Bloqueio judicial no Rioprevidência expõe os riscos da captura financeira da previdência dos servidores fluminenses

Decisão da Justiça reacende o debate sobre investimentos de alto risco e reforça críticas ao uso dos recursos previdenciários pelo governo Cláudio Castro para financiar o pagamento da dívida pública, ampliando a insegurança de aposentados e pensionistas

A decisão da Justiça do Rio de Janeiro de bloquear R$ 135,1 milhões em contas e bens de empresas e executivos envolvidos em operações financeiras com recursos do Rioprevidência representa mais um capítulo de uma história marcada por sucessivas apostas de alto risco com o patrimônio previdenciário dos servidores estaduais. A medida decorre de uma ação proposta pelo próprio Governo do Estado e pelo Rioprevidência para tentar recuperar recursos perdidos após um investimento de R$ 150 milhões no fundo Texas I FIA, cuja carteira estava fortemente concentrada em ações da Ambipar e sofreu uma desvalorização superior a 90%.

Embora o bloqueio de bens possa representar um primeiro passo na tentativa de recuperar parte do prejuízo, ele não elimina a questão central: como um fundo responsável pelo pagamento de aposentadorias e pensões de centenas de milhares de servidores públicos foi exposto a operações financeiras de tamanho risco? A resposta exige uma investigação profunda sobre os critérios adotados para essas aplicações, os mecanismos de fiscalização existentes e as responsabilidades administrativas e políticas de quem autorizou tais investimentos.

O caso também reforça a necessidade de examinar a condução da política previdenciária durante o governo Cláudio Castro. Nos últimos anos, os recursos do Rioprevidência deixaram de cumprir exclusivamente sua finalidade previdenciária e passaram a servir, reiteradamente, como instrumento para atender às necessidades fiscais do governo estadual, inclusive por meio de operações destinadas ao pagamento da dívida pública com a União. Essa utilização recorrente do patrimônio previdenciário como mecanismo de ajuste das contas estaduais fragilizou ainda mais a sustentabilidade financeira do fundo e ampliou a insegurança de aposentados e pensionistas, justamente aqueles que dependem desses recursos para sua sobrevivência.

O episódio atual evidencia que o problema não se resume a um investimento malsucedido. Ele revela um modelo de gestão que transformou um fundo previdenciário em instrumento de engenharia financeira e de administração da crise fiscal do Estado. Quando isso ocorre, os riscos deixam de recair apenas sobre operadores do mercado e passam a ameaçar diretamente a renda de milhares de servidores que contribuíram durante décadas para garantir uma aposentadoria digna.

Por isso, a recuperação dos recursos eventualmente desviados ou perdidos constitui apenas uma parte da solução. O Estado precisa identificar e responsabilizar civil, administrativa e criminalmente todos aqueles que contribuíram para expor o patrimônio previdenciário a riscos incompatíveis com sua finalidade. Da mesma forma, torna-se indispensável impedir que futuros governos continuem tratando o Rioprevidência como uma reserva financeira disponível para solucionar problemas de caixa ou honrar compromissos fiscais de curto prazo. Um fundo de previdência existe para garantir segurança aos aposentados e pensionistas, não para financiar aventuras financeiras nem servir como colchão para políticas fiscais equivocadas.

Diante desse histórico, os servidores ativos, aposentados e pensionistas não podem permanecer como espectadores. Sindicatos e associações  ligados aos servidores precisam ampliar a pressão política e institucional para impedir que novos investimentos temerários coloquem em risco o patrimônio do Rioprevidência. Da mesma forma, essas entidades devem exigir o fim da utilização recorrente dos recursos do fundo para viabilizar o pagamento da dívida pública do Estado com a União, prática que desvirtua a finalidade da previdência e compromete sua sustentabilidade de longo prazo. È preciso lembrar que defender o Rioprevidência significa defender o direito dos servidores de receber, com segurança, os benefícios que financiaram ao longo de toda a sua vida como servidores públicos do Rio de Janeiro.

