Entre a “austeridade” dos salários e a farra financeira do Rioprevidência: o duplo padrão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro

Enquanto servidores estaduais acumulam perdas salariais e incertezas sobre aposentadorias e pensões, o governo Cláudio Castro mergulha em investigações sobre aplicações bilionárias e saques sucessivos no Rioprevidência, aprofundando a percepção de que a corrida ao Senado pode servir mais como escudo político do que como compromisso com o futuro do Rio de Janeiro

Uma nova operação da Polícia Federal envolvendo aportes da Rioprevidência no Banco Master recoloca o governador Cláudio Castro no centro de um escândalo que mistura risco financeiro extremo, gestão temerária de recursos previdenciários e interesses políticos. Segundo reportagem do jornalista Fábio Serapião publicada no UOL Notícias, a PF investiga operações que expuseram quase R$ 1 bilhão do fundo previdenciário dos servidores estaduais a aplicações consideradas incompatíveis com a natureza conservadora que deveria orientar recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.

Ainda que Cláudio Castro não apareça formalmente como alvo direto das primeiras fases da operação, é impossível dissociar o funcionamento da Rioprevidência das decisões políticas tomadas por seu governo. Afinal, a autarquia é subordinada ao Executivo estadual, e os dirigentes investigados foram nomeados dentro da estrutura política do Palácio Guanabara. O próprio ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acabou preso preventivamente pela PF sob suspeitas de ocultação de provas e obstrução das investigações.

O caso é ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado por  Cláudio Castro aos servidores públicos estaduais. Enquanto bilhões eram movimentados em operações financeiras de altíssimo risco, o seu  governo  se recusava a garantir integralmente a recomposição das perdas inflacionárias do funcionalismo, mesmo após aprovação legislativa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, o discurso de austeridade aplicado aos salários coexistia com uma política de extrema permissividade na gestão dos recursos previdenciários.

A contradição é brutal. Para professores, enfermeiros, policiais, técnicos administrativos e demais categorias do funcionalismo, prevaleceu a lógica do “não há recursos”. Já para operações financeiras envolvendo o Banco Master, marcado por suspeitas crescentes no mercado, houve espaço para aplicações bilionárias que hoje estão sob investigação criminal.

Há ainda um elemento particularmente explosivo nessa trajetória: o uso sistemático dos recursos da Rioprevidência para amortizar parcelas da dívida do estado do Rio de Janeiro com o governo federal. Sob autorização da Alerj, a gestão Castro promoveu retiradas bilionárias do fundo previdenciário, comprometendo a sustentabilidade futura do sistema. Na prática, utilizou-se dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões para aliviar pressões fiscais imediatas do governo estadual.

O resultado dessa política pode ser devastador no médio prazo. O Rioprevidência já carrega histórico de fragilidade estrutural, agravado por décadas de antecipação de receitas petrolíferas e sucessivas manobras financeiras. Ao combinar saques bilionários para pagamento da dívida estadual com investimentos arriscados em instituições hoje investigadas, o governo Castro aprofundou a insegurança de centenas de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.

O episódio também lança sombras pesadas sobre o futuro político do governador. A expectativa de aliados de que uma candidatura ao Senado funcionasse como rota de blindagem institucional tende agora a encontrar maiores obstáculos. Afinal, a sucessão de investigações envolvendo o Rioprevidência, o Banco Master e operadores ligados ao governo estadual reforça a percepção pública de que a disputa eleitoral pode estar menos relacionada a um projeto para o Rio de Janeiro e mais à busca de proteção política diante do avanço das investigações.

Num estado marcado por sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, afastados ou investigados, o aprofundamento das suspeitas contra a gestão de Cláudio Castro amplia o desgaste de uma elite política que parece tratar a máquina pública — e até mesmo os recursos previdenciários dos servidores — como instrumentos de sobrevivência política e financeira. O problema é que, enquanto os responsáveis disputam narrativas e espaços de poder, quem permanece exposto ao risco concreto são justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano do estado: os servidores públicos fluminenses e suas famílias.

MPF reúne moradores, movimentos sociais e autoridades em audiência sobre o projeto Praça Onze Maravilha no Rio

Debate sobre projeto de lei que requalifica área central da cidade expõe preocupações com gentrificação e falta de participação social nas mudanças urbanísticas previstas

Foto mostra o auditório cheio de pessoas acompanhando a audiência. Ao fundo a mesa de debatedores

Fonte: MPF 

Por Procuradoria da República no Rio de Janeiro

O Ministério Público Federal (MPF) realizou, nesta segunda-feira (18), uma audiência pública para discutir o Projeto de Lei Complementar (PLC) nº 92/2025, conhecido como Praça Onze Maravilha ou Reviver Centro 2. O projeto prevê a criação da Área de Especial Interesse Urbanístico (AEIU) da Praça XI, no centro do Rio de Janeiro.

O encontro reuniu representantes da Defensoria Pública, Câmara Municipal, prefeitura, movimentos sociais, moradores e especialistas para debater os impactos urbanísticos, sociais, culturais e habitacionais da proposta.

Organizada pelo MPF, a audiência ocorreu em meio à tramitação do projeto na Câmara Municipal, já aprovado em primeiro turno e atualmente em fase de discussão de emendas. Após as exposições da mesa, mais de 20 pessoas da sociedade civil fizeram intervenções, entre moradores, representantes de ocupações, coletivos culturais e movimentos urbanos.

Na abertura do encontro, o procurador regional dos Direitos do Cidadão adjunto Julio Araujo afirmou que o MPF decidiu promover o debate diante das preocupações relacionadas à falta de participação popular e aos possíveis impactos sociais da proposta. “Intervenções urbanas dessa magnitude exigem transparência, gestão democrática e ampla participação popular”, afirmou. Segundo ele, o órgão identificou “problemas no projeto a partir de uma leitura inicial, sobretudo a falta de participação na sua elaboração e também na condução do processo legislativo”.

Julio Araujo também ressaltou que o prefeito do Rio, Eduardo Cavalieri, foi convidado, mas não respondeu ao convite. Já o presidente da Câmara Municipal, Carlos Caiado, informou que não poderia comparecer e indicou a vereadora Tainá de Paula para representar a Mesa Diretora.

Requalificação urbana

 Subsecretário de Planejamento Urbano, Wanderson Corrêa apresentou os principais eixos do projeto de lei complementar. Segundo ele, a proposta busca requalificar a região da Praça Onze e integrar melhor o Sambódromo ao entorno urbano, além de estimular novos usos residenciais, culturais e econômicos na área.

