Chuvas de 2024 no Rio Grande do Sul provocaram o maior evento de deslizamentos de terra no Brasil

Deslizamentos de terra no RS

A equipe identificou 16.862 pontos de início de deslizamento, distribuídos ao longo de cerca de 18 mil quadrados 

As fortes chuvas que atingiram o Rio Grande do Sul entre abril e maio de 2024 ocasionaram o maior evento de deslizamentos de terra já registrado no Brasil. É o que revela estudo publicado na quinta (28) na revista Landslides. A pesquisa teve coordenação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), envolvendo instituições nacionais e internacionais como o Instituto Federal de Goiás (IFG) e o Serviço Geológico do Brasil (SGB), e mapeou a ocorrência de 15.376 deslizamentos. As conclusões podem contribuir para a formulação de políticas e estratégias preventivas, bem como planos de ação para novas ocorrências semelhantes.

Para enfrentar um dos maiores desafios da gestão de deslizamentos no Brasil, a falta de inventários abrangentes e padronizados, a equipe organizou um banco de imagens de satélite de alta resolução registradas no período estudado. Ao todo, 474 imagens, captadas entre 4 de maio e 31 de agosto de 2024, foram analisadas e utilizadas para caracterizar os deslizamentos.

A equipe identificou 16.862 pontos de início de deslizamento, distribuídos ao longo de cerca de 18 mil quilômetros quadrados em 150 dos 497 municípios do Rio Grande do Sul. Isso corresponde a 30% das cidades gaúchas. Além dos deslizamentos, as chuvas de 2024 provocaram inundações, e 96% das cidades gaúchas foram atingidas por pelo menos uma dessas consequências do evento extremo – que afetou quase 2,4 milhões de habitantes, desalojou mais de 600 mil pessoas e resultou em 182 mortes. Clódis de Oliveira Andrades-Filho, professor do Instituto de Geociências da UFRGS e autor do estudo, explica que a magnitude do acontecimento está relacionada ao extraordinário acumulado de chuvas de abril a maio de 2024, e que a maior parte das encostas íngremes do estado se encontrava na área exposta à precipitação.

De acordo com o levantamento, os pontos de início dos deslizamentos ocorreram principalmente em encostas voltadas para norte, norte-nordeste e noroeste-norte, áreas com cobertura vegetal mais esparsas comparadas às voltadas para o sul. Esses setores também sofrem maior pressão de intervenções humanas, como desmatamento, cortes para estradas e construções residenciais. A combinação desses fatores reduz a estabilidade das encostas e ajuda a explicar a concentração observada de deslizamentos nessa orientação. “Estas características, juntamente com demais características do relevo, como o grau de declividade, permitem indicar quais aspectos do terreno predominam nas áreas com maior ocorrência de deslizamentos”, explica Andrades-Filho. “Isso é essencial para estabelecer novos modelos e mapas que indiquem as áreas dos municípios com maior exposição a deslizamentos em grandes episódios de chuva”, defende.

O autor também destaca a identificação de 2.430 trechos de estradas afetados por deslizamentos, resultando no isolamento de comunidades rurais e cidades, além de mortes, feridos e perdas materiais. Segundo a equipe, considerar as características do terreno e o risco geológico de cada região no planejamento e na adaptação das vias pode ser decisivo para evitar consequências mais severas em eventos extremos.

Além de apoiar a identificação de áreas suscetíveis e embasar planos de gestão de riscos, a publicação pode orientar estratégias de recuperação nas regiões afetadas. “Os resultados ainda oferecem suporte para a formação de profissionais voltados à gestão de riscos de desastres, sobretudo em capacitação geotecnológica, além de contribuir para elaboração e implementação de ações de educação e monitoramento comunitário”, explica Andrades-Filho. O pesquisador destaca que a equipe segue empenhada em apoiar esses objetivos por meio de ações como o uso de novas tecnologias para aprimorar o mapeamento, incluindo inteligência artificial, e esforços para tornar a prevenção mais eficiente. Isso inclui desde a comunicação de risco adaptada às condições de comunidades rurais até o planejamento de rotas de fuga e o monitoramento da estabilidade de terrenos.


Fonte: Agência Bori 

Chuvas RS 2025: quem será o Caramelo da vez?

Nas chuvas de 2024, o cavalo Caramelo simbolizou a resistência contra as chuvas devastadoras que se abateram sobre o estado do Rio Grande do Sul

Por João Anschau*

A saudosa professora Iracema foi um ser que surgiu em minha vida sem pedir licença para ficar. Ocupou a janela, mesmo tendo chegado atrasada na lista dos notáveis influenciadores que estava sendo construída no meu imaginário. Nem por isso teve sua importância diminuída. Era dura, mas nunca perdeu a ternura pela escolha de um ofício, na época mais valorizado e respeitado, e mantinha o mesmo sentimento com seus rebentos adotados. Certa vez, numa prova de matemática – minha matéria favorita na época – me deu zero. Algo “improvável” de acontecer, mas o poder da caneta era dela. Recebi a avaliação, voltei para minha mesa e conferi uma por uma das questões. Todas estavam certas. Retornei e disse para ela que havia um erro. Ela concordou. 

– Mas a falha foi sua professora, retruquei. 

– O que diz o enunciado? 

– Desenvolva as questões. 

– O que você fez? 

– Resolvi as questões e as respostas estão corretas. 

– Você às resolveu diretamente, sem detalhá-las. 

– Mas a senhora sabe que eu sei. 

– Eu te conheço, mas se outra professora tivesse aplicado a prova, ela poderia concluir que você copiou as respostas de um coleguinha.

– Mas eu não colei. 

– Mas também não elaborou.

Com as paredes vertendo água internamente, devido ao excesso de umidade, acompanho o noticiário oficial da tragédia chuvosa que mais uma vez atinge centenas de municípios gaúchos. E entre um e outro boletim, aparentando um “Não vale a pena ver de novo”, reprise de 2023/24, um repórter quase comemora o fato de não termos ainda atingido os mesmos níveis de chuvas de maio do ano passado. Você não leu errado. Informa assim: “comemorando.”

Quem mora no extremo sul do Brasil sabe que o ocorrido por aqui há mais de um ano foi tratado com irresponsabilidade por quem deveria “informar e mediar o debate” acerca das volumosas chuvas. Sonho meu. Reconheço. O básico, causas e consequências, não estava na pauta. Campanhas publicitárias ufanistas — até filme idealizado pela Secretaria de Comunicação do governo gaúcho foi lançado, no qual se enaltecia o nosso ‘novo Bento Gonçalves Leite’ — brotaram em todos os cantos do Rio Grande do Sul (RS). Era um tal de força dos gaúchos pra cá, pra cima deles pra lá, que, de tanto floreio, dava pra desconfiar dos rumos que tomava a discussão a respeito de crises climáticas provocadas pelos mesmos de sempre. Romantização e normalização do absurdo foram a tônica sem gás. A mídia hegemônica que tem lado – o do lucro, e dane-se a nossa vivência harmoniosa (catástrofes também enchem os cofres dos patrões) – parecia ter apenas um objetivo: criar novos ‘heróis’ conhecidos, ou nem tão anônimos assim. Agora está em busca de um novo “Caramelo” para chamar de seu. E as vidas ceifadas? E as vidas ceifadas? Os capitalistas guascas colocam na rubrica ‘danos necessários’ e (serão) cobertos pelo erário mais adiante.

O mundo de Cristina e a lei de Murphy… “Parece mentira que estamos passando por isso novamente”. Essa frase foi disparada pela apresentadora do telejornal mais visto no RS. Não foi uma estagiária fazendo um programa experimental, no qual até se admitem erros pontuais que não prejudiquem o produto final. E acreditem, a jornalista não corou. Foi na cara dura mesmo. Abro agora a seção “erraram”.  Dona Cristina, o hoje foi previsto ontem por quem nos avisa há muito. Pesquisadoras e pesquisadores não fazem exercícios de futurologia lendo a borra do café. A ciência usa métodos racionais e nos apresenta cenários. São pessoas que, mesmo atacadas e tratadas como delinquentes, continuam a executar a tarefa de iluminar a estupidez humana — de nada adianta ter, como bem lembrou Jorge Furtado em “Ilha das Flores”, o telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, se a desigualdade continuar a ser a nossa maior “virtude”. Não há problema com a sua memória que, evidentemente, é seletiva e atende a interesses distintos da sua audiência. E acredito que pela sua idade não deve haver um diagnóstico de Alzheimer que possa justificar seu esquecimento. A senhora representa sem questionamentos os fiadores e patrocinadores da destruição do bem comum.

Em abril deste ano, o cais do porto, um dos espaços mais atingidos, em Porto Alegre, pelas águas em 2024, foi palco de um evento que discutiu empreendedorismo e inovação. O South Summit Brazil 2025 foi uma festa,  literalmente. Um carnaval sem malemolência fora de época. Nem parecia que naquela área, há alguns meses, a natureza mandava recados, incompreendidos por quem decide e aparenta ter problemas cognitivos, auditivos e visuais. Tudo o que era mostrado agora tinha glamour, respirava um ar de normalidade e tentava dar contornos de superação, alegria e novas oportunidades. Durante vários dias, em quase todos os espaços de jornalismo/entretenimento, éramos inundados — não é um trocadilho — com notícias incessantes a respeito da celebração — numa análise mais cuidadosa, aqueles informes pareciam peças criadas por relações públicas e marqueteiros do patrocinador maior, o Governo gaúcho. O meio ambiente, e sua composição cada dia mais apagada, inexistia para os olhos ligados de pessoas descoladas do mundo de verdade, aquele no qual inundações mataram, desalojaram e apagaram histórias. 

E o gerente governador Eduardo Leite — mesmo sem o uso do colete laranja vibrante, sempre alinhado, limpinho e bem passado — concedeu entrevista à sua rede particular de comunicação – leia-se concessão pública de TV e rádio. Entre as platitudes proferidas, Edú disse que em um ano não se resolve tudo. Invejem, Brasil, nosso “Nostradamus” de boutique. Temos um genuíno visionário e difusor de sentenças dignas de crianças em processo inicial de alfabetização. Um luxo no meio do lixo acumulado nas casas dos desafortunados de plantão. Fiquei de butuca aguardando que o gestor Leite anunciasse uma nova e “profícua” viagem, juntamente com o prefeito do chapéu de palha, Sebastião Melo, para a Holanda e aprender com o primeiro mundo como se faz. Concluo, depois de doses de “sabedoria” governamental, que a experiência acumulada por pesquisadores e especialistas gaúchos no tema não produz diárias e fotos para o próximo álbum — 2026 logo ali na frente — de estadista gourmet. A ciência gaudéria não fala holandês e se convidada a sentar-se à mesa, pode azedar o leite. Por isso, continuam as apostas em soluções mágicas, paliativas e totalmente distantes das reais necessidades que o momento exige. 

Na quarta-feira, dia 18, início da tarde, durante o retorno da cidade de Ijuí, noroeste do RS, tive a companhia, em aproximadamente 40 kms, de muita chuva. Água na pista, misturada com terra, era normal. Lavouras encharcadas, idem. Curvas de nível praticamente inexistem, pois ‘diminuem’ a área produtiva, e o solo que lute. E no meio dessa lama — literal e política — eis que surgem os produtores do PIB, pedindo renegociação. Apoio. Desde que os beneficiários estejam no grupo daqueles que realmente foram severamente atingidos pelas águas e que não possuem condições de continuar. É importante lembrar que o chamado agronegócio recebe uma generosa fatia de incentivos fiscais patrocinados por mim e por você. Estima-se que 85% das benesses direcionadas para o agro estão concentradas em grandes produtores de commodities (soja, milho, gado). E o que recebemos em troca? Na água e nos alimentos um combo de venenos e outros insumos zero saudáveis que são utilizados para acelerar processos e atender a sanha produtiva predatória agroalimentar. Resulta que o Brasil é um grande produtor de alimentos cancerígenos, cujos tratamentos, em sua maioria, são custeados pelo SUS. Sem magoá-los, vou me apropriar de uma definição dos especialistas do segmento nada pop: abre-se uma janela de oportunidade para que seja revisto — só que não vai rolar — esse modelo nocivo de praticar agricultura. Registro que a securitização não é para a senhora e para o senhor que plantam comida de verdade e têm uma relação harmoniosa com a natureza.

