Estudo mostra que percepção de corrupção e falta de transparência diminuem disposição popular de custear adaptação à elevação do nível do mar

slr rio de janeiroO nível do mar na costa brasileira tende a aumentar nas próximas décadas. No Brasil – onde mais de 60% da população vive em cidades costeiras –,  inexistem análises integradas acerca da vulnerabilidade dos municípios litorâneos a este e a outros impactos decorrentes das mudanças climáticas, incluindo o aumento da frequência e da intensidade de chuvas

Começo este 2022 com a informação de que um artigo científico em que participo foi publicado pela revista “Ocean and Costal Management”.  O artigo intitulado “Preferences for sea level rise adaptation: A contingent valuation study in Rio de Janeiro State, Brazil‘ (ou em português “Preferências para adaptação ao aumento do nível do mar: Um estudo de avaliação contingente no Estado do Rio de Janeiro, Brasil“) é produto de uma parceria entre docentes da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) e duas universidades sediadas nos EUA (a Fairfield University e a Bryant University).

Artigo 1 2022

O artigo parte do fato de que a elevação do nível do mar tem o potencial de causar graves impactos nos estados costeiros do Brasil. Essa elevação deverá atingir de forma específica o estado do Rio de Janeiro que possui um alto percentual de sua população exposta às consequências do aumento do nível do mar. Neste estudo,  foi um método de avaliação contingente para explorar a disposição dos habitantes do Rio de Janeiro em pagar por políticas de mitigação do aumento do nível do mar . Dado o alto nível de corrupção percebida na máquina pública estadual, o trabalho também avaliou se os habitantes prefeririam que os esforços de mitigação fossem administrados pelo governo estadual ou por uma coalizão mais diversificada de partes interessadas da comunidade. Nossos resultados indicam que os residentes não estão dispostos a pagar impostos de propriedade adicionais para financiar políticas de mitigação do aumento do nível do mar, a menos que os formuladores de políticas sejam transparentes com o uso desses fundos.

Uma consequência prática deste estudo seria aumentar o nível de conscientização sobre os riscos potenciais da elevação do nível do mar  entre os habitantes do Rio de Janeiro. É que apesar de cerca da metade dos participantes do nosso estudo terem mostrado algum nível de preocupação sobre os efeitos da elevação do mar no estado do Rio de Janeiro, fato que é consistente com a porcentagem de entrevistados que acreditam ser provável ou muito provável observar os efeitos da elevação do mar no curto prazo (5-10 anos) . No entanto, mais de 20% de nossa amostra considera que a elevação do nível do mar será um problema no longo prazo (25 anos ou mais), mas não imediatamente. Essa crença pode levar a uma inação míope que deixaria o estado do Rio de Janeiro despreparado para lidar com a elevação do nível do mar e seus efeitos no futuro.

Quem desejar uma cópia do artigo, basta requisitar via o e-mail do Blog do Pedlowski.

A natureza no Rio de Janeiro está sendo destruída pelas milícias

Criminosos estão desmatando santuários da floresta tropical para a construção ilegal de prédios de apartamentos

desmatamento rondoniaNão só no Rio: um terreno desmatado na região amazônica próximo a Porto Velho, no estado de Rondônia (17.9.2019)

Por Norbert Suchanek para o JungeWelt

Oficialmente,a onça ‘parda, que tem até 2,3 metros de altura e 70 quilos, é considerado extinto na Grande Rio de Janeiro desde a década de 1930. Mas, surpreendentemente, no ano passado, uma câmera de vigilância filmou o felino em um parque paisagístico na zona oeste da cidade brasileira. Um grupo de pesquisadores da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ) deu início a sua trilha. Eles percorreram as reservas naturais e florestais da área urbana e montaram várias armadilhas fotográficas. O esforço valeu a pena. “Nossos dados confirmam que Puma concolor está repovoando a cidade”, relatou a equipe de pesquisa na revista científica Check List em setembro . No entanto, não se sabe ao certo quantos exemplares do felino, também conhecido como puma, vagam pelo Rio.