Entre as intervenções previstas estão a demolição do elevado 31 de Março, a criação de novas habitações, implantação da chamada Biblioteca dos Saberes e flexibilizações urbanísticas voltadas à atração de investimentos imobiliários. O subsecretário afirmou que o projeto prevê mecanismos semelhantes aos utilizados no Reviver Centro e no Porto Maravilha, incluindo operações interligadas, incentivos fiscais e utilização de potencial construtivo adicional.

Wanderson Corrêa afirmou ainda que a prefeitura pretende destinar 3% dos recursos arrecadados para preservação do patrimônio histórico da região. “Esse é um processo que vem ocorrendo desde 2025”, declarou, ao citar audiências públicas e reuniões técnicas realizadas ao longo da tramitação do projeto.

Já o secretário municipal de Desenvolvimento Urbano, Gustavo Guerrante, comparou o projeto à experiência do Porto Maravilha e defendeu que a revitalização pode trazer novos usos e valorização histórica à região. “A preocupação é legítima, evidentemente, mas a gente já tem uma escola”, afirmou. Segundo ele, a operação urbana na região portuária mostrou que grandes intervenções podem recuperar áreas degradadas e ampliar o uso cultural e residencial do território.

Guerrante também afirmou que o projeto não prevê desapropriações para criação de novos terrenos e negou que haja intenção de promover remoções. “Em momento algum a operação contou com áreas desapropriadas”, declarou.

Risco de ilegalidades

A coordenadora do Núcleo de Terras e Habitação (NUTH) da Defensoria Pública do Rio de Janeiro, defensora Marília Farias, fez duras críticas ao texto do projeto e afirmou que a proposta apresenta incompatibilidades com o Estatuto da Cidade e com o plano diretor do município.

Segundo ela, o PLC ignora as Áreas de Especial Interesse Social (Aeis) existentes no território e não prevê mecanismos concretos de habitação de interesse social para garantir a permanência da população de baixa renda na região. “Quem vai permanecer no território? Não sabemos”, afirmou.

Marília Farias destacou que a região possui cerca de 19 Aeis e quase 100 ocupações acompanhadas pela Defensoria. “Estamos falando de mais de 2 mil famílias estabelecidas naquela poligonal”, declarou.

A defensora também criticou a ausência de estudos de impacto urbanístico e social relacionados à derrubada do elevado 31 de Março e às intervenções previstas. Segundo ela, o projeto ainda propõe alterações e revogações de dispositivos do Plano Diretor sem o mesmo nível de participação popular observado durante a revisão da legislação urbanística da cidade. “Está faltando transparência nesse processo legislativo”, afirmou.

Permanência da população

As vereadoras Tainá de Paula e Maíra do MST, ambas do PT, afirmaram que o projeto ainda está “em disputa” na Câmara Municipal e defenderam mudanças profundas no texto original.
Tainá de Paula afirmou que uma das principais preocupações é garantir que os recursos gerados pela valorização imobiliária sejam revertidos em habitação social, urbanização de favelas e infraestrutura verde. “A discussão da habitação de interesse social é algo que grita neste território”, afirmou.

Ela também alertou para o risco de bloqueio da paisagem urbana e criticou o excesso de potencial construtivo previsto no projeto. “É importante que a gente reduza o gabarito geral, que a gente abaixe literalmente o tom desse tanto de potencial construtivo”, declarou.

A vereadora defendeu ainda a criação de mecanismos permanentes de financiamento local para moradia popular. “O município do Rio de Janeiro precisa aprender a fazer moradia para pobre sem depender exclusivamente do governo federal”, afirmou.

Para além da moradia e dos equipamentos culturais como a Biblioteca dos Saberes, o debate técnico enfatizou a necessidade de diretrizes claras para a infraestrutura verde na região. A vereadora Tainá de Paula defendeu que parte dos recursos da valorização imobiliária seja obrigatoriamente destinada à criação de jardins de chuva e arborização, visando mitigar o impacto climático em uma área densamente pavimentada.

Complementarmente, a Defensoria Pública e representantes da Câmara questionaram a viabilidade da demolição do elevado 31 de Março sem a apresentação pública de um Estudo de Impacto de Vizinhança (EIV) detalhado e de simulações de tráfego, apontando que a ausência desses estudos técnicos compromete a transparência e a segurança urbanística do projeto.

Já a vereadora Maíra do MST afirmou que o debate sobre o projeto precisa considerar o histórico de remoções e apagamentos sofridos pela população negra da região da Pequena África. “Não é possível falar sobre revitalização porque o próprio termo acaba apagando a história, a memória e a vida de um território onde existe moradia pulsante”, disse.
Segundo ela, o projeto precisa ser tratado também como uma política de reparação histórica. “Quando a gente fala das pessoas, elas têm cor, têm classe social, têm CPF, têm gênero”, afirmou.

A parlamentar destacou que, em audiência anterior realizada no território, 19 das 23 falas da população abordaram o tema da moradia e da permanência. “O debate da moradia se tornou central para o projeto”, afirmou.

Falta de participação popular

Representando o Conselho Nacional das Cidades e a Central de Movimentos Populares (CMP), Marcelo Edmundo criticou a condução dos grandes projetos urbanos na cidade e afirmou que a participação popular tem sido tratada apenas como formalidade.

“Você fala, fala, se emociona, chora, e depois percebe que nada do que você falou ali foi encaminhado”, declarou. Para ele, projetos como o Porto Maravilha e o próprio PLC 92/2025 reproduzem uma lógica de exclusão da população pobre das áreas centrais da cidade.

Marcelo Edmundo também afirmou que a Praça XI representa um território fundamental da memória cultural e negra do Rio de Janeiro e criticou o histórico de intervenções urbanas sem participação efetiva da população local. “Qualquer debate sobre a Praça XI é um debate sobre sua história, sua cultura e sua importância para a cidade”, afirmou.

Atuação

 A audiência pública ocorreu poucos dias após o MPF divulgar análise técnica apontando irregularidades e omissões no PLC nº 92/2025. Em manifestação encaminhada à Câmara Municipal e à Secretaria de Patrimônio da União (SPU), o órgão alertou para riscos de gentrificação – a expulsão indireta de moradores vulneráveis – e ausência de mecanismos de controle social.

O MPF também demonstrou preocupação com os impactos do projeto sobre a região da Pequena África, considerada um dos principais territórios de memória da população negra no Rio de Janeiro. Segundo o órgão, qualquer intervenção urbanística na área deve respeitar o direito à reparação histórica e evitar novas formas de apagamento cultural. Ao final, o MPF informou que encaminhará uma síntese da audiência à Presidência da Câmara Municipal do Rio.

