Onde está Wally? Por que Rodrigo Bacellar está em silêncio em hora tão urgente?

Onde está o Wally? Tente achar o personagem em um belo vídeo em 360 graus |  Entretenimento

Por Douglas Barreto da Mata

Gostemos ou não da política de segurança pública de Cláudio  Castro, o fato é que o governador do estado do Rio de Janeiro assumiu a narrativa sobre o combate ao crime. Repito, não faço (agora) um juízo de valor sobre os eventos dessa semana, mas é impossível ficar impassível aos efeitos deles sobre nossas vidas e, claro, sobre o jogo político.

Muita gente argumenta que as preparações e engenharias da operação nos complexos da Penha e do Alemão tiveram suas origens nos gabinetes da administração Trump. Outros defendem que o timing teve como alvo diluir os bons momentos da diplomacia lulista nos EUA, e interromper a recente escalada da popularidade do presidente Lula, que até pouco tempo patinava no fundo do poço.

Há os que indicam o caminho mais simples, isto é, o governador que estava nas cordas, ora afundando em meio a disputas com correligionários próximos, como o presidente da Assembleia Legislativa do estado do Rio de Janeiro ora acossado pela intensificação de apurações sobre empresários amigos, e enfim, ameaçado pelo calendário judiciário, que traz o desfecho sobre sua permanência (ou não) no cargo.

Uma operação dessa magnitude e carga dramática tem os ingredientes para criar campos políticos, que passam a ser definidos por limites mais  emocionais e simbólicos, reduzindo conceitos complicados  a percepções como “vagabundos”, “bandidos”, “mocinhos”, “bem”, “mal”, guerra, terrorismo, heróis, mártires, etc.

Esses são os campos preferidos da direita, e tais esferas estavam sendo soterradas pelo conjunto de notícias e imagens ruins da direita, desde as chantagens tarifárias pedidas a Trump como resgate pela família Bolsonaro, para forçar uma anistia ao patriarca, passando pela associação do deputado TH às facções criminosas, e, como dissemos, os ecos da investida da PF na Faria Lima, que surpreendeu gente graúda ligada a vários governos e figuras da direita.

Para recuperar terreno, era preciso fazer barulho. Claúdio Castro entendeu e foi à guerra. Desenterrou vários pontos de uma vez, que estavam dormindo. Aumento de autonomia dos estados, a definição de tráfico como terrorismo, discussão dos limites impostos pelo Supremo Tribunal Federal, dentre outros.

Mas por que Rodrigo Bacellar tem sido econômico em gestos e palavras, uma vez que ele é partidário das teses que o governador colocou em prática? Não seria exagero dizer que se a carreira política de Rodrigo Bacellar estava moribunda, os disparos no Alemão e na Penha a atingiram em cheio, e pelas costas.

Se Rodrigo Bacellar ainda tinha esperança de se movimentar dentro da inércia do governador, inclusive disparando munição pesada contra a Polícia Militar, após um arrastão em Copacabana, a ação das polícias estaduais nestes últimos dias encurralou o deputado.

Cláudio Castro viu sua conta em rede social aumentar em mais de 1 milhão, a operação recebeu apoio de 70% de pesquisados, governadores de direita dos maiores estados da federação vieram ao encontro de Cláudio Castro e pior, o governo federal reagiu com a incapacidade de sempre, e ficou no meio do caminho: primeiro, criticou, e depois, quando viu a tsunami de apoio, resolveu embarcar na repercussão, mas não deu, e ficaram com cara de cachorro que caiu da mudança.  O mesmo aconteceu com Rodrigo Bacellar, por motivos distintos.

Ele se colocou contra um governo que ele não sabia que ia agir desse jeito. Agora, ficou sem a agenda da segurança pública, não porque seja contrário a ela, porém, ele é contrário ao seu principal executor.

Por tudo isso, Cláudio Castro é o dono da bola, e Rodrigo Bacellar não sabe o que fazer, e por isso, se esconde, como Wally.

Segurança pública não se faz com sangue

A operação mais letal da história do Rio de Janeiro, a Operação Contenção, nesta terça (28), expõe o fracasso e a violência estrutural da política de segurança no estado e coloca a cidade em estado de terror.

