Reestruturação tributária: que os ricos paguem mais

Dentre do mega pacote de projetos que governo Bolsonaro enviou  ao congresso após a vitória de Bruno Pacheco e Arthur Lira está uma mensagem para realizar a chamada “Reforma Tributária”  que mudaria a forma de cobrança e distribuição dos recursos auferidos com o recolhimento de impostos no Brasil.  Ainda que o teor desse projeto específico ainda não seja plenamente conhecido, posso antecipar que ele não deverá corrigir (e talvez agravar) o cerne do problema tributário brasileiro: os pobres pagam impostos de mais, e os ricos quase não pagam nada.

Tomemos, por exemplo, o caso do Imposto  Predial e Territorial Urbano (IPTU) que acaba de ser majorado em todas as cidades brasileiras, inclusive aqui em Campos dos Goytacazes. Se olharmos o carnê que cada proprietário recebeu, veremos que com certeza a distorção de valores entre áreas ocupadas pelas classes mais ricas em relação aos bairros periféricos. 

Neste caso específico, o eleitor de Guarus, justamente o que elegeu Wladimir Garotinho têm serviços da Bangladesh enquanto paga impostos de Bélgica, enquanto que os da Pelinca vivem o contexto diametralmente oposto.

O caso de Campos dos Goytacazes é um excelente exemplo para ilustrar o fato de apesar do habitantes ricos das cidades brasileiras se doerem com os valores ínfimos de impostos que pagam, é sobre os mais pobres que o cutelo tributário sempre cai mais pesado.

Aliás, se olharmos outros impostos básicos, como no caso do Imposto de Renda, veremos a manutenção desse caráter regressivo do sistema de impostos brasileiros, onde a cobrança é mais pesada relativamente sobre os assalariados do que sobre os ultrarricos.  Em função disso é que qualquer reajuste nas tabelas de cálculo do imposto de renda é empurrado com a barriga pelos governos de plantão, a imensa maioria deles diretamente alinhados com os interesses dos donos do capital que se refastelam com a especulação financeira.

As distorções do caso brasileiro ficaram ainda mais evidentes no tratamento da crise causada pela pandemia da COVID-19 quando o custo da distribuição de paliativos financeiros para os que perderam seus empregos foi retirado do orçamento da União, prejudicando áreas estratégicas como saúde, educação e ciência e tecnologia, sem que se cogitasse como ocorreu na Argentina a taxação das grandes fortunas. E não custa nada lembrar que durante a pandemia em curso houve um aumento das fortunas dos bilionários brasileiros, a começar pelo setor da saúde.

A falta de uma discussão sobre a natureza distorcida do sistema tributário brasileiros é um dos calcanhares de Aquiles das estratégias adotadas até aqui para corrigir as abissais diferenças sociais existentes no nosso país, deixando os ricos livres para especular livremente no sistema financeiro, e chorar suas lágrimas de crocodilo quando se menciona a necessidade de se mudar radicalmente a distribuição dos custos dos tributos no Brasil. 

Mudanças de temperatura ‘afetam os pobres mais do que os ricos’

  • Mudança repentina na temperatura aumenta o risco de hospitalização entre os mais pobres: estudo
  • Pesquisa abrangeu quase 148 milhões de internações em mais de 1.800 cidades brasileiras
  • Aqueles que sofrem de doenças infecciosas, respiratórias e endócrinas eram os mais vulneráveis

Pôr do solEm ambientes extremamente quentes, um aumento de um grau Celsius na temperatura diária acarreta um risco maior de hospitalização para as pessoas mais pobres.  Peter Ilicciev / Fiocruz , Creative Commons

Por Meghie Rodrigues

Pessoas que moram em cidades mais pobres têm maior risco de serem hospitalizadas se as temperaturas mudarem rapidamente ao longo de um dia ou em um curto período, de acordo com um estudo realizado no Brasil.

Embora se soubesse que as variações de temperatura aumentavam o risco de doenças e mortalidade para pessoas com doenças como diabetes ou asma, os pesquisadores queriam entender o impacto dos indicadores socioeconômicos, como a renda familiar mensal.

