Sul 21: Barragem da Samarco continua vazando e lama segue descendo o rio, diz presidente da CUT-MG

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Presidenta da CUT – MG, Beatriz Cerqueira, fala sobre a tragédia de Mariana. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Beatriz Cerqueira: “É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

O impacto do rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, ocorrido no último dia 5 de novembro, no subdistrito do município de Mariana, é muito maior do que se consegue ver hoje e terá consequências devastadoras para a vida de muitas comunidades. O alerta é da professora Beatriz Cerqueira, presidente da Central Única dos Trabalhadores em Minas Gerais, que vem acompanhando o caso desde o início e participa de uma articulação de sindicatos, movimentos sociais e populares de Minas que luta para que os responsáveis paguem civil e criminalmente pelo ocorrido. Em entrevista ao Sul21, Beatriz Cerqueira, fala sobre essa mobilização e sobre a dimensão do impacto social e ambiental do rompimento da barragem, “que não foi um acidente”, faz questão de enfatizar, “mas sim um crime ambiental”.

“O crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite. Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores”, diz a dirigente da CUT, que critica a chantagem econômica promovida pela mineradora sobre as comunidades da região atingida, bem como o acordo firmado pela empresa com a União, que não contou com a participação dos atingidos.

Sul21: Você poderia resumir os acontecimentos que se seguiram ao rompimento da barragem da Samarco? Qual a sua avaliação sobre as consequências trágicas do rompimento e seus possíveis desdobramentos?

Beatriz Cerqueira: A barragem de Fundão rompeu no dia 5 de novembro. Esse rompimento gerou a devastação imediata e completa de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Mas a lama também percorreu uma extensa área até chegar ao rio Doce, comprometer toda a bacia desse rio e, finalmente, chegar até o mar. Embora, nacionalmente, se conheça mais a situação do subdistrito de Bento Rodrigues, outros subdistritos e municípios também foram muito atingidos. É o caso, por exemplo, do município de Barra Longa, localizado a uma hora e meia de Mariana. Neste município, a lama invadiu o centro da cidade cobrindo as casas da região central quase até o teto. A força da lama foi tal que, ao passar pelo rio, ela voltou por cinco quilômetros contra a correnteza.

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“Não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O rompimento da barragem provocou o comprometimento de toda a bacia do rio Doce, a vida do rio e o abastecimento de água de diversos municípios da região. Diante desses acontecimentos, uma das primeiras coisas que precisa ficar clara é que não se tratou de um acidente. Estamos dizendo isso desde o dia 6 de novembro e o que nós avaliávamos foi comprovado pelo inquérito da Polícia Civil concluído na semana passada. Diferente do discurso da mineradora, esse inquérito conclui que não ocorreram impactos sísmicos que pudessem provocar o rompimento da barragem. O inquérito da Polícia Civil demonstrou que houve uma série de fatores causados pela negligência da empresa, que resultaram no rompimento. Entre esses fatores estão equipamentos com deficiência, assoreamento de partes da barragem e falta de manutenção em vários trechos da barragem. Então, não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram. O segundo aspecto que estamos discutindo agora é a situação dos atingidos pelo rompimento da barragem.

Sul21: Qual o número consolidado de vítimas, entre mortos e desaparecidos?

Beatriz Cerqueira: Entre mortos e desaparecidos, são 20 pessoas. Dezessete mortos, dois desaparecidos e nós estamos considerando uma vigésima vítima, que foi o feto de uma jovem grávida de quatro meses que, na luta para sair da lama que atingiu sua casa em Bento Rodrigues, sofreu um aborto. Quanto aos atingidos, são todos os moradores que vivem na região do percurso da lama. Na verdade, todo o estado de Minas Gerais foi atingido por esse crime da Samarco, Vale e BHP.

Nós temos lutado para que a empresa não controle nem tutele a relação com os atingidos. Não pode ser a empresa a definir, sozinha, o que é necessário para os atingidos e mesmo quem são os atingidos, mas é isso que a mineradora tem feito desde novembro de 2015. Ela define quem são os atingidos e tenta impor o que esses atingidos precisam como mecanismos de compensação. Os movimentos sociais e populares estão trabalhando para que os atingidos se organizem e não sejam tutelados pela mineradora. É uma luta muito desigual porque a Vale, a BHP e a Samarco colocaram toda a estrutura de seu poder econômico para fazer esse monitoramento e esse controle.

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De fato, o que nós identificamos é que atuação da mineradora ficou muito aquém das suas responsabilidades. Ela vem tentando diminuir as necessidades das pessoas atingidas. No município de Barra Longa, eu acompanhei a luta das mulheres para que sejam repostas questões básicas do cotidiano de suas casas, como, por exemplo, o funcionamento de máquinas de lavar. Houve o caso de uma senhora idosa que só teve a reposição de sua máquina de lavar após apresentar um laudo médico para a Samarco comprovando que ela não podia torcer a roupa com as mãos. Existem outros casos muito semelhantes envolvendo negativa de direitos.

Outro aspecto fundamental envolvido neste episódio é o do abuso do poder econômico. É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera. Em 2014, a Samarco teve um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões de reais. A sua produção é toda voltada para a exportação e grande parte de seu lucro não é revertido em benefícios sociais para a população, indo para os acionistas. Cabe assinalar ainda que as mineradoras exerceram até hoje um papel estratégico no financiamento de campanhas eleitorais. Os principais candidatos à presidência da República, os principais candidatos ao governo de Minas e um grande leque de candidatos a deputado estadual, a deputado federal e a vereador são financiados pelas mineradoras. Muitas pesquisas nas universidades também são financiadas por mineradoras. Além disso, temos as grandes campanhas publicitárias feitas nos meios de comunicação, comprometendo a cobertura jornalística feita por essas empresas.

Sul21: O que representa, hoje, o setor de mineração em Minas Gerais? Qual o tamanho, o perfil e a dinâmica dessa atividade?

Beatriz Cerqueira: O nosso problema é que Minas Gerais não cuidou da diversificação da sua economia. O minério de ferro é um dos principais produtos da pauta de exportação do Estado. Existe uma coisa assustadora, sobre a qual pouco se fala, que são os mineriodutos (quatro, no total), que fazem o transporte do minério da mina até o porto, para exportação. O que se gasta de água para esse transporte é superior ao consumo de grandes cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, ou de cidades como Governador Valadares, que teve todo o seu consumo de água comprometido pelo rompimento da barragem. A negligência envolvendo a segurança, a utilização desse sistema de mineriodutos e de barragens de rejeitos são práticas para diminuir custos. O minério de ferro teve uma queda de preço no mercado internacional. Mesmo assim, as mineradoras mantiveram ou mesmo aumentaram seus lucros. Como isso é possível? Diminuindo custos, inclusive na área da segurança. O inquérito apontou que vários equipamentos não estavam funcionando.

