Morra quem morrer, o comércio vai reabrir. Individualismo e despolitização em tempos de pandemia

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Sem identidade coletiva e despolitizados, segmentos inteiros da população acorrem aos bares, sob as benções dos governantes 

O prefeito de Itabuna, Fernando Gomes (PTC), ficou instantaneamente famoso ao proferir a infame, mas sincera, frase “Morra quem morrer, o comércio vai reabrir” quando anunciou a reabertura do comércio na cidade que fica distante 436 km ao sul de Salvador, capital da Bahia.

Por causa de sua sinceridade rara, Fernando Gomes teve que se explicar e conviver com a declaração de um toque de recolher emitido pelo governador Rui Costa (PT) que convive tenta diminuir os números alarmantes de infecção e mortes por COVID-19 na Bahia.

Agora, esqueçamos de Fernando Gomes, que pelo menos é sincero,  para visualizar as imagens do vídeo abaixo vindas do afluente do bairro do Leblon na zona sul da cidade do Rio de Janeiro no primeiro dia de abertura de bares e restaurantes autorizada pelo dublê de bispo e prefeito Marcelo Crivella  (Republicanos)

Ao menos no meu caso, essas cenas levantam a sensação de falência não apenas do Estado, incapaz e indesejoso de exercer suas obrigações de conter uma pandemia letal, mas de set ores inteiros da população que, pelo prazer de sorver uns goles, acabam colocando a si e a todos nós sob o tacão da COVID-19.

Essas cenas de desconhecimento explícito das obrigações de segurança não estão ocorrendo no Brasil, e foram vistas em todos os países que saíram do confinamento causado pela pandemia. Entretanto, aqui a pandemia ainda está em expansão, o que deixa muitas pessoas perplexas com o descuidado e desleixo que fica explícito.

As respostas a estas cenas de flagrante desrespeito aos interesses coletivos certamente ainda embalarão muitos estudos acadêmicos.  Para mim, independente dos estudos que virão, o que fica explícito é que vivemos um cenário que torna explícito os custos da despolitização trazida pelo neoliberalismo que dissolveu regras básicas de solidariedade, desmanchando laços comunitários, deixando-nos isolados em individualidades amorfas. Isso, aliás, explica porque figuras como Marcello Crivella e Jair Bolsonaro acabaram sendo eleitas quando havia outras opções bem melhores do que eles.

Assim, para os que sobreviveram a esta pandemia, uma das primeiras tarefas a serem cumpridas será justamente reconstituir as pontes de convivência social, de modo a que nas próximas pandemias, ninguém precise morrer para que outros possam usufruir de suas identidades líquidas que são constituidas naquilo que o sociólogo polônes Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida“. 

Agora, como o caso de Itabuna e de tantas outras cidades demonstra, é que, justamente por causa da despolitização que dificulta o entendimento do risco em que estamos imersos, a pandemia da COVID-19 não funcionará como um sistema de ondas, mas como uma sanfona que se abrirá e fechará até que não haja mais madeira para queimar nesse grande incêndio em que estamos imersos neste momento.

A saída do Rio de Janeiro do regime de recuperação fiscal: praga ou benção?

O dia de ontem foi marcado por uma daquelas novidades que tiram o sono dos judiados servidores públicos do estado do Rio de Janeiro. É que informados pelo blog do jornalista Lauro Jardim em sua coluna no jornal “O Globo” ficamos sabendo que o ultra poderoso “Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal do Ministério da Fazenda” está ameaçando retirar o estado do Rio de Janeiro dos acordos que possibilitaram o rolamento da dívida ainda durante o malfadado governo do ex-governador Luiz Fernando Pezão.

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A razão dessa punição que está sendo engendrado no ministério comandado pelo banqueiro Paulo Guedes seria uma diferença negligenciável de R$ 31 milhões no total prometido em termos de arrocho fiscal, aquele que pune apenas os servidores públicos e os segmentos mais pobres da população que dependem dos serviços que eles prestam, poderia ser facilmente contabilizado se os valores desviados com um dos hospitais de campanha não montados pelo governo Witzel. 

Mas não, sob a pecha de obrigar o governo Witzel a cumprir acordos que ele mesmo não firmou, o tal “Conselho de Supervisão do Regime de Recuperação Fiscal do Ministério da Fazenda” ameaça retirar o regime do regime de arrocho (quer dizer, recuperação) fiscal que hoje, por exemplo, impede que a rede estadual de saúde esteja prestando serviços à altura dos desafios impostos pela pandemia da COVID-19.