E o Barão de Itararé se apresenta e reforça a sempre atual frase: “De onde menos se espera é que não sai nada”. Se o Rio Grande do Sul foi em 2024 um laboratório de como não desenvolver ambientalmente, o mínimo que se espera da representação política eleita democraticamente é que revejam suas posições, mesmo para aqueles que estão no Congresso apenas e tão somente para representar os interesses de seus financiadores privados. Esse seria, no meu mundo ingênuo, o melhor dos mundos. Se a legislação ambiental já sofria ataques anteriores, agora conseguiram a façanha de abrir toda a porteira e aprovaram a Lei Geral do Licenciamento Ambiental. Enquanto isso acontecia, o RS perdia mais um tanto de sua cobertura vegetal de Áreas de Proteção Permanente. Ah, mas o que isso tem a ver com as enchentes sulistas? Tudo e mais um pouco. E já que o pudor foi deixado do lado de fora da porta da casa de tolerância legislativa, humildemente sugiro — também por respeito a elas, tratadas a machadadas — que retirem dos calendários a data alusiva ao dia da árvore. Não é apenas incoerente manter o 21 de setembro, plantar algumas espécies, sacar algumas selfies e no outro dia fingir que a cidade passou do verde para o cinza do concreto. Até a máfia tem regras de convívio que devem ser respeitadas, portanto, não adianta a bancada da destruição ambiental cobrir sua cara de surpresa quando a água cobra a conta.

Escrevo essa provocação durante a semana de Corpus Christi. Milhares não estarão com os seus para dividir o pão e o vinho porque mais uma vez foram expulsos de suas casas pelo recado duro das águas. Não é mais aceitável tratar isso como novo normal e aguardar, daqui a 12 meses, outros registros do mais do mesmo. Tampouco é recomendável aguardar as eleições de 2026 para ver quem vai puxar a capivara da destruição e exibir seus feitos nada cristãos. Se ainda existe resistência e resiliência, urge que se apresentem e guiem. O contraponto não é apenas uma questão de retórica. É fundamental apontar o nome, sobrenome e endereço dos responsáveis pela necropolítica guasca, financiada por aqueles que dizem não guentar mais “pagar” tantos impostos, mas nadam em isenções fiscais pecaminosas. Não é um convite à revolução. É algo mais simples: é a busca da salvação coletiva. Para isso, precisamos gravar na lista dos compromissos diários que reconstrução não é sinônimo de estradas. 

Ah, detalhe importante: diferente do que disse uma senhora, que ao mostrar-se conformada por ter sido desalojada outra vez, cravou que ‘Deus está no controle’, há controvérsias. Primeiro: não tenho procuração para representá-lo, mas contudo já adianto que Ele nos entregou o planeta alinhadinho, bastando efetuar manutenções pontuais e seguir. Segundo: Ele é filho de carpinteiro, mas não cursou engenharia. Terceiro: atrevo-me a revelar — e não é uma heresia, apenas análise de seu comportamento — que Ele não volta mais. A desistência tem relação direta com a falta de interpretação textual e comportamental do que Ele pregava. Portanto, incluam Ele fora dessa bagunça. E mais: Ele também não disse para contribuir com o dízimo e sustentar os agiotas da fé.

As respostas continuam insatisfatórias, incompletas. O poder público é omisso e mostra-se incapaz de ouvir especialistas. O barulho do colapso sugere não incomodar, e a escora dos anúncios de recursos e vazios de planejamento dá indícios de apodrecimento. Para além dos extremos climáticos, o que continua a avançar é a agenda do capital, esta que nunca é chamada às falas e, onipresente, escreve, interpreta e sentencia o nosso amanhã. A ampulheta do ‘se continuar assim, vai dar nada bom’ corre lentamente e segue o seu rito. E nós, convencidos de que é assim que a roda gira, assistimos e esperamos um milagre de um Deus que já deixou claro que não é signatário da teoria da prosperidade destrutiva. E não será surpresa se em breve as bets — outra praga normalizada e legalizada — entrarem no cassino da morte e faturarem ainda mais, literalmente em cima de mais um desastre que atinge certeiramente os carregadores da base.

Vivemos uma quadra histórica na qual a estupidez humana é premiada. Grosseiramente comparando, é como se alertássemos uma criança a não pôr um objeto de metal em uma tomada elétrica. Que aquilo pode dar ruim. Ao invés da segurança, da proteção, o que temos é o estímulo a fazer errado e o errado é saudado como necessário para “desenvolver”. Nossas “crianças” grandes, bem nutridas e com polpudos orçamentos publicitários, são tratadas como empreendedores… — e faço o complemento — do caos. Vivemos tempos de carestia e não faço referência aos preços dos alimentos. O meu alvo é outro: a escassez da razão. Não sei se haverá tempo, mas os sinais estão aí para quem é crente ou ateu. Contemplar, refletir, exigir e cobrar de quem sempre ganha à custa do nosso sofrer é mais do que urgente. Professora Iracema, ah como a senhora faz falta, pois necessitamos de mais pessoas que exijam o desenvolvimento aprofundado do enunciado e não queiram, de forma apressada, resolver tudo na base do “eu sei e ponto”, ignorando processos, terceirizando responsabilidades e culpando os atingidos, como se eles pudessem fazer escolhas. Mestra, a senhora tinha razão: precisamos da conta completa, sem atalhos.


*João Anschau é jornalista e Mestre em Educação nas Ciências pela Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul. Também é criador e impulsionador do podcast “Salve, Terra!” que está disponível no Spotify.

Enchentes de 2025: Rio Grande do Sul está se tornando um forte centro propulsor de refugiados climáticos

Enchentes no RS: Para onde vão os refugiados climáticos?

Pessoas desabrigadas pelas enchentes de 2024. O drama está se repetindo em 2025

O termo refugiado climático se refere a pessoas que, por causa das mudanças climáticas têm de deixar o território em que vivem.  Pois bem, as notícias que chegam do estado do Rio Grande do Sul dão conta que, pouco mais de um ano após a ocorrência das mega enchentes que assolaram a parte central do estado e que tiveram impactos profundos sobre a cidade de Porto Alegre, há uma nova enchente gigantesca em curso.

Segundo informações do site Metsul,  o nível do Rio Jacuí, que desemboca no Guaíba, atingiu nesta sexta-feira (20/6) 26,30 metros em Cachoeira do Sul, valor que fica abaixo somente das enchentes de 1941 e 2024.  Como o Jacuí termina no Guaíba, as próximas horas poderão ser dramáticas para os segmentos da população que foram duramente afetados em 2024.  Penso ser importante lembrar que em maio de 2024, o estado do Rio Grande do Sul foi assolado por inundações históricas, afetando mais de 300 mil pessoas e 446 municípios.

Ponte do Fandango foi interditada nesta sexta-feira (20/6) com o terceiro maior nivel do Rio Jacuí já observado na história de Cachoeira do Sul | Cristiano Pontes Dias

Nos próximos dias e semanas, o Blog do Pedlowski deverá publicar textos de testemunhas privilegiadas da hecatombe climática que se abate mais uma vez sobre o Rio Grande do Sul em um esforço de oferecer informações que estão sendo negadas pela mídia corporativa.

É importante lembrar que a situação do Rio Grande do Sul é causada por uma combinação de elementos complexos que combinam mudanças no uso da terra dentro e fora dos limites estaduais com fatores climáticos que operam em diferentes escalas espaciais.  A hegemonia das monoculturas da soja e de árvores na região central do Rio Grande do Sul somada ao desmatamento na Amazônia e no Cerrado representa um gatilho poderoso na detonação de uma grave crise climática que ameaça se repetir anualmente.

Enquanto isso as elites gaúchas dentro e fora do aparelho de estado continuam se comportando no melhor estilo dos ricos que estavam dentro do navio Titanic. Em outras palavras, continuam aferradas ao mesmo estilo de produção e consumo que está na gênese da crise climática que abala o Rio Grande do Sul. Afinal de contas, elas não precisam se preocupar quando as águas sobem.

Como me chegaram notícias de que sequer as comportas que protegem (ou deveriam proteger) foram consertadas, o produto final disso será a criação de uma massa de refugiados climáticos que terão de procurar outras partes do Brasil para se instalar. 

Aprendendo com um desastre climático: as inundações catastróficas no sul do Brasil

Rio Guaíba, após forte chuva em Porto Alegre

Porto Alegre, 03/05/2024, Rio Guaíba, usina do gasômetro, em Porto Alegre após chuva intensa. Foto: Gilvan Rocha/Agência Brasil

Por Valério D. Pillar  e Gerhard E. Overbeck para a “Science”

As inundações catastróficas que afetaram o sul do Brasil em maio passado devem servir como um aviso às sociedades humanas de que, apesar do ceticismo ou negação ainda generalizado sobre as mudanças climáticas , a mitigação e a adaptação para lidar com a crise climática em curso são urgentemente necessárias. O número de mortos ou desaparecidos foi de 213 pessoas; 2,4 milhões de pessoas afetadas , incluindo 600.000 deslocadas; e perdas sem precedentes em infraestrutura urbana e rural, incluindo gado . Essas perdas poderiam ter sido menores se medidas de adaptação tivessem sido implementadas, como tem sidrepetidamente recomendado pelo Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC). Tendo testemunhado a catástrofe em primeira mão, aqui destacamos medidas de adaptação baseadas na natureza que poderiam efetivamente fornecer resistência e resiliência contra eventos climáticos extremos.

Chuvas extremamente pesadas resultaram em precipitação acumulada de 652 mm (até 900 mm em algumas áreas) ao longo de 35 dias, com 444 mm caindo apenas nos 8 dias anteriores ao pico da enchente, quantidades normalmente esperadas ao longo de cerca de meio ano, nas bacias hidrográficas de 8,4 milhões de hectares que formam o delta do Rio Jacuí e o Lago Guaíba, onde fica a área metropolitana de Porto Alegre. Essa precipitação extrema, ligada a frentes frias bloqueadas no sul do Brasil, seguiu um clima anormalmente úmido nos 6 meses anteriores devido a um forte evento de Oscilação Sul do El Niño. Como consequência, a forte erosão do solo afetou as regiões de agricultura intensiva estabelecidas nos solos vermelhos e profundos que caracterizam as nascentes do norte das bacias hidrográficas. Imagens de satélite do início de maio mostraram uma forte cor laranja nas águas da enchente antes de descerem para os vales da Serra Geral, onde sedimentos adicionais atingiram os rios devido a vários deslizamentos de terra nas encostas íngremes e solos varridos de terras agrícolas ao longo dos vales mais baixos.

No pico da enchente, as áreas baixas da região metropolitana de Porto Alegre foram inundadas. A cidade de Porto Alegre em si era supostamente protegida por um sistema de proteção contra enchentes que consistia em diques, muros, comportas e bombas construídos na década de 1970, o que dava à população da cidade uma sensação de segurança. Esse sistema falhou principalmente devido à negligência da manutenção de rotina das comportas e bombas pela administração da cidade. Como consequência, as partes mais baixas da cidade, uma capital estadual com uma população de 1,3 milhão, foram inundadas pelo sistema de drenagem. Isso causou uma reação em cadeia que levou ao colapso do fornecimento de eletricidade em partes da cidade e estações de abastecimento de água potável na maior parte da cidade, incluindo áreas não inundadas. Um dos maiores hospitais da cidade teve que ser evacuado, o terminal de ônibus regional foi inundado e todas as rotas de acesso terrestre à cidade, exceto uma, foram interrompidas. Essa situação durou cerca de 3 semanas. O principal aeroporto que atende Porto Alegre e o estado ficou alagado por um mês e deve retornar à funcionalidade total somente perto do fim do ano. Recuperar essas perdas custará muito mais do que se medidas de adaptação tivessem sido implementadas.