Outra característica desse modelo é a prática intensa de terceirizações, inclusive de modo ilícito, razão pela qual a Samarco está sendo investigada pelo Ministério Público do Trabalho. Mais de 50% dos funcionários da Samarco são terceirizados. Dos trabalhadores que morreram, somente um era vinculado diretamente à empresa. Esses trabalhadores sequer tiveram por parte da empresa um aviso do iminente rompimento da barragem. Então, temos um conjunto de negligências operando para cortar custos e manter a lucratividade.

Sul21: Há muitas barragens desse tipo operando em Minas?

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Beatriz Cerqueira: No total, são mais de 400 barragens. O que nos preocupa é que o caso dessa barragem que rompeu expôs um esquema de favorecimento e de agilidade no processo de licenciamento. Foram pouco mais de dois meses para que houvesse o licenciamento para a operação da barragem, por decisão monocrática no secretário adjunto do Meio Ambiente à época. Estamos falando de licenciamentos em 2007, 2008 e 2013. Esse processo faz com que o Estado também seja responsável por esse tipo de crime, por omissão, negligência e favorecimento no processo de licenciamento das barragens. Isso que essa barragem que rompeu era considerada segura. Se olharmos os relatórios das barragens em Minas essa que rompeu não era considerada de risco, mas sim como segura.

Sul21: Como está sendo a atuação institucional neste caso? Os órgãos do governo, Ministério Público e Judiciário estão enfrentando o poder e a pressão econômica da Samarco?

Beatriz Cerqueira: O Ministério Público tem tido uma atuação muito forte e positiva junto aos atingidos. O que nos causou estranhamento e indignação foi o processo de acordo da empresa com a União sem a participação dos atingidos. Esse acordo, pela informação que temos, traz consigo a autorização para a retomada das atividades por parte da mineradora. O poder econômico das mineradoras tem atuado fortemente neste tema. Materializando esse poder, cabe esclarecer que a Samarco, hoje, tem como duas de suas principais controladoras a Vale e a BHP. Mas o consórcio que compõe a Vale tem o BNDES, o Bradesco e os fundos de pensão do Banco do Brasil e dos funcionários da Petrobras. Então, esses atores que estão silenciosos desde que o crime aconteceu também precisam ser cobrados, pois são controladores da Samarco. O que se percebe é que, publicamente, tenta-se jogar a responsabilidade só para a Samarco, omitindo o papel da BHP, da Vale e suas controladoras.

Sul21: Do ponto de vista da repercussão midiática do caso junto à opinião pública de Minas Gerais, o assunto já está desaparecendo das manchetes principais?

Beatriz Cerqueira: Esse é um de nossos desafios, não deixar que Mariana caia no esquecimento. Temos pautado permanentemente esse tema no movimento sindical. No dia 28 de abril, dia em memória às vítimas de acidentes de trabalho, teremos um ato nacional do movimento sindical, em Mariana, envolvendo várias centrais e o DIEESE. O dia 1º de maio, em Minas Gerais, terá um tribunal popular para discutir os crimes da mineração. É uma luta desigual, pois a empresa tem uma estratégia muito forte na disputa da opinião pública. Desde o ano passado, a Samarco tem promovido campanhas publicitárias dizendo que tem feito tudo o que é necessário, o que não é verdade. Na prática, os atingidos, os ribeirinhos, os pescadores do rio Doce não têm tido a assistência necessária na maioria dos municípios. Neste momento, a própria Samarco avalia que não tem mais que fornecer água, mesmo que a qualidade da água do rio Doce não esteja adequada para novas captações.

Sul21: Como está essa questão do abastecimento de água? Os municípios mais diretamente atingidos seguem captando água do Rio Doce?

Beatriz Cerqueira: O sistema está comprometido. Quem conseguiu, fez captação de outros rios. Mas quem depende diretamente do rio Doce, como Governador Valadares, tem enfrentado muitos problemas e voltou a captar. Há muita falta de transparência nas informações disponibilizadas para a população que, em função disso, está justificadamente desconfiada com a qualidade da água neste momento. É importante destacar ainda que a lama continua descendo. Minha última visita à região foi no dia 13 de fevereiro. Eu vi com os meus olhos que a lama continua descendo, chegando à bacia do rio Doce e chegando ao mar. A barragem continua vazando e a lama continua descendo pelos rios.

Sul21: Depois do rompimento, não houve a instalação de um sistema de contenção para interromper o vazamento?

Beatriz Cerqueira: Não, não houve. A lama continua descendo, mais de três meses depois do rompimento. Eu estive lá na semana que completou cem dias do rompimento. Publiquei um vídeo no meu Instagram que mostra isso (ver abaixo).

Sul21: Já há um diagnóstico inicial sobre o tamanho do impacto ambiental do rompimento?

Beatriz Cerqueira: Não. Esse é outro objeto de disputa que faz parte também do acordo da União com a Samarco. A União está assumindo a responsabilidade pelas questões ambientais. Mas existe um inquérito policial aberto para apurar as responsabilidades no processo de licenciamento e o crime ambiental. Além deste, temos o inquérito já concluído que pediu a prisão preventiva de sete acusados. É um cenário de disputa, onde a empresa tenta diminuir o tamanho do impacto. Temos relatos que a própria empresa contratou ribeirinhos, logo no início, que pudessem recolher os peixes mortos para que esse dano se tornasse o menos visível possível. É importante dizer que o crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite.

Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores. O que eu acho mais perverso é a chantagem feita pela mineradora. Essas empresas criaram um sistema onde diversas comunidades passaram a viver em torno da mineração. Tome o exemplo de uma cidade linda como Mariana, numa região de turismo histórico, que apostou na mineração como sua maior fonte de renda. Acontece que, nas cidades que fizeram essa escolha, não se vê melhores indicadores de qualidade de vida, comparando com outras comunidades. Não há prestação de serviços públicos essenciais em áreas como saúde, educação e habitação de qualidade melhor do que em regiões que não têm mineração.

Como a economia destas cidades gira em torno das mineradoras, vende-se a ideia de que a paralisação das atividades da empresa vai trazer queda de arrecadação e desemprego. A chantagem econômica é muito forte e continua na região. Hoje, mesmo depois do que aconteceu, vemos manifestações em favor da empresa. Há movimentos nas redes sociais intitulados “Fica Samarco”, “Somos todos Samarco”.

Sul21: Alguém já foi preso em função do que aconteceu?

