El Niño ameaça agravar secas, enchentes e incêndios em um Brasil cada vez mais vulnerável

Com Amazônia e Cerrado sob pressão do desmatamento e das mudanças climáticas, retorno do fenômeno pode ampliar riscos ambientais, sociais e econômicos em todo o nosso país

A Organização Meteorológica Mundial (OMM), agência climática das Nações Unidas, acaba de emitir um alerta preocupante: existe cerca de 80% de probabilidade de que um novo episódio de El Niño se estabeleça entre junho e agosto de 2026, aumentando para 90% a chance de sua permanência até novembro. Ainda que persistam incertezas sobre sua intensidade final, os cenários atuais apontam para um evento de moderado a forte, com potencial para amplificar significativamente os impactos das mudanças climáticas já em curso.

O alerta da ONU não surge em um momento qualquer. O planeta acaba de atravessar uma sequência de anos excepcionalmente quentes. O poderoso El Niño de 2023-2024 contribuiu para que 2024 se tornasse o ano mais quente já registrado, em combinação com o aquecimento global provocado pela queima de combustíveis fósseis. Agora, a possibilidade de um novo episódio forte do fenômeno preocupa cientistas porque ele atuará sobre uma atmosfera e oceanos que já se encontram muito mais quentes do que em décadas anteriores.

Em termos simples, o El Niño é caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Embora seja um fenômeno natural, suas consequências são globais. Alterações nos padrões de circulação atmosférica provocam secas severas em algumas regiões e chuvas extremas em outras. O resultado costuma ser uma combinação perigosa de quebras de safra, incêndios florestais, crises hídricas, enchentes e impactos sobre a saúde pública.

O aspecto mais preocupante da atual conjuntura é que o El Niño já não atua sozinho. Diferentemente do que ocorria algumas décadas atrás, ele agora interage com um sistema climático profundamente alterado pela ação humana. Em outras palavras, aquilo que antes era um fenômeno periódico da variabilidade natural do clima tornou-se um multiplicador dos efeitos do aquecimento global. O resultado é a amplificação de eventos extremos, com ondas de calor mais intensas, secas mais prolongadas e precipitações mais destrutivas.  

Para o Brasil, os sinais de alerta são particularmente relevantes. Historicamente, episódios de El Niño costumam estar associados à redução das chuvas em partes da Amazônia e do Nordeste, ao mesmo tempo em que favorecem precipitações acima da média no Sul do país. Dependendo da intensidade do fenômeno, isso pode significar a combinação explosiva de secas severas em algumas regiões e enchentes em outras. O episódio de 2023-2024 já demonstrou essa capacidade destrutiva ao contribuir para eventos extremos de precipitação que atingiram o Sul do Brasil.

A situação da Amazônia merece atenção especial. Estudos recentes já indicam que o avanço do desmatamento e das mudanças climáticas está aproximando a maior floresta tropical do mundo de um ponto crítico de transformação ecológica. A chegada de um El Niño forte tende a agravar o déficit hídrico, aumentar a ocorrência de incêndios florestais e ampliar a mortalidade de árvores. Em um cenário em que a floresta já sofre com a perda acelerada de cobertura vegetal, especialmente nas áreas mais desmatadas, um novo período prolongado de seca pode produzir impactos duradouros sobre a biodiversidade, o regime de chuvas e a segurança hídrica de grande parte da América do Sul.

Outro aspecto frequentemente negligenciado é o impacto econômico. O El Niño afeta diretamente a produção agrícola mundial. Reduções de produtividade, perdas de safras e problemas logísticos costumam pressionar os preços dos alimentos. Em um mundo já marcado por conflitos geopolíticos, insegurança alimentar e inflação persistente, novos choques climáticos podem aprofundar desigualdades e ampliar a vulnerabilidade das populações mais pobres.

Diante desse quadro, a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, foi direta: o retorno do El Niño deve ser encarado como mais um sinal da urgência de abandonar a dependência dos combustíveis fósseis e acelerar a transição para fontes renováveis de energia. Ao mesmo tempo, a OMM reforçou a necessidade de investimentos em sistemas de alerta precoce, planejamento climático e adaptação das infraestruturas urbanas e rurais.

A questão central, portanto, não é apenas se o próximo El Niño será forte ou moderado. A verdadeira pergunta é se governos, empresas e sociedades aprenderam algo com os eventos extremos que vêm se acumulando ao redor do planeta. As evidências sugerem que não. Enquanto a ciência alerta para riscos crescentes, muitos países continuam expandindo a exploração de petróleo, flexibilizando legislações ambientais e tratando a crise climática como um problema do futuro.