O que está claro: a volta da onça-parda ressalta a importância da preservação dos vestígios de Mata Atlântica na metrópole carioca e a necessidade de manutenção e ampliação dos corredores entre os fragmentos florestais maiores. Mas o oposto tem acontecido há anos. O oeste do município do Rio de Janeiro, em particular, é controlado por milícias criminosas fortemente armadas. As milícias estão aproveitando os preços dos imóveis que explodiram há cerca de dez anos e a resultante carência de moradias na metrópole carioca. Eles se rasgam sob as unhas de espaços públicos e muitas vezes cravam ilegalmente prédios inteiros de apartamentos sob o olhar da polícia e das autoridades ambientais, para depois venderem. As milícias, também recrutando de ex-policiais, estão abrindo caminho cada vez mais para a ocupação das reservas naturais. De acordo com os últimos dados da secretaria de meio ambiente da cidade do Rio de Janeiro, os criminosos desmataram cerca de 500 hectares de floresta para a construção de moradias ilegais  entre 2017 e 2020. Quase metade delas está nos três bairros da zona oeste de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba.

A prefeitura do Rio declarou guerra ao alvoroço e, segundo suas próprias declarações, demoliu mais de 300 prédios ilegais desde o início do ano – 34 deles em área de Mata Atlântica. No entanto, gravações da TV Globo em junho mostraram que prédios ilegais ainda estão sendo construídos em reservas naturais.

Em outubro, o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro montou uma força-tarefa especial contra a grilagem de terras e transações imobiliárias ilegais pelo crime organizado na cidade. O decreto do Ministério Público destacou as ações das milícias no manguezal protegido de Guaratiba. Eles venderam ilegalmente terras na área, construíram estradas nos manguezais e ergueram prédios sem qualquer infraestrutura. O esgoto não tratado das casas danificou o rio Cabuçu-Piraquê e os manguezais. Além disso, o Ministério Público reclamou do desmatamento dentro da reserva de 4.398 hectares de mata atlântica do Mendanha, que faz parte da serra Gericinó-Mendanha e, como os manguezais de Guaratiba, é habitat da redescoberta onça-parda.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal JungeWelt [Aqui! ].

Estudo mostra que a onça-parda está de volta no município do Rio de Janeiro

Os grandes felinos perambulam pelos restos da floresta no Pão de Açúcar há anos

onça-pardaCaptura na armadilha fotográfica: Um puma (Puma concolor) no Parque Estadual do Desengano, uma área protegida no norte do Rio de Janeiro. Foto: AFP / Inea / Samir Mansur

Por Norbert Suchanek para o Neues Deutschland

A onça-parda (também conhecida como puma) é a segunda maior espécie de felino selvagem nas Américas do Norte e do Sul, depois da onça-pintada . No Brasil está na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção. Na área urbana do Rio de Janeiro, o poderoso felino é considerado extinto desde a década de 1930. Mas os pesquisadores agora refutaram essa suposição. Sem serem notados pelas autoridades e pelo público, as onças-pardas obviamente estão morando novamente no Pão de Açúcar há anos.

O felino de cor castanho claro a castanho-avermelhado escuro, também conhecido como Puma, pode atingir dimensões de até 2,3 metros e peso corporal superior a 70 kg. Apesar de seu tamanho, os biólogos os classificam como pequenos felinos. Há quase exatamente um ano, por acaso, uma câmera de vigilância filmou um desses grandes felinos rondando o parque paisagístico criado pelo arquiteto de jardins Roberto Burle Marx na zona oeste do Rio de Janeiro. Isso causou rebuliço entre os especialistas em predadores da Universidade do Rio de Janeiro (UERJ). Durante anos, eles estiveram na trilha das supostamente extintas onças-pardas da região.

