A água, a RPPN Caruara e a máquina de propaganda do Porto do Açu

Por trás do discurso de “gestão hídrica” e conservação ambiental, seguem sem resposta as contradições envolvendo o Aquífero Emborê, a exclusão territorial e a violência lenta em São João da Barra

A matéria publicada por um veículo da mídia corporativa local sobre os investimentos do Porto do Açu em “gestão hídrica” tem todos os traços de um texto produzido para vender uma imagem positiva do empreendimento. O problema não está apenas no fato de se tratar de material de assessoria reproduzido como notícia, mas no silêncio conveniente sobre aquilo que deveria estar no centro de qualquer debate sério sobre água em São João da Barra: quem consome, quem controla e quem fica sem acesso.

O próprio Porto do Açu informa que uma de suas fontes relevantes de água é o Aquífero Emborê, manancial subterrâneo de elevada qualidade natural e grande extensão no litoral norte-fluminense. O empreendimento também procura destacar medidas de monitoramento, reúso e aproveitamento de água da chuva. Mas essa narrativa de eficiência não elimina o dado fundamental: em 2024, segundo o Relatório de Sustentabilidade do próprio empreendimento, foram extraídos 708 mil m³ do Aquífero Emborê, com retirada superior a 2 milhões de m³ no acumulado de três anos.

Enquanto isso, comunidades de São João da Barra convivem com falta d’água, estiagens prolongadas e relatos de moradores que passaram até dois meses sem água nas torneiras. Reportagem jornalística independente também registrou a informação do Inea de que existem 20 poços operando no Porto do Açu. Assim, a pergunta que a peça de comunicação empresarial reproduzida por um veículo da mídia corporativa local evita é simples: como chamar de “desenvolvimento regional” um modelo no qual o complexo portuário acessa uma reserva subterrânea estratégica enquanto populações vizinhas enfrentam insegurança hídrica?

É justamente nesse ponto que a matéria deixa de ser apenas uma peça de comunicação corporativa e passa a funcionar como instrumento de greenwashing. A gestão de um recurso natural estratégico é apresentada como demonstração de responsabilidade ambiental, enquanto ficam fora do enquadramento o volume da demanda industrial, a pressão sobre o Aquífero Emborê e a desigualdade existente no acesso à água no próprio município que abriga o empreendimento. A sustentabilidade aparece, assim, não como uma transformação das relações entre empresa, natureza e sociedade, mas como um ativo reputacional.

O mesmo ocorre no plano social. A associação recorrente entre o Porto do Açu e expressões como “desenvolvimento regional”, “segurança hídrica” e “benefícios para a população” também carrega elementos evidentes de social washing. Nesse tipo de operação discursiva, os benefícios sociais são amplificados, enquanto os custos territoriais, ambientais e humanos são diluídos ou simplesmente retirados da narrativa. O objetivo final não é difícil de perceber: reduzir resistências, ampliar a legitimidade social do empreendimento e criar condições políticas mais favoráveis à expansão dos negócios e, consequentemente, ao aumento das taxas de lucro.

A contradição se amplia quando se observa a RPPN Caruara. Apresentada pelo Porto do Açu como uma espécie de vitrine de excelência ambiental, ela também integra uma profunda reorganização territorial que restringiu usos tradicionais e alterou a relação de comunidades pesqueiras com a Lagoa de Iquipari. Estudos já demonstraram que a RPPN foi criada como compensação aos impactos do complexo portuário e que sua existência não anulou os efeitos provocados pela implantação do empreendimento sobre os ecossistemas locais.

Mais grave ainda é o fato de que a Reserva Caruara e a Lagoa de Iquipari já chegaram à Alerj como parte de um conflito socioambiental envolvendo restrições de acesso, uso de bens naturais públicos, posse da terra e violações de direitos associadas à instalação do Porto do Açu. Portanto, não estamos diante apenas de uma “boa prática ambiental”, mas de um arranjo no qual conservação, controle territorial e exclusão social aparecem profundamente misturados. A área conservada se transforma em capital reputacional da empresa, enquanto os grupos que historicamente utilizaram aquele território arcam com os custos da restrição de acesso.

É aqui que a noção de slow violence, ou violência lenta, formulada por Rob Nixon, ajuda a compreender aquilo que a propaganda corporativa procura tornar invisível. Diferentemente de uma catástrofe súbita, a violência lenta se acumula de forma gradual, dispersa no tempo e no espaço. Ela aparece na perda progressiva de acesso aos territórios de pesca, na necessidade de percorrer distâncias maiores, na pressão sobre outros ambientes lagunares, na insegurança hídrica, na degradação ambiental e na erosão silenciosa das condições materiais de existência das populações locais.