TCE dá cinco dias para Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões em instituições sem credenciamento

Sede do Rioprevidência — Foto: Agência Brasil

Por Gabriele Maia para “Tempo Real”
O Tribunal de Contas do Estado (TCE-RJ) deu cinco dias para o Rioprevidência explicar investimentos de R$ 118 milhões realizados no fim de dezembro de 2025. A Corte apura se os recursos foram aplicados em três fundos administrados por instituições financeiras que, segundo representação encaminhada ao tribunal, ainda não estavam devidamente credenciadas para operar com a autarquia.

A decisão monocrática do conselheiro José Gomes Graciosa, assinada em 2 de julho e divulgada nesta quarta-feira (15), reúne uma representação apresentada pelo Conselho Fiscal do Rioprevidência e uma denúncia protocolada pelo deputado estadual Luiz Paulo (PSD).

O presidente do Conselho Fiscal, Vinicius Zanata, afirmou que as aplicações investigadas só vieram à tona porque o colegiado revisou toda a documentação dos investimentos após a crise envolvendo o Banco Master.

“Ao analisar os relatórios, identificamos algumas aplicações vultosas realizadas antes do devido credenciamento das instituições. Já havia muitas suspeitas sobre a gestão do órgão à época e, ao encontrar novas irregularidades, pedimos esclarecimentos e encaminhamos cópia ao TCE-RJ”, explicou.

Segundo a representação, os R$ 118 milhões foram aplicados entre 24 e 29 de dezembro de 2025 em três fundos de investimento. O Conselho Fiscal do Rioprevidência afirma que, no momento dos aportes, as instituições envolvidas na gestão e administração desses fundos ainda não tinham o credenciamento obrigatório para receber recursos da autarquia.

Entre os pontos levantados está o fato de que o credenciamento da gestora R Capital Asset Management, responsável pelos três fundos, só teria sido concluído em 13 de janeiro de 2026, semanas após as aplicações. A representação também questiona a situação da Inter DTVM e da Qore DTVM, esta última descrita como uma instituição criada em 2024 e com histórico operacional ainda limitado.

Fundo de investimento Valor do aporte Data da aplicação
Linea Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 8,2 milhões 24/12/2025
R CAP – Alocação Fundo de Investimento Financeiro Renda Fixa Longo Prazo R$ 80 milhões 26/12/2025
R CAP Soberano FIF Renda Fixa Longo Prazo R$ 29,8 milhões 29/12/2025
Total R$ 118 milhões 24 a 29 de dezembro de 2025

Na decisão, o conselheiro Graciosa afirma que o credenciamento não é uma mera formalidade administrativa, mas um mecanismo previsto nas normas do Conselho Monetário Nacional para avaliar a capacidade técnica, financeira e reputacional das instituições antes que recebam recursos dos regimes próprios de previdência.

Porém, apesar de reconhecer a necessidade de aprofundar a apuração, o TCE ainda não analisou o mérito das acusações. A Corte determinou apenas que o atual presidente do Rioprevidência apresente explicações e a documentação pertinente antes da manifestação da área técnica e do Ministério Público de Contas.

Aportes de R$ 118 milhões aconteceram depois de investimentos no Banco Master

Os aportes passaram a ser questionados poucos meses depois do caso Banco Master, que já havia colocado o Rioprevidência sob investigação. Inicialmente estimados em R$ 970 milhões, os investimentos da autarquia ligados ao banco chegaram a quase R$ 3 bilhões, segundo investigações da Polícia Federal.

O TCE-RJ já havia alertado para os riscos dessas operações e determinado que o fundo deixasse de realizar novos aportes em ativos administrados pela instituição.

Foi nesse contexto que o deputado Luiz Paulo apresentou uma denúncia ao Tribunal de Contas questionando os novos investimentos.

“Desde o caso do Banco Master eu vinha alertando para o uso inadequado dos recursos do Rioprevidência. Quando surgiram essas novas informações, resolvi levar o caso ao Tribunal de Contas para que tudo fosse apurado”, explicou.

O parlamentar explicou que, durante a tramitação do processo originado a partir de sua denúncia no TCE, o governador em exercício Ricardo Couto adotou uma série de medidas para endurecer as regras para a gestão dos recursos da autarquia.

“O governo publicou um decreto restringindo aplicações apenas em bancos S1 e, mais recentemente, outro reforçando a profissionalização da gestão do Rioprevidência. São medidas importantes, mas elas não impedem que os fatos já ocorridos sejam examinados sob o aspecto da legalidade”, afirmou.