O animal filmado no parque foi apenas uma rara coincidência e apenas em trânsito? Os biólogos seguiram a trilha da onça-parda. Eles percorreram as reservas naturais e remanescentes florestais na área urbana e montaram várias armadilhas fotográficas. E seus esforços valeram a pena. “Nossos dados confirmam que a  onça-parda no Rio de Janeiro não foi exterminada e repovoou a cidade”, relata a equipe de pesquisa em estudo publicado recentemente na revista científica “Check List” (DOI: 10.15560 / 17.5.1353).

“Pudemos mostrar que o felino filmado no Parque Burle-Marx não foi um incidente isolado”, diz o biólogo Jorge Antônio Lourenço Pontes, um dos autores do estudo. As pegadas e arranhões inconfundíveis dos animais nas árvores comprovaram sua presença em pelo menos três pontos da região metropolitana do Rio: nas duas cordilheiras urbanas florestadas parcialmente protegidas Gericinó-Mendanha e Pedra Branca e nas proximidades do Parque Paisagístico Burle Marx, na Reserva Biológica de Guaratiba, localizada na região litorânea, onde ainda existem grandes áreas intactas de manguezais. Pontes já havia registrado uma pista de onças vagando por ali em 2007.

registros de onça-pardaMapa de registros da Onça-parda no município do Rio de Janeiro: 1 e 2 = RBE Guaratiba (2007 e 2008); 3 = PE Mendanha e PNM Serra do Mendanha (2008); 4 = RPPN Bicho Preguiça (2018 e 2020); 5 = Propriedade Roberto Burle Marx, Barra de Guaratiba, contígua a PE Pedra Branca (2020). Os mapas de inserção mostram a localização do estado do Rio de Janeiro no sudeste do Brasil.

Em suas investigações mais recentes em áreas protegidas e áreas naturais do Rio, os pesquisadores também descobriram outra grande espécie de mamífero que aqui foi considerada extinta e fala também pela volta dos grandes felinos: os queixadas. Esse porco selvagem, que pesa até 30 quilos, é uma das presas prediletas do puma.

No entanto, os pesquisadores ainda não sabem dizer quantas onças-pardas vagam pelo Rio de Janeiro. Qualquer número, segundo Pontes, seria apenas um tiro no escuro. “A onça-parda é um animal muito tímido, até achar a pegada é difícil.” Só quando o chão é macio e lamacento é que as pegadas ficam por algum tempo. Os pesquisadores, portanto, encontraram rastros de onças-pardas, principalmente na maré baixa em áreas de mangue ou após chuvas na floresta.

Os biólogos da Universidade do Rio garantem que os gatos ásperos não representam uma ameaça para o homem. “O puma é muito tímido: sua tendência natural é fugir quando vê alguém.”

A ocorrência da segunda maior espécie de felino selvagem da América Latina na cidade, no Pão de Açúcar, ressalta a importância da preservação dos vestígios de Mata Atlântica na metrópole e a necessidade de manutenção e ampliação de corredores entre os fragmentos florestais maiores, destacam os pesquisadores. A proteção de áreas naturais menores, ainda intactas, como a floresta Camboatá na área urbana, é particularmente importante, pois podem servir como escalas para as onças.

Foi justamente essa floresta de Camboatá de 160 hectares, no distrito de Deodoro, que deveria ter sido desmatada este ano para dar lugar a um autódromo de Fórmula 1. Mas as alegações de corrupção contra o então prefeito Marcelo Crivella e sua reeleição perdida salvaram esta ilha de floresta tropical no meio do município do Rio de Janeiro – por enquanto. No início deste ano, o novo prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, se manifestou claramente contra um autódromo em Deodoro e apoiou a ideia de colocar a floresta do Camboatá sob proteção da natureza. No entanto, isso não significa que a sobrevivência e a expansão dos Pumas do Rio de Janeiro estejam garantidas com ele. O prefeito, que já trouxe os Jogos Olímpicos de 2016 econômica e socialmente catastróficos para a metrópole e ampliou rodovias urbanas e derrubou e desmembrou áreas naturais para esse fim, considera possível um novo autódromo na área urbana, mas não em Deodoro. Paes prefere o bairro de Guaratiba para “seu” circuito de Fórmula 1. Mas lá também está um dos três habitats identificados da onça-parda no Rio de Janeiro.