Beatriz Cerqueira: Não. Houve o pedido de prisão preventiva do presidente da empresa, que está licenciado e de diretores responsáveis pelo projeto, pela segurança, mas ninguém foi preso ainda.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/barragem-da-samarco-continua-vazando-e-lama-segue-descendo-o-rio-diz-presidente-da-cut-mg/

Enquanto rejeitos da Samarco continuam vazando, governo Dilma sacramenta acordo vergonhoso com mineradoras

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A imagem acima é de cerimônia de assinatura do “acordão” entre os governos federal e dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo com as mineradoras envolvidas no TsuLama que eclodiu em Mariana (MG) no dia 05 de Novembro causando mortes e destruição de ecossistemas inteiros na bacia hidrográfica do Rio Doce.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, este acordo (ou seria rendição?) representa uma constatação das relações promíscuas que se estabelecem mediante os financiamentos privados de campanha que, como já é sabido, decidem quais são os candidatos que ganham as eleições (Aqui!).

Este acordo é ruim sob muitos aspectos, a começar pela exclusão dos atingidos pelos efeitos catastróficos do TsuLama de qualquer interferência na definição dos termos do acordo. Mas mais do que isto, as concessões que foram feitas e  declaradas publicamente pela Dilma Rousseff em defesa da viabilidade da Mineradora Samarco. É que por detrás da preocupação fajuta com empregos e desenvolvimento, o que se concede é a perpetuação de um modelo de exclusão social e que está também alicerçado em graves incidentes de degradação ambiental.

Assim, ainda que sob a capa do Neodesenvolvimentismo lulopetista, o que assistimos nessa relação domesticada do Estado brasileiro com as mineradoras nada mais é do que a submissão dos interesses nacionais àqueles ditados pelos fundos financeiros mundiais que hoje controlam também este setor.

Felizmente, continuo insistindo nisso, graças à documentação visual e documental que está circulando via a internet, as mineradoras Vale e BHP Billiton poderão ficar impunes no Brasil, mas pagarão um custo ainda maior por sua omissão nos países centrais, onde os investidores tendem a não querer se envolver com empresas com o tipo de passivo ambiental e social que foi gerado em Mariana.

E para que o TsuLama não seja apenas uma palavra vazia, posto abaixo um vídeo que mostra a situação conforme estava no dia 28/02 no encontro dos rios Galaxo e Carmo. É essa realidade enlameada que se tentou jogar para debaixo de tapete hoje em Brasília. 

TV australiana ABC produz reportagem devastadora sobre o TsuLama da Samarco

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Enquanto no Brasil ficamos distraídos com os embates em torno do mandato de Dilma Rousseff, os pedalinhos do sítio frequentado por Lula em Atibaia e o triplex que a Família Marinho construiu em uma área de proteção ambiental em Paraty, o canal australiano ABC produziu e levou ao ar ontem (29/02) um documentário de 45 minutos sobre as causas e responsabilidades pelo rompimento da barragem Fundão em Bento Rodrigues (MG).

O principal mérito da reportagem produzida pelo repórter Ben Knight, sob o título de “Falha Catastrófica”, é mostrar de forma apurada o drama que os moradores de Bento Rodrigues continuam vivendo em meio ao crescente esquecimento que vem sendo propositalmente produzido para garantir a impunidade da Mineradora Samarco e das suas controladoras, Vale e BHP Billiton.

É interessante notar que enquanto no Brasil a Vale e a Samarco estavam sendo blindadas pela mídia corporativa no Brasil, na Austrália a BHP Billiton está recebendo o tratamento devido em termos de exposição das suas responsabilidades pela catástrofe que foi imposta sobre a população de Bento Rodrigues e de todos os municípios que acabaram recebendo o impacto do TsuLama.

Um dos pontos que eu particularmente gostei foi o momento em que a Samarco se recusa a responder as perguntas formuladas pelo repórter da TV, o que se mostrou um momento de tremenda saia-justa.

Assim, apesar da maior parte da reportagem estar em inglês, o seu conteúdo é bastante compreensível. Quem tiver interesse em assistir, basta clicar (Aqui!).

População de Governador Valadares protesta contra efeitos do TsuLama

Para quem pensa, por causa do silêncio ensurdecedor da mídia corporativa, que a vida voltou à normalidade nos municípios atingidos pelo TsuLama da Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton), a matéria abaixo assinada pela jornalista Ana Lúcia Gonçalves do Hoje Em Dia mostra que não é bem assim. No caso a matéria é sobre uma manifestação em Governo Valadares (MG), mas protestos estão ocorrendo em várias cidades que estão passando pelo mesmo tipo de problema.

É que apesar da rápida liberação da coleta de água no Rio Doce para atender cidades que dependem diretamente deste corpo hídrico para suprir as necessidades de sua população, o cenário é de desconfiança com a qualidade do que está sendo entregue.

Pior ainda é a velocidade com que a Samarco está sendo liberada pela justiça para garantir o suprimento de água para as cidades atingidas, apesar de ainda estar chegando muita lama carregada de metais pesados no Rio Doce.

Moradores de Valadares protestam contra efeitos da lama que vazou de barragem

 
Ana Lúcia Gonçalves – Hoje em Dia

Leonardo Morais
manifestação governador valadares samarco lama

Cerca de 200 pessoas foram para as ruas na manhã deste sábado (27), em Governador Valadares, no Leste do Estado, para protestar contra os efeitos da lama que vazou da barragem da Samarco em Mariana dia 5 de novembro de 2015, para o meio ambiente e populações atingidas, e cobrar providências para o município. Entre as exigências está a volta da distribuição de água mineral.

Na “Carta de Indignação da População Valadarense” que será enviada às autoridades e à ONU junto com um abaixo assinado, a população cobra a apresentação de projetos de recuperação da Bacia do rio Doce e a imediata captação alternativa de água nos rios Suaçui Grande e Pequeno. A autorização para início das obras teria sido concedida pelos órgãos técnicos governamentais logo após o desastre ambiental.

Os manifestantes também pedem a volta da distribuição gratuita de água mineral pela Samarco, enquanto não houver captação de água em outro manancial. A distribuição foi suspensa dia 22 de janeiro com a alegação de que a água tratada e distribuída pelo Saae está potável. Mas segundo a presidente da Associação Valadarense de Defesa ao Meio Ambiente (Avadma), advogada Rosamélia Apolinário, a população está bebendo lama.
“A água que sai das torneiras é de qualidade duvidosa e a população precisa se unir para cobrar das autoridades constituídas as providencias. Não podemos aceitar isso. A população precisa acordar, vir para as ruas e se mobilizar. Não somos cachorros. A Samarco vai ter que reparar os danos causados, parar de fazer propaganda enganosa e cuidar da população, porque do contrário, seremos uma população doente em poucos anos”, enfatiza.

O professor Ilvece Cunha, de 73 anos, um dos manifestantes, concorda. “Estão promovendo um genocídio, matando lentamente a população e nós, ao pagar a conta de água, estamos pagando para nos matarem. Estudos comprovam que a água do rio tem metais pesados e eu soube também que o coagulante (polímero de acácia negra) usado para tratar essa água distribuída à população pode até deixa-la branquinha, mas não pura”.