Obviamente há uma quantidade nada desprezível de servidores que veem essa possível saída do Regime de Recuperação Fiscal (RRF) como uma espécie de apocalipse para suas vidas pessoais.  De minha parte, veria essa saída do RRF como o primeiro passo para a recuperação (essa sim merecedora do nome) da autonomia administrativa do Rio de Janeiro que hoje padece por um regime de controle que deixaria os casos da Grécia e Portugal que viveram os piores ajustes neoliberais pelas mãos da Troika parecendo coisa de iniciante.

O fato é que enquanto o Rio de Janeiro estiver dentro do RRF não haverá saída para sua crise econômica abismal, especialmente porque esse programa impede a realização dos investimentos necessários para que haja uma reestruturação da sua matriz econômica. Na prática, o RRF serve apenas aos interesses dos grandes bancos e até dos fundos abutres que controlam parte não desprezível dívida criada pelos anos de farra da turma comandada por Sérgio Cabral e Luiz Fernando, sendo o caso da Operação Delaware” apenas um dos exemplos mais gritantes.

A verdade é que os servidores públicos deveriam ser os primeiros a exigir a devida transparência não apenas em relação aos valores já desembolsados pelo estado do Rio de Janeiro desde sua adesão ao RRF,  mas também sobre os serviços públicos que estão sendo ainda mais precarizados para que o Rio de Janeiro possa seguir à risca a sanha fiscalista dos ultraneoliberais que têm assento no tal conselho de supervisão. Nunca é demais lembrar que além de salários congelados há 6 anos, os servidores do Rio de Janeiro agora sequer terão direito à progressões e enquadramentos por causa das recentes decisões do congresso nacional para liberar quantias irrisórias sob o pretexto de apoiar os estados a combater a pandemia da COVID-19.

Assim,  eu digo aos servidores que hoje podem estar em pânico pela perspectiva de voltarmos à dramática situação de penúria salarial que ocorreu em 2017: tem horas que aquilo que parece ser uma praga pode-se revelar depois uma benção.

Justiça suspende audiência pública virtual do licenciamento ambiental do novo autódromo do Rio de Janeiro

Atendido a pedido do Ministério Público Estadual, a juíza Neuza Regina Larsen de Alvarenga Leite, da 14a. Vara da Fazenda Pública, suspendeu a audiência pública virtual que seria realizada para analisar o processo do licenciamento ambiental do controverso autódromo internacional que o Prefeitura Municipal do Rio de Janeiro pretende construir em parceria público-privada com a Motopark Holding S/A em Deodoro,  na Zona Oeste.

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Em sua sentença, a juíza Neuza Regina Larsen de Alvarenga Leite apontou que a obra, além de não ser prioritária, deverá causar “significativo impacto ambiental”, sem que seja garantida a ampla participação popular em função da grave situação causada pela pandemia da COVID-19.

Em relação à questão da pandemia, a meritíssima acrescentou ainda que, apesar da audiência pretendida ser virtual, a mesma “gerará despesa que, no momento, apresenta-se desnecessária, principalmente para o fim a que se destina, que é a construção de espaço esportivo que não beneficiará a população em suas necessidades prioritárias“. Além disso, a juíza Neuza Regina Larsen de Alvarenga Leite acrescentou que o “Estado não tem conseguido, sequer, comprar os medicamentos objeto de sentença transitada em julgado e, no caso de sequestro de verba, na conta indicada pelo próprio ente estadual para esta finalidade, as ordens judiciais têm retornado negativas. Assim, estando precária a situação financeira do ente estadual, pelo menos é o que consta em processos em curso neste juízo, alegando, inclusive, que todas as verbas estão sendo destinadas para a saúde, não se justifica, neste momento de pandemia, agilizar qualquer procedimento referente à projeto desprovido de essencialidade.

Quem desejar ler a decisão na íntegra, basta clicar Aqui!

Brasil- o inferno da pandemia

O coronavírus está se espalhando rapidamente no maior país da América Latina. O presidente Jair Bolsonaro ainda conta com a flexibilização: ele quer se distrair de acusações sérias contra ele. 

hospital de campanhaNovo hospital de campanha no Rio de Janeiro.  Foto: AFP / Carl de Souza

Por   Ramona Samuel und Tobias Käufer para o Berliner Zeitung

Rio de Janeiro: “O pior”, diz Fleury Johnson, “é que não podemos ajudar as pessoas da maneira que é realmente necessária.” O médico de 28 anos trabalha na UPA Mesquita, um centro médico inicial no Rio de Janeiro. A estação está localizada na Baixada Fluminense, o largo cinturão de bairros pobres que circundam a enorme cidade. Nenhum turista e nenhum estrangeiro chegam lá. Como se costuma dizer no Rio, o verdadeiro Brasil está lá em casa. Tudo é diferente lá do que nos bairros ricos de Ipanema ou Copacabana, onde os hospitais também são melhores.