MP pediu afastamento de presidente interino do Rioprevidência após aportes

Os mesmos investimentos também são alvo de uma ação civil pública proposta pelo Ministério Público (MPRJ). O órgão pediu o afastamento de Nicholas Cardoso, que ocupava a presidência interina do Rioprevidência quando a ação foi ajuizada, além do bloqueio de R$ 1,088 bilhão em bens dele, do ex-presidente Deivis Marcon Antunes, do Banco Master e da empresa PKL One.

Segundo o MP, os R$ 118 milhões foram aplicados quando Nicholas ainda era diretor de Investimentos da autarquia. Assim como o TCE, a Promotoria sustenta que os aportes ocorreram sem o credenciamento prévio das instituições financeiras responsáveis pelos fundos, em desacordo com as normas do Conselho Monetário Nacional.

Quatro dias após o pedido de afastamento, Nicholas foi exonerado da presidência interina do Rioprevidência. O governo do estado nomeou Luana Abreu dos Santos Lourenço para a Diretoria de Administração e Finanças da autarquia, passando a responder pelo órgão.


Fonte: Tempo Real

Whisky milionário, carne coberta de ouro e bilhões do Rioprevidência: o cerco se fecha sobre Cláudio Castro

Novas revelações da Polícia Federal aprofundam as suspeitas sobre a relação entre o ex-governador do Rio de Janeiro e o banqueiro Daniel Vorcaro, enquanto aposentados e pensionistas seguem arcando com os riscos de investimentos controversos realizados com recursos previdenciários

As novas revelações da Polícia Federal sobre os aportes bilionários do Rioprevidência em ativos ligados ao Banco Master aprofundam ainda mais as suspeitas que cercam a gestão do ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro. Segundo informações encaminhadas ao Supremo Tribunal Federal, a PF identificou que mudanças promovidas por Castro na cúpula do Rioprevidência antecederam investimentos que, ao longo do tempo, alcançaram aproximadamente R$ 3 bilhões em operações vinculadas ao banco controlado por Daniel Vorcaro.

De acordo com as investigações, a substituição de dirigentes teria facilitado o credenciamento do Banco Master e acelerado a realização dos aportes, contornando mecanismos de controle e avaliação técnica que deveriam existir para proteger os recursos dos servidores públicos estaduais. O caso ganha contornos particularmente graves porque envolve dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões de milhares de trabalhadores que dedicaram suas vidas ao serviço público fluminense.

As investigações apontam que os investimentos foram realizados mesmo diante de questionamentos sobre os riscos envolvidos e sobre a elevada concentração de recursos em uma única instituição financeira. O resultado é que o Rioprevidência, que já enfrenta desafios históricos para garantir sua sustentabilidade financeira, passou a carregar uma exposição significativa a ativos cuja qualidade e liquidez são agora objeto de intenso escrutínio por parte dos órgãos de controle.

Neste contexto, a recente decisão de Cláudio Castro de desistir de sua candidatura ao Senado, alegando a necessidade de dedicar-se à própria defesa, parece menos um gesto de desprendimento político e mais o reconhecimento de que as evidências reunidas pelos investigadores atingiram um patamar difícil de ignorar. Em poucas semanas, o ex-governador viu seu nome associado a diferentes frentes de investigação da Polícia Federal, tornando praticamente inviável a manutenção de suas pretensões eleitorais.

A situação torna-se ainda mais delicada quando se observa a trajetória política de Cláudio Castro. Durante anos, ele figurou como um dos mais importantes aliados da família Bolsonaro no cenário nacional. Sua ascensão política ocorreu no interior do campo bolsonarista, que construiu parte significativa de seu discurso em torno do combate à corrupção, da moralidade administrativa e da defesa de uma suposta “nova política”. As investigações envolvendo o Rioprevidência e o Banco Master lançam dúvidas profundas sobre a coerência entre esse discurso e as práticas adotadas nos bastidores do poder.