Na Carta os manifestantes alegam que “diversos estudos técnicos e laudos apontam que o tratamento realizado não elimina os metais pesados existentes na lama, a exemplo de estudo pela Federação Nacional dos Médicos, que aponta a possibilidade de câncer e outras doenças para a população que utilizar a água, a longo prazo”. Também denuncia a omissão dos órgãos governamentais nas três esferas federativas, União, Estado e Município, diante do problema.

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Em nota a Samarco informou que foram distribuídos 74 milhões de litros de água potável e 30 milhões de litros de água mineral à população do município desde o início do processo, em novembro de 2015. O tratamento de água foi restabelecido desde o dia 15 de novembro de 2015 e a água do Saae fornecida à população está dentro dos padrões de potabilidade definidos pela Portaria 2.914 de 2011, do Ministério da Saúde. “A população de Governador Valadares pode acompanhar a variação diária dos parâmetros de ferro, alumínio, manganês e turbidez em cinco painéis eletrônicos instalados na cidade, e também pelo site http://www.samarco.com”, avisa.

Sobre a nova estrutura para captação de água, alega que é uma demanda antiga da população que vem sendo discutida há alguns anos, principalmente em função da seca e do assoreamento do Rio Doce que dificultava a captação em determinados períodos do ano.

Tanto que em agosto de 2015, a Agência Nacional de Águas (ANA) divulgou que, na estação de Valadares, o nível do Rio Doce estava em 1,06 metro, quando a faixa considerada normal é entre 1,27 metros e 3,09 metros. Nessa época, informa anota da Samarco, cogitou-se a possibilidade de readequar a forma de captação de água no rio, uma vez que a água não tinha altura suficiente para chegar à bomba de captação.
“Uma adutora de captação alternativa de água do Rio Suaçuí Grande para a Estação de Tratamento de Água (ETA) em Valadares está em estudo pela Prefeitura, Saae e Samarco”, conclui.

A assessoria do Saae não foi encontrada para falar sobre a manifestação, mas desde que a água voltou a ser captada no rio Doce, tem divulgado que diversos laudos, entre eles da Funed e Copasa, compravam a eficácia do tratamento e a potabilidade da água tratada distribuída à população.

De acordo com a Polícia Militar, cerca de 150 pessoas participaram do protesto.

FONTE: http://cms.hojeemdia.com.br/preview/www/2.169/2.693/1.382103

Campanha publicitária da Samarco: um bom exemplo do que não deve ser feito

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A campanha publicitária produzida pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) foi muito mal recebida pelo público em geral, mas agora está servindo para pelo menos uma coisa útil para o mundo corporativo: dar uma lição do que não deve ser feito em casos de graves incidentes sociais e ambientais.

Bom, pensando bem, não sei se isso é bom ou ruim para os que estão na ponta de cá. Entretanto, a análise do articulista Marcos Bedendo da Revista Exame é mais uma pedrada na fracassada campanha da Samarco. Sob este ângulo, merece ser lida sem hesitação.

Samarco: uma grande aula do que NÃO fazer

Marcos Bedendo

Comunicar-se durante uma crise é o que há de mais complexo a se fazer em comunicação empresarial. Portanto, qualquer empresa que passa por uma crise é interessante de ser observada de perto para, com distanciamento e frieza, se aprender com os acertos e erros na condução da comunicação.

Nessa perspectiva, o caso da Samarco tem se mostrado exemplar. Não me lembro de nenhuma outra situação em que uma comunicação empresarial tenha sido feita de maneira mais desastrosa, e nada profissional, em cada etapa do processo.

Logo no início da crise, com o rompimento da barragem, a comunicação foi ineficiente e omissa. Poucas informações e nenhuma entrevista ou declaração dos diretores ou do presidente da empresa durante semanas fizeram com que a Samarco passasse a ser vista como despreparada, ineficiente e insensível.

Em momentos iniciais de crises é importante demonstrar clareza e transparência, profissionalismo e conhecimento. Afinal, ninguém sabe mais do próprio negócio do que a empresa, e se ela não consegue se articular sobre o ocorrido e tomar a liderança na comunicação, ela passa a sensação que a situação está completamente fora de controle, o que tende a exaltar os ânimos da opinião pública.

Mas incorrer em erros nessa etapa não é incomum. A Unilever teve um caso assim com a marca Ades, alguns anos atrás. A empresa teve um problema de fabricação com um lote de produtos Ades do sabor maçã, algo que, por mais infeliz que seja, é passível de acontecer em qualquer empresa e pode ser tratado com mínimos impactos para o consumidor e para a imagem da empresa. A falta de clareza na comunicação e a falta de pronunciamento inicial dos líderes da Unilever fez um problema localizado se tornar um problema de imagem de grandes proporções (relembre o caso aqui).

O caso da Samarco já era diferente desde o início.  Trata-se de um desastre de grandes proporções e, portanto, a necessidade de informação e a repercussão do caso seria enorme de qualquer maneira. A falha de comunicação inicial da Samarco neste caso era esperada e até compreensível. Se até para empresas como a Unilever o problema aconteceu, uma empresa que nunca esteve sob os holofotes da mídia dificilmente teria tido uma excelência na condução dessa etapa do processo.

Samarco_presidente

Mas se na parte “passiva” da comunicação, e no calor da crise, pode-se admitir falhas, o mesmo não pode ser feito para uma comunicação ativa feita após o processo.

No começo de fevereiro, a Samarco iniciou uma campanha publicitária com o tema “olhar para todos os lados”, na qual se utiliza do depoimento de seus funcionários e outros líderes comunitários conclamando a população a perceber o que a Samarco tem feito para reparar os problemas causados pela tragédia. O filme é finalizado com a assinatura “Fazer o que deve ser feito”, mostrando a empresa como se tivesse tido uma postura exemplar durante o acidente. Veja a seguir:

A sugestão feita pela comunicação é vil, manipuladora, e absolutamente repulsiva. A campanha é cheia de problemas e demonstra uma situação distante da realidade.

Primeiro, ao assinar com “fazer o que deve ser feito” ela dá a entender que a empresa faz as suas atividades de maneira correta, o que não é verdadeiro. Uma mineradora tem como principal negócio fazer mineração com segurança e com ausência de problemas. Deixar uma barragem se romper está longe de “fazer o que deve ser feito”.

“Fazer o que deve ser feito” é se ter ciência da responsabilidade que se tem ao investir num negócio de mineração, e mitigar, de todas as maneiras possíveis, os riscos de segurança e ambientais que uma atividade como a mineração naturalmente tem.

“Fazer o que deve ser feito” era dar atenção e agir sobre um laudo de 2013, que mostrava a possibilidade que a barragem de Fundão tinha de se romper. “Fazer o que deve ser feito” era atender à recomendação do MP para “a elaboração de estudos e projetos sobre os possíveis impactos do contato entre as estruturas”, antecipando em anos o problema que ocorreu no final de 2015 (veja noticia completa aqui).