Assista à íntegra da audiência 


Fonte: Assessoria de Comunicação Social da Procuradoria da República no Rio de Janeiro

UENF em luta: O significado do 1º de Maio no Rio de Janeiro

O 1º de Maio, mais do que uma data comemorativa, permanece como um marco histórico de  luta e afirmação coletiva. No Brasil — e de forma particularmente aguda no estado do Rio de Janeiro — o dia de hoje ganha contornos ainda mais urgentes: não se trata apenas de celebrar o trabalho ou os trabalhadores, mas de defender as condições mínimas para que se possa trabalhar com dignidade.

A imagem que inspira este texto traduz com força essa realidade. O campus Leonel Brizola, visto de cima, deixa de ser apenas um espaço físico e passa a simbolizar um território em disputa. Ali, onde deveriam florescer ensino, pesquisa e extensão, também é marcado pela resistência. A universidade pública, gratuita e de qualidade não é um dado garantido — é uma construção permanente, sustentada pelo trabalho cotidiano de professores, servidores técnicos e estudantes. 

No Rio de Janeiro, essa luta assume um peso particular. Décadas de instabilidade fiscal, má gestão, escândalos de corrupção e políticas de austeridade corroeram as bases do serviço público. As universidades estaduais, como a Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro, tornaram-se alvos recorrentes de corrosão salarial, cortes orçamentários e desvalorização institucional. O resultado é um cenário em que produzir conhecimento, formar profissionais e manter projetos de impacto social exige não apenas competência, mas resistência.

É nesse contexto que o 1º de Maio se reinventa como dia de denúncia e mobilização. As palavras de ordem que ecoam — por recomposição salarial, pela adoção do novo PCV, por investimento, por respeito à educação — não são retóricas vazias. Elas expressam a necessidade concreta de recompor condições de trabalho e de existência. Falar em valorização docente é, em última instância, falar sobre o futuro da própria sociedade.

 Defender a universidade pública no Rio de Janeiro hoje é também enfrentar um ambiente mais amplo de precarização social, marcado pela violência cotidiana e pela erosão da confiança nas instituições políticas. Nesse cenário, as universidades estaduais (Uenf e Uerj) se mantém como um espaços capazes de produzir conhecimento crítico, formar cidadania e oferecer alternativas para o desenvolvimento social.

Por isso, o 1º de Maio, neste contexto, não pode ser reduzido a uma celebração vazia. Ele é, antes de tudo, um chamado  à organização, à solidariedade e à ação coletiva. Um lembrete de que direitos não são concessões, mas conquistas — e que, como tal, precisam ser defendidos continuamente.

Celebrar o Dia do Trabalhador, portanto, é reafirmar um compromisso: com a educação pública e gratuita de qualidade, com os trabalhadores da educação e com a construção de um futuro que não seja refém do atraso, da negligência e da desigualdade. É preciso reconhecer que, enquanto houver luta, haverá também a possibilidade de transformação.

Rio 40 graus, da beleza e do caos

Lançado em agosto de 1955, Rio, 40 Graus, dirigido por Nelson Pereira dos Santos, permanece como um dos grandes marcos do cinema brasileiro. Considerado precursor do Cinema Novo, o filme inovou ao retratar com forte realismo o cotidiano de moradores das favelas cariocas, especialmente na região da Favela da Providência, em um dia de calor intenso. Influenciado pelo neorrealismo italiano, rompeu com a visão idealizada da cidade ao expor desigualdades sociais de forma direta — o que levou, inclusive, à sua censura poucas semanas após a estreia, sob a acusação de mostrar apenas os aspectos negativos do Rio de Janeiro.

Décadas depois, o título seria ressignificado na música “Rio 40 Graus”, lançada em 1992 por Fernanda Abreu no álbum SLA 2 Be Sample. Misturando pop e dance, a canção também traduz as contradições da cidade, celebrando sua energia ao mesmo tempo em que aponta suas tensões sociais. Assim, tanto no cinema quanto na música, “Rio, 40 Graus” se consolida como um retrato potente e multifacetado da realidade carioca.

Agora, 81 anos depois do lançamento do filme e 34 da música, eis que o estado do Rio de Janeiro está afundado no caos em função de décadas de controle político por grupos que atuaram para enriquecer às custas da ampliação da pobreza e da violência para controlar as massas empobrecidas.  A saída desse caos programado ainda não está visível no horizonte, mas há que se buscar alternativas de forma urgente ao controle que hoje existe sobre o aparelho de Estado por parte de figuras que não querem que a situação da maioria melhore, apenas piore.

Rio de Janeiro em chamas: a política como método de colapso

A inelegibilidade de Cláudio Castro pelo Tribunal Superior Eleitoral não encerra um ciclo. Ao contrário: ela o confirma. O Rio de Janeiro não vive uma crise política — vive um padrão político. A tentativa de renúncia de Castro, às vésperas do julgamento, foi menos uma estratégia jurídica do que um gesto revelador: a crença de que o poder ainda pode negociar com as regras, contorná-las, suspender suas consequências. Não pôde. A decisão do TSE não apenas o tornou inelegível, como reafirmou um diagnóstico incômodo — o de que o uso da máquina pública como instrumento eleitoral permanece não como exceção, mas como prática.

O dado mais grave, no entanto, não está na queda de um governador.  Está no fato de que ela não veio sozinha. A inelegibilidade também alcança Rodrigo Bacellar, figura central do Legislativo fluminense. Executivo e Legislativo, simultaneamente atingidos por uma mesma lógica de poder. Não se trata mais de desvios individuais, mas de um arranjo institucional que parece operar segundo uma racionalidade própria — uma racionalidade que dissolve as fronteiras entre governar e capturar o Estado. O resultado é uma cena quase alegórica: um governo que desmorona por dentro, deixando como herança não um vazio de poder, mas um excesso de crise. A sucessão improvisada, a instabilidade institucional e a incerteza política não são efeitos colaterais — são sintomas. E talvez seja esse o ponto central que o episódio expõe. 

O Rio de Janeiro tornou-se um laboratório extremo de um fenômeno mais amplo: a normalização da exceção. Governadores que caem, assembleias comprometidas, alianças que operam na fronteira da legalidade — tudo isso deixou de ser ruptura para se tornar rotina. A crise, nesse sentido, não interrompe o sistema. Ela é o sistema.