Modelos climáticos previram um aumento na frequência e intensidade de eventos extremos de chuva para esta região, causando inundações e secas. Medidas de adaptação para lidar com esses eventos extremos são urgentes. Aqui, focamos na adaptação baseada na natureza envolvendo restrições de uso da terra em todas as bacias hidrográficas. Destacamos que a adaptação é necessária em todas as escalas espaciais e deve incluir toda a bacia hidrográfica, não apenas ao longo dos rios. Soluções baseadas na natureza , como proteger a vegetação nativa remanescente de florestas e não florestas e adotar práticas agrícolas que conservem o solo e a biodiversidade em áreas cultivadas, podem reduzir o impacto de eventos extremos, apesar das dificuldades na avaliação de sua eficácia. Menos erosão do solo reduz a quantidade de sedimentos suspensos nas águas das enchentes. Além disso, reter água a montante por um período mais longo pode evitar que estruturas de proteção a jusante, como os diques que deveriam proteger Porto Alegre, sejam sobrecarregadas quando a precipitação estiver mais alta do que nunca. Restaurar a vegetação nativa é um processo lento, mas é crucial para proteger o solo e as margens dos rios. Felizmente, grande parte das encostas íngremes da Serra Geral, que eram áreas agrícolas até cerca de quatro décadas atrás, agora têm florestas em regeneração (Mata Atlântica). No entanto, também é essencial restaurar a vegetação campestre que originalmente cobria os solos vermelhos do alto Rio Jacuí e do alto Rio Taquari. Notavelmente, a manutenção ou restauração de ecossistemas de várzea também reduz a vulnerabilidade dos humanos, já que decisões inadequadas de uso da terra no passado contribuíram muito para a gravidade desta catástrofe.

Conforme demonstrado pela iniciativa de mapeamento de uso e cobertura do solo MapBiomas , entre 1985 e 2022, 1,36 milhões de ha de vegetação nativa, incluindo 1,1 milhões de ha de pastagens nativas, foram perdidos para a agricultura e outros tipos mais intensivos de uso da terra nas nove bacias hidrográficas que formam o Lago Guaíba. A vegetação nativa florestal e não florestal (pastagens e áreas úmidas) protege o solo da erosão contribui para a atenuação de enchentes ao retardar o escoamento superficial da água da chuva. A Lei de Proteção à Vegetação Nativa (12.651/2012), a principal lei brasileira de conservação da natureza, obriga proprietários privados a destinar 20% de suas propriedades para manutenção da vegetação nativa na chamada Reserva Legal. Além disso, as Áreas de Proteção Permanente, também com vegetação nativa, são obrigatórias nas margens dos rios, em encostas íngremes e no topo de morros e montanhas. No entanto, ambos os instrumentos sofrem com problemas de implementação, o que reduz a proteção e leva a maior vulnerabilidade e impactos. Se essas áreas tivessem sido protegidas ou restauradas, elas teriam retido as águas a montante e a transbordamento nas planícies de inundação por um período mais longo, reduzindo os impactos catastróficos a jusante.

No entanto, sucessivos governos do estado do Rio Grande do Sul vêm promovendo o enfraquecimento da legislação que protege a vegetação nativa. Um decreto estadual de 2015 permitiu que proprietários de terras considerassem remanescentes de campos nativos sob pastagem como se fossem equivalentes a terras convertidas usadas para cultivos ou pastagens, enfraquecendo assim sua proteção sob a legislação federal. Esta disposição do decreto estadual é ilegal e foi bloqueada em 2016 por uma Ação Civil Pública. No entanto, em uma versão modificada, foi incorporada ao Código Ambiental Estadual (Lei 11.520/2020) contra a qual outra Ação Civil Pública ainda está pendente de decisão. No nível federal, tentativas de reduzir a proteção da vegetação nativa também estão em andamento, como o Projeto de Lei 364/2019 , atualmente em análise no Congresso Nacional, que remove a proteção de campos nativos sob pastagem em todo o país. Este projeto de lei foi proposto e apoiado por congressistas do Rio Grande do Sul, aparentemente cegos às potenciais consequências da proteção reduzida.

Claramente, os tomadores de decisão da região não consideram a urgência de lidar com as mudanças climáticas, sua mitigação e adaptação ao seu impacto. Se as mudanças climáticas não se tornarem uma prioridade nas políticas públicas, então a população da região que foi tão duramente atingida agora sofrerá eventos mais frequentes e potencialmente ainda mais catastróficos no futuro. No primeiro semestre de 2024 , chuvas fortes e inundações também afetaram o Quênia e os Emirados Árabes Unidos. O sul e o sudeste da Ásia viram uma onda de calor recorde, e a América do Norte está atualmente afetada por incêndios florestais graves. Esses são apenas exemplos de eventos extremos relacionados ao clima em 2024. O resultado são múltiplas ameaças às populações humanas, economias e produção de alimentos, que podem ter efeitos de longo alcance em todos os aspectos da segurança humana. Eventos como os do sul do Brasil nos alertam claramente: os esforços para conter as mudanças climáticas precisam ser globais e rápidos, e medidas de adaptação devem ser adotadas em todo o mundo.


Fonte: Science

Denso corredor de fumaça se forma entre a Amazônia e o sul do Brasil

Correntes de vento de Norte trazem grande quantidade de fumaça da região amazônica para o Rio Grande do Sul

Extenso corredor de fumaça entre a Amazônia e o sul do Brasil

Por Metsul

Um extenso e denso corredor de fumaça, resultante do grande número de queimadas que vem se registrando nestes dias na Amazônia do Brasil e em países vizinhos, podia ser visto nas imagens de satélites desta quinta-feira pelo interior da América do Sul da região amazônica até o Rio Grande do Sul.

O corredor percorre milhares de quilômetros e abrange uma área que vai da região amazônica até o Rio Grande do Sul, passando pelos territórios da Bolívia, Paraguai e o Nordeste da Argentina.

A origem principal da fumaça está no Sul da região amazônica, em particular no Sul do estado do Amazonas, assim como na Bolívia, onde o número de queimadas tem sido bastante elevado neste mês de agosto, cobrindo de fumaça cidades como Manaus e Porto Velho.

O corredor de fumaça é trazido para o Sul por uma corrente de jato em baixos níveis, um corredor de vento a cerca de 1.500 metros de altitude, que se origina no Sul da Amazônia e desce até o território
gaúcho.

É justamente esse corredor de vento quente e seco que transporta a fumaça para o Sul juntamente com o ar tropical que eleva a temperatura. É o que fez a temperatura nesta quinta-feira atingir 28ºC em Campo Bom, na Grande Porto Alegre. Normalmente, nesta época do ano, estes corredores de fumaça alcançam o Sul do Brasil. Isso se dá quando as correntes de vento passam a ser de Norte. Às vezes, a fumaça da Amazônia desce até mais ao Sul e alcança a região de Buenos Aires e mais raramente o Norte da Patagônia. Diferentemente da região amazônica, onde a fumaça atua mais perto da superfície e traz piora da qualidade do ar com problemas respiratórios para a população local, no Sul do Brasil está em suspensão na atmosfera.

Por isso, seus efeitos se percebem pelo tom mais acinzentado do céu com aspecto fosco e ainda por cores realçadas do sol ao amanhecer e no fim da tarde. Excepcionalmente, a fumaça vinda do Norte pode descer a altitudes menores e prejudicar a qualidade do ar de forma mais significativa no território gaúcho.

Satélite confirma fumaça no Rio Grande do Sul  

A chegada do corredor de fumaça ao Rio Grande do Sul foi confirmada pela divisão de aerossóis da NOAA, a Administração Nacional de Oceanos e Atmosfera, em Washington. A agência climática norte-americana gerou imagens de hoje dos sensores ABI de aerossóis de profundidade ótica do satélite GOES-16.

O marrom na imagem de satélite mostra uma alta densidade de aerossóis, o que se verifica quando há muita fumaça. No caso do território gaúcho, como a imagem é de mais cedo nesta quinta, a fumaça recém ingressava e as condições pioraram durante a tarde.

Modelo prevê mais fumaça chegando

A tendência é que a quantidade de fumaça de queimadas no Norte da América do Sul chegando ao Rio Grande do Sul aumente neste fim de semana e no começo da semana que vem. Os mapas mostram as projeções do modelo de dispersão de aerossóis CAMS da União Europeia para sexta, sábado, domingo e segunda.

O aumento da fumaça previsto se deve à intensificação da corrente de jato que canaliza a fumaça de Norte para Sul até o território gaúcho e o Uruguai. A intensificação do jato em baixos níveis acompanhará a chegada de ar mais quente ao Rio Grande do Sul com maior elevação da temperatura na Metade Norte gaúcha.

Muito fogo na Amazônia

Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais mostram que somente nos primeiros 14 dias de agosto foram identificados por satélites 14388 focos de calor na Amazônia brasileira. O número supera a metade da média histórica mensal de 26218 focos de calor no bioma. O número de queimadas tem sido muito alto nos últimos dias. Somente nesta semana os satélites usados pelo Inpe identificaram na Amazônia 788 focos de calor no domingo, 1199 na segunda, 1368 na terça e 1476 ontem. 

Só nos primeiros 14 dias de agosto o número de focos de calor no estado do Amazonas chegou a 4548, número acima da média histórica de agosto inteiro de 3606. Houve dias neste mês com 500 a 600 focos em apenas um dia no Amazonas. As queimadas nos últimos dias aumentaram muito ainda em Rondônia.


Fonte: MetSul

O Homem, esse bicho da terra tão pequeno

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Enchente do Rio Taquari na cidade de Lajeado (RS). Foto: marcelocaumors/Instagram

Francisco Mateus Conceição*

O antigo Continente de São Pedro, depois chamado de Rio Grande do Sul, é um espaço geográfico com enorme quantidade de águas, através de sangas, rios e lagoas. E também lençóis freáticos. Chegou a ser chamado, por navegadores, velejadores ou viajantes, como nos lembra Tau Golin, de Rio Grande das Alagoas. Região de repetidas inundações e enchentes. Em importante texto da literatura sul-riograndense, versão local da Lenda da Boitatá, narrada por Simões Lopes Neto, há uma inundação sem precedentes, assim descrita:

… foi uma manga d’água que levou um tempão a cair, e durou… e durou…

Os campos foram inundados; as lagoas subiram e se largaram em fitas coleando pelos tacuruzais e banhados, que se juntaram, todos, num: os passos cresceram e todos aquele peso d’água correu para as sangas e das sangas para os arroios, que ficaram bufando, campo fora, campo fora, afogando as canhadas, batendo no lombo das coxilhas. (aqui)

Os registros históricos também informam sobre enchentes de grandes proporções. Parece, porém, que os mandatários locais dos últimos tempos haviam esquecido ou nunca souberam disso. O último evento, de dimensões comparáveis ao deste ano, havia sido em 1941. Querer lembrança disso a líderes tão sedentos de se afeiçoarem ao futuro e à modernidade, seria exigir demais. Muitas vozes tentaram lembrá-los, mas de nada adiantou. Eles se sentiam ungidos pelo moderno empresarial. Por fim, a própria natureza também tentou, mas sua voz foi logo despistada. A falta de memória era completa, digna das páginas de um Gabriel García Márquez (Cem Anos de Solidão), ou, para ficar entre nós, de um Erico Verissimo (Incidente em Antares). De tanta desmemória deliberada, acabaram, como diria Eduardo Bueno, por não conhecerem o solo onde pisam.

