O acometimento por COVID-19 é uma péssima notícia para Trump, mas poderá ser ainda pior para Bolsonaro

1_bolso-10254401Bolsonaro presenteia Donald Trump com camisa da Seleção – Brendan Smialowski / AFP

O acometimento de Donald Trump pelo coronavírus em um momento que os EUA já ultrapassaram 213 mil mortos por COVID-19 é uma péssima notícia não apenas para o presidente que tenta a sua reeleição em meio a uma profundA crise econômica e sanitária, mas também para o seu mais fiel escudeiro, o presidente Jair Bolsonaro.

A primeira coisa é que o protocolo adotado para tratar de Donald Trump não só não adota a hidroxicloroquina ou a cloroquina, mas emprega medicamentos que ainda não estão sequer disponíveis para seres humanos comuns. Essa postura confirma não apenas a nulidade da cloroquina para debelar a COVID-19, mas também sinaliza que a situação da saúde de Trump pode ser mais grave do que o reconhecido oficialmente pela assessoria de comunicação da Casa Branca.

Além disso, ao ser acometido pela COVID-19, Trump soma mais um desafio para bater o candidato democrata Joe Biden. É que, querendo ou não, Trump terá que seguir o protocolo adotado para pessoas infectadas que incluem distanciamento social por pelo menos 10 dias. Como a campanha presidencial caminha para o seu ápice, fica fora de combate em um momento tão crucial foi uma péssima notícia para Trump.

Em termos objetivos, a situação eleitoral de Trump que era complicada parece estar passando para a situação desesperadora. É que, ao contrário do que a facada possibilitou a Jair Bolsonaro em 2018, Trump se infectou com o coronavírus em grande parte devido à sua própria postura de negligenciar o grau de infecciosidade associada ao Sars-Cov-2, bem como sua relativa letalidade, a qual se dá de forma mais óbvia em pessoas idosas e/ou obesas (que é exatamente o caso em Donald Trump se enquadra).

Mas se a condição de saúde e a situação eleitoral são ruins para Trump, a situação não é nada melhor para Jair Bolsonaro, na medida em que se alter ego estadunidense não só está fora de combate por causa da alegada “gripezinha”, mas também que se arrisca a perder a eleição por W.O.

Se o pior acontecer para Trump, o fato é que todas as apostas geopolíticas feitas pelo governo Bolsonaro deverão ir por água abaixo. Não que os democratas sejam menos intervencionistas que os republicanos, pois eles são até mais pró-interferência em assuntos que não são necessariamente da sua conta, mas porque eles reconhecem (ao menos em tese) a existência de uma crise ambiental , e supostamente pretendem recolocar os EUA no conjunto de nações que estão realizando esforços para estabelecer políticas multilaterais de mitigação das mudanças climáticas.

Por essa postura dos democratas é que uma vitória de Biden significará uma profunda derrota da postura de vassalos por livre escolha que embala o governo Bolsonaro. E o Brasil arrisca sofrer um grau de interferência inédito no que se refere à proteção dos biomas amazônicos. Em outras palavras, Jair Bolsonaro poderá ser junto com Trump o maior perdedor das eleições estadunidenses. E se a derrota vier, a temperatura interna deverá subir bastante, visto a situação precária em que o Brasil já se encontra.

Em uma confirmação daquela Lei de Murphy que diz que nada está tão ruim que não possa piorar, hoje foi confirmado que o coordenador da campanha de reeleição de Donald Trump, Bill Stepien, também teve diagnóstico positivo para COVID-19. Assim, além de ter o candidato colocado para fora das quatro linhas, o mesmo ocorreu com a pessoa que comandava a sua campanha de reeleição. Como se diz em baseball: “two strikes against you, and one more you are out”.

Estudo francês documenta transmissão placentária de COVID-19 em criança recém-nascida

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Um estudo que ainda está em processo de revisão por pares pela revista Nature, mas que já está disponível na forma de “preprint“,  demonstra pela primeira vez a transmissão transplacentária do novo coronavírus (o SARS-CoV-2) em um recém-nascido nascido de mãe infectada pelo coronavírus.

Os pesquisadores do Hospital da Universidade de Paris-Saclay, liderados pelo professor Daniele de Luca, afirmam que a transmissão foi confirmada por um abrangente estudo virológico, onde a transmissão do SARS-CoV-2  ocorreu via placenta da mãe que havia foi contaminada durante a fase final da gestação. Além disso, o estudo aponta que a criança recém-nascida apresentou manifestação neurológica, consistente com as descritas em pacientes adultos para a COVID-19 (ver figura abaixo).

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RM cerebral realizada aos 11 dias de vida. Os painéis A-B e C-D representam T1 e difusão ponderada seqüências, respectivamente. As imagens são tiradas em dois níveis diferentes e mostram hiperintensidades do substância branca frontal ou parietal periventricular e subcortical (setas).

O estudo conclui que a transmissão vertical da infecção da COVID-19 é possível pela via placentária durante as últimas semanas de gravidez. Além disso, a transmissão transplacentária pode causar inflamação placentária; viremia neonatal e manifestações neurológicas também são possíveis.

Uma preocupação expressa pelo professor e pesquisador do Laboratório de Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense (LBT/Uenf), Enrique Medina-Acosta,  é que “dada a elevada proporção de infectados assintomáticos, e assim não incluídos em um processo de triagem universal para o novo Coronavirus, parece possível que os efeitos adversos neurológicos em neonatos não testados só venham ser observados no primeiros anos de vida“.

Como se vê, a COVID-19 definitivamente não é uma “gripezinha” ou, tampouco, um “resfriadozinho” como chegou a afirmar o presidente Jair Bolsonaro