Não por acaso, o discurso público tende a individualizar responsabilidades. Fala-se em erros, abusos, ilegalidades. Tudo certo — e, ao mesmo tempo, insuficiente. Porque o problema não é apenas o que os atores fazem, mas o tipo de estrutura que continuamente os produz e os recompensa, até que se tornem descartáveis.

A trajetória recente do estado é eloquente. O Rio de Janeiro não acumula apenas escândalos; acumula padrões. E padrões, ao contrário dos escândalos, não desaparecem com julgamentos. A decisão do TSE pode afastar nomes. Mas não altera, por si só, o modo de funcionamento que os tornou possíveis. Por isso, a pergunta que permanece não é quem será o próximo a cair. Mas o que, de fato, ainda está de pé.

No RJ de 2026, uma combinação própria do colapso climático: afogados e sedentos

As notícias veiculadas pela mídia corporativa sobre o regime de chuvas neste início de 2026 revelam um quadro preocupante para o estado do Rio de Janeiro. O ano começou com volumes elevados de precipitação, provocando enchentes, inundações e deslizamentos de terra em diversas regiões. A Baixada Fluminense e o Noroeste do estado concentram alguns dos episódios mais graves, com impactos significativos sobre moradias, infraestrutura e mobilidade urbana.

Ao mesmo tempo, especialistas alertam para um dado menos visível: parte expressiva dessas chuvas não tem ocorrido nas cabeceiras dos rios que abastecem os principais reservatórios do estado. Após um 2025 marcado por estiagem prolongada e níveis críticos de armazenamento, os reservatórios registraram alguma recuperação recente, mas ainda permanecem abaixo do ideal para garantir segurança hídrica plena.

A coexistência de chuvas intensas em áreas urbanas vulneráveis e a persistência de déficits hídricos em sistemas de abastecimento refletem um padrão cada vez mais associado às mudanças climáticas. Eventos extremos — tanto de excesso quanto de escassez — tendem a se tornar mais frequentes e intensos, conforme indicam estudos científicos consolidados nas últimas décadas.

O cenário expõe fragilidades históricas no planejamento urbano e na gestão de riscos. Muitas cidades fluminenses seguem pouco preparadas para absorver grandes volumes de água em curtos períodos, especialmente em áreas de ocupação precária. Ao mesmo tempo, políticas estruturantes de adaptação climática avançam de forma lenta, apesar dos alertas recorrentes da comunidade científica.

Diante desse contexto, especialistas defendem que a agenda pública incorpore de maneira prioritária medidas de adaptação climática, incluindo investimentos em drenagem urbana, proteção de encostas, recuperação de bacias hidrográficas e planejamento territorial. Sem uma mudança consistente de prioridades, a tendência é de agravamento dos impactos sociais, ambientais e econômicos provocados pela combinação de chuvas extremas e secas prolongadas.

Atlas inclui a cidade do Rio de Janeiro entre grandes cidades do mundo com altos níveis de estresse hídrico

O horizonte de Los Angeles

Los Angeles é uma das cidades globais que enfrenta extrema crise hídrica, agravada pelas mudanças climáticas. Fotografia: Kirby Lee/Getty Images

Por Rachel Salvidge para “The Guardian”

Metade das 100 maiores cidades do mundo estão sofrendo com altos níveis de estresse hídrico, sendo que 39 delas estão localizadas em regiões de “estresse hídrico extremamente alto”, segundo novas análises e mapeamentos.

O estresse hídrico significa que a captação de água para abastecimento público e industrial está próxima de exceder a disponibilidade, frequentemente causada pela má gestão dos recursos hídricos, agravada pelas mudanças climáticas.

A Watershed Investigations e o jornal The Guardian mapearam cidades em bacias hidrográficas sob estresse, revelando que Pequim, Nova York, Los Angeles, Rio de Janeiro e Délhi estão entre as que enfrentam estresse extremo, enquanto Londres, Bangkok e Jacarta são classificadas como altamente estressadas.

Uma análise separada de dados de satélite da NASA, compilada por cientistas do University College London, mostra quais das 100 maiores cidades sofreram com o aumento ou a diminuição da umidade ao longo de duas décadas. Cidades como Chennai, Teerã e Zhengzhou apresentam fortes tendências de seca, enquanto Tóquio, Lagos e Kampala mostram fortes tendências de aumento da umidade. Todas as 100 cidades e suas respectivas tendências podem ser visualizadas em um novo atlas interativo de segurança hídrica .

Cerca de 1,1 bilhão de pessoas vivem em grandes áreas metropolitanas localizadas em regiões que sofrem com forte seca a longo prazo, em comparação com cerca de 96 milhões em cidades e arredores em regiões que apresentam fortes tendências de aumento da umidade. No entanto, os dados de satélite são muito grosseiros para mostrar detalhes e contexto em escala local.

A maioria das regiões urbanas em zonas de precipitação acentuada situa-se na África subsaariana, com exceção de Tóquio e Santo Domingo, na República Dominicana. A maioria dos centros urbanos em áreas com os sinais mais fortes de seca concentra-se na Ásia, particularmente no norte da Índia e no Paquistão.

Já no sexto ano de seca, Teerã está perigosamente perto do “dia zero”, quando não haverá água disponível para seus cidadãos. No ano passado, o presidente do país, Masoud Pezeshkian, afirmou que a cidade poderá ter que ser evacuada caso a seca persista. Cidade do Cabo e Chennai também já se aproximaram do dia zero, e muitas das cidades que mais crescem no mundo estão situadas em zonas de seca, onde poderão sofrer com a escassez de água no futuro.

Mohammad Shamsudduha, professor de crise hídrica e redução de riscos na UCL, disse: “Ao monitorar as mudanças no armazenamento total de água a partir do espaço, o projeto Grace, da NASA, mostra quais cidades estão ficando mais secas e quais estão ficando mais úmidas, oferecendo um alerta precoce de insegurança hídrica emergente.”

Na terça-feira, a ONU anunciou que o mundo entrou em um estado de falência hídrica, onde a deterioração de alguns recursos hídricos se tornou permanente e irreversível. O professor Kaveh Madani, diretor do Instituto de Água, Meio Ambiente e Saúde da Universidade das Nações Unidas, afirmou que a má gestão da água é frequentemente a principal causa da falência hídrica e que as mudanças climáticas raramente são a única razão: “A mudança climática é como uma recessão somada à má gestão dos negócios”.

O Grupo Banco Mundial também tem soado o alarme. As reservas globais de água doce diminuíram drasticamente nos últimos 20 anos, segundo o grupo, que afirma que o planeta está perdendo cerca de 324 bilhões de metros cúbicos de água doce por ano, o suficiente para atender às necessidades anuais de 280 milhões de pessoas, ou aproximadamente a população da Indonésia. As perdas afetam as principais bacias hidrográficas em todos os continentes.