Ao longo da parede de concreto da UPA, uma grade azul leva à única entrada para todos os pacientes. “24 horas de cuidados” está escrito na parede. Fleury Johnson está enfrentando o maior desafio de sua vida atualmente: o coronavírus chegou ao seu país de origem. E deve ser derrotado.

“Temos muitos pacientes que se pensa terem COVID-19”, diz Johnson. O que dificilmente pode ser feito: Existem poucos ventiladores para muitos pacientes que realmente precisam deles. E, acima de tudo, há muito poucos leitos de terapia intensiva, porque a enfermaria onde ele trabalha é, na verdade, apenas o primeiro ponto de contato dos pacientes. Mas para onde, com as muitas pessoas doentes? “Os pacientes permanecem simples. E não é possível encontrar um local gratuito nos hospitais. Não temos suporte suficiente. “

A situação na UPA é preocupante. Não é possível diferenciar aqui entre pacientes com sintomas semelhantes aos da gripe dos pacientes que vêm por causa de outras doenças. Muitos que querem obter ajuda aqui nem usam proteção bucal.  E o que faz com que o vírus possa se espalhar ainda mais.

O que a equipe médica da UPA Mesquita experimenta agora é comum em todo o Brasil: centros de saúde e hospitais estão sobrecarregados com o atendimento de pacientes com corona e desmoronam. As razões para isso são caseiras. “Existe uma política neste país que quer reduzir a saúde pública. Há um interesse em privatizar o sistema “, diz a médica Cristina Brito, 42 anos.” O que falta é que as pessoas e seu tratamento estejam no centro da política “.

Cristina Brito

A doutora Cristina Brito critica a política de saúde.  Foto: Cristina Brito

O sistema de saúde brasileiro estava em ruínas e cheio de corrupção antes de Jair Bolsonaro se tornar presidente e antes da pandemia de corona.

Antes da Copa do Mundo de 2014, várias centenas de milhares de pessoas em todo o país saíram às ruas para demonstrar investimentos em educação e saúde, em vez de em estádios da FIFA. Mas o curso já estava definido.

E piorou: o Brasil ficou impressionado com a organização da Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos. O aumento esperado não se concretizou. Propagação da corrupção, caixas registradoras foram saqueadas. E a raiva contra a classe política cresceu. O que acabou levando à eleição do populista de direita Bolsonaro. E ele também colocou o lápis vermelho no setor de saúde.

O Brasil já registrou oficialmente mais de 240.000 infecções por coroa e quase 16.000 pessoas morreram. Em relação à população de quase 210 milhões de pessoas, esses são números comparáveis ​​- ainda. Porque nos últimos dias os números aumentaram rapidamente. Ninguém sabe se o Brasil está caminhando para um desastre ou se o topo da curva já foi atingido. E, acima de tudo, ninguém sabe quantas pessoas nos bairros pobres realmente morreram de Covid-19 e não foram incluídas nas estatísticas.

A situação na região amazônica também é dramática. Somente em Manaus, o número de mortes aumentou para mais de 2.000. E a desconfiança das estatísticas oficiais é grande. “Os números que conhecemos como movimento indígena são muito maiores do que aqueles que a autoridade oficial SESAI anuncia”, diz Sonia Guajajara na conversa por vídeo.

Guajajara é o coordenador da Associação dos Povos Indígenas Brasileiros e um dos ativistas mais destacados pelos direitos indígenas. A população indígena é exposta ao vírus sem proteção, as dificuldades para protegê-lo são imensas.

A autoridade competente SESAI deve finalmente tomar medidas para proteger a vida dos povos indígenas. “Precisamos de centros de saúde onde as pessoas são tratadas”, diz Guajajara. “E os hospitais também precisam ser construídos para fornecer serviços básicos aos povos indígenas. Especialmente na região amazônica, onde o sistema de saúde já entrou em colapso. “

Aliás, os povos indígenas do Brasil estão travando outra luta que quase foi esquecida. “Nesta crise, não devemos esquecer que o desmatamento está progredindo”, diz Guajajara. Madeireiros ilegais continuam a penetrar em territórios indígenas, trazendo o vírus com eles. Há também um sistema por trás disso, suspeita Guajajara. O desmatamento já existia sob outros governos. Mas Bolsonaro é contra os direitos humanos, contra os povos indígenas e contra a proteção ambiental. “Ele tem uma política destrutiva. Ele institucionalizou o genocídio no Brasil ”, diz Guajajara. No país, cresce o número de pessoas que suspeitam que o governo nacional não agiu para impedir a propagação da pandemia na Amazônia.