A principal ameaça aos pumas, porém, vem das milícias cariocas. Durante anos, eles exploraram a carência de moradias na metrópole causada pela disparada dos preços dos imóveis e pela retirada ilegal de blocos inteiros de apartamentos do chão sob os olhos da polícia e das autoridades ambientais. O restante das áreas protegidas de floresta tropical da cidade são particularmente afetadas. De acordo com a secretaria de Meio Ambiente do município, as milícias desmataram cerca de 500 hectares de floresta no Rio entre 2017 e 2020 para a construção ilegal de moradias. Quase metade deles está nos três bairros da zona oeste de Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba apenas.

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Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pelo jornal “Neues Deutschland” [Aqui!].

Servidores estaduais do Rio de Janeiro: o Regime de Recuperação Fiscal mata!

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POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

Em 2017, ativos, aposentados e pensionistas tiveram atrasos salariais, parcelamentos e durante alguns meses, não receberam seus vencimentos. Muitos deles precisaram sair de suas casas, servidores com idade de 70 anos iam até a UENF buscar cestas básicas. Alguns com visível comprometimento de sua saúde física, expostos a situações humilhantes enquanto o Estado mantinha isenção fiscal para joalherias de luxo. Esta imagem é forte demais para esquecer. Pois ver um servidor de setenta anos precisando ir até a Universidade buscar uma cesta básica expressa bem o que os governos do Rio querem para o funcionalismo público.  Aqueles que não são diretamente afetados pela retirada de direitos devem ficar atentos com a pauperização de condição de grande parte dos servidores. A crise seletiva que temos vivido, parece não ter fim. E quando aparece uma solução, ela representa a morte para o conjunto do funcionalismo fluminense.

Se você vive de salário, na ativa ou já conquistou o direito a aposentadoria, leia com atenção. O que se tenta aprovar a toque de caixa no Rio de Janeiro, é um plano que, ao pretender recuperar as contas do Estado, retira de forma cruel os direitos dos servidores ativos e aposentados. É a retirada dos triênios para os que ingressam, alteração na estabilidade dos servidores, é a pá de cal nos sonhos de jovens que fazem a licenciatura para ingressar no magistério público. Quem vai ingressar no serviço público sem direito a licença—prêmio, licença especial , promoções e progressões ? Para os que estão neste momento, perto de alcançar o direito ao descanso, planejando com familiares, usufruir desta conquista, importa saber que o governador Cláudio Castro (PSC) pretende taxar ainda mais aposentados e pensionistas. Mais realista que Paulo Guedes, Castro quer impor aos servidores do Rio a morte. Não, não é uma metáfora. Aumentar os anos de trabalho para mulheres que já cumprem dupla jornada e que são a maioria na área de educação, propor a revisão do regime único dos servidores (um remédio muito amargo para aposentados e pensionistas que podem ficar fora das futuras recomposições salariais) é a morte. Taxar aqueles que hoje não pagam a alíquota previdenciária por estarem abaixo do teto é produzir o adoecimento psíquico e físico ao conjunto do funcionalismo público. Não é aceitável.

Em meio a uma pandemia o governador Cláudio Castro pretende precarizar ainda mais os serviços de saúde. Sim, pois servidor mal pago não pode realizar seu trabalho plenamente. A conta dos anos de má administração dos governos fluminenses deve ser paga mais uma vez por nós?

Fiquemos atentos aos desdobramentos destas votações. Deputados e deputadas que votarem contra o servidor não merecem nosso voto em 2022. Entre ativos, aposentados e pensionistas somos quase 500 mil servidores. O número de famílias atingidas pelo pacote de maldades é alto demais para que aceitemos as métricas do presidente do Rio Previdência, Sergio Aureliano. É importante que a população tenha acesso a conclusão da CPI do Rio Previdência[1]. Foi a gestão fraudulenta de recursos que custou bilhões aos cofres do Estado e não a folha de pagamento do funcionalismo.