Até 2055, a Inglaterra poderá precisar encontrar 5 bilhões de litros de água adicionais por dia para atender à demanda de abastecimento público – mais de um terço dos 14 bilhões de litros de água atualmente utilizados no sistema público de abastecimento, segundo a Agência Ambiental. Outros setores hídricos, como agricultura e energia, podem precisar de 1 bilhão de litros de água adicionais por dia.

Shamsudduha afirmou que o “recurso oculto das águas subterrâneas oferece ao Reino Unido um abastecimento de água mais resiliente às mudanças climáticas”, mas acrescentou que “sem monitoramento contínuo e melhor gestão, corremos o risco de gerenciá-lo às cegas em meio à intensificação do desenvolvimento e às pressões climáticas”.

Partes do sul da Inglaterra sofreram recentemente interrupções no fornecimento de água , que a South East Water atribuiu a tempestades de inverno. No entanto, os órgãos reguladores já haviam notificado a empresa expressando “sérias preocupações” sobre a segurança do seu abastecimento.

Na terça-feira, o governo publicou um livro branco sobre água com o objetivo de reformular o sistema hídrico, incluindo a criação de um novo cargo de engenheiro-chefe, “verificações de inspeção técnica” na infraestrutura hídrica e novos poderes para um novo órgão regulador do setor de água.


Fonte: The Guardian

Deserto Verde e a rearticulação dos defensores da monocultura do eucalipto no território fluminense

Monocultura de eucalipto em expansão na região de Morro do Coco, norte do município de Campos dos Goytacazes 

Por Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

A retomada do debate em torno da monocultura do eucalipto no estado do Rio de Janeiro, capitaneada por grupos empresariais, setores do governo Claudio Castro (PL) e representantes de órgãos federais, exige uma reflexão crítica sobre os rumos da política agrária fluminense e seus possíveis impactos socioambientais.

O Fórum Florestal Fluminense (FFF), criado em 2008, vem se consolidando como um espaço estratégico de articulação entre representantes do setor industrial, governo do estado, de associações de classe e de órgãos de pesquisa federais e estaduais. Sua atuação recente, entretanto, revela a retomada de antigos projetos de expansão da monocultura do eucalipto — propostas já questionadas e barradas no passado pela sociedade civil organizada, em defesa dos interesses ambientais e territoriais da população fluminense.

É importante destacar que o Fórum Florestal Fluminense, surgiu a partir de uma parceria entre a Associação Profissional dos Engenheiros Florestais do Rio de Janeiro (APEFERJ), o Instituto BioAtlântica (IBio), a então empresa Aracruz Celulose (atual Suzano) e federações empresariais como a Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (FIRJAN). Dentre os objetivos principais do Fórum Florestal Fluminense, podemos citar: discutir normas de licenciamento ambiental, fomentar políticas de incentivo à silvicultura industrial e a ampliação da cadeia produtiva florestal no estado. Desde sua origem, o Fórum defende a criação de mecanismos que facilitem a entrada, no território fluminense, de grandes empresas do setor de papel e celulose — especialmente a Suzano, já consolidada nos estados vizinhos do Espírito Santo e de São Paulo. 

Entre 2008 e 2016, o Fórum Florestal Fluminense promoveu diversos encontros em municípios como Campos dos Goytacazes, Nova Friburgo, Macaé e Rio Claro. Após um período de inatividade, o Fórum Florestal Fluminense retomou suas ações em outubro de 2021 e intensificou sua atuação em agosto de 2022, quando promoveu um evento no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. Na ocasião, apresentou propostas para o “desenvolvimento florestal” no estado do Rio de Janeiro a representantes políticos, incluindo candidatos de “esquerda”, que pleiteavam o governo estadual e o parlamento fluminense.

Cabe destacar que, dentre os atores que compõem o Fórum, a FIRJAN tem se destacado como principal porta voz da expansão da monocultura do eucalipto no estado. A entidade vem promovendo eventos de grande visibilidade, como o seminário “Economia Verde: Firjan, Governo e Especialistas Analisam o Potencial Econômico da Silvicultura no RJ”, realizado em maio de 2023, lotando o auditório da própria FIRJAN.

Nesse encontro, lideranças empresariais como Eduardo Eugênio Gouvêa Vieira (então presidente da FIRJAN) e Paulo Hartung, ex-governador do Espírito Santo e presidente da Indústria Brasileira de Árvores (IBÁ) defenderam a silvicultura industrial como solução para “gerar empregos”, “recuperar áreas degradadas” e reduzir a dependência da madeira importada no estado do Rio de Janeiro — o que, segundo eles, representaria modernização e sustentabilidade econômica para o espaço agrário fluminense. Estiveram presentes também no evento, Thiago Pampolha – então Secretário de Estado do Ambiente e Sustentabilidade (SEAS) e Vice-governador do Estado do Rio de Janeiro, Diogo Ladvocat – representante da Suzano, Joésio Perin – Vice-Presidente na STCP Engenharia, entre outros representantes de setores empresariais e da política fluminense. 

Entretanto, esse discurso da chamada “economia verde”, propagado por representantes do setor industrial, precisa ser questionado. Apesar de se autoproclamarem como defensores do reflorestamento e da sustentabilidade, o modelo promovido por esses grupos, baseia-se em plantações homogêneas de eucalipto — uma monocultura voltada majoritariamente à produção de celulose para exportação. Na prática, trata-se de um modelo agroexportador, altamente dependente de grandes extensões de terra, que tende a acentuar conflitos fundiários, aumentar a concentração da terra, pressionar os recursos hídricos, impactar a biodiversidade regional e aumentar a insegurança alimentar. Esses problemas e muitos outros já foram amplamente documentados em estados onde existe a monocultura do eucalipto em larga escala e a atuação da Suzano, tais como o Espírito Santo e a Bahia.

Muito embora o Rio de Janeiro ainda não possua extensas áreas de eucalipto (pouco mais de 20 mil hectares), novos empreendimentos estão sendo planejados, especialmente no Norte Fluminense. Destaca-se a atuação recente da empresa Tree Agroflorestal S.A, que projeta o plantio de cerca de 30 mil hectares de eucalipto em Campos dos Goytacazes — município historicamente marcado pela concentração fundiária, pelos conflitos no campo, pelo desmatamento e pela monocultura.

