que pese o pagamento de taxas nem sempre módicas para publicar artigos científicos (Aqui!).

A derrubada deste mito deveria levantar algumas questões preciosas sobre o que motiva muitos pesquisadores no Brasil, e fora dele, a recorrerem a revistas cujo padrão de controle sobre a qualidade do que publicam é, no mínimo, muito precário.  Como já observei aqui, na base desta ação está o fato de que agências de fomento e bancas examinadoras formadas para contratar docentes em instituições de ensino superior faz algum tempo optaram por premiar a quantidade em vez da qualidade. Como a maioria dos pesquisadores já sabe disso, a opção lógica para muitos deles foi de jogar na privada qualquer escrúpulo com o rigor científico para poderem multiplicar o número de artigos publicados, a maioria deles sem nenhuma contribuição real para o avanço do conhecimento.

Aliás, tudo estaria “tranquilo e dominado” se não fosse por indivíduos (dentro da comunidade científica e fora dela) que decidiram não se omitir em relação à naturalização de práticas de publicação que atentam contra o desenvolvimento da ciência. Dentre estes nomes eu sempre destaco os casos do Professor Jeffrey Beall (Aqui!)e do jornalista Maurício Tuffani (Aqui!) cujos trabalhos  em prol da qualidade científico venho acompanhando. Mas certamente existem muitos outros que hoje fazem um trabalho semelhante de defesa da integridade e do rigor que deveria acompanhar a ciência como é o caso do já citado Retraction Watch.

Lamentavelmente não vejo ainda uma reação mais coordenada e coerente para que o lixo científico produzido por editoras e revistas predatórias seja tratado de forma adequada em prol do desenvolvimento da ciência brasileira.  No caso brasileiro, o silêncio oficial das principais agências de fomento (CNPq e Capes) e das principais sociedades científicas (como a Academia Brasileira de Ciência (ABC) e a SBPC) contribui diretamente para que não haja um debate mais amplo sobre os malefícios da adesão ao “trash science“.

A minha expectativa é depois dessa contribuição do professor Jeffrey Beall sobre a questão da propriedade intelectual, alguma ação mais abrangente seja adotada para que se recoloque a qualidade sobre a quantidade do que se é publicado. A ver!