Por fim, a adesão ao novo Regime de Recuperação Fiscal é um falso remédio para uma doença terminal. Paulo Lindesay  (ASSIBGE) apresenta uma questão muito pertinente: é recuperação fiscal ou implosão fiscal[2]? Seguimos organizados no Fórum Permanente de Servidores Públicos do Rio de Janeiro[3], para denunciar este plano de recuperação fiscal e alertar ao conjunto da população que todos perderão com esta aprovação. E que não se enganem aqueles que acreditam na recomposição salarial como uma alternativa. A retirada de direitos acaba com o serviço público, portanto, não está em negociação. Não é aceitável entregar o futuro por uma adesão que já está provada como incapaz de sanar os problemas de caixa do estado do Rio de Janeiro.

[1] http://www.sintuperj.org.br/2021/07/06/adiada-apresentacao-do-relatorio-final-da-cpi-do-rioprevidencia/

[2] https://auditoriacidada.org.br/nucleo/regime-de-recuperacao-fiscal-ou-implosao-fiscal-do-estado-do-rio-de-janeiro/

[3] https://fosperj.com.br/

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 * Luciane Soares da Silva é docente do Laboratório de Estudos da Sociedade Civil e do Estado (Lesce) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, e também participa da diretoria da Associação de Docentes da Uenf (Aduenf).

RRF: o ataque aos servidores é só a faceta visível do desmanche e da implosão fiscal imposta ao Rio de Janeiro

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O governador acidental Cláudio Castro é só mais um personagem na trama que retirada do Rio de Janeiro a capacidade de pensar o seu futuro

Não há dúvida de que a nova rodada do “Regime de Recuperação Fiscal” (RRF) que está sendo firmada pelo governo comandado pelo dublê de cantor e governador, Cláudio Castro, desfere uma série de golpes duros nos servidores públicos estaduais, extinguindo direitos, impondo a continuidade do poder de compra dos salários, e congelando concursos públicos.

Mas esse ataque aos servidores, eternos bois de piranha das reformas neoliberais, possui facetas ainda mais draconianas no que tange ao fim da autonomia política e administrativa do estado do Rio de Janeiro, que impedirá a capacidade governamental de formular saídas para os seus graves problemas fiscais, os quais têm desembocado em uma destruição da sua capacidade produtiva, o que desemboca em uma grave crise social, a qual já era grave mesmo antes da erupção da pandemia da COVID-19.

Desde a sua concepção, o RRF é um instrumento que centraliza brutalmente o poder nas mãos do Ministério da Fazenda, e retira de governadores e das assembleias legislativas o poder de governar que é outorgado pela população no momento em que os governantes e representantes são eleitos. 

Com a adesão do Rio de Janeiro ao RRF, quem de fato comanda os destinos dos quase 17 milhões de cidadãos fluminenses é um grupo obscuro de burocratas sentados confortavelmente em gabinetes refrigerados que têm em mente os interesses dos detentores da dívida pública, dívida essa que em boa parte foi produzida sem qualquer controle ou fiscalização, e cujo pagamento continuará infinitamente, sem que haja qualquer perspectiva de sua diminuição.

Mentem descaradamente todos aqueles que prometem que a adesão ao RRF vai recuperar a capacidade de investimento do estado do Rio de Janeiro. A verdade é que não apenas essa capacidade não irá aumentar, mas, muito pelo contrário, irá diminuir. De quebra,quaisquer decisões que pudessem retirar o estado do Rio de Janeiro do controle absoluto de fiscais das políticas neoliberais que ele consolida serão neutralizadas e impedidas de serem levadas a cabo.