Paulo Saldiva, professor sênior da faculdade de medicina da Universidade de São Paulo e coautor da pesquisapublicada no The Lancet Planetary Health, disse à SciDev.Net : “Essas disparidades são para tudo que você pode imaginar, do COVID-19 a problemas cardíacos. ”

Ao analisar dados de cerca de 148 milhões de hospitalizações em 1.814 cidades brasileiras de janeiro de 2000 a dezembro de 2015, os pesquisadores descobriram que um aumento de um grau Celsius em um determinado dia, em relação ao dia anterior, aumentou o risco de hospitalização em 0,52 por cento em média .

Embora os números possam parecer baixos, os riscos reais podem ser muito maiores porque “a variabilidade da temperatura pode mudar em vários graus de dia para dia”, diz Ben Armstrong, professor de estatística epidemiológica da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, que fez não participar do estudo.

“Essas disparidades são para tudo em que você pode pensar, de Covid-19 a problemas cardíacos.”  Paulo Saldiva, Universidade de São Paulo

Os pesquisadores encontraram disparidades entre os municípios. Pessoas com menos de 19 anos ou mais de 60 anos e portadores de doenças infecciosas, respiratórias e endócrinas de cidades de menor renda apresentaram maior risco de internação por mudanças de temperatura do que as de cidades ricas.

A análise baseou-se em estatísticas socioeconômicas municipais do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, dados de hospitalização do Sistema de Informação Hospitalar do Sistema Único de Saúde e relatórios meteorológicos diários de um conjunto de dados meteorológicos brasileiros revisados ​​por pares.

A equipe descobriu que pessoas com doenças endócrinas, como diabetes, em cidades de baixa renda tinham quase quatro vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas do que aqueles com condições semelhantes que moravam em cidades de alta renda.

Pessoas com doenças infecciosas em cidades pobres tinham quase três vezes mais probabilidade de serem hospitalizadas por causa de mudanças bruscas de temperatura do que suas contrapartes em cidades ricas, e era um quadro semelhante para doenças respiratórias.

Diabetes e doenças respiratórias não são causadas pela variabilidade da temperatura, mas podem ser adversamente afetadas por ela. A capacidade de nossos vasos sanguíneos de inchar quando está quente ou contrair quando está frio é uma proteção importante contra mudanças bruscas de temperatura, explicou Saldiva.

“Com hipertensão não controlada ou diabetes, as pessoas podem ter aterosclerose, que enrijece os vasos sanguíneos. Isso torna mais difícil para eles lidar com a variação de temperatura porque suas funções de regulação térmica não funcionam mais tão bem ”, acrescentou.

Armstrong disse à SciDev.Net : “Esses resultados são bastante impressionantes, pois a associação entre status socioeconômico e vulnerabilidade fica muito clara aqui.”

Onda de calorAs ondas de calor têm um efeito prejudicial à saúde e os mais pobres são os mais vulneráveis. Crédito: Raúl Santana / Fiocruz ( Creative Commons)

Pessoas de cidades de baixa renda muitas vezes carecem de boa estrutura de habitação e ar condicionado, “e muitas pessoas em áreas rurais trabalham ao ar livre, sendo expostas diretamente ao calor e às variações diárias de temperatura”, disse Sonja Ayeb-Karlsson, professora da Universidade das Nações Unidas Instituto de Meio Ambiente e Segurança Humana, que não participou do estudo.

“Além disso, dietas pobres e estresse financeiro aumentam o impacto mental que pode tornar as pessoas que vivem em regiões mais pobres ainda mais vulneráveis”, acrescentou ela.

Saldiva acredita que essa vulnerabilidade pode ser verdadeira em outras partes do mundo. “O Brasil pode ser, infelizmente, um bom laboratório para esse tipo de estudo: o país é desigual e temos variabilidade climática além de bons dados de saúde”, disse.