Em setembro de 2023, chuvas torrenciais provocaram inundações, destruições e dezenas de mortes no interior do estado, especialmente no Vale do Taquari.  No dia 18 desse mesmo mês, o Governador do Estado anunciava lançamento de Edital para conceder o Cais Mauá, em Porto Alegre, à iniciativa privada. Em vídeo, atua entusiasticamente como garoto propaganda do projeto, que, conforme diz, conectaria o Rio Grande com o futuro. O muro da Mauá, essencial para a contenção das águas do Guaíba, seria modificado e transferido de lugar. Ao enumerar as supostas maravilhas desse futuro, antecipado em imagens digitais, o Governador destaca: “sem aquele muro que dividia o antigo porto da cidade” (aqui). O tom é de indisfarçável mal-estar e menosprezo com o tal muro. Logo após o anúncio, porém, como desdobramento das inundações que vinham ocorrendo, o Guaíba elevou-se e passou da cota de três metros. No dia 27 de setembro, o muro da Mauá mostrou que não era um trambolho entre a cidade e o rio, e ajudou a impedir que as águas invadissem a capital. Isso apesar de o sistema de contenção, com 68 km de diques, comportas e bombas de recalques, ter acusado falhas nesse ano, devido à falta de manutenção. O Governador sentiu o baque e gravou novo vídeo, no dia 29 de setembro, explicando que o muro não seria extinto. Deveria ser substituído por outro modelo e transferido de lugar. Feita a explicação, considerou tudo resolvido e o Edital de Concessão foi a leilão em fevereiro/2024, após mais uma inundação em novembro/2023.

E não parou por aí. Ele já havia, em 2020,  conforme informações da imprensa, suprimido ou modificado 480 artigos do Código Estadual do Meio Ambiente, flexibilizando e abrandando-o. Além disso, em 2021, extinguira a Lei dos agrotóxicos do Estado, que proibia o uso de produtos vetados em seus países de origem. Mas, qual um Fausto dos pagos, em seu pacto pela modernidade, entendeu que precisava fazer mais do mesmo. Em que pese as inundações de 2023, a bancada governista na Assembleia Legislativa aprovou, em março de 2024, Projeto de Lei para permitir construção de barragens em Áreas de Preservação Permanente (APPs), projeto este sancionado pelo Executivo em 09/04/2024. Possivelmente ainda estivessem comemorando a vitória, portanto, quando as leis da natureza, as mesmas de sempre, se manifestaram, de maneira mais inclemente e avassaladora. O mundo desabou num tempo feio a partir do final de abril, e os efeitos imediatos da calamidade se estendem até hoje,  sem que tenhamos perspectiva clara, de tempo e modelo, para a reconstrução de tudo. O Rio Grande do Sul que, conforme as palavras do Governador, olhava para o futuro, acabou se deparando com ele em sua face distópica.

Frente a essa calamidade, necessitávamos de iniciativas e ações rápidas e no rumo certo. Remontando aos saberes e à cultura local, há um provérbio segundo o qual “é no estouro da tropa que se vê se o índio é bueno”. Ou seja, diante de um caos generalizado, a pessoa é, inexoravelmente, testada quanto à capacidade e ao valor que dela se espera. Em um clássico de nossa literatura, Antônio Chimango, escrito por Ramiro Barcelos, sob o pseudônimo de Amaro Juvenal (por sinal uma sátira política), há uma longa descrição de alguns dons diante de uma cena dessas. Selecionamos a passagem a seguir:

Nisto é que está o busílis

Que não depende de ensino:   

Saber tomar um destino

E  não se apertar no apuro

Poder guiar-se no escuro

E nunca perder o tino. (aqui)

Depois que passar o estouro, cada um buscará contar sua história. Por isso, esse momento crucial é revelador, do antes e do depois, e é importante observá-lo. Vejamos, no que diz respeito a Porto Alegre, como agiram o Prefeito e o Governador do Estado quando a calamidade explodiu sobre o estado.

O estrago no interior foi como ativar uma bomba-relógio para Porto Alegre. Nos últimos dias de abril, a destruição provocada pelas águas já atingia dimensões catastróficas, derrubando pontes e rodovias, gerando vítimas fatais e grande número de desabrigados. Tudo amplamente divulgado pela imprensa. Tanto que, no dia 30 de abril, quebrando todos os protocolos, o Governador do Estado cobrava, pela Plataforma X (Twitter), ajuda imediata do Governo Federal, em razão das “chuvas intensas já ocorridas e que vão continuar nos próximos dias” (aqui). Grande parte desse problema se localizava na bacia do Guaíba e era questão de tempo para que esse volume excessivo de águas chegasse à capital do Estado. Porém, o Prefeito de Porto Alegre somente ordenou que os portões dos diques de proteção fossem fechados na quinta-feira, dia 02 de maio, após o alerta emitido, no final do dia anterior, pelo Instituto de Pesquisas Hidráulicas da UFRGS (aqui). Enquanto as águas desciam e se aproximavam, era para ele estar preocupado, procurando e implementando, juntamente com sua equipe, soluções emergenciais. O sistema de contenção  continuava deteriorado e por isso as águas invadiram a Capital. O prefeito anterior, Nelson Marchezan Júnior, deixara de investir verba captada para essa finalidade específica e, ainda, extinguira o DEP (Departamento de Esgoto Pluvial), órgão responsável por cuidar do referido sistema. Ainda assim, muita coisa podia e devia ser feita pela atual gestão, que era sabedora desses problemas. Especialmente, após as inundações de 2023, em cuja sequência os técnicos apontaram onde havia problemas e como corrigi-los, sem que nada fosse feito e, consequentemente, tais problemas se repetissem. Além disso, por que não se preparar com maior antecedência neste momento? Se era para colocar os sacos de areia na frente dos portões, como se viu, que pelo menos colocassem os três metros de altura (a altura do muro). Ou usassem os bags, que parece terem descoberto somente depois – e até serviram para substituir um portão, desastradamente retirado. Nesse curto espaço de tempo, restava o improviso, a gambiarra, mas mesmo nisso agiu-se no último instante e mal. Não se tomaram as rédeas e o comando da situação. Em tudo a mesma constância: o que não se fez anteriormente também não se fez em 2024.

E quanto ao Governador? Ele foi rápido para cobrar, pelas redes sociais, ação do Governo Federal, mostrando um desejo de protagonismo. Explicou, posteriormente, que não poderia perder tempo frente à catástrofe. Pois bem, por este viés, era recomendável, também, ter quebrado protocolo e perguntado, pela mesma plataforma, ao Prefeito de Porto Alegre, se estavam perfeitamente resolvidos os problemas, evidenciados em 2023, no sistema de contenção. Neste caso, estaria agindo de maneira providencial, frente a um perigo imediato. Mas, convenhamos, ficaria estranho usar as redes sociais, se ambos estão na mesma cidade. Poderia, então, ter telefonado, mandado um bizu pelas rádios ou TVs locais, onde tem acesso amplo. Ou, então, poderia mesmo visitar a Prefeitura. Dialogar com o Prefeito, colocar-se à disposição… O Piratini fica a poucos metros da Prefeitura, e ambos distam pouquíssimos quadras do Cais Mauá, por onde as águas do Guaíba também estouraram.  Além disso, parece lógico que, sendo o Governo do Estado responsável pelo Edital de Concessão do Cais Mauá, pondo e dispondo livremente sobre o futuro do muro de contenção, também deveria assumir responsabilidade quanto à manutenção e segurança do que hoje existe, principalmente diante de uma tragédia anunciada. Ou será que o Governador não teria compreendido que as inundações, sem trégua, se dirigiam ameaçadoramente para Porto Alegre?

O problema ambiental possui tentáculos maiores, no espaço e no tempo, que nossos atuais gestores do Estado e da Capital. Mas eles atuam como líderes de uma ideologia liberal radicalizada, que sucateia e privatiza o bem público, intensifica os problemas sociais e devasta a natureza. Colaboraram para o surgimento da catástrofe. A dor ensina a gemer, mas não a pensar e a fazer autocrítica. A tragédia de 2023 nada ensinou a nossos gestores. E aí cabe a pergunta: o que serão capazes de fazer neste processo de reconstrução? O Prefeito já se moveu rapidamente para contratar a Alvarez & Marsal, multinacional de currículo duvidoso. O Governador, por sua vez, chegou a demonstrar preocupação com o grande número de doações, que, segundo ele, poderia agravar as  dificuldades da economia local. Sempre a mesma linha de pensamento, que vê no desempenho empresarial a única saída. Com essa concepção ideológica, a reconstrução tornará o serviço público ainda mais refém da iniciativa privada, que gosta de repetir o mantra segundo o qual não se deve falar em crise, mas em oportunidade.

A natureza cobrou seu preço e, frente a tanta água, o gaúcho se viu, como diria Drummond, retomando Camões, “homem, bicho da terra tão pequeno”. As águas camonianas são outras, mas alguns versos parecem ter nascido hoje.

Onde pode acolher-se um fraco humano,

Onde terá segura a curta vida,

Que não se arme e se indigne o Céu sereno

Contra um bicho da terra tão pequeno? (aqui)

É momento de solidariedade e de trabalho de reconstrução, mas também de repensar concepções que trouxeram nosso Estado a este estado. Hora de reforçar nossa identidade cultural, mas também de repensá-la. Certas coisas não podem mais ter lugar. No mundo da cultura, a música é uma das primeiras e mais fortes expressões de uma população. Neste sentido, já vivemos, em nossos festivais nativistas, momentos bem melhores, quando brotaram músicas comprometidas socialmente, como “Canto do Renegado” , “Retirante” ou “Sabe Moço”. E também belíssimas músicas de temática ambiental, como “Rumos Perdidos”, “Súplica do Rio” “Queimada” ou “Cria Enjeitada”. Porém,  como tudo está interconectado, o retrocesso que verificamos no mundo político e econômico também se expressa e é produzido na cultura (que não é mero elemento decorativo). É culturalmente trágico, por isso, que uma música campeã de festival nativista reclame cegamente da “tal reserva legal”. A música se chama, paradoxalmente, “Embretados”, mas o brete em que nos encontramos resulta também desse negacionismo desenfreado.  Do estouro da boiada, hoje restam registros culturais, mas o estouro negacionista, que adora os campos digitais, é furioso e aonde chega leva tudo por diante, seja no Rio Grande do Sul, no Brasil ou no mundo.

Sem ode nostálgica ao passado. Sem ode evasiva ao futuro também. E sem o narcisismo cego da exaltação ao presente. Relembremos, de 1983, a denúncia e a reflexão nas estrofes do historiador e poeta Humberto Gabbi Zanatta, musicadas por João Chagas Leite:

Hoje a ambição fez pousada à minha volta
Plantou desertos em sementes traiçoeiras
Cria enjeitada de um progresso que importamos
Batendo palmas a ganâncias estrangeiras

Só temos pressa, e mais pressa pra ter pressa
Receita louca que inventamos pra morrer
De neuroses, de calmantes, pesticidas
Matando a vida que está doida pra viver

(“Cria Enjeitada”, João Chagas Leite /

 Humberto Gabbi Zanatta, 1983, aqui ou aqui)

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*Francisco Matheus Conceição é servidor público federal, ex-professor universitário e doutor em Literatura

O desastre ambiental gaúcho: entre o afogamento das soluções e a inundação das ilusões 

O homem viver da natureza significa: a natureza é o seu corpo, com o qual ele tem de ficar num processo contínuo para não morrer. (Karl Marx) 

Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem. (Bertolt Brecht) 

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Por Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira 

Corre entre nós um problema de memória, e quando a prática política não remete aos fatos históricos, seu destino é se diluir. Rio Grande do Sul (2023 e 2024), litoral norte do estado de São Paulo, Bahia, Petrópolis, Nova Friburgo, Manaus… Se somente nos bastarmos nos exemplos mais emblemáticos dos últimos anos e associados ao fenômeno natural das precipitações. Todos eles exigiram um alto grau de conhecimento técnico, o que, aos trancos e barrancos, ainda se tem, pelo que restaram das universidades, desde a interpretação de imagens de satélite até rigorosos cálculos da taxa de evasão de rios e mananciais, resultando em propostas de intervenção pública. E a perda dessa memória é retroalimentada por uma práxis política que nos condena às eternas ações de caráter reativo, esboçando o fracasso de tentar nos defender, cegos, de problemas que se mostram à luz do dia, intransponíveis diante das margens da Dependência, que nos comprimem. A fé cega no “Estado”, a “naturalização” do problema e a terceirização das responsabilidades para nosso próprio povo sempre fizeram parte do vasto arsenal que a direita empunha contra nós.  Porém, nas últimas três décadas, tais ilusões vieram a compor o largo acervo de ignorância da esquerda liberal que, em parceria com a direita, também apontam tais armas contra nós, o ambiente.    