Novos fatos também devem ser criados à sombra da pandemia. Nesta semana, o Congresso decide sobre uma iniciativa legislativa chamada “MP da Grilagem” – liminar para a apropriação de terras. A lei, comenta a Sociedade para os Povos Ameaçados, fornece uma anistia para ocupação ilegal e desmatamento, mesmo de terras indígenas. Os ocupantes ilegais tornam-se proprietários legais.

“Se as regras entrarem em vigor como o poderoso lobby agrícola deseja, os conflitos fundiários surgirão em todo o Brasil. Territórios indígenas na Amazônia, por exemplo, também seriam afetados ”, temia Juliana Miyazaki, consultora da Sociedade de Povos Ameaçados. “Esta lei seria um convite para mais apropriação de terras, mais cortes e queimadas e mais violência contra os povos indígenas em suas áreas protegidas”.

De fato, a pandemia de coroa continua a polarizar o país. Agora existem dois campos. Há o presidente Bolsonaro, que há muito tempo subestimou e subestimou o perigo da pandemia e agora está em campanha pela abertura da vida social. E existem aqueles que lutam rigorosamente contra o vírus.

Às vezes, os campos se reúnem, como aconteceu recentemente durante uma manifestação em Brasília, quando os profissionais de saúde queriam chamar a atenção para as vítimas em suas próprias fileiras. Com cruzes de madeira pretas nas quais os nomes dos médicos e enfermeiros que sofrem de COVID-19 podiam ser lidos. Eles foram atacados, insultados e retratados como mentirosos pelos apoiadores de Bolsonaro. Houve brigas.

O campo de Bolsonaro, por outro lado, organizou carreatas que exigem um “retorno ao trabalho”. Os participantes foram insultados pelos transeuntes. A fenda que atravessa a sociedade está se aprofundando.

Jair Messias Bolsonaro, presidente, é responsável por esse desenvolvimento. Contra todos os conselhos dos médicos, ele continua se misturando com as pessoas, causando multidões e zombando dos meios de comunicação que reportam criticamente sobre a propagação do vírus. “Meu nome é Messias, mas não posso fazer milagres”, disse ele com um encolher de ombros recentemente, quando perguntado sobre a propagação do vírus.

Uma luta pelo poder ocorreu em seu próprio gabinete por causa dessa atitude casual. O ministro da Saúde, Luiz Mandetta, que usou critérios científicos para combater a pandemia e fez campanha pelo fechamento de contatos, perdeu a luta contra Bolsonaro, comprometido com a abertura da vida econômica. Menos de quatro semanas depois, o sucessor de Mandetta, Nelson Teich, desistiu exasperado. No meio da pandemia, há um caos na política de saúde.

“Não levarei meu povo à pobreza apenas para receber elogios da mídia”, disse Bolsonaro há algumas semanas, estabelecendo assim o caminho. Enquanto os governadores e prefeitos às vezes impõem restrições rígidas de saída e paralisam a vida econômica, Bolsonaro se apresenta como advogado de vendedores ambulantes e lojistas. Nesta semana, ele declarou academias, salões de beleza e cabeleireiros como sendo sistemicamente importantes, sabendo que todas essas instalações fazem parte do modo de vida brasileiro. Isso torna ainda mais difícil para os governadores implementar seu curso difícil.

Bolsonaro precisa dessa luta para se libertar de uma crise política doméstica. Nas últimas semanas, o presidente perdeu dois ministros populares, Mandetta e o ministro da Justiça, Sergio Moro, que haviam vinculado o potencial eleitoral tradicionalmente conservador.

Além disso, há uma disputa legalmente controversa sobre uma suposta interferência do presidente nos assuntos da Polícia Federal, que está investigando os filhos de Bolsonaro. Mais e mais políticos estão pedindo que Bolsonaro seja destituído do cargo. Mas isso também abriga o risco de que o presidente possa se apresentar como vítima. Com a “discussão de abertura” que ele iniciou, Bolsonaro tenta suprimir os problemas nas primeiras páginas. E seu ponto de vista está ganhando cada vez mais seguidores.