Armstrong concorda, mas recomenda cautela: “A extrapolação é sempre arriscada porque há muitos recursos que devemos levar em consideração. Faz sentido extrapolar esses resultados para a América Latina, por exemplo, mas talvez não para o mundo todo. ”

A migração em massa e as mudanças climáticas podem causar estragos evolutivos para os humanos, alerta Saldiva.

“As respostas vasculares ao clima são diferentes em cada parte do mundo e levou milênios para cada pessoa desenvolver sua vantagem adaptativa. As bactérias, ao contrário de nós, evoluem em questão de horas. Com a mudança climática, entraremos em um descompasso evolutivo ”, diz ele.

A pesquisa teve apoio da FAPESP, doadora SciDev.Net.

fecho

Este artigo foi inicialmente  escrito em inglês e publicado no site SciDev [Aqui!].

Poluidores ricos

Relatório da Oxfam: Os ricos são muito mais prejudiciais ao clima do que os pobres

brinquedos de luxoBrinquedos de luxo e pecado climático. Foto: dpa / Victoria Jones

De acordo com um estudo, o percentual mais rico da população mundial lança na atmosfera mais de duas vezes mais emissões de dióxido de carbono, que prejudicam o clima, do que a metade mais pobre da humanidade. Isso emerge de um relatório que a organização de desenvolvimento Oxfam publicou antes do debate geral da 75ª Assembleia Geral da ONU em Nova York, que começou na terça-feira. A Oxfam pediu que os ricos reduzam seu consumo de CO2, invistam mais em infraestrutura pública e reconstruam a economia de maneira favorável ao clima.

O relatório enfoca os anos de 1990 a 2015, que são importantes para a política climática e nos quais as emissões dobraram em todo o mundo. Os dez por cento mais ricos (630 milhões) foram responsáveis ​​por mais da metade (52 por cento) das emissões de CO2 durante este tempo, informou a Oxfam. O percentual mais rico (63 milhões) sozinho consumiu 15%, enquanto a metade mais pobre da população mundial era responsável por apenas 7%.

As consequências catastróficas da crise climática já se fazem sentir em muitos lugares. “Responsável por isso é uma política que se concentra em incentivos ao consumo, promete crescimento contínuo e divide economicamente o mundo em vencedores e perdedores”, disse Ellen Ehmke, especialista em desigualdade social da Oxfam Alemanha. “Os mais pobres pagam o preço pelo frenesi de consumo de uma minoria rica.”

Na Alemanha, de acordo com a Oxfam, os dez por cento mais ricos ou 8,3 milhões de pessoas são responsáveis ​​por 26 por cento das emissões alemãs de CO2 no período examinado. Com 41,5 milhões de pessoas, a metade mais pobre da população alemã, cinco vezes maior, consumia apenas um pouco mais a 29%. Uma alavanca na luta contra as mudanças climáticas é o tráfego, especialmente o tráfego aéreo. A Oxfam é particularmente crítica em relação aos SUVs urbanos, que foram o segundo maior gerador de emissões entre 2010 e 2018.

“Temos que resolver juntos as crises de clima e desigualdade”, disse Ehmke. As emissões excessivas de CO2 dos mais ricos são às custas de todos e devem ser restringidas. “Impostos para SUVs que prejudicam o clima e voos frequentes seriam um primeiro passo.” Dpa / nd

fecho

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Neues Deutschland [Aqui!].

Educação para manter a desigualdade: Bolsonaro para os pobres, Paulo Freire para os ricos

paulo-freire-para-os-ricos-bolsonaro-para-os-pobres

*Por José Ruy Lozano, publicado originalmente no dia 07 de Dezembro de 2017 pelo LeMonde Diplomatique Brasil

Pipas de várias cores enfeitam o céu. Alunos observam algumas subirem e outras caírem, enquanto tentam compreender como a direção do vento influencia o movimento, além de verificarem na prática conceitos científicos como aerodinâmica, resistência do ar e força da gravidade. Tudo na base da experiência concreta, envolvendo tentativas e erros.