O retorno do El Niño pode ser apenas mais um fenômeno natural. Mas, em um planeta profundamente alterado pela ação humana, seus efeitos dificilmente terão algo de natural.

Secas mais longas e mudanças nas chuvas já ocorrem na Amazônia, apontam pesquisas

Liderados por cientistas do Inpe, estudos recém-publicados indicam prolongamento de quatro para até seis meses da estação seca, com aumento de déficit hídrico em mais de 150 milímetros; trabalhos são alerta para 2026 e 2027, quando há previsão de “super El Niño”

Por Luciana Constantino para Agência FAPESP 

A Amazônia brasileira já começa a registrar cenários até então projetados para as próximas décadas, com estações secas mais longas e alteração no padrão de chuvas, apontam dois estudos recém-publicados liderados por cientistas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O quadro pode se intensificar rapidamente, elevando riscos à biodiversidade, ao reabastecimento de reservatórios naturais de água e ao funcionamento da floresta se não houver políticas integradas e iniciativas de combate às mudanças climáticas.

Os trabalhos, baseados em modelos climáticos que incorporam a dinâmica regional, também funcionam como um alerta para este ano e o próximo, quando há a possibilidade de um “super El Niño”. Caracterizado pelo aquecimento do oceano Pacífico na faixa equatorial, o fenômeno pode, em sua versão mais intensa, elevar a temperatura em mais de 2 °C acima da média, provocando grandes alterações na circulação atmosférica e no regime de chuvas em escala global.

O resultado de uma das pesquisas indica prolongamento da estação seca na Amazônia de quatro para até seis meses, com aumento de déficit hídrico superando -150 milímetros (mm) no período. Publicado no International Journal of Climatology, o artigo aponta maior instabilidade climática e mais eventos extremos fora do padrão sazonal, além de crescimento da degradação da floresta associada ao fogo.

outro trabalho, que está na edição de março da Perspectives in Ecology and Conservation, analisa a seca registrada entre 2023 e 2024 na Amazônia, período em que o Brasil também foi fortemente afetado pelo El Niño. Os achados mostram um crescimento médio de 9% nas áreas queimadas e 19% nos alertas de degradação florestal, com até 4,2 milhões de hectares impactados por fogo no pico da seca. Evidenciam, assim, que o ciclo seca-fogo-degradação está se fortalecendo, reduzindo a capacidade do ecossistema de se restabelecer.

“Há alguns anos, quando começamos a discutir cenários climáticos para a Amazônia, muitas vezes esse futuro era visto como algo distante nas conjunturas mais pessimistas. Porém, estamos observando que os extremos de anomalia mais pessimistas estão acontecendo no presente. Quando comparamos os dados de hoje com as projeções, vemos o quão crítica vai ficando essa situação à medida que incluímos cenários pessimistas na análise climática”, resume a engenheira ambiental e sanitarista Débora Dutra, doutoranda em sensoriamento remoto no Inpe e primeira autora dos dois artigos.

A bióloga Liana Anderson, orientadora de Dutra e pesquisadora no Inpe, destaca o papel dos cientistas diante da dissonância entre as evidências científicas dos impactos das mudanças climáticas nos ecossistemas e as respostas para a sua mitigação e contenção.

“Estamos em um momento crucial, com metas nacionais e internacionais a cumprir até 2030. Se colocarmos os esforços nessa direção, temos condição de atingi-las. É preciso pensar na conexão entre meio ambiente, desenvolvimento e economia como uma tríade indissociável, seja pelo lado da exploração ou pelo preço a ser pago pela reconstrução após os impactos. Acho que essa crise climática abre oportunidade de repensarmos caminhos e como acelerar iniciativas sustentáveis, que busquem qualidade de vida, justiça social e ambiental. Existe mobilização da comunidade científica para contribuir e mostrar alternativas. A questão é quem está disposto a escutar o que vem sendo estudado ao longo das últimas décadas”, complementa Anderson, que lidera o laboratório TREES (sigla para TRopical Ecosystems and Environmental Sciences) ao lado do pesquisador Luiz Aragão, também um dos autores dos artigos.