O médico Fleury Johnson, da UPA em Mesquita, não tem entendimento e, acima de tudo, não tem tempo para debates domésticos desse tipo. Ele não apenas combate a pandemia, mas também os problemas que o equipamento de proteção coloca para ele. É insuficiente e não oferece ajuda a ele como segurança suficiente. Johnson diz: “Todo dia que vou trabalhar, sei que o que acontece lá é muito pior do que o que aparece na mídia”.

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Este artigo foi originalmente publicado em alemão pelo “Berliner Zeitung” [Aqui!].

Padrão de difusão no RJ reforça o caráter multipolar do coronavírus

Aparecida de Goiânia registra segunda morte causada pelo novo ...

Ainda que se desconte o alto fato de subnotificação que marca a difusão do coronavírus no Rio de Janeiro, o mapa abaixo reforça algo que já se sabe sobre o caráter multipolar que caracteriza o seu espalhamento espacial.

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Com base na concentração do número de casos confirmados, identifiquei vários áreas polos (marcadas por cada um dos círculos com cores diferentes para identificar a região administrativa a que pertencem os municípios).

Se usarmos a “teoria dos lugares centrais” desenvolvida pelo geógrafo alemão Walter Christaller fica fácil entender porque determinados municípios estão servindo como pólos de difusão do coronavírus. É que ao assumir papéis centrais no processo de circulação de pessoas e por serem áreas mais dotadas de determinados serviços, estes municípios acabam sendo mais impactadas pela chegada e saída de pessoas. Daí a razão para que se transformem neste momento áreas focais, mas também irradiadoras, do coronavírus.

Um elemento que o mapa acima nos permite dizer é que o estado do Rio de Janeiro, apesar de possuir áreas mais “quentes” em termos do número de casos de infecção, está totalmente ocupado pelo coronavírus.  E as diferenças existentes na magnitude de casos confirmados se dá por suas características demográficas e de nível de atividade econômica. Entretanto, o fundamental é que o coronavírus está perfeitamente distribuído no território fluminense. E isto deveria ser respondido com um maior articulação entre as autoridades sanitárias, de modo a conter a percolação mais intensa do coronavírus, impedindo que se aumente o número de casos nos municípios com menor capacidade hospitalar instalada.

No caso de Campos dos Goytacazes, também não há nada de surpreendente no fato de que o município seja com o maior número de casos confirmados. Isto se dá por todas as características já apontadas acima. A confirmação de que Campos se tornou uma das áreas focais de disseminação do coronavírus é particularmente preocupante, pois em seu interior existem profundas diferenças sociais, o que poderá resultar em uma alta perda de vidas humanas nas áreas mais periféricas e desprovidas de serviços básicos de saúde, abastecimento de água e tratamento de esgotos. 

MPF e DPU recomendam que estado do RJ reforce medidas para conter disseminação de COVID-19

Documento recomenda medidas como ações de informação e fiscalização continuadas para o engajamento da população às regras de isolamento

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O Ministério Público Federal (MPF) e a Defensoria Pública da União (DPU) recomendaram ao governador do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSL), e ao secretário estadual de Saúde, Edmar Santos, que o estado adote uma série de medidas para conter a disseminação da COVID-19 e engajar a população nas medidas de isolamento social.A recomendação, enviada na quinta-feira (8) sugere que o uso de máscaras seja obrigatório em todo o estado e que o governo estadual adote medidas de informação continuada para aumentar o engajamento da população, inclusive com coletivas de imprensa pela SES/RJ sobre a importância das ações de isolamento. Também pede a fiscalização das medidas implementadas, no regular exercício do poder de polícia, observados os princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, eficiência e dignidade da pessoa humana.

O estado deve apresentar os critérios para identificar o esgotamento dos serviços de saúde e, caso identificado, deve fortalecer gradualmente as ações de isolamento, com base nos critérios definidos em documentação técnica e coleta de informações estratégicas em saúde.

O MPF e a DPU destacam a necessidade de que haja número suficiente de profissionais para atendimento aos doentes, bem como EPIs para os trabalhadores de saúde, testes laboratoriais para diagnósticos, leitos clínicos e leitos de UTI completos com respiradores em número pertinente para absorver o impacto do aumento de número de casos caso o isolamento seja flexibilizado.

O documento ainda pede a ampliação de testes para detecção da nova doença e a observância de orientações e normas da Organização Mundial da Saúde, Ministério da Saúde e Conselho Nacional e Estadual de Saúde referentes à retirada de distanciamento social para enfrentamento à covid-19.