Voltando à sala de aula, professor e alunos discutem, organizados em círculo, o que se aprendeu com aquela vivência. A diferença hierárquica entre mestre e estudantes se dilui, e o professor mostra-se mais como um mediador ou um facilitador do processo de aprendizagem.

Pano rápido. Vamos nos deslocar para outra realidade.

Alunos uniformizados prestam continência e dirigem-se aos policiais, que também são professores, utilizando os termos “senhor” e “senhora”. Nos corredores da escola, com paredes cinzentas, não se veem bedéis, mas guardas, alguns armados. Todos os meninos usam o mesmo corte de cabelo, todas as meninas têm o cabelo preso.

Na sala de aula, o professor fala e os alunos ouvem. Todos os estudantes sentam-se enfileirados e qualquer contato entre eles durante a explanação gera uma advertência. Contabilizadas, as advertências podem provocar a expulsão do aluno.

As primeiras cenas são parte do cotidiano de um grande colégio de elite, recém-chegado à cidade de São Paulo. As seguintes são exemplares da realidade vivida em colégios estaduais administrados pelas polícias militares de cada estado.

As descrições revelam duas tendências – contraditórias – cada vez mais presentes no panorama escolar brasileiro. As escolas particulares mais caras investem em metodologias ativas, considerando os interesses e as individualidades dos alunos, partindo do pressuposto de que eles, alunos, são os protagonistas da aprendizagem. Já escolas públicas de muitos estados brasileiros estão terceirizando sua administração às polícias militares e apostam na disciplina mais rígida e no ensino mais tradicional.

Grandes empresários e grupos de investimento estrangeiros compram ou erguem escolas com tecnologia moderna e formação de ponta, onde os alunos aprendem a explorar o mundo por uma interação lúdica. Enquanto isso, o deputado Jair Bolsonaro espalha nas redes sociais vídeos propagandeando as virtudes das escolas administradas pela PM, cujo mantra é lei e ordem.

Uma agridoce ironia: o ponto cego dos discursos das escolas de elite é admitir que as metodologias que propõem são em grande medida inspiradas em teorias da educação que tiveram Paulo Freire como um de seus expoentes.

Geralmente, esses colégios mencionam programas de formação de universidades norte-americanas, como Harvard e Stanford. O que não dizem é que obras como Pedagogia da Autonomia, um clássico do pensador pernambucano, estão na bibliografia básica das faculdades de educação inspiradoras de seus projetos pedagógicos.

A elite brasileira, que adora odiar Freire, compra a peso de ouro para seus filhos o ingresso em escolas em muito influenciadas por ele, bem como por outros pensadores considerados progressistas no campo da educação, como Jean Piaget ou Maria Montessori.

A ironia continua. Aos filhos dos pobres, resta a disciplina escolar do século XIX. Ainda que justamente pensando neles Paulo Freire tenha elaborado suas teses, a eles são negadas sua influência e seu prestígio.

Mas a diferença talvez não seja tão despropositada ou surpreendente como se pode pensar à primeira vista. Afinal, nas escolas públicas estudam os pobres, que serão no futuro funcionários dos alunos ricos.

E o que se espera do trabalhador pobre, a não ser obediência?

Aos ricos, proporciona-se liberdade. Dos ricos, esperam-se criatividade, “empreendedorismo”, autonomia. Ao pobre, destinamos o adestramento, a normalização foucaultiana de condutas, a padronização de comportamentos.

Acima de tudo, não se deve incentivar o questionamento, tampouco uma perspectiva crítica dos filhos das classes menos favorecidas. Isso deve ser reservado àqueles capazes de pagar mensalidades astronômicas, que compram um desenvolvimento cognitivo “diferenciado” para seus filhos.

Assim a educação brasileira cumpre seu papel: o de continuar sendo um dos instrumentos mais terríveis de manutenção da desigualdade social.

Obra de Antony Theobald


 *José Ruy Lozano é sociólogo, autor de livros didáticos, conselheiro do Conselho Independente de Proteção à Infância (Cipi) e coordenador pedagógico geral do Colégio Nossa Senhora do Morumbi – Rede Alix.