Mas talvez nenhum aspecto deste caso simbolize tão bem a distância entre governantes e governados quanto as revelações envolvendo a relação pessoal entre Cláudio Castro e Daniel Vorcaro. Reportagens publicadas nos últimos meses revelaram que ambos participaram, em Nova York, de eventos marcados pela ostentação, incluindo degustações de whiskies raros avaliados em centenas de milhares de dólares e refeições em restaurantes de luxo onde eram servidos cortes de carne cobertos por folhas de ouro. Embora a participação em eventos dessa natureza não constitua irregularidade por si só, a proximidade entre o governador e o banqueiro ganha outro significado quando analisada à luz dos bilhões de reais que posteriormente foram direcionados ao Banco Master por um fundo previdenciário estatal.

O contraste é inevitável. Enquanto integrantes da elite política e financeira desfrutavam de experiências reservadas a um grupo extremamente seleto de milionários, milhares de aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro continuavam convivendo com incertezas sobre o futuro de suas aposentadorias. Muitos desses beneficiários dependem exclusivamente dos pagamentos realizados pelo Rioprevidência para garantir condições mínimas de sobrevivência em um cenário de inflação persistente, aumento do custo de vida e crescente deterioração dos serviços públicos. A imagem de governantes brindando com whiskies raríssimos ao lado de banqueiros favorecidos por investimentos públicos bilionários contrasta de forma brutal com a realidade vivida pela maioria dos segurados do sistema previdenciário estadual.

Mais do que uma investigação sobre operações financeiras questionáveis, o caso expõe um problema estrutural da política fluminense: a utilização recorrente de instituições públicas estratégicas para atender interesses privados e redes de influência política. O Rioprevidência, responsável pela segurança financeira de milhares de aposentados e pensionistas, não pode ser tratado como instrumento para operações de alto risco nem como mecanismo de aproximação entre agentes públicos e grupos econômicos privilegiados.

À medida que avançam as investigações, torna-se cada vez mais difícil sustentar a narrativa de que tudo não passa de coincidências administrativas ou de decisões técnicas equivocadas. A sucessão de mudanças na direção do fundo, os aportes bilionários, a proximidade com Daniel Vorcaro e a crescente quantidade de elementos reunidos pela Polícia Federal apontam para um enredo que exige esclarecimentos profundos e responsabilização, caso as suspeitas sejam confirmadas.

Se as investigações comprovarem as irregularidades apontadas pela Polícia Federal, o escândalo do Banco Master poderá entrar para a história do Rio de Janeiro não apenas como mais um episódio de gestão temerária de recursos públicos, mas como um símbolo da distância abissal que separa a vida dos detentores do poder da realidade enfrentada pelos aposentados e pensionistas cujas economias foram colocadas em risco. Entre taças de whisky milionário, carnes cobertas de ouro e operações financeiras cercadas de suspeitas, o que estava em jogo eram recursos destinados a garantir uma velhice digna para milhares de servidores públicos fluminenses.

Entre a “austeridade” dos salários e a farra financeira do Rioprevidência: o duplo padrão de Cláudio Castro no Rio de Janeiro

Enquanto servidores estaduais acumulam perdas salariais e incertezas sobre aposentadorias e pensões, o governo Cláudio Castro mergulha em investigações sobre aplicações bilionárias e saques sucessivos no Rioprevidência, aprofundando a percepção de que a corrida ao Senado pode servir mais como escudo político do que como compromisso com o futuro do Rio de Janeiro

Uma nova operação da Polícia Federal envolvendo aportes da Rioprevidência no Banco Master recoloca o governador Cláudio Castro no centro de um escândalo que mistura risco financeiro extremo, gestão temerária de recursos previdenciários e interesses políticos. Segundo reportagem do jornalista Fábio Serapião publicada no UOL Notícias, a PF investiga operações que expuseram quase R$ 1 bilhão do fundo previdenciário dos servidores estaduais a aplicações consideradas incompatíveis com a natureza conservadora que deveria orientar recursos destinados ao pagamento de aposentadorias e pensões.

Ainda que Cláudio Castro não apareça formalmente como alvo direto das primeiras fases da operação, é impossível dissociar o funcionamento da Rioprevidência das decisões políticas tomadas por seu governo. Afinal, a autarquia é subordinada ao Executivo estadual, e os dirigentes investigados foram nomeados dentro da estrutura política do Palácio Guanabara. O próprio ex-presidente da Rioprevidência, Deivis Marcon Antunes, acabou preso preventivamente pela PF sob suspeitas de ocultação de provas e obstrução das investigações.