Rio de Janeiro (RJ), 28/10/2025 - Durante operação policia contra o Comando Vermelho, bandidos ordenam fechamento de comércio e usam lixeiras incendiadas para bloquear a via na rua Itapiru, no Catumbi. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

© Fernando Frazão/Agência Brasil

A chacina que se desenrola desde as primeiras horas desta terça-feira (28), nos complexos de favelas do Alemão e da Penha, na Zona Norte do Rio de Janeiro, inscreve-se em um longo e trágico histórico de matanças cometidas por forças policiais no estado — apresentadas, equivocadamente, como política pública. Até o momento, já são 64 pessoas mortas em uma única operação — a mais letal da história do Rio de Janeiro.

A perda massiva de vidas reitera o padrão de letalidade que caracteriza a gestão de Cláudio Castro, governador que detém o título de responsável por quatro das cinco operações mais letais da história do Rio de Janeiro, superando seus próprios recordes anteriores registrados no Jacarezinho (2021) e na Vila Cruzeiro (2022). O que o governador Cláudio Castro classificou hoje como a maior operação da história do Rio de Janeiro é, na verdade, uma matança produzida pelo Estado brasileiro.

Ao longo dos quase 40 anos de vigência da Constituição Federal, o que se viu nas favelas fluminenses foi a consolidação de uma política de segurança baseada no uso da força e da morte, travestida de “guerra” ou “resistência à criminalidade”. Trata-se de uma atuação seletiva, dirigida contra populações negras e empobrecidas, que tem no sangue seu instrumento de controle e dominação.

Não há nela elementos que efetivamente reduzam o poderio das facções criminosas nos territórios. Pelo contrário: essas ações aprofundam a insegurança e o medo, instalam o pânico, interrompem o cotidiano de milhares de famílias, impedem crianças de ir à escola e impõem o terror como expressão de poder estatal. A morte não pode ser tratada como política pública.

Esse ciclo de violência não é acidental: ele decorre de uma estratégia deliberada que privilegia o confronto armado em detrimento de qualquer compromisso com a vida e com a legalidade. Durante seu pronunciamento, o governador ainda tentou responsabilizar a Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental n.º 635 — a ADPF das Favelas — e as organizações da sociedade civil que atuaram por sua implementação, pela letalidade da operação. Ao fazer isso, ataca o controle das polícias, papel constitucionalmente atribuído ao Ministério Público, e busca deslegitimar o trabalho das entidades que lutam pelo direito à vida nas favelas.

Castro ainda atuou politicamente para esvaziar a ADPF 976 no Supremo Tribunal Federal, com o objetivo de liberar as forças de segurança de obrigações legais como planejamento prévio e preservação de vidas. Paralelamente, manteve a lógica de premiação pela letalidade ao sancionar, na nova Lei Orgânica da Polícia Civil, a gratificação por “bravura” — dispositivo que substitui a antiga “gratificação faroeste”, vetada após ampla reprovação social. Ao premiar o confronto e a morte, o governo estimula a mentalidade de guerra e transforma as comunidades em campos de batalha, onde moradores são tratados como “inimigos internos”.

O Manual sobre o Uso da Força e Armas de Fogo por Agentes da Segurança Pública, publicado pelo Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC), estabelece princípios fundamentais que devem orientar toda ação policial: legalidade, necessidade, proporcionalidade, precaução e responsabilidade. As operações conduzidas pelo Estado do Rio de Janeiro violam frontalmente todos esses parâmetros, configurando uma prática sistemática de uso ilegítimo da força letal.

O Brasil e o Estado do Rio de Janeiro já foram reiteradamente advertidos pela Organização das Nações Unidas e pela Comissão Interamericana de Direitos Humanos sobre o caráter racista e discriminatório da política de “guerra às drogas”, que define quem morre e quem vive nas favelas e periferias. O Estado fluminense acumula duas condenações na Corte Interamericana de Direitos Humanos — pelas chacinas de Acari (1990) e Nova Brasília (1994 e 1995) — e segue reproduzindo o mesmo padrão de violência. Nos últimos dez anos (2014–2024), 5.421 jovens de até 29 anos foram mortos em intervenções policiais, segundo o Instituto de Segurança Pública.

Desde os anos 1990, sucessivos governos ignoram propostas de segurança pública orientadas pela prevenção, pela redução da violência e pelo fortalecimento de direitos. O investimento segue voltado ao confronto, com resultados trágicos e repetidos: mais mortes, mais dor e nenhuma segurança.