Construindo modelos

Na pesquisa publicada no International Journal of Climatology, os cientistas utilizaram uma métrica que vem sendo trabalhada por Aragão desde 2007 – o máximo déficit hídrico acumulado (MCWD, na sigla em inglês), considerado um indicador-chave de estresse hídrico nos ecossistemas tropicais –, aliada a dados da fase seis do Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados, que fornece uma estrutura padronizada para a modelagem climática alinhada às avaliações dos Caminhos Socioeconômicos Compartilhados (SSPs) do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC) da Organização das Nações Unidas.

O estudo foi conduzido no sudoeste da Amazônia, abrangendo o Acre e parte dos Estados do Amazonas e de Rondônia. Abrigando áreas com mais de 90% de cobertura florestal, a região está sob forte pressão de desmatamento.

Os resultados mostram que, em cenários de altas emissões de gases de efeito estufa, há uma intensificação dos déficits hídricos durante a estação seca na Amazônia, sobretudo na porção sudoeste da floresta. As projeções indicam estações secas mais longas e intensas, com aumento do estresse hídrico entre junho e setembro e déficits que podem ultrapassar -21 mm/mês até o fim do século no cenário mais pessimista.

Esse agravamento tende a produzir impactos diretos sobre a floresta, com maior mortalidade de árvores, degradação florestal e perda de biodiversidade, além da redução da capacidade da Amazônia de atuar como sumidouro de carbono, reforçando um ciclo de retroalimentação entre degradação e aquecimento global.

Para aprimorar as projeções futuras e as avaliações de risco climático na região, os pesquisadores sugerem, entre outros pontos, a adoção de análises integradas que incorporem mudanças no uso da terra, anomalias na circulação atmosférica e interações entre incêndios e secas.

Na pesquisa que analisou a seca extrema de 2023 e 2024, o grupo mapeou e quantificou o estresse hídrico, a degradação florestal e a dinâmica do fogo, identificando implicações para a gestão ambiental. O estudo chegou à conclusão de que a seca intensificou a interação entre déficit hídrico, incêndios e degradação, com o fogo cada vez mais associado à debilitação da floresta em pé, e não apenas ao desmatamento. Enquanto o desmate remove totalmente a cobertura de vegetação, a degradação enfraquece a floresta sem destruí-la por completo.

De acordo com o trabalho, os resultados destacam a necessidade de uma governança integrada do fogo, reunindo indicadores climáticos aos sistemas de alerta, fortalecendo a coordenação institucional e incorporando a degradação florestal nas estratégias de mitigação e adaptação.

Costurando ciência e iniciativas práticas

Sob a coordenação de Anderson, Dutra vem estudando há alguns anos os impactos do fogo na floresta amazônica e publicou um artigo sobre queimadas no município de Boca do Acre, no Amazonas (leia mais em: agencia.fapesp.br/40757).

Desde o ano passado, as pesquisadoras integram a iniciativa “Fogo em Foco”, uma parceria entre forças operacionais de combate e prevenção de fogo (como o Corpo de Bombeiros Militar de diversos Estados) e instituições de pesquisa. Para marcar o lançamento do programa, o laboratório TREES, a Rede Brasa de pesquisa e a Liga dos Corpos de Bombeiros Militares realizaram um evento em outubro com a divulgação do relatório “Fogo em Foco 2024-2025” e do artigo internacional “State of Wildfires 2024-2025”.

Segundo Anderson, em abril foi autorizada a continuidade desse trabalho conjunto com os bombeiros para 2026. “Essa aproximação é uma forma de aliar o que a ciência consegue entregar com a realidade de quem atua na ponta, tanto em estratégias de prevenção quanto de combate. Tentamos costurar ciência e ações na sociedade. Mas ainda há um ponto em que precisamos avançar, que é a magnitude do impacto econômico e o quanto isso significa para o desenvolvimento do país”, diz a pesquisadora.

Por isso, Dutra decidiu mergulhar no tema e vai trabalhar em sua tese de doutorado com dados sobre o potencial das perdas econômicas derivadas do fogo, discutindo não só questões florestais, mas também saúde e impactos sociais.

Ela recebe bolsa da FAPESP, que também apoiou os dois artigos por meio de outros cinco projetos – 21/04019-4, 20/08916-8, 25/28244-8 e 25/07124-4, incluindo o Centro de Pesquisa e Inovação em Gases de Efeito Estufa (RCGI).

Os artigos Dry-season water deficits in the Southwestern Amazon under high emissions e Intensification of drought-associated wildfires challenges actions for Amazonia’s sustainable development podem ser lidos, respectivamente, em: rmets.onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1002/joc.70331 e sciencedirect.com/science/article/pii/S2530064426000295.


Fonte: Agência Fapesp