Em segundo lugar, pensando em termos de comunicação, “fazer o que deve ser feito” deveria ser estampar os diretores que ainda permanecem na empresa no comercial, assumindo a responsabilidade pelo ocorrido e divulgando um plano de ação para a solução de todos os problemas ocorridos com o rompimento da barragem, e não vergonhosamente se esconderem atrás de funcionários, esses sim verdadeiramente valiosos e voluntariosos.

Ainda um terceiro ponto: a Samarco trata o acidente como se fosse um problema natural, como se tivesse ocorrido por causas naturais. Ele trata um acidente como uma enchente, como um desabamento em função de uma chuva, de um furacão. Não foi.

A Samarco se mostra nos comerciais como uma ONG, que voluntariamente está auxiliando os que tiveram problemas numa tragédia, se eximindo da responsabilidade inicial de ter causado o problema. E ela não é isenta! Ela foi a causadora do problema.

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Mas a comunicação deles ainda vai mais longe. Ela clama a população a “olhar para todos os lados”. Ela se coloca como uma “injustiçada” no processo de comunicação da tragédia. Como se ela tivesse sido feita de vilã pelos jornalistas que cobriram, e continuam cobrindo, o rompimento da barragem. Como se estivesse sendo culpada por um acidente “natural”.

Ele mostra uma realidade que só existe na propaganda e na cabeça dos diretores da Samarco. E que é tão infantilmente manipulada na comunicação que não conseguiu ter nem ao menos uma opinião positiva nas suas redes sociais (acompanhe a pagina deles aqui). De tão irreal, realmente ela só pode ser comparada à uma propaganda política.

De fato, é difícil achar um caso de comunicação que nos traz lições tão didáticas e tão claras do que não se fazer – um mau exemplo em todos os sentidos.

FONTE: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/branding-consumo-negocios/2016/02/18/samarco-uma-grande-aula-do-que-nao-fazer/

TsuLama: acordo extrajudicial coloca raposas (mineradoras) para tomar conta do galinheiro (atingidos)

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Poucos devem ter antecipado esse desdobramento, mas o incidente causado pela Mineradora Samarco (Vale+ BHP Billiton) em Mariana (MG) está se constituindo numa materialização do ditado da “Raposa tomando conta do galinheiro”. É o que objetivamente pode ser depreender da leitura do artigo mostrado abaixo e que trata do acordo extrajudicial que está sendo firmado para tratar dos efeitos e consequências sociais e ambientais do TsuLama da Samarco.

Uma amiga de Facebook pinçou de forma bastante apropriada a informação de que “de acordo com a cláusula 34a. do documento, a Fundação comandada por Samarco, Vale e BHP Billiton vai criar uma Câmara de Negociação para acertar o valor das indenizações com cada um dos atingidos. Para isso, contará com negociadores com experiência na área jurídica e levará em conta informações sobre os interessados em reparações e provas colhidas. Aqueles que não puderem pagar por um advogado vão ter a assistência jurídica gratuita patrocinada pela própria Fundação.”  Em outras palavras, os atingidos pelo TsuLama da Samarcoterão de aceitar a ajuda oferecida pelas empresas, que vão pagar as indenizações, para negociar ou contestar as próprias mineradoras. Quem não concordar com os termos oferecidos deverá entrar na Justiça.”

Além disso, a reportagem mostra que não há qualquer garantia de que os atingidos serão indenizados, pois a minuta fala da necessidade do cadastramento, sem especificar as obrigações específicas que as mineradoras terão de arcar. Além disso, como a caracterização dos “atingidos” caberá à fundação que será financiada e gerida pelas próprias mineradoras (Samarco, Vale e BHP Billiton) não será nenhuma surpresa se pessoas atingidas pelo TsuLama ficarem de fora da lista que será produzida.

É ou não a raposa tomando conta do galinheiro?

Pelo acordo extrajudicial, Samarco, Vale e BHP vão decidir quem e como indenizar por desastre

Por Redação

 Obtida pela Pública, minuta do acordo extrajudicial entre mineradoras e governo cria uma Fundação, gerida pelas empresas, com poder de decisão sobre atingidos

Por Anna Beatriz Anjos, Ciro Barros, Jessica Mota, Maurício Moraes, em A Pública

A minuta do acordo extrajudicial entre Samarco, Vale e BHP Billiton, os Ministérios Públicos Federal e Estadual e entidades governamentais sobre o desastre de Mariana, obtida com exclusividade pela Agência Pública, revela que as empresas terão o poder de decidir sobre quem será indenizado e sobre quanto cada pessoa ou família vai receber. Se assinado por todos os envolvidos, o acordo encerra a ação civil pública que corre na 12ª Vara Federal da Seção Judiciária de Minas Gerais.

Será criada uma Fundação, comandada pelas mineradoras, para analisar cada um dos casos. O andamento do trabalho será supervisionado pelo Comitê Interfederativo, entidade que reunirá representantes dos governos federal, estadual e municipal, mas não terá nenhum integrante de movimentos sociais que defendem as vítimas do rompimento da barragem do Fundão, o maior desastre ambiental da história do país.

A minuta do documento estipula como os responsáveis deverão agir para reparar e compensar os danos socioambientais e socioeconômicos. Órgãos técnicos federais e estaduais estimaram que o custo deve ultrapassar R$ 20 bilhões. O texto, que tem 98 páginas, pode ser lido abaixo, na íntegra. Apesar de haver uma série de pontos polêmicos e de não ter envolvido representantes dos atingidos na elaboração dos termos, o governo pretende fechar o acordo extrajudicial até sexta-feira (26). A data já foi inserida inclusive no final do texto.

De acordo com a cláusula 34ª do documento, a Fundação comandada por Samarco, Vale e BHP Billiton vai criar uma Câmara de Negociação para acertar o valor das indenizações com cada um dos atingidos. Para isso, contará com negociadores com experiência na área jurídica e levará em conta informações sobre os interessados em reparações e provas colhidas. Aqueles que não puderem pagar por um advogado vão ter a assistência jurídica gratuita patrocinada pela própria Fundação. Ou seja, terão de aceitar a ajuda oferecida pelas empresas, que vão pagar as indenizações, para negociar ou contestar as próprias mineradoras. Quem não concordar com os termos oferecidos deverá entrar na Justiça.

O promotor de Justiça da Comarca de Mariana, Guilherme de Sá Meneghin, afirma que não participou de nenhuma das reuniões que resultaram no acordo. “Nunca houve qualquer tipo de diálogo comigo e também nunca houve qualquer tipo de diálogo com os atingidos”, diz. “Nada disso que está aí contempla o que de fato as pessoas precisam para ter o seu reassentamento efetivado. Eles não têm condição de saber como os atingidos querem a comunidade, eles não me consultaram e não consultaram os atingidos. Eles não conhecem Bento Rodrigues.”