“O movimento do governo pelo recrudescimento das medidas de isolamento já está sendo anunciado. O foco da recomendação enviada foi, portanto, ressaltar os aspectos da rede de assistência à saúde e a falta de vagas já observada pela análise direta do sistema informatizado de leitos da Regulação (Sistema Plataforma-SMS), bem como ressaltar a necessidade da adoção de medidas fundamentais para o engajamento da população – como condição para o êxito do isolamento, em qualquer de suas modalidades – e de medidas eficazes de fiscalização, observados os princípios que regem a Administração Pública e o principio da dignidade da pessoa humana. O MPF e DPU entenderam também essencial uniformizar em todo território do estado do Rio de Janeiro a ordem pelo uso obrigatório de máscaras – outra medida recomendada”, destacam os procuradores da República e o defensor público federal que assinam a recomendação.

O documento, com prazo de resposta de 72 horas, lembra que 67% da população fluminense depende exclusivamente do SUS e que o estado do Rio de Janeiro registra aumento exponencial da contaminação, com adesão ao isolamento social de 46,2%, bem abaixo do índice de 70% considerado ideal para o achatamento da curva. Em 7/5, data da recomendação, o painel eletrônico da SES-RJ mostrava 13.295 casos confirmados ; 8.300 recuperados; 1.205 óbitos confirmados; 2.471 internações. Desse total de casos confirmados, 8.577 são no município do Rio de Janeiro.

Ação civil pública – Em outra frente de atuação, outras medidas estão sendo adotadas no processo judicial n. 5004268-19.2020.4.02.5101, em trâmite na 15a Vara Federal do Rio de Janeiro, para engajar a rede federal na rede de assistência da covid-19 e, desta forma, evitar desperdício da capacidade de assistência pública de saúde instalada.

Veja aqui a íntegra da recomendação.

Blog do Berta, uma leitura essencial para entender a natureza seletiva da crise financeira no Rio de Janeiro

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Apesar de não possuir uma listagem pública de veículos da mídia alternativa que eu acompanho regularmente, o fato é que existem excelentes jornalistas que optaram (ou foram optados por assim dizer) a criar seus próprios veículos para continuarem fazendo jornalismo de qualidade.  Por isso, leio regularmente vários blogs e portais que sinalizam essa mudança de paradigma para a produção de jornalismo investigativo qualificado.  Dentre alguns destes veículos cito o portal “Viu!“, o blog do jornalista Marcelo Auler, e, mais recentemente, o blog do jornalista Ruben Berta.

E quero me deter aqui me deter nas interessantíssimas apurações que o jornalista Ruben Berta vem realizando sobre gastos curiosos e vultosos (convenhamos que essa é uma estranha combinação) que estão sendo realizados pelo governo do estado do Rio de Janeiro à guisa de dotar as estruturas públicas estaduais de saúde das condições necessárias para combater a difusão e as inevitáveis consequências da pandemia da COVID-19.

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Uma das matérias publicadas pelo jornalista Ruben Berta revelou que a Polícia Militar do Rio de Janeiro irá pagar R$ 2,3 milhões para que uma loja de materiais de construção forneça, sem licitação é preciso que se frise, forneça máscaras e aventais que, em tese, serão usados para combater os efeitos da COVID-19.

Em outra matéria apareceu algo ainda mais grave que foi a compra superfaturada de 100 mil frascos do antibiótico claritromicina que custando no mercado um preço médio de R$ 30,00, custou aos cofres estaduais a “bagatela” de R$ 120,00.

Uma investigação ainda mais reveladora feita por Ruben Berta se deu com a contratação de uma empresa investigada no Rio Grande do Sul para a construção, também sem licitação, dos chamados “hospitais de campanha” a um custo milionário.  Essa matéria acabou tendo repercussão na mídia corporativa, e explica porque até hoje a cidade de Campos dos Goytacazes ainda não viu a conclusão da unidade deste tipo que deverá operar no antigo terreno da concessionária Vasa.

O que me parece peculiar é que se não fosse pela ação diligente e robusta do ponto de vista jornalístico do jornalista Ruben Berta, não seria possível saber que o problema do estado do Rio de Janeiro continua não sendo falta de dinheiro, mas as formas pelas quais os recursos públicos são utilizados pelos governantes de plantão.

Mas agora que o Ruben Berta “tirou o gato do saco”, é fundamental que os servidores públicos estaduais e suas entidades de classe não caiam na ladainha de que não há dinheiro nos cofres estaduais para que se continue pagando salários em dia. A verdade é que todo aceno no sentido contrário parece apenas querer distrair a atenção de fatos que demonstram o contrário.