FONTE: https://diplomatique.org.br/bolsonaro-para-os-pobres-paulo-freire-para-os-ricos/?fbclid=IwAR2MbeVVah0PYIJeGs6lwdA88wLPOGSg5gFiNIprwFBuf8hfz9G7N1XBrYU

Voz da Alemanha e os protestos sob o olhar do morro

pavao

Mais uma vez,  um órgão da imprensa internacional dá um show na mídia corporativa brasileira ao apresentar a visão de quem não foi ao protesto de domingo no Rio de Janeiro. E a visão que surge não é aquela que a elite branca gosta de pintar de pobres alienados que preferem ficar no bar bebendo cachaça em vez de procurar um futuro melhor.

Essa reportagem da Deutsche Welle (Voz da Alemanha) deveria ser lida não apenas por pessoas como eu que não apoiam nem o protesto, nem o governo Dilma. Essa reportagem deveria ser lida, principalmente, por aqueles que ainda querem salvar o governo Dilma, já que as críticas apresentadas pelos moradores da Pavão-Pavãozinho parecem refletir exatamente o sentimento daquela porção da população que deu o segundo mandato a Dilma Rousseff, apenas para verem instaladas políticas claramente neoliberais e antipopulares.

E lapidar é a frase de um porteiro sobre as manifestações de domingo: “todos os ricos foram”.  Minha síntese sobre essa declaração: melhor os ricos prestarem bem atenção no que estão desejando!

Do alto do morro, outra visão dos protestos

Moradores de comunidade em Copacabana não escondem ponta de decepção com governo e medo da atual crise. Mas ainda são poucos os que veem motivo para descer e se juntar às manifestações contra Dilma.

Vista da comunidade Pavão-Pavãozinho: crise política divide a comunidade de cerca de 20 mil pessoas

Apenas 500 metros separam a rua Saint Roman, principal acesso à comunidade do Pavão-Pavãozinho, da praia de Copacabana. Mas, mesmo diante de um futuro de incertezas, foi lá do alto do morro, de onde se tem uma vista privilegiada do mar, que a maioria dos moradores acompanhou a manifestação pelo impeachment da presidente Dilma Rousseff no último domingo (13/03).

A crise política divide a comunidade de cerca de 20 mil pessoas na zona sul do Rio de Janeiro. Nos bares, frequentadores fazem questão de acompanhar pela TV as últimas notícias. E ainda que o assunto seja recorrente nas rodas de conversa em escadarias e vielas, poucos viram motivo para descer e se juntar aos manifestantes. Entre as razões, a crença de que a corrupção é maior do que o Partido dos Trabalhadores (PT) e os governos de Dilma, e seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva.

A comunidade foi pacificada em 2009, mas ainda sofre com as obras incompletas prometidas pelo Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) em 2008. O destino dos 43 milhões de reais previstos em obras, os moradores desconhecem. Por ali, ainda faltam investimentos em mobilidade e serviços básicos, como saneamento e rede de energia elétrica.

Cátia F., que tem um pequeno comércio na favela Cantagalo não quis participar dos protestos

Mas, apesar de uma ponta de ressentimento com o governo federal, gente como a operadora de caixa Maria de Lurdes Silva, de 44 anos, acredita que os problemas do Pavão-Pavãozinho e do Brasil são fruto de uma corrupção que assola o país bem antes da chegada do PT ao poder, em 2002. No domingo, ela preferiu ficar em casa. E garante que a maioria dos vizinhos também. Para ela, as manifestações são “uma burrice sem tamanho”.

“Vão tirar a Dilma e colocar quem no lugar? Ela está sendo usada como bode expiatório. Todo mundo rouba no Brasil, e até acho que o Lula tenha roubado também. Quem não? Mas o governo dele melhorou a vida dos pobres. Quando o Fernando Henrique governou, roubou também. O problema foi causado porque o Lula não conseguiu colocar rédeas na roubalheira”, argumenta Maria de Lurdes.