Para quem quiser saber mais sobre os aspectos draconianos e piores consequências do RRF sugiro a leitura do texto “A ameaça do regime de recuperação fiscal” assinado por Maria Lúcia Fatorelli que é uma das cabeças pensantes mais preparadas e que atua no âmbito da Auditoria Cidadã da Dívida. Já no caso específico da manutenção do Rio de Janeiro no RRF, um texto a ser lido é o “Regime De Recuperação Fiscal Ou Implosão Fiscal do Estado do Rio de Janeiro?” assinado por Paulo Lindesay, Coordenador do núcleo da Auditoria Cidadã do Rio de Janeiro.

Por fim, há que se notar que na esteira da contínua retirada do Estado da busca de soluções para os problemas crônicos que afligem a população fluminense, o que tem crescido é a influência de grupos criminosos, sejam eles de narcotraficantes ou das milícias (ou em alguns casos com esses grupos juntos e misturados) sobre o cotidiano das pessoas, tendo como consequência maior a privatização forçada de serviços públicos.

Cláudio Castro age rápido para tentar se livrar de escândalo que eclodiu na Secretaria de Administração Penitenciária

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O dublê de cantor e governador (por acaso) do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PSC), agiu de forma rápida e exonerou os policiais Wellington Nunes da Silva e Sandra Faria Gimenes dos cargos que ocupavam na Secretaria de Administração Penitenciária (ver imagem abaixo) após os dois serem pegos, junto com a agora também ex-secretário Raphael Montenegro, em relações para lá peculiares com líderes do Comando Vermelho.

exonerações

Essa velocidade toda não deverá impedir que Cláudio Castro tenha que fazer algo que ele tem feito pouco desde que assumiu de surpresa o governo do Rio de Janeiro, após o impeachment relâmpago do ex-juiz Wilson Witzel, qual seja, dar explicações e não cantorias.

Antonio Carlos Jobim dizia que o Brasil não era para principiantes. Imagine-se o que Jobim diria se ainda estivesse vivendo e frequentando a orla de Ipanema. É que se o Brasil não é para principiantes, o Rio de Janeiro é para quem?

Mas há que se dizer que dificilmente Cláudio Castro vai sair tranquilo para dar tais explicações, e muito menos irá de bike….

Geosmina na cidade do Rio tem relação com esgoto?

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Foto: Marcos Santos/ USP Imagens

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Por Kamila Jessie Sammarro Silva para a Agência Bori

Em 2020 e 2021, a população do Rio de Janeiro recebeu água com forte cheiro e gosto, atribuídos a uma molécula chamada geosmina. Essa substância é produzida por microrganismos que têm seu crescimento favorecido quando há alta concentração de matéria orgânica na água, em geral associada à contaminação. No caso do Rio Guandu, que abastece a cidade, há relatos de despejo de esgoto doméstico e industrial, o que pode comprometer a qualidade de água dos mananciais de captação.

Essa situação elucida um problema que não se concentra apenas na eficiência do sistema de tratamento de água, mas no cenário de poluição dos mananciais abastecedores do Rio de Janeiro. O lançamento de esgoto – muitas vezes bruto, ou seja, sem tratamento -, sobrecarrega as estações de tratamento, a princípio concebidas para entregar uma água de uma qualidade supostamente melhor para a população.

Ainda que não envolva risco direto à saúde, a presença de geosmina pode causar cor e turbidez na água consumida pela população, incompatíveis com a qualidade de água preconizada pelo Ministério da Saúde. Nesta situação, há uma falha em atender os pré-requisitos de controle e vigilância da qualidade da água para o consumo humano estabelecido pelo MS na Portaria  nº 5/2017 (alterada pela Portaria GM/MS nº 888/2021).

De acordo com a Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (CEDAE), em fevereiro de 2021, amostras de água coletadas em alguns pontos indicaram a chegada de água com qualidade para os consumidores, mas, como se trata de um sistema dinâmico, as condições encontradas podem variar em função do momento das análises. Por isso, do ponto de vista técnico, a vigilância deve ser mais incisiva, visando a evitar má qualidade na água distribuída. Além disso, a companhia abastecedora deve monitorar a qualidade da água na saída da estação de tratamento e em pontos estratégicos na rede.