 Em recente publicação nas suas redes sociais, o prefeito de Campos, Wladimir Garotinho afirmou:

“O desenvolvimento da nossa cidade segue firme! Antes, terras sem uso e improdutivas agora estão sendo arrendadas para o plantio de eucalipto. Já temos uma empresa investindo R$ 80 milhões nesse projeto, gerando mais de 100 empregos! Essa conquista só foi possível graças à alteração na lei municipal, que agora permite o plantio de eucalipto em áreas específicas, garantindo um uso sustentável e estratégico dessas terras. Seguimos trabalhando para atrair mais investimentos e transformar o agronegócio em um dos grandes motores da nossa economia!”

Mas não parou por aí: ele afirmou que esse investimento só foi possível com a aprovação da Lei Municipal nº 9.333/2023 que revogou a Lei Municipal nº 7.282/2002, facilitando o cultivo de eucalipto no município. Com isso, o intuito é, a curto prazo, viabilizar o aumento do cultivo de eucalipto no município, para que a médio prazo, possa se instalar uma empresa de celulose em Campos. Ninguém tem dúvida, pelas tentativas anteriores e pelas articulações em curso, que essa empresa seria, preferencialmente, a SUZANO.

Buscando antecipar-se às críticas sociais e ambientais decorrentes das experiências negativas da monocultura do eucalipto em outros estados, o Fórum Florestal Fluminense, com apoio da FIRJAN e de setores do governo estadual, tem defendido a atualização dos dados sobre as terras disponíveis nos chamados Distritos Florestais (Decreto 45.597/2016), que somam um total de 600 mil hectares, sendo 324 mil hectares com “potencial” para a monocultura do eucalipto.

Figura 1: Áreas dos Distritos Florestais do Estado do Rio de Janeiro

Fonte: http://www.seas.rj.gov.br

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¹ Atualmente, existem cinco Distritos Florestais no Rio de Janeiro, que abrangem municípios das regiões Norte1 (Campos dos Goytacazes, Cardoso Moreira, Italva, São Francisco do Itabapoana e Bom Jesus de Itabapoana), Norte 2 (Campos dos Goytacazes, Quissamã, Carapebus, Conceição de Macabu Santa Maria Madalena e Macaé), Noroeste (Itaperuna, Laje do Muriaé, Miracema, Santo Antônio do Pádua e São José de Ubá), Serrana (Carmo, São Sebastião do Alto e Cantagalo) e Médio Paraíba (Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Rio das Flores, Quatis, Valença e Vassouras).

A criação dos Distritos Florestais, alinhada com a mudança na legislação, através da aprovação da Lei Estadual nº 9.972/2023 (Política Estadual de Desenvolvimento Florestal), foi festejada por defensores da monocultura do eucalipto no evento da FIRJAN, pois as facilidades criadas pela nova legislação poderão garantir viabilidade para o projeto dos Distritos Florestais e da silvicultura industrial sair do papel. 

Com a nova lei, o governo estadual fará o licenciamento prévio dos Distritos Florestais, assim cada empresa ou grande produtor que se instalar nessas regiões precisará só de uma licença autodeclaratória. Essa lei facilitadora para a introdução da monocultura do eucalipto em larga escala foi aprovada pelos deputados estaduais no apagar das luzes da legislatura anterior (2019 – 2022) e o govenador Claudio Castro, sancionou no início do seu segundo mandato (janeiro de 2023), “passando a boiada” do licenciamento ambiental e “escancarando” o território fluminense para a monocultura do eucalipto. 

Essa estratégia em curso é vendida como uma forma de ordenamento produtivo de espaços ditos “abandonados” e, com isso, busca-se neutralizar críticas sobre os impactos fundiários, produtivos e ambientais da expansão da monocultura do eucalipto no RJ. Ao mesmo tempo em que afirmam existir terras suficientes para implantar projetos industriais, omitem os riscos de novas formas de territorialização do capital, que podem se dar por meio da subordinação de pequenos produtores à lógica empresarial do setor celulósico-papeleiro, marcado inclusive, pelo endividamento dos produtores que participaram da última tentativa frustrada de exportar essa atividade industrial para a região, empreendida pela então Aracruz Celulose\Fibria e pelo pai do atual prefeito de Campos e na época govenador do estado RJ, o senhor Anthony Garotinho.  Projeto fracassado que teve continuidade nas gestões de Sérgio Cabral\Carlos Minc e do governador Pezão, deixando um passivo de dívidas, abandono e perda de terras por partes dos produtores no Norte e Noroeste Fluminense.

A atual ofensiva em defesa da monocultura do eucalipto no Rio de Janeiro, liderada por setores empresariais e legitimada pelo Fórum Florestal Fluminense, representa, portanto, um projeto de reconfiguração territorial que ameaça a diversidade ambiental e social no estado do RJ. Sob o rótulo da “sustentabilidade” e da “economia verde”, observa-se a tentativa de expansão de um modelo produtivo concentrador, com graves implicações socioambientais, que representará, novamente, sérios riscos, para termos a formação de um deserto verde no estado do Rio de Janeiro.

A Rede Alerta contra os Desertos Verdes (RADV) vem a público avisar a sociedade que a rearticulação de grupos ligados à implantação da monocultura do eucalipto em larga escala tem avançado, sobretudo na alteração de legislações, tanto no campo estadual quanto municipal, com claro intuito de facilitar a expansão da área plantada com eucalipto e a chegada de uma grande empresa de papel e celulose. Tudo isso, com apoio político e utilização de recursos públicos, inviabilizando a construção de um projeto de reforma agrária popular e agroecológico, afetando a segurança hídrica nas bacias hidrográficas do estado e a soberania territorial fluminense.

Por todas essas razões, conclamamos a sociedade civil, os movimentos sociais, pesquisadores, universidades e outros setores, a reafirmar a necessidade de um debate público amplo, com diferentes segmentos da sociedade, com a presença das populações do campo que poderão ser afetadas pela monocultura do eucalipto. É necessário reorganizar as forças progressistas no campo estadual, para que sejam capazes de denunciar os impactos dessa política e propor alternativas de uso do território que priorizem a vida, a diversidade e a justiça socioambiental. 

Uma grande oportunidade está em curso, com o Projeto de Lei nº 5516/2025, de autoria da Deputada Estadual Marina do MST, que tem por finalidade alterar a Lei Estadual nº 9.972/2023 e a Lei Estadual nº 5.067/2007, tendo como objetivo, reforçar a proteção de solos, águas e biodiversidade na Política Estadual de Desenvolvimento Florestal, estabelecendo com nitidez a diferença entre floresta e monocultura

Mais do que nunca, é hora de irmos à luta!

Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

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Fonte: Rede Alerta contra Desertos Verdes (RADV)

Rio de Janeiro, onde a polícia é paga para matar

Por Monica Piccini para “The Ecologist” 

O Rio de Janeiro está se aproximando de uma crise em que policiamento e assassinato podem se tornar indistinguíveis: uma nova lei proposta recompensaria policiais com bônus em dinheiro para cada suspeito que matassem.

O projeto de lei (6027/2025 ) corre o risco de transformar o combate ao crime em uma competição mortal, um verdadeiro jogo de lula, onde o placar é escrito com sangue. Em vez de incentivar prisões ou processos, ele recompensa o uso da força letal.

O Brasil está ganhando destaque internacional com a COP30 se aproximando em novembro, em Belém. 

Defensores

Mas o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem permanecido notavelmente em silêncio sobre um projeto de lei controverso que pode moldar os debates em torno de direitos humanos e proteção ambiental. Seu silêncio levantou questões sobre se ele estaria deliberadamente mantendo distância para evitar consequências políticas justamente quando o país se prepara para sediar a cúpula global do clima.

As potenciais consequências da lei proposta são de longo alcance. Caso seja adotada de forma mais ampla, seja no governo Lula ou por um futuro governo de extrema direita, o impacto poderá ser profundo. 

Os críticos alertam que isso não só colocaria em risco aqueles rotulados como “suspeitos”, mas também exporia  ativistas ambientais , líderes indígenas e outros grupos minoritários a riscos maiores em um país já cheio de tensões sobre terras e recursos.

Selma dos Santos Dealdina Mbaye é uma importante ativista quilombola . Ela afirma que a situação reflete a realidade cotidiana daqueles que defendem o meio ambiente no Brasil. Ela  ressalta que os ativistas já trabalham sob constante pressão.

Somos frequentemente vítimas de uma violência indizível. Pelo menos 413 defensores do meio ambiente e da terra foram assassinados ou desapareceram desde 2012 no Brasil. Segundo dados da Global Witness sobre os ataques, 36 deles eram afrodescendentes.

Brutal

Ainda não nos recuperamos do assassinato da nossa querida liderança, Mãe Bernadete, em 2023, seis anos após o assassinato do seu filho. Sabemos que, antes de sua morte, Mãe relatou diversas ameaças de morte contra ela e sua comunidade.

Não há dúvida de que seu papel como defensora do meio ambiente e do território a tornou alvo daqueles que a atacavam. Mas, além disso, assim como outros membros da comunidade afrodescendente que precisam de proteção coletiva, Mãe era mais propensa a sofrer ataques violentos por causa de sua raça.

Dar bônus à polícia por assassinatos não é apenas totalmente brutal, mas também prejudica a segurança pública. 

Os defensores argumentam que esta é uma medida eficaz para combater o crime organizado, mas os críticos a descrevem como uma execução sancionada pelo Estado. Para muitos moradores das comunidades mais pobres do Rio, vivendo à sombra tanto do tráfico de drogas quanto de batidas policiais, parece algo saído de um filme distópico. 

Imagine acordar em uma comunidade sabendo que sua vida ou a vida do seu filho pode valer dinheiro para alguém com um distintivo e uma arma. As pessoas que juraram protegê-lo agora recebem incentivos financeiros para tratar as ruas como um campo de caça.

César Muñoz, diretor da Human Rights Watch, disse : “Dar bônus à polícia por assassinatos não é apenas totalmente brutal, mas também prejudica a segurança pública ao criar um incentivo financeiro para que os policiais atirem em vez de prender suspeitos.”

Poder

Não serão os ricos dos condomínios fechados que sofrerão. Não serão os políticos que elaboram este projeto de lei, protegidos por guarda-costas, vivendo atrás de muros de mármore. 

Será o jovem ou a jovem voltando do trabalho para casa, a criança jogando futebol em um beco. Sem dúvida, erros serão cometidos, porque, segundo esta lei, “erros” podem significar bônus.

Em 24 de janeiro, Jeronimo Gomes da Silva, 44, morador do Complexo do Alemão, uma das maiores favelas do Rio, relatou que uma granada foi lançada de um drone em sua casa. 

Ele disse: “Jogaram uma granada de um drone na minha varanda, destruindo minha casa. Minha família e eu quase morremos aqui.” 

Também surgiram relatos de agentes do Batalhão de Operações Especiais (BOPE) da Polícia Militar do Rio de Janeiro entrando em uma casa no Complexo do Alemão e roubando uma família, um incidente que evidencia abuso de poder.

Favelas

Em entrevista ao Brasil de Fato, Jacqueline Muniz, antropóloga, cientista política e especialista em segurança pública, alertou que esse projeto de lei pode ter efeitos de longo alcance, principalmente na forma como confunde a linha entre policiamento e crime organizado. 

Ela explicou: “A polícia começa a organizar o próprio crime organizado, então eles não apenas se aproximam do crime, eles se tornam parceiros, associados, ok? 

Se você mata pessoas que sabem sobre o crime organizado, você está sabotando a própria investigação e a produção de inteligência que serviria para identificar como o crime organizado funciona, quem é quem dentro do crime organizado. Você está manipulando a polícia para fins partidários, para todo tipo de manipulação.

“Isso acaba revelando esquemas de corrupção, uma lógica de parceria com o crime, né? Revela, portanto, que a morte não resulta de uma ação de alto risco, mas sim se torna uma mercadoria. É como se o Estado tivesse militarizado sua força policial e até barateado a vida dos policiais.”

As autoridades brasileiras afirmam que a política aumentaria o moral de uma força sobrecarregada pela violência e pela falta de financiamento, ao mesmo tempo em que enviaria uma mensagem dura aos cartéis e milícias que dominam as favelas do Rio. 

Violência

Mas o custo dessa ação é absolutamente claro: vidas humanas, especialmente de homens jovens, pobres e negros, que já representam um número desproporcional de vítimas em confrontos policiais.

Todos os anos, a polícia brasileira é responsável por mais de 6.000 mortes, muitas delas de jovens negros. Brasileiros negros têm cerca de três vezes mais chances de morrer em confrontos com a polícia do que brasileiros brancos. 

Em 2024, as polícias militar e civil do Rio mataram 703 pessoas, quase duas por dia. Pelo menos 86% eram negras. Entre janeiro e agosto deste ano, foram 470 mortos. 

Quando o estado decide que algumas vidas valem menos, que algumas mortes valem dinheiro, ele diz a uma classe inteira de pessoas: vocês são descartáveis.