 O esquecimento desses episódios e o tratamento dos mesmos como reflexos de condições “naturais” carrega um interesse de classe para que a população em geral – e a esquerda liberal em particular, desarmadas ideologicamente, estejam reféns dos fatos semanais noticiados pela imprensa burguesa, e que nunca se chegue, de fato, à discussão central e cunho político das tragédias. Esse debate necessário é o que torna o desastre, justamente, ambiental, e não natural, que passa pelas razões no nível da reprodução ampliada do capital em sua expressão dependente, e não por uma imposição de caráter naturogênico, pretensamente “inevitável”¹. Por um lado, a direita se mostra em sua face mais acabada, atrelando o problema a um mero caráter de ocupação “desordenada”, esvaziando o conteúdo político de um capital que se reproduz espacialmente a partir da concentração da renda da terra e da desterritorialização da classe trabalhadora dos centros e das ocupações regulares. Por outro lado, a perda da memória e das lições das últimas tragédias faz com que, pelo lado da esquerda liberal, sempre se cheguem às mesmas medidas paliativas, reativas, solidaristas e comemoradas com muito festejo, principalmente depois que a suposta dívida do estado do Rio Grande do Sul foi adiada por míseros três anos e pela pífia isenção da taxa do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), ao invés de chegar à raiz dos nossos problemas. Ou seja, devemos politizar sobre a tal dívida e sobre os reais custos ambientais derivados da atuação das mega-empresas dos setores industrial, agrário e minerador pois, juntos, esses custos são tratados como “externalidades”, não entrando na conta de capitais, para sim serem devidamente socializados sobre a população e o “meio ambiente”, enquanto que a remessa de lucros e as limitações impostas na periferia capitalista no nível geopolítico caracterizam o modo de produção que gera e mantém os modelos de extração agro-mineral que subdesenvolvem e reproduzem a miséria do perifério².  Um simples reflexo desse desequilíbrio fica exposto na diferença entre o investimento em obras de prevenção locais após uma crise sócio-ambiental no centro capitalista – o episódio do furacão Katrina, nos EUA –, que chegou a ser 60 vezes maior do que a receita para a Defesa Civil de um estado com o aporte e a influência do Rio Grande do Sul, tanto em termos políticos quanto ambientais³

 O “investimento” mesmo, que até é reivindicado pela esquerda liberal durante seus episódios reativos, esbarra na cumplicidade que tem sobre um governo PTucano que adota a estratégia liberal solidarista, cuja expressão máxima seja a única e mísera reunião que o Comitê Interministerial sobre Mudança do Clima (CIM) teve durante toda a gestão4. Somado a isso, a receita do Centro de Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (CEMADEN) no primeiro ano do governo Lula III, conseguiu ser menor do que em 2015. O esquecimento das tragédias é impulsionado pelo PTucanismo em forma de defesa abstrata do “meio ambiente”, porque quando há períodos sem chuvas intensas, o “meio ambiente” é festejado de forma meramente simbólica. Quando o “meio” se impõe, aí é que o governo faz seu recuo estratégico, em nome dos interesses do poder central rentista comandado pelos banqueiros e pelo latifúndio agro-exportador. Atividades essas hegemônicas, que não geram emprego para uma população de tamanho continental como a nossa mas, sim, criam e recriam os impactos sócio-ambientais catastróficos do modelo. Tanto “sob o desemprego estrutural e a precarização do trabalho, como em termos ecológicos, indo desde a desestruturação dos solos, rios e estuários, pela agricultura industrial e pela proliferação de vírus na figura do agronegócio”, nascemos, vivemos e morremos dentro de uma “rachadura ou falha estrutural nas relações produtivas portanto, sociais, vigentes no modo de produção capitalista”6. Essa é a “relação-limite” que Marx já chamava de “rachadura” ou “falha metabólica”, sob as relações produtivas e sociais, a partir da efetivação do modo de produção capitalista. E, para entendermos a atuação do Estado periférico, é dentro desse projeto de extração de mais-valia e superexploração que ele é criado, moldado e mantido por nossa classe compradora – nossas ínfimas elites, parceiras locais dos capitais metropolitanos. Apenas dentro desse contexto é que podemos compreender a função legitimadora e garantidora do Estado, seja em forma de ditadura empresarial-militar, seja de alianças PTucanas, continuadas pelo protofascista Bolsonaro, no período pós-Plano Real.

 Deste modo, o que ocorre é um problema de cunho geral e multifacetado, embora sua manifestação concreta seja particular. O Rio Grande do Sul, em termos “físico-territoriais”, localiza-se em uma região estratégica para se pensar nos últimos episódios de eventos climáticos acentuados globalmente. Isto porque se encontra em uma área de formação de ciclones extratropicais e de convergência entre a Massa Tropical Atlântica (típica do verão) e a Massa Polar Atlântica (típica do inverno), formando sistemas de instabilidade. Somado a isso, o Guaíba, onde se insere a realidade de Porto Alegre, é formado por oito bacias de drenagem distintas, que escoam por quatro rios a partir do delta do rio Jacuí7, formando um corpo hídrico cuja classificação, embora complexa, é reduzida pela prefeitura como um lago, que tem implicações diretas na especulação da terra, como há de ser visto. 

 Todo esse arsenal nos ajuda a compreender que, em escala regional, o Rio Grande do Sul, como também poderiam ser citados os casos da região serrana do Rio de Janeiro ou da bacia amazônica, necessita de uma intervenção em termos de infraestrutura e participação que, no nível de um país capitalista dependente periférico, é impossível dentro da ordem. Esse fato é contemplado, dentre outros, por três fatores essenciais: 1) o primeiro se relaciona com o baixo investimento em defesa civil (construção e manutenção de diques, comportas e casas de bombas), o que está atrelado tanto às limitações impostas pelo sistema da dívida pública quanto pela austeridade, expressa pelo Novo Teto de Gastos; 2) um sistema de monitoramento colaborativo, de planos de evacuação, alerta e radicalização democrática dos processos de decisão (comitês de bacia, movimentos populares urbanos, etc.) que, no nível da burocracia estatal burguesa e da educação pública desconexa das demandas reais do nosso povo, não pode ser cumprido em nível de representação real e; 3) o padrão de urbanização dependente, não exclusivo ao Rio Grande do Sul, permitiu a ocupação de encostas e alagados, sob diretrizes de distribuição espacial de moradias e serviços que não atendessem às demandas reais da população, mas de grupos econômicos estrangeiros e privados que investiram, historicamente, em nossa economia. Os três maiores eventos de inundação já registrados no Rio Grande do Sul nos últimos oito meses8, antes de revelar o desafio que os gaúchos têm em mãos, ilustram que, em nível nacional, um país periférico só pode produzir as condições necessárias de resiliência e atendimento de demandas locais mediante uma profunda convulsão social, orientada pela radicalidade e necessidade da Revolução Brasileira. 

 Embora o liberalismo de esquerda, em seus diagnósticos, apresente o tema da especulação fundiária como componente explicador para a alocação da classe trabalhadora nas planícies de inundação, o faz sem a responsabilização do governo Lula, que contribuiu, mediante suas políticas urbanísticas e agrárias, de forma central, para a concentração e internacionalização da propriedade da terra. Isso porque os três primeiros governos petistas foram os que mais concentraram terra durante a democracia liberal9. A ofensiva do governo se apresentou em outras frentes, como do indigenismo, em que a atual gestão demarcou apenas 10 terras indígenas durante todo o governo das 14 prometidas somente para seu primeiro ano de mandato10! No que concerne aos assentamentos, é feita a mesma política de emissão de títulos da terra de Bolsonaro¹¹. Migalhas que, ao fim e ao cabo, são a sentença de morte de famílias assentadas diante de grileiros no dia de amanhã! No Rio Grande do Sul não foi diferente: com a bancada ruralista operando com liberdade e apoio do governo, somada à gestão funcional de Eduardo Leite, a ofensiva do latifúndio sobre as matas ciliares e sobre os menos de 2% da biodiversidade original das matas subtropicais8 é plena e absoluta, o que contribui diretamente para o assoreamento de rios e o aumento de sua evasão. O mesmo ocorre em termos do solo urbano, em que os mecanismos, embora insuficientes, de uso social da propriedade não são evocados pelos parlamentares petistas, resultando em mais de 100 mil imóveis ociosos somente em Porto Alegre¹². Tampouco pode se afirmar algo no sentido da reforma urbana, que não está no horizonte PTucano, rendido à mesma construção civil que ocupou as margens do Guaíba. O que interessa, afinal, é que as gestões petistas estão em perfeita sintonia com a lógica da especulação da terra, cujo horizonte são as Parcerias Público-Privadas, em que o Estado assume apenas os prejuízo das infraestruturas. Como expressão disso, no nível de política social, o Minha Casa Minha Vida, que não passa de uma digestão moral da pobreza, retroalimenta este ciclo.

Os defensores do governo Lula teimam em dizer que há uma “governabilidade” em jogo, cuja expressão máxima seja a bancada ruralista. Mas ignoram que não há maior postura de cumplicidade do que com o avanço do latifúndio agroexportador e do afrouxamento das legislações ambientais!Se houvesse mesmo um compromisso do lulismo diante das tragédias, o mesmo não dependeria da tal “governabilidade”, sustentada pelo seu inegociável compromisso eleitoralista, e convocaria as massas a exercerem o poder político. Nenhuma palavra saiu de Lula ou do Ministério do Meio Ambiente, tampouco do ministro ruralista Carlos Fávaro, a respeito da aprovação do Projeto de Lei 1366/22, que exclui a silvicultura (cultivo para fins comerciais, como eucalipto e pinho) do leque de atividades potencialmente poluidoras¹³. O eucalipto, como a soja, avança sobre as matas originais, e diminui ainda mais a possibilidade de cultivo de alimentos, que promoveriam a subsistência das famílias no campo e na cidade, bem como das matas ciliares, fundamentais para o controle de inundações. Mesmo diante da retaliação da proteção aos biomas do Pampa e da Mata Atlântica, promovida pelo tucano Eduardo Leite em várias frentes, não houve qualquer menção por parte de Lula ou Marina Silva, tampouco sinal de combate. Em 2023, o governo de Eduardo, por meio do Conselho Estadual do Meio Ambiente (CONSEMA), possibilitou a ampliação do uso do solo para a silvicultura¹³, o que promoveu uma radical alteração no uso de seus recursos hídricos. Ademais, neste ano, o governo tucano conseguiu aprovar uma lei que permite a construção de barragens e açudes em Áreas de Proteção Permanente (APPs), em nome dos interesses do latifúndio14. A própria caracterização do Guaíba como um “lago” (quando, na realidade, é um corpo hídrico muito mais complexo do que isso) assegura maior liberdade de exploração do solo por parte do latifúndio e da construção civil, uma vez que um lago tem apenas 30m de APP ao longo de sua margem, ao passo que um rio apresenta até 500m de dimensão da APP a partir de sua faixa15. E afinal, tudo isso corrobora com uma incapacidade do governo federal? Na realidade, a omissão e a ausência de sinal de combatividade não traduzem uma incapacidade do governo PTucano de agir sobre a preparação das tragédias, como a que assola o Rio Grande do Sul, mas uma expressão cabal de partilhar os interesses do latifúndio agro-exportador e, portanto, sua posição ideológica. É nesse sentido estrutural que, diante dos fatos que se apresentam, Lula não pode confrontá-los em suas últimas consequências, porque é um agente dos interesses da burguesia fundiária doméstica e internacional, inconciliável com os interesses da classe trabalhadora. 