“Todos têm as mãos sujas”

Os laços do Pavão-Pavãozinho com a política são antigos. Na década de 1960, enquanto havia uma política de remoção em outras favelas da zona sul, empreendida pelo então governador Carlos Lacerda, a comunidade ganhou suas primeiras obras de urbanização, com melhorias nas escadarias e no abastecimento de água. Em 1984, no primeiro mandato de Leonel Brizola no governo do estado do Rio de Janeiro (1983-1987), foram realizadas algumas obras de urbanização, como a implantação de um plano inclinado no Pavão-Pavãozinho.

Moradores como o motorista Carlos Alberto da Silva, de 52 anos, lembram bem disso. Desempregado, ele faz bicos vendendo chinelos para sobreviver, se diz descontente com a corrupção, mas acredita que destituir a presidente não é solução para a crise.

“Eu preferi ir à igreja no domingo. Aqui todo mundo sempre votou no Brizola, ele vinha aqui e passava o dia, sentava, conversava com todos no bar. Depois, votamos no PT. Eu votei na Dilma e estou muito decepcionado, mas ela foi eleita e tem de terminar o trabalho. A vida mudou nos últimos anos para melhor, apesar de eu estar desempregado há seis meses. Se a Dilma e o Lula roubaram, terão de pagar pelos erros”, avalia.

O porteiro Jacinto e sua família preferiram ficar em casa

Em 2012, um estudo socioeconômico de 16 comunidades pacificadas do Rio feito pela Firjan indicava que o Pavão-Pavãozinho tinha a maior renda per capita (755 reais) e a segunda menor taxa de desemprego (5%). Mas, apesar de ter quatro escolas municipais e uma creche, registrava, ainda, a terceira pior escolaridade média entre pessoas com 25 anos ou mais –apenas 5,9 anos de estudo.

“Se você tem a tal da elite branca que faz o protesto, você ainda permite o governo sustentar essa narrativa de que o protesto é choro de perdedor. Isso está ficando cada vez menos sustentável. Você já tem, inclusive em classes com menos dinheiro e educação, algum nível de consenso pela responsabilidade da presidente e do partido dela pela crise”, opina o cientista político Rodrigo Prando, da Universidade Mackenzie.

E quem tem medo de que a crise piore ainda mais, achou melhor ficar longe dos protestos, como Cátia Maria Marcelino, de 33 anos. Dona de uma loja de roupas e acessórios num beco da comunidade, ela se diz preocupada com a queda no movimento e teme um retrocesso econômico ainda maior. Segundo ela, derrubar a presidente sem alternativas concretas é “absurdo e perigoso”.

“O problema é que todos os partidos têm as mãos sujas. O que precisam fazer é continuar investigando e punir quem rouba. Se tirar a Dilma, entra o vice dela, que é corrupto. Se não for ele, tem o [presidente da Câmara] Eduardo Cunha, que é corrupto. Sobra quem? O PSDB e o PMDB, que também estão cheios de suspeitas? Esses dois aí só pensam em ajudar os ricos. Tenho a sensação de que estamos andando para trás”, lamenta Cátia.

“Todos os ricos foram”

Opinião semelhante tem o porteiro Manuel, de 40 anos. Morador do alto do morro, ele trabalha num edifício à beira-mar. Ele estava trabalhando no domingo, mas garante que, mesmo se tivesse tempo, não iria para as ruas porque “só havia ricos protestando”.

“Eu via no prédio onde trabalho. Todos os ricos foram. E rico não gosta do PT e de pobre. Rico só gosta do trabalho dos pobres. Não podemos confiar em quem defende os ricos. Votei no Lula, na Dilma e, se ele se candidatar em 2018, voto nele de novo. Pelo menos, eles pensam na gente. Dilma foi eleita e tem que ficar. Só não sei se ela vai ter força, esse negócio está muito embaraçado”, opina Manoel, pedindo para não ter o sobrenome revelado.