O caso é ainda mais grave quando se observa o tratamento dispensado por  Cláudio Castro aos servidores públicos estaduais. Enquanto bilhões eram movimentados em operações financeiras de altíssimo risco, o seu  governo  se recusava a garantir integralmente a recomposição das perdas inflacionárias do funcionalismo, mesmo após aprovação legislativa pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro. Em outras palavras, o discurso de austeridade aplicado aos salários coexistia com uma política de extrema permissividade na gestão dos recursos previdenciários.

A contradição é brutal. Para professores, enfermeiros, policiais, técnicos administrativos e demais categorias do funcionalismo, prevaleceu a lógica do “não há recursos”. Já para operações financeiras envolvendo o Banco Master, marcado por suspeitas crescentes no mercado, houve espaço para aplicações bilionárias que hoje estão sob investigação criminal.

Há ainda um elemento particularmente explosivo nessa trajetória: o uso sistemático dos recursos da Rioprevidência para amortizar parcelas da dívida do estado do Rio de Janeiro com o governo federal. Sob autorização da Alerj, a gestão Castro promoveu retiradas bilionárias do fundo previdenciário, comprometendo a sustentabilidade futura do sistema. Na prática, utilizou-se dinheiro destinado ao pagamento de aposentadorias e pensões para aliviar pressões fiscais imediatas do governo estadual.

O resultado dessa política pode ser devastador no médio prazo. O Rioprevidência já carrega histórico de fragilidade estrutural, agravado por décadas de antecipação de receitas petrolíferas e sucessivas manobras financeiras. Ao combinar saques bilionários para pagamento da dívida estadual com investimentos arriscados em instituições hoje investigadas, o governo Castro aprofundou a insegurança de centenas de milhares de servidores ativos, aposentados e pensionistas.

O episódio também lança sombras pesadas sobre o futuro político do governador. A expectativa de aliados de que uma candidatura ao Senado funcionasse como rota de blindagem institucional tende agora a encontrar maiores obstáculos. Afinal, a sucessão de investigações envolvendo o Rioprevidência, o Banco Master e operadores ligados ao governo estadual reforça a percepção pública de que a disputa eleitoral pode estar menos relacionada a um projeto para o Rio de Janeiro e mais à busca de proteção política diante do avanço das investigações.

Num estado marcado por sucessivos escândalos envolvendo governadores presos, afastados ou investigados, o aprofundamento das suspeitas contra a gestão de Cláudio Castro amplia o desgaste de uma elite política que parece tratar a máquina pública — e até mesmo os recursos previdenciários dos servidores — como instrumentos de sobrevivência política e financeira. O problema é que, enquanto os responsáveis disputam narrativas e espaços de poder, quem permanece exposto ao risco concreto são justamente aqueles que sustentam o funcionamento cotidiano do estado: os servidores públicos fluminenses e suas famílias.

Cláudio Castro, o RioPrevidência e a política da cara dura

Há alguns anos tive o azar de chegar atrasado para uma conexão no aeroporto internacional de Madri e, junto com a minha família, incluindo um filho pequeno, fui literalmente abandonado para vagar pelos corredores vazios do Barajas. Depois de finalmente sermos descobertos pela equipe de terra da Iberia, fomos encaminhados a um ponto onde outros passageiros aguardavam solução para o mesmo problema: conseguir um voo que nos levasse ao destino final.

O caos era total, pois havia mais gente do que atendentes. Foi então que apareceu um cidadão espanhol que pegou todos os tipos de senha disponíveis e, em um passe de mágica, foi atendido antes de todos que aguardavam pacientemente a sua vez. Como brasileiro em terra estrangeira, observei a cena com um misto de revolta e curiosidade.

A situação esquentou quando outro espanhol, mais jovem que o primeiro, dirigiu-se ao fura-fila e disse, em tom alto e tenso: tu eres un cara dura — algo que interpretei, em português, como “cara de pau”.

Pois bem. Ontem, o ainda governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), esteve em Campos dos Goytacazes para, na prática, realizar um ato de campanha antecipada sob o disfarce de anunciar obras e realizações na cidade.