O greenwashing e o social washing cumprem precisamente a função de encobrir essa violência lenta. Enquanto os impactos se acumulam sobre pescadores, agricultores e moradores do V Distrito, a comunicação corporativa produz imagens de eficiência, conservação e desenvolvimento compartilhado, que encontram canais de difusão em veículos da mídia corporativa local. A natureza degradada ou apropriada reaparece como ativo ambiental; a população atingida reaparece como beneficiária; e os recursos naturais mobilizados para sustentar a expansão industrial são apresentados como objetos de uma gestão tecnicamente virtuosa.

O ponto central é que a água, no discurso empresarial, surge como recurso técnico a ser “gerido”. Para as comunidades, porém, ela é condição de vida, permanência territorial e reprodução social. Quando a água subterrânea de melhor qualidade abastece a engrenagem portuário-industrial enquanto moradores enfrentam escassez e precariedade no abastecimento, a palavra “sustentabilidade” passa a cumprir uma função mais publicitária do que explicativa.

Por isso, a matéria deve ser lida pelo que ela efetivamente representa: uma peça de comunicação corporativa reproduzida por um veículo da mídia corporativa local e inserida em uma estratégia mais ampla de greenwashing e social washing. O Porto do Açu pode apresentar programas de eficiência hídrica, reúso e monitoramento, mas nada disso responde ao problema político maior: a apropriação privada de recursos estratégicos em um território marcado por desigualdade, desapropriações, restrições de acesso e conflitos socioambientais persistentes.

No fim das contas, o discurso da “gestão hídrica” serve para polir a imagem de um empreendimento que continua exigindo volumes expressivos de água, reorganizando territórios e distribuindo de forma profundamente desigual os benefícios e os custos de sua operação. Onde a assessoria empresarial vê inovação, é preciso enxergar também concentração de poder, apropriação privada da natureza e violência lenta. E talvez seja justamente esta a principal função do greenwashing e do social washing: fazer com que a expansão dos lucros pareça desenvolvimento, enquanto os seus custos sociais e ambientais são empurrados para fora do enquadramento.

Estudo na UENF mostra que RPPN Caruara causou desterritorialização da pesca lagunar em São João da Barra

Como uma política ambiental corporativa vem restringindo a pesca artesanal e reconfigurando territórios tradicionais no entorno do Porto do Açu

Um estudo recente sobre o entorno do Porto do Açu, no norte fluminense, traz à tona uma contradição cada vez mais presente em contextos de grandes empreendimentos: políticas de proteção ambiental podem estar sendo mobilizadas como instrumentos de exclusão territorial. O foco da análise é a Lagoa de Iquipari, historicamente utilizada por pescadores artesanais do V Distrito de São João da Barra (RJ). A pesquisa em questão é a dissertação de mestrado do geógrafo sanjoanense Jayson Freitas Gomes, desenvolvida  sob minha orientação no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf). O trabalho investiga, com base empírica consistente, os impactos do programa de proteção ambiental implementado pelo Porto do Açu sobre comunidades pesqueiras locais.

A inflexão ocorre em 2012, quando a lagoa passa a integrar a RPPN Fazenda Caruara, uma reserva privada vinculada ao complexo portuário. A partir desse momento, o acesso à área passa a ser regulado por uma série de normas restritivas que impactam diretamente a pesca artesanal. Na prática, atividades tradicionais passam a ser limitadas, quando não completamente inviabilizadas. O argumento central do estudo é que esse processo vai além da regulação ambiental: trata-se de uma dinâmica de desterritorialização. Ao serem impedidos de acessar a lagoa, os pescadores não apenas perdem sua principal fonte de renda, mas também são progressivamente desconectados de um território que sustenta modos de vida, saberes e identidades construídas ao longo de gerações.

A dissertação, baseada em revisão bibliográfica, análise documental e trabalho de campo com entrevistas e questionários, evidencia que as restrições impostas não são percebidas como medidas de proteção compartilhada, mas como mecanismos de exclusão. Muitos pescadores relatam a impossibilidade de continuar exercendo sua atividade, o que intensifica quadros de vulnerabilidade socioeconômica já existentes.

Esse cenário se insere em um contexto mais amplo. Em economias periféricas como a brasileira, marcadas por políticas neoliberais e pela expansão do neoextrativismo, grandes corporações têm ampliado seu controle sobre territórios estratégicos. Nesse movimento, programas ambientais frequentemente cumprem uma dupla função: ao mesmo tempo em que contribuem para a valorização simbólica e financeira dos empreendimentos, também ajudam a reorganizar o uso do território em favor do capital.

No caso da Lagoa de Iquipari, isso se traduz em um paradoxo evidente: enquanto a área é formalmente protegida, os grupos que historicamente contribuíram para sua conservação são afastados. A natureza é preservada — mas sem as pessoas que sempre fizeram parte dela.

A questão que emerge é inevitável: quem define o que é proteger — e para quem essa proteção serve? Quando políticas ambientais desconsideram os direitos e os modos de vida de comunidades tradicionais, elas correm o risco de reproduzir, sob novas justificativas, antigas formas de expropriação.

Quem desejar baixar o arquivo contendo a dissertação de Jayson Freitas Gomes, basta clicar [Aqui!].