E se alguém ainda tiver dúvidas de que a crise financeira do Rio de Janeiro, sugiro a leitura das reportagens postadas pelo jornalista Ruben Berta em seu blog. Simples assim!

 

No pico da pandemia, Wilson Witzel quer impor “privatização selvagem” do Estado a toque de caixa

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Durante a campanha eleitoral de 2018, o candidato Wilson Witzel falou em privatizar as universidades estaduais e depois negou. Agora Witzel mostra que a negação não era verdadeira

Quando meu avô paterno fez 90 anos e ninguém conseguia fazer uma fala em nome da numerosa família que estava em volta do bolo, minha falecida mãe surpreendeu a todos com uma fala que emocionou às lágrimas o velho imigrante que construiu uma jornada gloriosa ao longo de mais de oito décadas em terras paranaenses.  Minha arrematou a sua fala dizendo que os filhos, netos e bisnetos em volta do meu avô eram uma prova de o “fruto nunca cai longe do pé”.

Lembrei hoje dessa cena ao ler que o governador Wilson Witzel enviou ontem para a Assembleia Legislativa, e em regime de urgência, um projeto que retoma o modelo de privatização selvagem que começou a colocar o Brasil no buraco em que se encontra neste momento lá pelos idos de 1995.

Segundo nos informa a jornalista Paloma Savedra em matéria publicada pelo jornal “O DIA”, a proposta formulada pelo governador do Rio de Janeiro promoverá uma privatização ampla do estado, atingindo até as três universidades estaduais e a fundação de amparo à pesquisa do estado (a Faperj).

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Esse movimento implica em uma retirada da presença estatal em áreas estratégicas do funcionamento da segunda economia da federação, justamente em um momento que se precisaria de uma ação concentrada do estado para alavancar uma economia que já se encontrava em franca decadência, antes mesmo da eclosão da pandemia causada pelo coronavírus. Witzel faz assim uma espécie de “Plano Marshall” às avessas, pois retira do estado a capacidade de agir de forma organizada e compreensiva para retirar a economia fluminense do buraco.

Ao buscar a privatização das universidades estaduais e da Faperj, Wilson Witzel também realiza um ataque fulminante na capacidade do Rio de Janeiro de se postar como uma liderança importante na formulação de soluções amplas para a presente pandemia. É que as universidades estaduais e a Faperj estão na linha de frente das ações que têm sido tomadas, com pouquíssimos suporte do governo estadual, para oferecer soluções amplas para o enfrentamento da pandemia.

O interessante é que, no mesmo período em que quer impor um modelo de privatização selvagem, o governador Wilson Witzel tem sido pego em situações pouco lustrosas em relação à realização de contratos para combater a pandemia da COVID-19.  Como tem sido meticulosamente levantado pelo jornalista Ruben Berta, editor do “Blog do Berta”, há uma outra epidemia grassando no Rio de Janeiro em meio da causada pelo coronavírus, envolvendo contratos duvidosos com valores para lá de salgados. Aparentemente, as preocupações do governador Wilson Witzel com a saúde financeira do estado do Rio de Janeiro são, no mínimo, seletivas.

Como em tantos outros casos que já vivi ao longo de mais de duas décadas em que sirvo ao povo do Rio de Janeiro como servidor público, esse ataque em regra às universidades e outros estatais terá de ser respondido de forma direta.  Os problemas causados pela pandemia em termos de aglomerações públicas não poderão excusa para inação política. Esse é um ataque não apenas a instituições públicas estratégicas, mas, principalmente, ao futuro do Rio de Janeiro. A hora de reagir a Wilson Witzel é agora, e a reação não poderá ser deixada para depois.

Mas voltando ao ditado do “fruto não cai longe do pé”, é preciso reconhecer que Wilson Witzel já havia aventado privatizar as universidades estaduais já na condição de candidato a governador. Entretanto, sob pressão da opinião pública, ele acabou recuando em seus discursos de campanha, negando que iria fazer a privatização que quer fazer agora. Pessoalmente nunca acreditei na negação de Witzel, e o envio deste pacote de privatização selvagem prova que eu estava certo, e os que acreditaram no governador estavam errados. 

“O Itabapoanense” emite relatório sobre a COVID-19 nos municípios da Bacia do Rio Itabapoana

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Com o objetivo de facilitar o acesso às informações sobre a disseminação do coronavírus nos 18 municípios que fazem parte da Bacia do Itabapoana, publicamos hoje o segundo boletim semanal, com dados referentes ao dia 19 de abril (o boletim será publicado semanalmente, toda segunda-feira). 