A partir dessa coleta de dados, é igualmente fundamental que haja transparência e comunicação entre a companhia de saneamento, autoridades e consumidores.

Quanto ao tratamento, dentre as medidas que podem ser tomadas a curto prazo, é possível implementar tecnologias mais robustas como plano de contingenciamento, isto é, adicionar módulos de tratamento para emergências. Exemplo disso seria incorporar uma etapa opcional de tratamento por processo oxidativo avançado ao fim do sistema que a CEDAE utiliza atualmente. Tratamentos avançados são amplamente conhecidos pelo setor e poderiam ser implementados para corrigir problemas ocasionais.

A médio e longo prazo, deve haver investimento em outros setores do saneamento, em especial no que tange à coleta e tratamento de esgoto no município e na Região Metropolitana do Rio de Janeiro. Belford Roxo e São João de Meriti, por exemplo, ocuparam as piores posições do Ranking do Saneamento realizado pelo Instituto Trata Brasil com dados do Sistema Nacional de Informações sobre o Saneamento, que abarca o país todo.

Esse cenário revela a necessidade de investimento em infraestrutura de saneamento em várias frentes, em detrimento de soluções paliativas. Caso essas medidas não sejam tomadas, a perspectiva para os próximos anos é que casos de contaminação de água e defasagem no seu sistema de tratamento sejam recorrentes.

Sobre a autora

Kamila Jessie Sammarro Silva é engenheira ambiental e sanitarista e doutoranda em hidráulica e saneamento na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC)/USP.

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Este texto foi inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui!].

Agricultura urbana na favela: este jardim é um paraíso,mas diferente do que você pensa

Como uma fazenda urbana no Rio de Janeiro ajuda muita gente a ter uma vida melhor

urban farming rjA horta da favela de Manguinhos tem o tamanho de três campos de futebol e fica sob uma linha de força. Foto: Ian Cheibub / DER SPIEGEL

Por Nicola Abé , São Paulo, para a Der Spiegel

Nos canteiros de Manguinhos, os jardineiros cultivam frutas e hortaliças de acordo com as regras da agricultura orgânica: sem fertilizantes artificiais. O lixo orgânico é compostado e reciclado. A fazenda está sob rede elétrica, portanto, nenhuma casa pode ser construída na área. Na preparação, 700 caminhões de solo contaminado tiveram que ser removidos e substituídos. Foto: Ian Cheibub / DER SPIEGEL

“É incomum que projetos em favelas tenham tanto sucesso”, diz Barros. “O truque é: você tem que manter as coisas simples.” Como jardinagem. E as pessoas também precisam querer isso. Em última análise, é fácil trabalhar na favela; as pessoas podem ficar um pouco desconfiadas no início, mas basicamente muito acessíveis. “Eles são extremamente  gratos, você apenas tem que lidar com eles corretamente.”

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Este texto foi escrito inicialmente em alemão e publicado pela Der Spiegel [Aqui!].

MPF convoca audiência pública para debater atuação da Superintendência do Incra em assentamentos do Rio de Janeiro

Denúncias de omissão do Incra e implementação adequada de crédito-habitação devem ser discutidas

reforma

O Ministério Público Federal (MPF) convoca audiência pública para o próximo dia 10/5, às 15h, pela plataforma Zoom e transmissão ao vivo pelo canal do MPF no Youtube com o seguinte tema: “A atuação da Superintendência do Incra no Rio de Janeiro em assentamentos: crédito-habitação, destinação de recursos e infraestrutura”. O objetivo é discutir as atividades da autarquia agrária em debate público, aberto e transparente, de forma que o superintendente titular, o superintendente substituto e os diretores da superintendência esclareçam publicamente os seguintes temas: concessão de crédito-habitação em assentamentos, destinação de emendas parlamentares e infraestrutura em assentamento.