Milhares de manifestantes protestaram neste domingo em Copacabana

Segundo o cientista político Valeriano Costa, pesquisador da Unicamp, o não comparecimento das classes sociais mais baixas aos protestos se explica. Além da desconfiança quanto ao que está sendo discutido, o discurso dos organizadores não é dirigido aos interesses e preocupações dessa camada da população.

“Por exatamente serem pessoas que têm questões básicas de sobrevivência, elas têm, primeiro, um medo muito grande de perder o que ganharam. Não é sobre questões sociais e políticas públicas que está se falando nas manifestações, mas sobre um tema que toca diretamente uma classe média que, na verdade, se considera a grande vítima do Estado, do imposto de renda alto, das políticas sociais pesadas”, observa.

Para Jacinto Pedro da Costa, de 42 anos, protestar não adianta nada. Ele votou no PT nas últimas eleições e, decepcionado, diz que não pretende repetir a escolha. Nascido e criado no Pavão-Pavãozinho, ele se diz apartidário e promete pesquisar muito bem antes de decidir em quem votar no futuro. Mas, ele acredita ser injusto atribuir somente ao PT os problemas do país. E arrisca: se outros partidos fossem melhores, trabalhariam juntos por uma reforma política.

“Existem empresários ricos que não querem só derrubar a Dilma, mas querem acabar com o PT. Não é justo, mesmo que tenham cometido erros. Por causa do PT consegui abrir minha primeira conta em banco, consegui crédito para comprar as coisas e colocar mais comida dentro de casa. A corrupção fez os poderosos de todos os partidos se misturarem”, queixa-se Costa, porteiro de um edifício na vizinhança.

FONTE: http://www.dw.com/pt/do-alto-do-morro-outra-vis%C3%A3o-dos-protestos/a-19116649

Grupo dos 85 mais ricos do mundo tem riqueza igual à dos 3,5 bilhões mais pobres

yacht-landscape-billion-oxfam

Segundo Oxfam International, bilionários acumulam fortuna de US$ 1,7 trilhão. Às vésperas do Fórum Econômico, entidade alerta para luta contra desigualdade

RIO – O pequeno grupo das 85 pessoas mais ricas do mundo concentra a mesma riqueza que os 3,5 bilhões mais pobre do planeta, revelou nesta segunda-feira uma pesquisa da organização Oxfam International. O estudo foi divulgado às vésperas do Fórum Econômico Mundial e tem como objetivo estimular o debate sobre a desigualdade social no encontro, que ocorre a partir de quarta-feira em Davos, na Suíça.

De acordo com o relatório, o grupo de super-ricos acumula fortuna de US$ 1,7 trilhão. A entidade afirma ainda que 1% da população mundial detém quase metade da riqueza mundial: US$ 110 trilhões.

Para a Oxfam, dedicada ao combate à pobreza, o alto nível de desigualdade está relacionado à concentração de poder, que garante mais oportunidades aos mais favorecidos. A entidade cita pesquisas realizadas em seis países, inclusive o Brasil, que mostram que a maioria das pessoas acredita que as leis são distorcidas em favor dos mais ricos. Segundo o estudo, paraísos fiscais, práticas anticompetitivas e baixo investimento em serviços públicos estão entre os fatores que dificultaram uma melhor distribuição de oportunidades.

“Esta captura de oportunidades pelos ricos às custas dos pobres e da classe média ajudou a criar uma situação onde sete de dez pessoas no mundo vivem em países onde a desigualdade aumentou desde os anos 80”, afirmou a Oxfam.

Para o diretor da organização, Winnie Byanyima, que estará em Davos, a luta contra a pobreza está relacionada ao combate à desigualdade.

– O aumento da desigualdade está criando um círculo vicioso onde riqueza e poder estão cada vez mais concentrados nas mãos de poucos, deixando o resto de nós lutando por migalhas que caem da mesa – afirmou Byayima.

FONTE:  http://oglobo.globo.com/economia/grupo-dos-85-mais-ricos-do-mundo-tem-riqueza-igual-dos-35-bilhoes-mais-pobres-11355568#ixzz2rDW2jGmn