A cláusula 10ª da minuta estabelece as modalidades de reparação socioeconômica. Para o promotor, o texto não tem validade. “Essa cláusula, ao não contemplar a participação das vítimas, não pode ser viabilizada. Ela viola não só a responsabilidade civil da empresa, que tem que ser de acordo com o dano causado, como também viola diversos tratados internacionais da área de direitos humanos”, afirma Meneghin. “A maioria das casas de Bento Rodrigues eram casas coloniais, construídas no século 18. Qualquer projeto que não leve em consideração características como essas não tem condição de ser viabilizado. Essa é a nossa contestação.”

O promotor contesta ainda o modo como a Fundação vai decidir sobre as indenizações, usando a Câmara de Negociação para tratar individualmente cada caso. “A indenização não pode ser levada à cabo por essa Fundação. Ela tem que ser feita na Câmara de Indenização aqui na Comarca com a participação do governo dentro do processo da ação civil pública em que já fixamos a primeira parcela da indenização. Cada comunidade tem um perfil muito diferente”, afirma. De acordo com Meneghin, também não faz sentido que a Fundação forneça advogados para quem não puder arcar com isso. “Uma empresa não pode pagar advogado para uma pessoa que vai entrar com processo contra ela. O estatuto da OAB proíbe essa atividade. Isso é ilegal.”

Sem garantias

A Fundação também deverá cadastrar todos os atingidos, de acordo com a cláusula 8ª. Isso, no entanto, não garante o recebimento das indenizações, uma vez que cada caso será decidido após acordo na Câmara de Negociação. Essas negociações, segundo a minuta, poderão ser acompanhadas pelo poder público. Logo, não existe a obrigação de que isso seja fiscalizado de perto pelo governo. O trabalho de cadastramento de todas as pessoas e empresas atingidas pelo desastre deverá ser concluído em no máximo seis meses após a assinatura do documento e será verificado pelo Comitê Interfederativo.

As atribuições da Fundação são definidas na cláusula 4ª da minuta do acordo. A entidade, instituída e patrocinada pelas responsáveis pelo rompimento da barragem, cuidará da execução de todos os programas e medidas necessários para a reparação, mitigação, compensação e indenização pelos danos socioambientais e socioeconômicos causados pelo desastre de Mariana. Os encargos financeiros serão cobrados primeiro da Samarco. Somente se a empresa não tiver como cumprir os aportes de recursos exigidos por essas iniciativas é que a Vale e a BHP Billiton deverão fornecer os valores necessários.

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“O acordo é bom para elas e ruim para as vítimas, sejam elas as pessoas ou o meio ambiente”, diz Danilo Chamas, advogado da organização Justiça nos Trilhos (Foto: Antonio Cruz/Agência Brasil)

Para Danilo Chammas, advogado da organização Justiça nos Trilhos, a proposta defendida pela minuta é perniciosa por confundir ações voluntárias de responsabilidade social corporativa com medidas para reparação de danos – que seriam obrigações devidas pelas empresas por conta das violações de direitos. “As empresas têm medo de uma condenação judicial. O acordo é bom para elas e ruim para as vítimas, sejam elas as pessoas ou o meio ambiente”, diz. “Mesmo que esse acordo preveja multas vultosas por descumprimento de suas cláusulas, é bastante provável que estas não sejam suficientes para incentivar as empresas a cumprirem com as obrigações assumidas. Atuo em processos em que a Vale tem descumprido sem o menor pudor decisões judiciais que também impõem multas por descumprimento.”

Outro ponto polêmico do documento prevê que a Fundação contrate uma empresa para identificar as áreas que sofreram impacto social, cultural e econômico com o rompimento da barragem. Esse estudo estabelecerá a relação entre causa e consequência, isto é, a cadeia causal que vai relacionar o desastre aos danos causados, permitindo posteriormente a definição das compensações. O problema é que as mineradoras terão influência direta nesse trabalho, que depois precisará ser validado pelo poder público por meio do Comitê Interfederativo.

Todas as decisões da Fundação serão analisadas e aprovadas por um Conselho de Administração. Dos sete integrantes do órgão, seis serão indicados pelas mineradoras: dois pela Samarco, dois pela Vale e dois pela BHP Billiton. Apenas um dos membros será indicado pelo Comitê Interfederativo, formado pelo poder público. Todos os integrante do Conselho, no entanto, devem vir da iniciativa privada e ter experiência em gestão de grandes projetos. Não há vagas, portanto, para qualquer representante dos atingidos pelo desastre.

Haverá também um Conselho Consultivo, com 14 membros, que poderá ser ouvido sobre os projetos e planos da Fundação. Mas nele também não há espaço para as vítimas, para as entidades que as representam ou para movimentos sociais. Haverá sete representantes do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce, dois da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar, cinco especialistas de instituições de ensino e pesquisa ou com notório conhecimento – um deles será indicado pelo Ministério Público Federal, um pelos Ministérios Públicos Estaduais de Minas Gerais e do Espírito Santo, dois pelo Conselho de Administração da Fundação e um pelo Comitê Interfederativo.

Em nenhum ponto do documento é criado qualquer mecanismo institucionalizado para garantir a participação efetiva dos atingidos nas decisões da Fundação. Eles ou as entidades que os representam poderão apenas ser ouvidos pelo Conselho Consultivo, segundo parágrafo único da cláusula 247ª, em assembleias sem direito a voto. Segundo a minuta do acordo extrajudicial, a Fundação criará uma Ouvidoria para manter o diálogo com a população atingida. O documento, no entanto, deixa a cargo da entidade comandada pelas mineradoras a indicação do ouvidor que deverá resolver eventuais disputas que podem surgir ou apurar denúncias.

Os atos, projetos e programas da Fundação serão fiscalizados pelo Comitê Interfederativo, que reúne membros do governo e do Ministério Público. Entre os integrantes, porém, não está nenhum representante da Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, que poderia defender os direitos dos atingidos pelo rompimento da barragem do Fundão. As ações desse órgão também são sempre reativas, de acordo com a minuta, o que pode tornar os procedimentos burocráticos e também dificultar o acompanhamento.

Indígenas atingidos

Na minuta do acordo está previsto um programa de proteção e melhoria da qualidade de vida dos indígenas. As populações contempladas são os Krenak, os Tupiniquim e os Guarani da região da foz do rio Doce. Para as ações, o acordo prevê mecanismos de consulta e participação dos povos em todas as fases do programa, mas não estabelece diretrizes para esses mecanismos. A Fundação Nacional do Índio (Funai) e a Secretaria Especial de Saúde Indígena do Ministério da Saúde (Sesai) deverão supervisionar e participar das ações mas não têm funções de coordenação.