Sabendo da presença de Castro, um grupo de servidores da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) foi ao local cobrar o envio da proposta do novo Plano de Cargos e Vencimentos (PCV) da instituição para análise da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Segundo fui informado, a resposta do governador foi repetir a velha cantilena: não há dinheiro para pagar um novo PCV da Uenf.

É aqui que entra a explicação do porquê Cláudio Castro pode ser chamado de cara dura. Primeiro, porque a Uenf possui — e o governador sabe disso — orçamento alocado para pagar os salários previstos no novo PCV.

Mas há um segundo elemento que não pode ser esquecido. Cláudio Castro está enrolado até o pescoço no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. A partir de 2023, o governador retirou mais de R$ 1 bilhão do fundo próprio dos servidores públicos estaduais, o RioPrevidência, e aplicou esses recursos em fundos podres ligados ao Master.

Agora, com a liquidação do banco e a prisão de Daniel Vorcaro, Castro aparece na lista de governantes que pegaram dinheiro que não lhes pertencia — no caso, dos aposentados e pensionistas do RioPrevidência — e o aplicaram em ativos virtualmente inexistentes.

Ainda assim, em meio a essa situação melindrosa, Cláudio Castro vem a Campos prometer um novo batalhão de polícia e a criação de uma escola cívico-militar dentro dessa suposta unidade policial. E, em mais uma demonstração de cara-durice, sabe perfeitamente que seu sucessor — seja ele quem for — poderá ignorar essa promessa com a mesma desenvoltura.

Mais curioso ainda foi ver políticos locais oferecendo palanque a um personagem envolvido em uma situação que ameaça atingir gente graúda em diferentes esferas do Estado brasileiro, como se absolutamente nada estivesse acontecendo.

Moral da história: é muita cara dura em um estado só.

Prisão de ex-presidente do RioPrevidência não alivia o fato de que o futuro dos aposentados e pensionistas está sob risco

A mídia corporativa está noticiando de forma parcimoniosa a prisão do ex-presidente do RioPrevidência, Deivis Marcon Antunes, por causa da inversão temerária (e bota temerária nisso!) de cerca de R$ 1 bilhão no agora defunto Banco Master. Aparentemente, ao contrário de algumas figurinahs carimbadas que fugiram para os EUA, Deivis Marcos estava tentando evadir o território fluminense para adentrar as terras paulistas. É que, segundo o que informam diferentes veículos da mídia corporativa, Deivis Marcon foi preso na fronteira RJ-SP em aparente tentativa de fuga.

Posso parecer pessimista, mas essa prisão não deverá mudar em absolutamente nada o destino atualmente sombrio de milhares de aposentados e pensionistas do RioPrevidência já que o R$ 1 bilhão desperdiçado por Deivis Marcon não deverá retornar aos cofres do fundo próprio dos servidores estaduais do estado do Rio de Janeiro.

A situação é complexa, pois o RioPrevidência tem sido alvo de seguidas “retiradas” pelo governador Cláudio Castro que as usa para pagar a vídia pública do Rio de Janeiro. Agora, pior do que uma retirada ilegal, o que temos é o simples desaparecimento de uma fortuna que deveria estar sendo cuidadosamente gerida para dar conta das aposentadorias e pensões devidas pelo RioPrevidência.

Como futuro aposentado do RioPrevidência não posso deixar de me preocupar com o meu próprio futuro, pois se o RioPrevidência quebrar a minha possibilidade de uma aposentadoria minimanete digna irá se esvair sem muita chance de resgate. E aí é que parece residir algo que servidores e suas associações e sindicatos já deveriam estar nas ruas protestando e exigindo a cobertura imediata dos R$ 1 bilhão que Deivis Marcon e seus colegas afundaram no Banco Master sob críticas dos técnicos do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro.

Eu sinceramente espero que a apatia e a letargia frente aos contínuos ataques do governador Cláudio Castro cessem após este prisão. Do contrário o futuro de milhares de aposentado e pesionistas estará dentro de um patamar de profunda incerteza.

 

RioPrevidência: Audiência pública na Alerj vai discutir rombo causado pelo Banco Master

BANCO MASTER E RIOPREVIDÊNCIA | Precisamos enfrentar quem atacou a aposentadoria dos servidores

Audiência Pública, sexta, 5/12, às 10h, na Alerj.