Grupos internacionais, incluindo a Human Rights Watch, condenaram o projeto de lei, alertando que ele incentivaria execuções extrajudiciais, aprofundaria a desconfiança entre as comunidades e o Estado e estabeleceria  um ciclo de violência que já marca o Brasil há décadas.

Alvos

A injustiça reina e as cicatrizes são visíveis. Famílias que perderam filhos em incursões policiais raramente são responsabilizadas. Os tribunais raramente processam policiais envolvidos em tiroteios questionáveis. Adicionar recompensas financeiras só torna a justiça mais ilusória. 

O Brasil está em uma encruzilhada. Um caminho leva a mais violência, mais desconfiança, mais famílias desestruturadas, e o outro exige coragem e vontade, investindo em educação, criando oportunidades reais nas favelas, reformando os sistemas policiais e combatendo a pobreza como raiz da criminalidade.

A criminalidade no Rio não nasce da falta de policiamento, mas da desigualdade.

A solução fácil são as balas, o caminho difícil é construir uma sociedade onde a polícia não precise ser chantageada para proteger, onde as crianças não cresçam esperando morrer jovens, onde a segurança venha da justiça, não do medo.

Políticas como essa reduzem as pessoas a alvos, eliminam a humanidade até que tudo o que resta é um número: mais um “suspeito” eliminado, mais um bônus ganho. 

Sobrevivência

Para Muniz , o debate em torno da segurança pública vai além das estratégias de policiamento e toca o cerne da democracia brasileira. 

Ela argumenta que uma reforma real só pode acontecer quando as instituições armadas forem colocadas sob controle civil e quando os governos eleitos forem capazes de exercer sua autoridade sem contestação.

“Se quisermos brincar de democracia, temos que fazê-lo de verdade. A primeira dimensão da democracia para garantir governos legitimamente eleitos, sejam de esquerda ou de direita, é o controle da espada. Algo que saiu do controle no Brasil”, alertou Muniz .

O mundo não deve ignorar, porque o que está acontecendo no Rio não é um problema apenas do Brasil, é um alerta severo. Qualquer sociedade que comece a oferecer recompensas para o próprio povo está se aproximando do colapso social.

Este projeto de lei não é proteção nem justiça, é dinheiro sujo, e a história não perdoará aqueles que transformaram vidas humanas em um sistema de pagamento por morte.

No fim das contas, a questão não são os índices de criminalidade ou os bônus policiais, mas sim o tipo de mundo que escolhemos construir: um mundo onde a vida é valiosa ou um mundo onde a morte tem um preço. A menos que outro caminho seja escolhido, as ruas do Rio podem em breve se assemelhar a um jogo em que a sobrevivência é o prêmio.

Esta autora

Monica Piccinini é colaboradora regular do The Ecologist e escritora freelancer focada em questões ambientais, de saúde e direitos humanos.


Fonte: The Ecologist

Wladimir Garotinho: A renovação de uma tradição, ou Wlad 4.0 Reloaded

Por Douglas Barreto da Mata

Há algum tempo atrás, no meio da campanha eleitoral em 2024, quando se questionava a força eleitoral do atual Prefeito Wladimir Garotinho, em meio aos desgastes naturais de uma eleição contra as forças políticas personificadas no Presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, eu me lembro de ter escrito algo do tipo:  “Wladimir conseguiu renovar o legado de seu sobrenome, e se tornou mais que um herdeiro político do casal de governadores, aliás, os únicos eleitos pelo interior na história do RJ, após a fusão.”

O Prefeito de Campos dos Goytacazes conseguiu imprimir uma marca própria, um estilo pessoal e único que, gostem ou não, permitiu uma vitória acachapante em 2024. Claro que o prefeito de uma cidade polo regional é, por natureza, um ator importante no cenário estadual.

Esse reconhecimento se deu de várias formas. Os aliados animaram-se com a hipótese da região ter novamente o peso político aumentado. Os adversários passaram às tentativas de bloquear a expansão da influência política do prefeito campista, a todo custo, seja impedindo que seu nome fosse colocado nas pesquisas de intenções de votos, seja com a retenção de recursos necessários à gestão local, e devidos pelo Estado.

Teve até, recentemente, o veto do Presidente da República a um projeto de lei do então deputado federal Wladimir, o que não seria estranho, caso não tivesse sido o próprio líder do governo Lula no Senado, Jacques Wagner, que tivesse articulado a aprovação unânime.

O que os movimentos políticos dos adversários e o desejo dos aliados pareciam antecipar é o que disse a pesquisa mais recente de intenções de voto, divulgada hoje. Eu tive acesso a todos os dados. Tem uma variável bem importante, que geralmente é desprezada nas análises mais afobadas. A rejeição.

O mais rejeitado é o ex-governador Witzel, com 21, 1%, seguido de Eduardo Paes, com 18, 6%, e em terceiro, bem abaixo, Wladimir Garotinho com 8,5%.  Aqui chamamos sua atenção para a enorme rejeição de Eduardo Paes, quase equiparada a de Witzel, o que não é pouca, mas também se explica pela exposição permanente do prefeito carioca, e talvez uma repulsa do eleitorado fluminense pela sua proximidade com o PT e Lula.

Já Wladimir Garotinho apresenta uma rejeição baixa, e não se trata de ser desconhecido, já que o seu sobrenome tem um enorme recall no Estado, e dizem os detratores, é uma memória negativa, em grande parte pela história de seu pai, Anthony Garotinho.  Apesar de carregar o garotinho no sobrenome, Wladimir é pouco rejeitado.

Essa baixa rejeição, associada a um segundo lugar mas intenções de votos, mesmo não tendo seu nome colocado na arena dos pretendentes, senão como coadjuvante dessa ou daquela chapa, como vice, e sendo a segunda pesquisa que seu nome é posto para o eleitor, revelam uma condição promissora para Wladimir Garotinho, além de outras circunstâncias, como:  Personifica o diálogo, o centro, a conversa com vários Campos ideológicos, mas não abre mão de sua identificação política e religiosa, sem recorrer a extremismos. Quando instado a defender suas posições, faz com firmeza, como na questão do veto presidencial, sem perder de vista o diálogo que favorece a todos, cedendo para ganhar, ou, não perder. 

O perfil parece encaixar como uma luva no vácuo de projetos de poder de centro no RJ, e se unificar essa plataforma com a Baixada, como fez seu pai, quando se elegeu governador, estaremos na presença de um forte concorrente. 


Este texto reflete a opinião pessoal do autor e não reflete nenhum tipo de alinhamento editorial deste blog.