Na cláusula 44ª são estipuladas as ações de responsabilidade da Fundação em relação aos indígenas. Entre elas está a manutenção das medidas de apoio emergencial, estipuladas em um acordo feito em novembro de 2015 com a Vale, e o monitoramento de situações como o abastecimento e qualidade da água e apoio financeiro mensal às famílias. Também consta a atualização das necessidades dos indígenas em virtude de diálogo com essa população.

Para que o programa tome forma, porém, a Fundação deve contratar uma consultoria independente, que irá elaborar um estudo para apontar os impactos socioambientais e socioeconômicos sobre os indígenas. A partir daí, será feito um Plano de Ação Permanente, que deve ser pactuado com os indígenas. O prazo para que o Plano de Ação Permanente entre em operação é de dois anos a partir da assinatura do acordo e ele deverá ser mantido por, no mínimo, dez anos.

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Plano de Ação Permanente para os indígenas atingidos não foi discutido com os próprios índios (Foto: Corpo de Bombeiros de Minas Gerais)

“Essa definição do acordo já deveria estar considerando a opinião e a demanda dos índios”, comenta Adriana Ramos, coordenadora do Programa de Política e Direito Socioambiental do Instituto Socioambiental (ISA). “O governo está, em nome da sociedade, estabelecendo uma forma de lidar com os impactos sem consultar a sociedade pra saber se essa forma é a forma que melhor atende.”

Ela aponta que as ações previstas no acordo também deveriam ter sido alvo de consulta dos indígenas. “Você vai criar uma fundação das empresas pra trabalhar em área indígena e quem deveria definir quem vai gerir os recursos pra aplicar nas ações deveriam ser os próprios índios. Em que organização que eles confiam?”

Ailton Krenak, liderança indígena do Vale do Rio Doce, esclarece que são feitas reuniões periódicas com as empresas e com o Ministério Público Federal, em virtude das medidas de emergência adotadas. Ao ser questionado se os termos do acordo foram discutidos com a população Krenak, Ailton afirma que não.

Agência Pública entrou em contato com os governos de Minas Gerais e do Espírito Santo, os ministérios de Minas e Energia e Meio Ambiente – os dois últimos nos encaminharam, respectivamente, para o Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM) e para o Instituto Brasileiro de Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) – e a Advocacia-Geral da União (AGU).

O DNPM informou que o assunto não é de sua alçada e, por isso, não o comentará. Os governos do Espírito Santo e Minas Gerais comunicaram que as negociações continuam ocorrendo e que só se pronunciarão após a finalização do acordo. O Ibama informou que não participou das discussões socioeconômicas, portanto, não tem como se pronunciar nesse sentido, responsabilidade que seria da AGU. Esta, por sua vez, também pontuou que a questão se encontra em discussão e que não comenta “cláusulas de acordo que ainda não foi concluído/assinado”.

Crédito da foto destacada: Rogério Alves/TV Senado

Atualização: após a publicação da reportagem, foram incluídas as respostas do DNPM, governos do Espírito Santo e Minas Gerais, Ibama e AGU.

FONTE: http://www.ecodebate.com.br/2016/02/24/pelo-acordo-extrajudicial-samarco-vale-e-bhp-vao-decidir-quem-e-como-indenizar-por-desastre/

Le Monde traz nova matéria sobre as diversas facetas em torno TsuLama da Samarco

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O jornal francês Le Monde publicou na sua edição deste domingo (21/02) uma nova matéria sobre o TsuLama da Mineradora (Vale+ BHP Billiton) onde são abordados diversos aspectos da situação criada pelo despejo de lama no Rio Doce.

Para mim continua sendo muito interessante verificar que, ao contrário da mídia nacional, o TsuLama continua sendo objeto de reportagens em vários órgãos da mídia internacional e que continuam oferecendo uma cobertura mais adequada ao tamanho do desastre que continua ocorrendo em Bento Rodrigues.

Uma das possíveis razões para que o assunto não tenha morrido fora do Brasil é a criação de grupos independentes de pesquisadores e de ativistas sociais que continuam fornecendo as informações que estão sendo ignoradas internamente.

Deslizamento de terra tóxica:  Estado brasileiro exige uma compensação recorde

Por Claire Gatinois

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A pequena localidade de Bento Rodrigues , no estado de Minas Gerais no Brasil engolida pelo deslizamento de terra . FELIPE DANA / AP

Pouco mais de cem dias após um dos piores desastres ambientais que o Brasil já conheceu, a mineradora Samarco, suspeita de negligência culposa no colapso de duas barragens no estado de Minas Gerais, em 5 de Novembro de 2015, deve concluir um acordo antes do final de fevereiro com o governo brasileiro. O desastre causou uma carga avalanche de lama de rejeitos derramada em mais de 600 quilômetros, engolindo a pequena localidade de Bento Rodrigues, devastando a vida selvagem e flora, e mudando a coloração do Rio Doce.  Além disso, dezenove pessoas morreram

A empresa de propriedade de 50-50% do grupo brasileiro Vale e da australiana BHP Billiton, pode ter que pagar até 20 bilhões de reais (4,45 bilhões de euros) para realizar, em dez anos, a reparação e a compensação do desastre. No futuro imediato, a empresa vai pagar 2 bilhões de reais. Um desastre único, quantidade sem precedentes. O estado brasileiro nunca exigiu  uma quantia dessas. Em 2000, após o vazamento de óleo na Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro,  a Petrobras, causadora do desastre, foi obrigado a pagar apenas algumas dezenas de milhões de reais.

 Processos

O acordo, para levar deve primeiro superar a última resistência do negócio, além de um processo penal contra a Samarco. Um pouco menos de uma dúzia de membros da administração da empresa, incluindo Ricardo Vescovi, diretor da empresa na época, são acusados ​​de crime ambiental. A administração do grupo também pode ser acusada de homicídio.

A Samarco é  vista como tendo sido imprudente, especialmente ao não acionar as sirenas que teriam salvo vidas. Pior, a empresa  tinha conhecimento desde 2014  sobre as falhas das duas barragens, afirma Joaquim Pimenta de Ávila, que trabalhou como consultor para o grupo de mineração. Ouvido pela polícia , o engenheiro disse ter informado a Samarco do risco de fratura, informou o jornal Folha de São Paulo em 19 de janeiro.  O que a Samarco fez em seguida? Mistério. Quando questionada, a empresa nega rotundamente afirmando que o “consultor de Joaquim Pimenta de Ávila nunca nos alertou para o risco de falha da represa” e têm acordo precisa com o Estado de Minas Gerais a adotar medidas preventivas adicionais reforçar a robustez das infra-estruturas.