O rombo causado pelos investimentos no Banco Master, liquidado por fraudes bilionárias, colocou em risco o futuro de servidores, aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro.

Não dá para naturalizar esse ataque, foi dinheiro da aposentadoria colocado em operações de altíssimo risco, ignorando alertas técnicos e abrindo brecha para prejuízos que podem afetar toda a categoria.

Por isso, pela Comissão de Servidores da Alerj convocamos uma audiência pública para debater os impactos e riscos das transações entre o RioPrevidência e o Banco Master. Chamamos autoridades, órgãos de controle e especialistas e vamos cobrar respostas.

Não aceitaremos que o RioPrevidência vire alvo de aventureiros financeiros. Vamos defender mecanismos reais de proteção ao fundo e lutar para responsabilizar quem colocou a aposentadoria dos servidores em risco.

Sua presença é fundamental. É hora de mostrar força e exigir transparência.

📍Sexta, dia 5 | 10h | Assembleia Legislativa do Rio (Alerj)

#AudiênciaPública #Servidores #Alerj

Flávio Serafini quer instalação de CPI para investigar perdas do RioPrevidência no Banco Master

O investimento bilionário do RioPrevidência, fundo estadual de aposentadorias e pensões dos servidores públicos do estado do Rio de Janeiro, no Banco Master pode virar objeto de uma CPI na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).  É que o deputado estadual Flavio Serafini (PSOL), presidente da Comissão de Servidores da Alerj, protocolou projeto de resolução para instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar esses aportes e também os realizados por outras instituições públicas, a começar pela Cedae. 

Os dirigentes do RioPrevidência falam em cerca de um bilhão de reais investidos, mas o valor segundo técnicos do Tribunal de Contas do Estado (TCE) pode ter chegado a R$ 2,6 bilhões no Master e em fundos associados.

Flávio Serafini, deputado de oposição ao governo de Cláudio Castro (PL)  tem dito que os cofres estaduais do Rio de Janeiro tiveram um prejuízo bilionário e culpa o governador por essa situação escabrosa.  Para Serafini está evidente que houve um direcionamento para favorecer o Banco Master, o que agora  se mostra uma ação completamente irresponsável e que coloca em risco a saúde financeira do RioPrevidência.

É importante lembrar que Flávio Serafini presdiu a CPI do RioPrevidência entre 2019 e 2021, e sabe muito da situação financeira do fundo de previdência dos servidores estaduais fluminenses.

Governo Castro desdenhou parecer técnico do TCE e colocou +R$ 1 bilhão no Banco Master

Governador diz que recuperação fiscal do Rio está bem encaminhada | Agência  Brasil

Há algum tempo sabe-se que o Banco Master se equilibrava em meio a um mar de dificuldades criadas pela gestão imprudente (e agora se sabe criminosa) de grandes somas de recursos de um número ainda desconhecido de investidores.  Apesar da situação calamitosa em que se encontrava, o governador Cláudio Castro e sua equipe decidiram colocar no Master algo em torno de R$ 1 bilhão de recursos do fundo próprio de previdência dos servidores públicos estaduais do Rio de Janeiro, o RioPrevidência.

E é importante frisar que isso foi feito à revelia de pareceres técnicos emitidos pelo Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro (TCE/RJ) que apontavam para “graves irregularidades no processo de alocação de recursos do Rioprevidência” em letras financeiras do Master”. Apesar disso,  de acordo com os pareceres dos técnicos do TCE/RJ,  o volume de aportes entre 2024 e 2025 no grupo do Banco Master atingiu R$ 2,6 bilhões – de acordo com o TCE, o correspondente  a mais de 25% de todos os recursos aplicados pelo RioPrevidência.

Agora que a barca do Banco Master afundou fica provado que os técnicos do TCE/RJ estavam cobertos de razão em apontar para os problemas cercando os investimentos de recursos do RioPrevidência em uma instituição financeira que já exalava um forte cheiro de que iria ter um destino inglório.

Como objetivamente estamos diante de uma ação com graves e prolongados prejuízos para o RioPrevidência, ameaçando sim o pagamento de pensões e aposentadorias dos servidores públicos estaduais, há que se demandar que os culpados por essa alocação bilionária de recursos no Master sejam todos identificados e exemplarmente punidos dentro dos rigores da lei.