 Hoje, em fase monopolista-rentística do sistema, onde o capital especulativo é hegemônico, a internacionalização do valor da produção extrativista brasileira e, até, da propriedade da terra em si, exercem pressões diretas sobre a classe parasitária doméstica e o Estado a aumentarem e aceleraram ainda mais a superexploração e extração de mais-valia do país. Há alguns anos, já era visto um rápido aumento da concentração do controle de capital internacional sobre territórios brasileiros, como no MATOPIBA e, pasmem, no Rio Grande do Sul¹⁶. Entre as trágicas manifestações locais, gaúchas, de tais pressões do latifúndio – agora casado com o rentismo – teriam que estar a recente flexibilização (para não dizer destruição) do Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, que em 2020 foi “rasgado” em “regime de urgência” pelo estado e literalmente jogado ao mar¹⁷. Deste modo, no beco sem saída em que se encontra a esquerda liberal, seu refúgio passa a ser a terceirização das responsabilidades sobre o desastre ambiental. Precisamente nos referimos à expressão “negacionistas climáticos”, de caráter grotesco e impostor. Ao invés de colocar o dedo na ferida sobre os especuladores imobiliários, os latifundiários e a coalizão que eles representam com o governo Lula, sem o povo, o liberalismo de esquerda preferiu jogar sobre o colo da classe trabalhadora, desorientada pela perda da radicalidade política por parte da esquerda, uma expressão estéril que mais serve aos interesses de legitimação da direita do que explica a real trama por trás das mudanças climáticas e de seus discursos. Isso porque há, por parte dos países e das classes, responsabilidades mediatas e imediatas, bem como capacidades distintas de mitigação e prevenção, cuja inserção do Brasil e dos trabalhadores, nesse quesito, deveria ser muito bem compreendida pela esquerda. E o que ela teria a dizer da ausência de reuniões sobre mudanças do clima por parte do MMA? E qual é a “ruptura” promovida pelo governo federal em nível de investimento no CEMADEN ou pelo combate à aprovação do uso de agrotóxicos, que nem durante o governo Bolsonaro foram tão expansivos? O que há, por fim, é uma continuidade, fruto de um contexto tão despolitizante a ponto de gerar sobrevida ao debate “Estado mínimo x máximo”, que não compreende o papel de classe que nosso Estado cumpre.   

 O Rio Grande do Sul não será mais o mesmo, e isso é um sinal dos tempos para nós. O governo Lula é uma embarcação em estágio avançado de naufrágio. O contexto exige de nós a consciência plena de que um desastre não é isolado, mas fruto da reprodução das condições dependentes que estão presentes em vários setores de nossa vida, desde o padrão de urbanização, uso e ocupação do solo aos investimentos de mitigação e prevenção dos desastres. Quando o vale de lágrimas terminar de ser escoado pela esquerda PTucana, não sobrará tijolo algum para reconstruir, de fato, uma nova orientação, que depende da superação da dependência e do subdesenvolvimento. Por maior que seja o esforço liberal de esquecer as tragédias, novas estão por vir. E por maior que seja a constituição de nosso povo enquanto povo nos gestos solidários das últimas semanas, será preciso que essa indignação e compaixão turbinem a consciência crítica, porque somente ela é capaz não de “solucionar” as questões, mas de superá-las, segundo uma revolução socialista e nacionalista.

Frente de Estudos Socioambientais da Revolução Brasileira

 

1 Um dos principais interlocutores do debate da politização dos desastres tem sido o geógrafo Marcelo Lopes de Souza. Ver: SOUZA, Marcelo Lopes de. Ambientes e Territórios: Uma Introdução à Ecologia Política. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2019 e https://www.youtube.com/watch?v=8ddba3IHe6A

2 Gunder Frank, André. Desenvolvimento do Subdesenvolvimento. Monthly Review, Nova York, vol. 18, n. 4, set. 1966

3 Cálculo feito por Luciana Genro. Disponível em: https://movimentorevista.com.br/2024/05/luciana-genro-nao-foi-so-a-chuva

Principal órgão do governo Lula para clima teve apenas uma reunião (uol.com.br) 

5https://portaldatransparencia.gov.br/receitas/consulta?paginacaoSimples=true&tamanhoPagina=&offset=&direcaoOrdenacao=asc&orgaos=OR24000&colunasSelecionadas=ano%2CorgaoSuperior%2Corgao%2CunidadeGestora%2Ccategoria%2Corigem%2Cespecie%2Cdetalhamento%2CvalorPrevistoAtualizado%2CvalorRealizado%2CpercentualRealizado%2CvalorLancado&ordenarPor=ano&direcao=desc 

6 Bilhalva, Fernando Vitória e Fontana, Cleder. Natureza e Sociometabolismo em Marx: Contribuições à Leitura da Crise Socioecológica do Capital.  Germinal: marxismo e educação em debate, Salvador, v. 13, n.2, p. 92, ago. 2021.

7 Dilermando Cattaneo. Disponível em: https://www.youtube.com/live/TBcOlDvuVus?si=az7u0HWIbKQxta5b 

8 Respectivamente: Guilherme Oliveira; Dirce Suertegaray . Disponível em: https://www.youtube.com/live/0F32K9wxdYU?si=arJ5KUB6VIbJOhR_  

https://mst.org.br/2010/06/06/concentracao-da-terra-e-maior-que-na-decada-de-20/ 

10 https://www.metropoles.com/brasil/lula-demarcou-10-de-14-terras-indigenas-prometidas-no-inicio-da-gestao 

11 https://blogdopedlowski.com/2023/12/19/lula-repete-bolsonaro-e-governo-nao-compra-terras-para-reforma-agraria-pelo-terceiro-ano-seguido/ 

12 Herminia Maricato. https://www.youtube.com/live/Fytui10yJSU?si=IaV5v-t-rpwSuSPA 

13 https://blogdopedlowski.com/2024/05/11/em-meio-ao-caos-no-rs-bancada-ruralista-et-caterva-avancam-pacote-da-destruicao-ambiental-no-congresso-nacional/. Ademais, em escala estadual: https://sul21.com.br/noticias/meio-ambiente/2023/09/sob-critica-de-ambientalistas-consema-aprova-novo-zoneamento-ambiental-da-silvicultura/ 

14 https://blogdopedlowski.com/2024/05/07/eduardo-leite-e-seu-plano-marshall-casa-de-ferreiro-espeto-de-pau/ 

15https://x.com/necofachel/status/1788032612440662510?t=DmUXitnVU5Dxmg_5EM60ew&s=19 

16 Siviero Vicente, J. Estratégias de Financeirização No Agro: Três Casos de Investimentos Na Agricultura e nos Mercados de Terras No Brasil. Estudios Rurales, vol. 11, núm. 22, 2021, Universidad Nacional de Quilmes, Argentina. Disponível em: https://estudiosrurales.unq.edu.ar/index.php/ER/article/download/66/191/454); ver também, Siviero Vicente, J. (2020). Uma nova safra de proprietários rurais? O caso dos investimentos da Universidade de Harvard em recursos naturais no Brasil. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais em Desenvolvimento, Agricultura e Sociedade). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.

17 Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente Natural (AGAPAN). Governo Leite Destruiu Código Ambiental Que Protegia o Meio-Ambiente: Alguns apontamentos sobre as alterações do Código Ambiental original (Lei 11.520/2000) feitas para flexibilizar leis e criar o substituto (Lei 15.434/2020), 24 maio de 2024; Disponível em: Código Ambiental RS (agapan.org.br) Observe que o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul, protocolado na Assembleia Legislativa como projeto de lei em 1994 e aprovado em 2000 (Lei 11.520/2000), era formado por um arcabouço de leis que incluía o Código Florestal do Estado do Rio Grande do Sul (1992), o Sistema Estadual de Proteção Ambiental (1993) e o Sistema Estadual de Recursos Hídricos (1994). Parte do contexto local também é que, ao todo, o Código Estadual do Meio Ambiente do Rio Grande do Sul foi conquistado coletivamente com a participação conjunta dos municípios, da população e de vários profissionais das áreas relevantes, que faziam parte da “Comissão de Saúde e Meio Ambiente”. Esse Código foi considerado único no país por ser o primeiro e por contemplar proteções que iam além do previsto a nível federal. Portanto, o ataque de 2018-2024 foi, e continua sendo, tanto um retrocesso ambiental como também um retrocesso do ponto de vista democrático, tanto para o estado como para a nação.


Fonte: Revolução Brasileira

“Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar milhões de brasileiros”

Em entrevista, o agrônomo e membro do Movimento Ciência Cidadã, Leonardo Melgarejo, explica como as enchentes no RS resultam de um modelo predatório de agricultura e incentivos fiscais à destruição ambiental

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Vista aérea de Eldorado do Sul, cidade foi destruída pela enchente. Foto: Rafa Neddermeyer/Agência Brasil

Por Solange Engelmann, da Página do MST

As mudanças climáticas já se tornaram um problema ambiental e social no Brasil, que necessita de medidas urgentes por parte dos Estados brasileiros e do governo federal para amenizar o sofrimento de milhares de pessoas que vem perdendo a vida, a moradia, lavouras e destruindo sonhos e perspectivas de vida, construídos em décadas. A exemplo temos a tragédia com temporais e enchentes que atravessa o Rio Grande do Sul, desde o mês de maio.

Até o momento o número de pessoas mortas devidos às enchentes no estado já chega a 177, além de 37 pessoas que estão desaparecidas. Ao todo, mais 2 milhões de pessoas foram afetadas pela inundações no RS. Conforme o balanço da Defesa Civil, o estado ainda conta com 478 municípios afetados pelas fortes chuvas e cerca de 10 mil pessoas continuam em abrigos. Porém, no último fim de semana, pelo menos 19 municípios gaúchos sofreram novos danos em razão de mais enchentes, e nesta segunda (17), a Defesa Civil emitiu novo alerta de chuvas intensas e rajadas de vento no estado.

Entre os dez assentamentos do MST no estado, dois tiveram todas as casas destruídas e perderam as plantações e animais, sendo obrigados a se deslocarem para outros assentamentos. E e outros dois assentamentos tiveram metade de suas casas destruídas, além de outros dois assentamentos com perdas devidos as inundações. Entre as várias perdas das famílias assentadas estão casas, a produção de alimentos plantados e estocados, animais e ferramentas, além de estruturas coletivas, maquinários, matéria prima, produtos para venda das cooperativas e agroindústrias localizadas nesses assentamentos, como por exemplo, toda a produção de Arroz Agroecológico e a área plantada.

Engenheiro agrônomo, doutor em Engenharia de Produção, membro do Movimento Ciência Cidadã e colunista do Brasil de Fato RS, Leonardo Melgarejo explica que as enchentes no RS não surgem do nada, mas são fruto do modelo predatório do agronegócio e da desregulamentação das políticas de fiscalização e de preservação ambiental, entre outros fatores.

“Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo. Os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, que estão nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais.”

Confira mais na primeira parte da entrevista exclusiva para a Página do MST

Quais os principais prejuízos e dificuldades que as mudanças climáticas tem causado na vida das famílias assentadas e do campo, atingidas pelas enchentes no RS?

O primeiro elemento que chama a atenção é a desestruturação da base física em que se apoiam essas famílias para viver. Na quase totalidade dos assentamentos, as áreas ocupadas pelas famílias eram áreas exploradas por um modelo predatório, e isso leva à degradação dos solos, à degradação das formas de vida estabelecidas naquele território. E a vida das famílias é iniciada no assentamento pautada por uma espécie de recolonização, com vida, com a incorporação de muito trabalho pra agregar matéria orgânica, pra devolver a cobertura vegetal, devolver aquilo que nós não enxergamos que é a micro vida do solo. E, ao mesmo tempo, essas famílias têm que realizar um enorme investimento de tempo e de trabalho para estruturação de mercados, para destinar sua produção, para a construção de relações de confiança com os consumidores nesses mercados.

Nesse sentido, a destruição das bases produtivas, o rompimento das cadeias de mercado afetam a vida daquelas famílias de uma maneira muito concreta. Isso tem uma enorme repercussão sobre o psicológico, sobre o que sentem as famílias e como elas veem o mundo. Felizmente, os assentados da Reforma Agrária fazem parte de uma articulação que é comprometida com uma espécie de visão de família ampliada, que não permite que as pessoas se sintam abandonadas. E o Rio Grande do Sul passa pela destruição objetiva de estruturas físicas que carregam histórias e possibilidades de vida, e que jogam as pessoas numa ideia de isolamento, porque essa família estendida não é uma realidade pra todos os grupos. As destruições físicas crescem pela pressão psicológica, pelo desânimo, pela ameaça iminente de miséria, de fome, de doenças, e até por isso, o desastre nos assentamentos ganha um vulto maior, porque é dali, dos assentamentos que estão vindo esforços muito evidentes para o acolhimento não só dos assentados, mas principalmente dos não assentados.