Até o momento, nenhuma evidência formalmente acusa o grupo. “Um julgamento é prematuro”, diz Carlos Henrique Medeiros, do Comitê Brasileiro de Barragens (CBDB) organização responsável pela melhoria do desempenho dos edifícios. “A barragem é uma estrutura de complexo e vulnerável. Risco zero não existe “ , lembra ele. ” É um acidente complexo “ , insiste a Samarco.

As causas da ruptura de duas barragens localizadas perto da cidade turística de Mariana, permanecem desconhecidas. Uma investigação está em andamento, com resultados esperados no prazo de seis meses ou um ano, mas diferentes hipóteses estão circulando. Entre elas a ocorrência de um pequeno tremor sísmico ou uma possível sobrecarga. Dúvidas também persistem sobre o grau de toxicidade do lodo derramado no rio Doce.

Inação do governo

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Uma vista aérea do Rio Doce , que estava coberto de lama, no ponto em que encontra o mar , no estado do Espirito Santo no dia 23 de novembro de 2015. RICARDO MORAES / REUTERS

Só a justiça irá determinar a culpa ou não da Samarco. Mas a empresa já está marcada pela sua falta de vontade ou por uma espécie de indiferença para com esta tragédia ecológica. Em 27 de janeiro, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais (Ibama) rejeitou a proposta mordaz da Samarco para a reabilitação das áreas danificadas. O conteúdo do documento tinha sido considerado mais do que “superficial” e a empresa teve que fornecer uma nova versão em 17 de fevereiro.

Além da raiva focada na Samarco, organizações não-governamentais estão incomodadas com a inércia dos governos. “Segurança de barragens é assumida pelas empresas de mineração si mesmos, sem controle externo! “ salienta Nilo d’Ávila, coordenador do Greenpeace Brasil. ” A lei sobre as minas e barragens deve ser melhorada, mas não há nada a prever que ele vai mudar “ , disse ele, lembrando que as empresas de mineração financiam de forma abundante as campanhas eleitorais dos partidos políticos.

Nos últimos dias, a Samarco lançou uma campanha publicitária nacional para elogiar as medidas tomadas para reparar o dano. “No estado de Minas Gerais como eles estão anunciando a dizer que a água é potável”, diz Dante Pavan, membro do Giaia, um grupo independente de pesquisadores que se organizou para medir os danos ambientais da catástrofe. Ainda assim, este deslizamento de terra espetacular, que arruinou muitos agricultores e pescadores do Rio Doce, marcou os espíritos. A imagem da Samarco não escapa incólume. E a imagem da acionista, a Vale, cujo nome original era “Vale do Rio Doce”, também poderia estar contaminada.

FONTE: http://www.lemonde.fr/planete/article/2016/02/21/coulee-de-boue-toxique-l-etat-bresilien-exige-une-indemnisation-record_4869102_3244.html

Vídeo cândido da Samarco sobre Mariana ganha paródia realista

Atingidos pela Vale tripudiam de publicidade da empresa com informações concretas; humor desconstrói razão cínica de marketing movido por um otimismo calculado

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Em vez de se distanciar da realidade, uma paródia feita pelo movimento Atingidos pela Vale [ver acima] escancara o realismo, ignorado pela Samarco na série de peças publicitárias veiculadas nos últimos dias sobre a catástrofe de Mariana (MG), em novembro. Em meio ao sarcasmo e a imagens de lama e destruição, são transmitidas informações que milhões de brasileiros não puderam ver nos comerciais exibidos em TV aberta.

O nome da campanha da Samarco era: “É sempre bom olhar para todos os lados”. Título da paródia: “É sempre bom olhar o nosso próprio lado”. Em apenas 44 segundos os Atingidos pela Vale – lembremos que a Vale possui metade das ações da Samarco – fazem um resumo da ópera com dados que a empresa esmerou-se em driblar ao longo dos comerciais dirigidos pela Tom Comunicação: “Em vídeo com trabalhadores, Samarco faz o que não deve ser feito: escárnio”.

Confira aqui o texto do vídeo:

“Nós somos a Samarco. Agimos prontamente após o rompimento da barragem em Minas Gerais. Estamos investindo em milhões em limpeza. Da nossa própria imagem. Muitos perderam com esse desastre. E podem perder ainda mais se nada for feito. Estamos falando, é claro, dos nossos acionistas. Afinal, uma empresa do nosso tamanho não pode pagar multa. Precisamos investir em publicidade e dar lucro. Não somos culpados. Não vamos ser responsabilizados. É sempre bom olhar para o nosso próprio lado”.

Aqui, as informações inseridas como legenda:

  • “Desastre foi recorde mundial de lama vazada, em volume e percurso”.
  • “A Samarco é da Vale e da BHP, duas das maiores mineradoras do mundo”.
  • “Vale tenta livrar Samarco de pagar multa de R$ 2 bilhões” (Título no jornal Valor).
  • “Até hoje, nenhuma multa foi paga pela empresa”.
  • “Lucro da Samarco foi de R$ 2,8 bilhões em 2014”.

O vídeo se encerra com uma versão do slogan da Samarco nas peças publicitárias,  “fazer o que deve ser feito”. Com um complemento: “Fazer o que deve ser feito para dar lucro”. O comercial da empresa já está sendo questionado tanto pelo Ministério Público como pelo Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar),

DO OTIMISMO AO CINISMO

Em novembro, mencionamos em um dos primeiros textos do blog o livro “Cândido”, um clássico de Voltaire. O personagem central era um otimista incorrigível. Diante de uma catástrofe, um terremoto em Lisboa, o filósofo francês fazia uma crítica a leituras menos ácidas do mundo feitas por autores como Leibniz e Rousseau. A comparação pode ser agora atualizada com os vídeos. O esforço publicitário da Samarco bem poderia levar a assinatura de Cândido e de seu mestre, o Doutor Pangloss. A paródia dos Atingidos pela Vale traz de volta o tema à realidade.

Pode ser feita também uma analogia com a história do cinismo, ou dos cínicos. Em sua versão original, na Grécia Antiga, eles eram desafiadores, atrevidos, quebravam paradigmas estabelecidos. Depois, o termo foi progressivamente sendo assimilado ao contrário: ao conformismo. Ou, como desenvolveu o filósofo Peter Sloterdijk em sua Crítica da Razão Cínica, a um certo modo de perpetuar as distorções da burguesia – a começar da desigualdade.

A Samarco dialoga com esse cinismo contemporâneo. Os trabalhadores, com o movimento original. O maior expoente daquele cinismo antigo era Diógenes, aquele que procurava com sua lanterna homens autênticos. Acaba de ser criada, portanto, uma espécie de Lanterna da Samarco. Procura-se uma empresa – da mineração à publicidade – com valores autênticos.

FONTE: http://outraspalavras.net/alceucastilho/2016/02/20/video-candido-da-samarco-sobre-mariana-ganha-parodia-realista/