E agora vamos ver como se vira o governador Cláudio Castro sobre quem repousa a maior responsabilidade, já que é o chefe do executivo estadual, de ter colocado um dinheiro que pertence aos servidores públicos estaduais em uma instituição que colapsou.

Às vésperas de repetir Operação Delaware, governo Castro é proibido pelo TCE de aplicar recursos do RioPrevidência no Banco Master

TCE proibiu que governo usasse recursos do Rioprevidência para investimentos no Banco Master

TCE proibiu que governo usasse recursos do Rioprevidência para investimentos no Banco Master – Foto: Reprodução/Redes 

Por Berenice Seara para “Tempo Real”

Às vésperas da votação na Assembleia Legislativa (Alerj), nesta terça-feira (14), do projeto de lei, de autoria do governo do estado, que autoriza a utilização de recursos de royalties e participações especiais do petróleo para o pagamento da dívida pública do estado com a União – valores atualmente repassados ao Fundo Único de Previdência Social do Rio (Rioprevidência) –, o Tribunal de Contas (TCE) proibiu o executivo estadual de investir o dinheiro em fundos administrados pelo Banco Master.

A decisão foi tomada diante do que o tribunal considera uma possível gestão irresponsável dos recursos destinados a aposentados e pensionistas do estado. O Banco Master é alvo de um inquérito da Polícia Federal que apura crimes contra o sistema financeiro, como gestão fraudulenta, e foi descredenciado para operar empréstimos consignados do INSS. Deputados já haviam alertado para a “gestão temerária” dos recursos.

O fundo é formado por descontos nos salários dos servidores e por receitas oriundas dos royalties do petróleo, que estavam sendo aplicados no Banco Master. A gestão dessa verba preocupa o Tribunal de Contas, que proibiu novos investimentos do Rioprevidência em instrumentos financeiros emitidos, administrados ou geridos pelo conglomerado ou até mesmo em outras instituições financeiras que também não atendam aos princípios da segurança, proteção e prudência financeira.

Em maio, o TCE já havia solicitado esclarecimentos ao Rioprevidência e alertado para a gestão dos recursos. Desde então, o tribunal afirma que o cenário de irregularidades se agravou. Em julho, foi identificado que cerca de R$ 2,6 bilhões, equivalente a 25% de todos os recursos aplicados pelo fundo, estavam expostos a títulos emitidos ou fundos administrados pelo Master.

Um dos exemplos da má gestão citados foi o aporte de mais de R$ 1 bilhão no Arena Fundo de Investimento, administrado pela Master S.A. Corretora. O fundo iniciou as operações em 18 de dezembro de 2024. No dia seguinte, o Rioprevidência realizou o primeiro aporte de R$ 50 milhões. Desde então, a unidade gestora do Rioprevidência vem fazendo aportes sucessivos, como único cotista no fundo.

Segundo o corpo técnico do TCE, a rentabilidade média do fundo fica abaixo até a da poupança, o que configura ausência de vantagem na operação. Os técnicos identificaram ainda aportes de mais de R$ 300 milhões de reais em letras financeiras, sem informações suficientes.

Em outra operação, identificada em junho, o fundo teria investido R$ 100 milhões, mas, em um mês, o investimento caiu para R$ 75 milhões, o que reforçou, segundo o TCE, indícios de má gestão dos recursos do regime previdenciário.

TCE aciona governador Cláudio Castro e Ministério Público; Rioprevidência nega irregularidades

Diante do risco para aposentados e pensionistas, o TCE comunicou o governador Claudio Castro (PL) e o Ministério Público (MP) para que tomem as providências necessárias.

Em resposta, o Rioprevidência afirmou que não fez nenhum aporte no Banco Master após o início do processo no TCE e que a decisão do tribunal foi divulgada sem que houvesse tempo ágil para a apresentação de esclarecimentos técnicos. O instituto declarou também que investiu aproximadamente R$ 960 milhões no Banco Master e não R$ 2,6 bilhões como divulgado pelo TCE e que a operação segue regular e adimplente. O Banco Master não se manifestou.


Fonte: Tempo Real