Que esforços são esses?

A produção e a distribuição de alimentos é uma evidência de exemplo concreto de solidariedade que deixa claro que juntos podemos fazer milagres. E por isso, o MST e outros movimentos, o MTST, o Levante Popular, as cozinhas solidárias, hoje se colocam no Rio Grande do Sul como principal elemento de ligação entre os flagelados dos campos e das cidades, entre o presente dramático do Estado e o futuro que vai emergir depois dessa coisa. E essa conexão estabelecida pelo MST tem que ser reconhecida e fortalecida, porque isso é do interesse de todos. Outras tragédias ambientais estão por vir e vão afetar de uma maneira cada vez mais brutal, milhões de brasileiros em todos os territórios, nos campos, nas matas e nas cidades.

Cozinha Solidária do MST, em Viamão. Foto: Tiago Giannichini

Quais os verdadeiros responsáveis pelas tragédias e crimes ambientais e sociais, como do RS e como responsabiliza-los e cobrar soluções?

Existem fundamentações dessa crise e podem ser diluídas em função da estrutura geográfica do Rio Grande do Sul, que dá as condições de base pra que ocorra o que tenha ocorrido. Existem as implicações do capitalismo, da ideia de crescimento infinito sobre a depredação de recursos e serviços e das implicações dessa degradação de recursos e serviços ambientais sobre o aquecimento global, em função do modelo de desenvolvimento capitalista, onde tudo é mercadoria. E as implicações, agora bem objetivas, de dimensão destrutiva de eventos ambientais que vão se suceder com maior frequência e com maior dimensão catastrófica. Chuvas cada vez mais intensas, secas cada vez mais prolongadas. E isso decorre do metabolismo planetário, que tem ciclos bem definidos.

Nós estamos num período de El Niño com essa chuvarada, mas antes dele houve um La Niña com secas que afetaram muito a economia do estado do Rio Grande do Sul, e a partir desse período de enxurradas, nós esperamos já a partir do próximo ano a volta do La Niña com secas. E no Rio Grande do Sul, essa sequência se agrava por conta da posição do Estado em relação ao globo terrestre. No caso das enchentes, elas são extremamente graves, porque sobre o Rio Grande do Sul e parte de Santa Catarina se chocam umas frentes frias que sobem lá da Antártida com umas frentes quentes que descem do norte e que descem do litoral. Nesse choque, as massas de vapor de água se condensam e despencam. E como o aquecimento global está fazendo com que exista menos água retida de forma congelada nos pólos, e a maior parte dos rios estão sendo assoreado pelo mau uso dos solos, estão secando, então, o volume da água na forma de vapor e na forma de chuva é muito maior. Isso vem num crescente.

E o que fazer diante disso?

Nós temos que pensar no que que nós fazemos como população, como sociedade, gerenciando o território onde essa água vai despencar. Como no Rio Grande do Sul, nós temos um desnível de até 800 metros entre as áreas altas da Serra do Planalto e as áreas baixas para onde escorrem as chuvas que caem lá em cima. Essas várzeas são invadidas por volumes de água com grande força, pela diferença de altitude, pela força da gravidade, empurrando essas águas e grande poder de destruição. E tudo chega no rio Guaíba, que está praticamente ao nível do mar, está colado na Lagoa dos Patos e se espalha em torno da lagoa e em torno das várzeas desses rios. Porque o canal de ligação da lagoa com o mar é muito estreito para um volume de água tão gigante. Como os rios estão assoreado essa água chega com maior volume naquela boca de saída e com maré alta essa água é represada com os ventos vindos do sul. E as inundações que eram previstas e que, em condições normais, seriam também inevitáveis, elas só adquirem essa dimensão causando esses danos, assim do tipo nunca visto, porque, o nunca visto é algo sequencial. O próximo nunca visto vai ser pior do que este.

Então as enchentes no RS poderiam ter causado danos menores?

Com certeza. Com solos protegidos, rios não assoreados, com medidas de proteção, via a legislação protetiva ao ambiente e fiscalização dos crimes ambientais, as coisas seriam diferentes e, principalmente, se nós tivéssemos orientações políticas e de mecanismos de educação que se encaminhasse para conscientização social numa linha não negacionista. Poderíamos ter evitado esse drama na dimensão que esteve. Porto Alegre, por exemplo, estava preparada para conter a elevação do rio Guaíba até seis metros e o rio Guaíba não subiu seis metros, a água não passou dos 5,5. E ela não teria entrado na cidade, não teria provocado o que vimos se a sucessão de administrações que estiveram na Prefeitura de Porto Alegre, que controlaram a cidade nos últimos 20 anos, não tivessem desmontado o sistema de proteção criado por administrações anteriores, não tivessem descuidado de fazer o básico.

E como fica a responsabilidade dos culpados pela tragédia?

A responsabilização é parte do serviço de educação que nós precisamos, de desalienação, que nós precisamos. Nós precisamos que os erros sejam identificados para que eles não se repitam. Precisamos que os promotores dos erros sejam desmascarados. Isso é necessário para que os grupos políticos de que fazem parte os promotores dos erros, não sejam protegidos pela cumplicidade do silêncio. E nós temos muitos exemplos negativos já na nossa história, relacionados a perdões, anistias, esquecimentos, que se repetirem nesse caso vão alimentar a crise e os dramas futuros que estão por vir. É inegável a volta dessa roda.

Como o modelo do agronegócio, através do uso intensivo de agrotóxicos e o desmatamento vem contribuindo para agravar os efeitos das mudanças climáticas para os povos do campo?

O solo, com diferentes níveis de cobertura é o maior reservatório de água. Os volumes de água que os diferentes tipos de solo vão conseguir segurar dependem da composição do solo, da profundidade e das plantas que estão sobre o solo. Uma coisa muito fácil de entender para qualquer tipo de solo, é que o desmatamento desprotege o solo e, portanto, dificulta a capacidade de retenção da umidade. Mas a caixa d’água do solo também depende de elementos que são invisíveis e que o agronegócio está destruindo, talvez mais facilmente pela invisibilidade, os microrganismos, a matéria orgânica, a porosidade do solo, as áreas de banhado que são drenadas. Os mecanismos de descompactação do solo que são realizados por insetos e pelas raízes, tudo isso compõe redes de serviços ecológicos que o negacionismo vem destruindo e vem estimulando a destruição. E isso se agrava com distorções nos acordos sociais, nas alterações legislativas, nos financiamentos públicos, na isenção de impostos aos agrotóxicos, nos benefícios fiscais. E também não dá para esquecer, que uma ocultação da realidade que ilude a sociedade. Há uma publicidade, campanhas de marketing que promovem a destruição dos ecossistemas e que são veiculadas nas grandes redes.

Então, como o desmatamento contribui para o encharcamento do solo e o aumento das enchentes?

Quando eliminamos as árvores, não estamos descartando apenas os serviços que as árvores realizam, quando impedem a força do choque das gotas de chuva sobre o solo que desagregam o solo ou o serviço que as árvores realizam, absorvendo e devolvendo pela respiração para o ambiente, parte da água que chega até elas. É muito grave e pouco comentado o fato de que nós, cortando os canais profundos que são abertos pelas raízes, reduzimos de uma maneira muito significativa a capacidade de absorção e de retenção das águas da chuva pelo solo. E o que não é retido, escorre.

Em resumo, nós precisamos reflorestar, e não basta ser iludido por plantio de eucalipto. Nós precisamos reflorestar com diversidade, a diversidade da cobertura viva do solo e da vida subterrânea dos solos, é que define esse serviço de retenção de água que o agronegócio desfaz. A substituição daquelas composições bio diversas por um único tipo de planta, por exemplo, a soja, semeada ano após ano nos mesmos locais acaba retirando a capacidade de absorção e retenção da água do solo e, além disso, isso também gera uma camada impermeabilizada na linha de corte dos discos dos arados, e faz com que mais água escorra. E aquela camada superficial do solo pulverizada, acaba sendo carregada, vai parar nos rios, nos lagos e reduz a capacidade dos rios de escoamento das águas. E isso aumenta o volume da inundação, a velocidade e a violência das enchentes. E tudo isso aconteceu no Rio Grande do Sul, que enganado pela mídia, vinha se orgulhando de um modelo de produção ecocídio. Consolidado esse modelo dependente de isenções fiscais, que estimula o uso de veneno. Tudo que foi destruído pela força das águas escorreu em direção às áreas baixas, carregando os problemas.

E como essas enchentes geram mais problemas para os agricultores agroecológicos e assentados da Reforma Agrária no estado?

Lavoura de arroz alagada. Foto: MST-RS

Os agricultores ecológicos que, com as suas áreas de cultivo, onde produziam alimentos orgânicos, também foram inundadas pelo escorrimento das áreas degradadas pelo agronegócio. Isso estabeleceu um paradoxo, por que esses agricultores de áreas orgânicas vão precisar recuperar a fertilidade e retirar o veneno dos seus solos. E essa é uma dificuldade que tende a se estender no tempo e com o período de seca que está por vir.

E os lagos associados por essa última enchente, com a seca vão ter níveis mais baixos, maior concentração proporcional de resíduos dos venenos, que ali foram depositados. Os animais que buscarem matar a sede nesses locais vão ser contaminados. E nos próximos períodos, mais chuva e o drama vai se repetir.

O corolário é que se não mudarmos o modelo de produção, se a gente continuar jogando veneno no Rio acima, nós vamos continuar reduzindo a capacidade de retenção de água pelos solos. E a diferença, ano após ano, só vai se observar na dimensão dos estragos. É esse o drama está posto.

*Editado por Fernanda Alcântara


Fonte: MST

Dias cinzentos

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Por Gilce Sampaio

Era noite, estava dormindo tranquila quando fui acordada pela chuva forte. Enquanto para muitas pessoas é convidativo dormir com chuva, para os gaúchos é assustador.

Moro em uma região que não foi tão atingida dessa vez, mas o trauma do que vivi no dia 12 de julho de 2023 agregado a tudo que tem acontecido ultimamente, me fez mais do que perder o sono, ficar em alerta.

Corri para o quarto da minha filha pequena, que já estava acordada e assustada, para acalmá-la. Ela se aninhou nos meus braços tampando os ouvidos tentando não ouvir o temporal. Enquanto eu dizia para ela que tudo iria ficar bem, mentalmente eu rezava para Deus e para a Mãe Natureza ter piedade de nós e não levar o telhado da nossa casa, como tinha acontecido para muitos em Campo Novo e no Município vizinho Sede Nova.

Diferente deste mês de maio, daquela vez estávamos quase entrando em férias, sou professora e naquele dia eu tinha aula só até o recreio, ou seja, até o meio da tarde. Exatamente a hora que iríamos ser atingidos pelo Ciclone.

Estava dando aula para o ensino médio em Bom Progresso, município que fica a cerca de 10 minutos de Campo Novo. Parecia ser mais um dia normal de inverno: com chuva e frio, um dia cinzento. Por aqui somos acostumados, ou éramos, acostumados a ficar mais de quinze dias debaixo ou dentro das nuvens.

Porém, minutos antes de acabar a aula e dar o sinal para o recreio, a chuva se intensificou com raios e trovões, tivemos uma queda de luz e, um estudante percebeu que seu celular estava tocando sem parar. Pediu licença para pegá-lo na mochila. Era o pai dele que estava ligando. Pediu licença e foi atender fora da sala de aula mas o suficiente para escutarmos a conversa.

-“Como?

-Calma pai!

-Meu Deus!

-Paaiii!”

Ele voltou atordoado para a sala de aula. Parecia não estar falando coisa com coisa: “- Meu pai disse que os porcos estavam voando, que tudo estava voando, que não temos mais nada…E a ligação caiu!” Naquele momento a luz também e não voltaria mais durante alguns dias.