Nesta semana, o número de casos confirmados quase triplicou em relação à semana passada, totalizando 62 casos, sendo Campos dos Goytacazes o município com o maior número de contaminados, 40 no total. Entre os municípios que confirmaram casos pela primeira vez na última semana, estão: Espera Feliz/MG, Bom Jesus do Norte/ES e Presidente Kennedy/ES. O número de mortes em decorrência da doença passou de 2 para 4, sendo as duas novas mortes confirmadas nos municípios de Presidente Kennedy/ES e São Francisco do Itabapoana/RJ.

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É preciso ressaltar que alguns municípios ainda não adotaram a prática de emitir boletins diários sobre a situação da doença, o que dificulta a atualização da tabela acima. Além disso, como vem sendo amplamente divulgado pela mídia, o número de teste realizados no Brasil ainda está muito abaixo do necessário, dessa forma, os números aqui apresentados podem estar subnotificados.

Os dados apresentados aqui foram compilados a partir das informações divulgadas pelas secretarias estaduais de saúde do Rio de JaneiroEspírito Santo e Minas Gerais, dos boletins diários emitidos pelas próprias prefeituras municipais e de notícias veiculadas por jornais da região.

O próximo boletim será publicado dia 27 de abril. Enquanto isso, durante esta semana, vamos publicar aqui no O Itabapoanense as principais medidas adotadas pelos municípios para conter a expansão da COVID-19.

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Este relatório sobre a evolução da COVID-19 na Bacia do Rio Itabapoana foi publicado inicialmente pelo Blog “O Itabapoanense” [Aqui!].

Mapa de densidade de casos confirmados de Covid-19 na cidade do Rio de Janeiro

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 O mapa abaixo foi divulgado no dia de hoje pelo gerente da Redes Fito, Jefferson Pereira, em sua página pessoal na rede social Facebook, e mostra a evolução da difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

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Mapas de difusão do coronavírus no município do Rio de Janeiro.

Segundo as análises disponibilizadas pelo Jefferson Ribeiro, as seguintes tendências estariam ocorrendo:

1- A Zona Sul ainda é a área que apresenta a maior densidade de casos confirmados.

2- A Barra da Tijuca possui uma densidade também elevada contudo devido a sua conformação espacial, o bairro  ainda se encontra isolado.

3- Há uma rampa de aumento da densidade de casos em direção a Zona Norte da cidade do Rio de Janeiro, a começar pela região da Grande Tijuca (Tijuca, Vila Isabel, Maracanã, etc) . Esta é a área com maior poder aquisitivo dentro da Zona Norte,  mas o processo de difusão está se dirigindo para o bairro da Pavuna, passando por bairros como Méier, Madureira e outros.

4- Existem duas áreas de densidade relevante na Zona Oeste não litorânea, que se localizam nos bairros de Bangu e Campo Grande.

Por meio do mapeamento da densidade de casos confirmados por Km² na cidade , é possível  observar que a densificação de casos positivos começou a entrar em zonas com menos poder aquisitivo do município.

Em um primeiro momento da pandemia, a difusão dos casos ocorreu nas áreas mais nobres da cidade respondendo a maior concentração de pessoas com poder aquisitivo, que viajaram principalmente para a Europa. Os casos continuarão a se adensar nessas áreas que têm alta densidade populacional e de idosos.

Já no segundo momento, a difusão está se dando através da transmissão comunitária levando os casos para as outras áreas do município. Contudo, até o momento é possível notar que essa difusão está seguindo um padrão espacial que responde como a nível estadual, com uma hierarquia dos polos de centralidade do município, indo das áreas com maior centralidade para as com menor centralidade.

O avanço dos casos para a Zona Norte é preocupante, embora esperado, por conta desta região apresentar alta densidade populacional, alto percentual de idosos e grande contingente populacional vivendo em áreas sem infraestrutura e de baixa renda que já são acometidas por uma série de agravos à saúde das pessoas.

Em minha opinião, apesar da confirmação destas tendências só poderá ser constatada nas próximas duas semanas, os dados da dispersão do coronavírus na cidade do Rio de Janeiro que aparece neste mapa já possibilitam uma melhor organização dos aparatos de saúde e da distribuição de insumos nas diferentes zonas em que está dividido o município de Rio de Janeiro.

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O conteúdo desta postagem reflete em grande parte os apontamentos disponibilizados pelo gerente Redes, Jefferson Ribeiro, em sua página pessoal no Facebook.