A audiência terá a participação de autoridades públicas, movimentos sociais e sociedade civil A medida foi adotada em razão da falta de respostas do Incra-RJ a diversas questões que foram apresentadas pelo MPF, bem como em razão de denúncias sobre os métodos da superintendência na implementação de créditos-habitação. “Pretende-se abrir oportunidade à Superintendência para esclarecer todos os pontos e garantir a participação da sociedade no debate”, afirma o procurador da República Julio José Araujo Junior, que conduzirá a audiência.

Audiência Pública

Às 15h, do dia 10 de maio de 2021, a audiência pública será aberta pelo procurador da República Julio José Araujo Junior, que coordenará os trabalhos. Após, haverá manifestação da mesa, a ser composta por autoridades e representantes da sociedade civil durante 30 minutos. Em seguida, está prevista a participação de convidados por 1 hora. Por fim, durante 1 hora, haverá manifestação da mesa e considerações finais.

A participação na audiência pública será garantida mediante inscrição prévia no e-mail prrj-prdc@mpf.mp.br, até o dia 7 de maio de 2021. Na mensagem, o solicitante deverá informar nome, documento de identificação, órgão e/ou entidade ao qual se vincula e, ainda, se deseja realizar manifestação durante a audiência.

Os inscritos receberão a confirmação por e-mail, incluindo o link de acesso à audiência, até o dia 7/5/2021.

Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro,  twitter.com/MPF_PRRJ,  Atendimento à imprensa: prrj-ascom@mpf.mp.br, Canal no Telegram: https://t.me/mpfrj

Marketing acadêmico: disponibilizando o livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro”

ditadura no campo RJ

Em um momento em que há uma profunda negação da violência e dos crimes cometidos pelo Estado brasileiro durante o período coberto pela Ditadura Militar de 1964, obras que documentem os diferentes ângulos pelas quais a sociedade brasileira, e especialmente os trabalhadores, foi duramente castigada se tornam fundamentais.  Por isso, o  livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro” é de tamanha importância, pois apesar da violência cometida contra os trabalhadores rurais e suas organizações ter atingido níveis duríssimos, ainda existe pouca literatura científica que possa alimentar as devidas reflexões sobre o que aconteceu naquele período e de como ainda convivemos com os efeitos daquele processo todo.

O livro “Ditadura, Conflito e Repressão no campo: a resistência camponesa no estado do Rio de Janeiro” foi organizado pela professora Leonilde Sérvolo de Medeiros, professora do Programa de Pós-Graduação de Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade (CPDA/UFRRJ), que efetivamente é uma das principais intelectuais no campo dos estudos agrários brasileiros, e está dividido em 15 capítulos que discorrem com bastante aprofundamento os enfrentamentos e violências vivenciados pelos trabalhadores rurais do Rio de Janiero.

Um desses capítulos aborda a luta dos trabalhadores rurais do município de Campos dos Goytacazes entre 1964 e 1985 Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes que foram conduzidas pelo Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos (STRC), pioneiro na luta por direitos dos trabalhadores da agroindústria canavieira.  Esse capítulo tem como uma das suas autoras, a professora Ana Maria Almeida da Costa, do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal Fluminense em Campos dos Goytacazes. Aliás, a importância da ação do STRC nas lutas dos trabalhadores rurais é reforçada pela presença de outro capítulo intitulado “Ação sindical e o regime militar. O Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Campos dos Goytacazes entre as décadas de 1960 e 1980”, este de autoria dos pesquisadores Rayanne de Medeiros Gonçalves e Rodrigo Pennutt da Cruz.

Mas é importante dizer que nos seus 15 capítulos esta obra realiza um primoroso trabalho de reconstrução das lutas ocorridas nas áreas rurais de todo o estado do Rio de Janeiro, trazendo ainda 3 anexos que trazem a relação de camponeses presos pelo regime militar, a lista de assassinados no campo entre 1964 e 1985, e ainda a lista dos desaparecimentos forçados.

Esta obra foi publicada pela “Consequência Editora”, mas pode ser baixada na íntegra [Aqui!].