Havia um som ensurdecedor e nada mais funcionava, nem internet, nem sinal de celular. Dou aula de geografia e tive um insight onde entendi que a trajetória do vento passando por Sede Nova, a propriedade do meu estudante, seguiria para Campo Novo onde estavam quase todas as pessoas que eu mais amo.

Enquanto todos corriam para se abrigar no lugar mais seguro da escola eu peguei o meu material e entrei no meu carro. A chuva era cada vez mais torrencial e o vento inexplicável, mas eu não estava nem um pouco preocupada comigo. Era instintivo.

Quando eu estava na estrada a caminho de Campo Novo eu vi passar pela minha frente o vento castanho avermelhado levando – semelhante a cor da nossa terra – tudo o que tinha pela frente, postes, o telhado da Empresa Três Tentos e, como se estivesse hipnotizada eu continuei dirigindo o meu carro até que o carro e o caminhão pequeno que estavam na minha frente pararam no meio da pista, as árvores que costeavam a rodovia estavam no chão, impedindo a passagem para qualquer lado. Eu queria continuar andando porque de onde eu estava eu via tudo aquilo chegando em Campo Novo.

Mas se eu saísse do carro o risco de morte era muito grande, porque a chuva e vento continuavam. Aí desabou sobre mim a sensação de impotência, a percepção de somos nada diante da força da natureza e eu chorei sozinha no carro entre uma fila de outros veículos que balançavam com a força do vento e chacoalhava as últimas certezas absolutas que tinha na vida, como de que poderia controlar muita coisa.

Como que eu não percebi que isso iria acontecer, estava nítido, todo esse desmatamento, a mudança do curso dos rios, mudamos até os rios voadores, que idiota pensar que não iria acontecer conosco o mesmo que aconteceu com quem já fez isso antes, como nos EUA.

Fiquei presa naquela fila na estrada durante mais de uma hora e meia, até que a Defesa Civil e os Bombeiros conseguiram tirar uma quantidade de árvores que permitisse passagem em mão única. A sensação de liberdade de quanto tivemos a autorização de continuar a 20km por hora, foi imediatamente substituída pelo terror das imagens do que havia sobrado ao redor: sequência de postes de energia quebrados ao meio, um capão de mato inteiramente retorcido, com troncos de árvores centenárias que pareciam ser de uma maquete de filme de terror. Restos de placas, madeiras de casas ou galões que tinham que ser desviados ao longo da pista.

Na entrada da cidade de Campo Novo tinha muitos galhos e folhas no chão, quando fui me aproximando da escola da minha filha vi fios de luz esparramados por todos os lados, e uma árvore com as raízes para cima, como se o vento tivesse puxado e invertido ela, a vice- diretora da tarde estava no portão, saí do meu carro sentido o meu coração na boca, nos ouvidos… Já que árvores tinham caído sobre o telhado. Ouvi ela dizer:- Acho que essa foi a última, não tem mais nenhuma criança na escola. Quando cheguei junto a ela mal conseguia falar, mas nos entendemos pelo olhar e, ela me disse: Teu marido levou ela, ela só está assustada, mas está bem, ninguém se feriu. É um milagre!

Fui até a casa da minha mãe, ela não estava em casa, mas aparentemente não havia grandes estragos, nem na casa do meu irmão que mora ao lado dela, segui para a minha casa, pela rua de baixo, aí voltei a me assustar, uma árvore imensa tinha caído e derrubado postes e fios, mas a nossa casa não foi atingida. Não tinha ninguém na minha casa também, sem celular e ser internet fui até a casa do meu irmão mais velho, que aparentemente parecia estar intacta, mas ao descer até a esquina enxerguei o rastro da destruição, dois bairros inteiros tinham sido radicalmente atingidos.

Nunca vi nada igual aquilo, e as pessoas ao redor do que do que havia sobrado estavam desoladas, perdidas, muitas chorando, e eu não sabia nada de ninguém da minha família ainda então voltei para a casa da minha mãe, meu marido coincidentemente também estava chegando lá, com a minha filha pequena junto, nos abraçamos como em um reencontro. Fomos para casa, logo minha mãe chegou com o meu padrasto contando que estavam todos bem.

Os dias seguintes continuaram sem luz e em muitas casas sem água, sem teto, sem nada. Muitas famílias foram para casas de parentes ou amigos, o Ginásio Municipal se tornou o principal ponto público de acolhimento.

Campo Novo e Sede Nova receberam doações de vários lugares. As pessoas reconstruíram suas casas, quem pode com maior segurança, mas nada será como antes. Agora sabemos que estamos na rota dos ventos e os cientistas dizem que isso irá acontecer novamente e cada vez com maior gravidade.

Como viver neste lugar sabendo disso? Talvez o mais racional fosse ir embora, ir para um lugar onde a natureza ainda não foi tão agredida, ir para um lugar mais seguro. Mas porquê poucos fazem essa escolha? A maioria de nós opta por ficar e reconstruir tudo no mesmo lugar porque queremos permanecer ligados às nossas origens, a essa conexão ancestral com esta terra, com estes costumes e histórias. O que as pessoas mais procuravam entre os entulhos eram fotos ou pequenos objetos que haviam elegido como relíquias pelo seu valor simbólico. Devido ao vento ter levado quase tudo que elas tinham de material, elas buscavam o patrimônio criado pelas suas vivências e memórias, aquilo que as identificam com o lugar ou a quem amam. Elas tentavam encontrar por algo que é imaterial, para seguir a vida, algo que lhes devolvesse a fé ou esperança.

E, sem dúvida a resiliência é importante e necessária para nos reerguemos diante atrocidades ou catástrofes. No entanto, com esse sentimento também necessitamos de conhecimento e novas atitudes. Diante do que passamos e do que sabemos é irracional reconstruir a casa do mesmo jeito e no mesmo lugar. É preciso criar uma nova relação com a natureza, com mais respeito e humildade, para que talvez, daqui alguns anos, possamos voltar a dormir tranquilos em noites de chuva.

 

* Gilce Sampaio é professora de História da Educação Básica e Mestre em Arqueologia e Patrimônio Cultural

No Brasil, inundações devastadoras se tornaram duas vezes mais prováveis por causa do desmatamento e da queima de combustíveis fósseis

Cientistas dizem que calamidades na mesma escala do desastre que matou 169 pessoas se tornarão mais comuns se as emissões não forem reduzidas

canoas

Inundações em Canoas, Rio Grande do Sul, em 5 de maio de 2024. Imagem de Ricardo Stuckert/PR

Por Jonathan Watts para o “The Guardian” 

As inundações extraordinariamente intensas, prolongadas e extensas que devastaram o sul do Brasil foram pelo menos duas vezes mais prováveis ​​devido à queima humana de combustíveis fósseis e árvores, mostrou um estudo realizado pelos cientistas da World Weather Attribution.

O desastre recorde provocou 169 mortes, destruiu casas e destruiu colheitas, e foi agravado pela desflorestação, cortes de investimento e incompetência humana.

A equipe de cientistas internacionais por detrás do estudo previu que calamidades desta escala – as piores a atingir a região – tornar-se-iam mais comuns no futuro se não houvesse uma redução acentuada nas emissões de gases com efeito de estufa que aquecem o planeta.

Centenas de milhares de pessoas no estado do Rio Grande do Sul e no vizinho Uruguai ainda tentam reconstruir as suas vidas depois de um mês de chuvas persistentes que deslocaram 80 mil pessoas e deixaram mais de um milhão sem serviços essenciais, como eletricidade e água potável.

Durante o pico das chuvas no dia 1º de maio, a cidade de Santa Maria estabeleceu um recorde de precipitação em 24 horas de 213,6 mm. Em apenas três dias, a capital do estado, Porto Alegre, foi inundada por chuvas equivalentes a dois meses, transformando estradas em rios, estádios de futebol em lagos e danificando tanto o aeroporto internacional da cidade que permanece fechado.

O custo económico deverá exceder 5,25 bilhões de reais e o terrível impacto na agricultura deverá aumentar os preços do arroz – o Rio Grande do Sul normalmente produz 90% da colheita do Brasil – e dos produtos lácteos em todo o país. 

A ponte para abruptamente na margem do rio, onde uma parte dela foi destruída, levando a uma queda acentuada
Ponte destruída sobre o Rio Forqueta, no Rio Grande do Sul. Fotografia: Nelson Almeida/AFP/Getty Images

O foco da região na agricultura teve um custo elevado. Os autores do estudo afirmaram que nas últimas décadas, as defesas naturais contra inundações, como florestas ribeirinhas e pântanos, foram desmatadas para campos, muitas vezes em violação de regulamentos ambientais mal aplicados.

A catástrofe em Porto Alegre foi agravada pelas fracas defesas contra inundações, que deveriam suportar 6 metros de água, mas que alegadamente começaram a falhar a 4,5 metros.

Nos últimos anos, os governos municipais reduziram o investimento nestas protecções, apesar dos avisos de que esta região baixa e desflorestada, na intersecção de cinco grandes rios, seria cada vez mais vulnerável a inundações como resultado de perturbações climáticas provocadas pelo homem. Além de serem incapazes de deter a subida das águas, as barreiras contra inundações da capital do estado retiveram as águas das cheias, retardando o processo de secagem e recuperação.

Cientistas do World Weather Attribution confirmaram a poderosa influência humana no desastre das enchentes, a quarta a atingir o estado mais ao sul do Brasil no último ano e meio.

Eles analisaram um período de quatro dias e um período de 10 dias de inundações, combinando observações meteorológicas com resultados de modelos climáticos computacionais. Os pesquisadores descobriram que as mudanças climáticas provocadas pelo homem tornaram as chuvas extremas duas a três vezes mais prováveis ​​e cerca de 6% a 9% mais intensas. Esta influência foi semelhante ao efeito natural do fenômeno El Niño.

Além de aumentar a frequência e a intensidade das fortes chuvas, o aquecimento global empurrou a cintura tropical mais para sul, que funciona como um muro no centro do Brasil que bloqueia as frentes frias vindas da Antártica. Como resultado, inundações que antes eram mais comuns no norte de Santa Catarina, agora são mais prováveis ​​no Rio Grande do Sul. Mais de 90% do estado, que cobre uma área do tamanho do Reino Unido, foi afetado.

Os autores afirmaram que o aquecimento global também está aumentando a frequência dos eventos El Niño e La Niña, que estão associados a condições meteorológicas extremas. Não houve um ano neutro sem nenhum deles na última década.

Olhando para o futuro, para um mundo que ficará mais quente como resultado das emissões dos carros, das fábricas e do desmatamento, eles descobriram que tal desastre se tornaria 1,3 a 2,7 vezes mais provável no Rio Grande do Sul se o aquecimento global subisse do nível atual de 1,2. C a 2C, o que é cada vez mais provável. “Esses eventos se tornarão mais frequentes e graves”, conclui o artigo.

Lincoln Alves, pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Brasil, disse que o clima no Brasil já havia mudado: “Este estudo de atribuição confirma que as atividades humanas contribuíram para eventos extremos mais intensos e frequentes, destacando a vulnerabilidade do país às mudanças climáticas. É essencial que os tomadores de decisão e a sociedade reconheçam esta nova normalidade.”

Para minimizar o impacto potencial de desastres futuros, os autores sugerem um planejamento urbano mais abrangente, maior investimento em defesas contra inundações e maior atenção ao desenvolvimento social equitativo, porque as inundações podem criar uma “armadilha da pobreza” em que as comunidades de baixos rendimentos estão nas áreas mais vulneráveis. .

A prioridade deveria ser proteger e reforçar as barreiras naturais, como florestas e pântanos, disse Regina Rodrigues, pesquisadora da Universidade Federal de Santa Catarina. “As mudanças no uso da terra contribuíram diretamente para as inundações generalizadas, eliminando a proteção natural e podem exacerbar as alterações climáticas, aumentando as emissões.”

Contudo, como sempre, a medida mais importante é reduzir rapidamente a queima de árvores e de combustíveis fósseis que está a causar cada vez mais carnificina em todo o mundo.


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Fonte: The Guardian