O que se testemunha hoje é o colapso de qualquer compromisso com a legalidade e os direitos humanos: o Estado substitui a segurança pública baseada em direitos por ações militares de grande escala. Sob o pretexto da “guerra às drogas”, instala-se um estado de insegurança permanente, voltado contra a população negra e pobre das favelas. Não há justificativa para que uma política estatal, supostamente voltada à proteção da sociedade, continue a ser conduzida a partir do derramamento de sangue. A segurança pública deve garantir direitos, não violá-los. As moradoras e os moradores das favelas têm direito à vida, à integridade física e à paz — e isso não é negociável.
Rio de Janeiro (RJ), 28 de outubro de 2025.

Anistia Internacional Brasil
Justiça Global
Centro de Estudos de Segurança e Cidadania — CESeC
Conectas Direitos Humanos
Centro pela Justiça e o Direito Internacional — CEJIL
Instituto Papo Reto do Complexo do Alemão
Movimentos
Redes da Maré
Instituto de Estudos da Religião — ISER
Observatório de Favelas
Núcleo de Assessoria Jurídica Universitária Popular (NAJUP) Luiza Mahin
Movimento Unidos dos Camelôs
Grupo Tortura Nunca Mais — RJ
Fórum Popular de Segurança Pública do Rio de Janeiro
CIDADES – Núcleo de Pesquisa Urbana da Universidade do Estado do Rio de Janeiro
Instituto de Defensores de Direitos Humanos — DDH
Iniciativa Direito Memória e Justiça Racial
Frente Estadual pelo Desencarceramento — RJ
Instituto Terra Trabalho e Cidadania — ITTC
Associação de Amigos/as e Familiares de Pessoas Presas e Internos/as da Fundação Casa — Amparar
Gabinete Assessoria Jurídica Organizações Populares — GAJOP
Instituto Sou da Paz
Rede Justiça Criminal
Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional — FASE RJ
Rede Nacional de Advogadas e Advogados Populares — RENAP RJ
Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência
Casa Fluminense
Plataforma Justa


Fonte: Redes da Maré 

Um epitáfio para Roberto Kant de Lima

Morre Roberto Kant de Lima, professor da UFF e referência em segurança pública no Brasil

Roberto Kant de Lima, antropólogo e professor da UFF em Niterói

Soube hoje do falecimento do professor titular da Universidade Federal Fluminense, Roberto Kant de Lima, o que sem dúvida foi uma notícia triste para quem o conheceu. Tive a oportunidade de uma convivência mais próxima com o professor Kant quando ele esteve envolvimento no esforço de consolidação do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense, a convite do professora Lana Lage da Gama Lima no final dos anos de 1990.

Com o professor Kant aprendi que se pode ser academicamente rigoroso sem se perder o bom humor e o senso crítico frente às muitas idiossincrasias que marcam a vida universitária. Assim que nos conhecemos ele generosamente me presenteou com sua obraA Antropologia da acadêmia: quando os índios somos nós”, uma espécie de autobiografia onde se utilizou da sua experiência como estudante de doutorado na Universidade de Harvard para refletir sobre as dinâmicas e relações de poder presentes no ambiente acadêmico, mostrando como as hierarquias e disputas simbólicas moldam as práticas e os discursos dentro da universidade.  Nesse trabalho, que ele mesmo considerava desprentesioso, considero que o professor Kant nos ofereceu uma essencial para compreender as complexidades e contradições inerentes ao mundo acadêmico.

Apesar da temporada do professor Kant ter sido relativamente curta no CCH, guardei e cito sempre um bordão jocoso pelo qual ele demonstrava sua incredulidade sobre certas posições e declarações que claramente afrontavam a lógica. Nessas ocasiões, o professor Kant soltava um “eu estou confusa”, que era normalmente seguido de alguma observação mais direta sobre o que o interlocutor acabava de dizer. Com Kant de Lima, não havia muita paciência para aquilo que afrontava a sua inteligência.

Mas eu nunca confundi a irreverência e o aparente desprezo pelos ritos com falta de substância ou de profundidade, ou menos ainda de despreparo. A trajetória acadêmica pretérito e posterior ao CCH demonstra que ele deu o melhor de si na labuta acadêmica, algo que todos deveriam almejar, mas nem todos conseguem fazer.

Lembro que em nosso último encontro presencial que ocorreu em uma madrugada friorenta rodoviária de Caxambu (MG) onde esperavamos a partida  do ônibus de retorno ao Rio de Janeiro após participarmos de uma das reuniões anuais da Associação Nacional de Pós-Graduação e Pesquisa em Ciências Sociais (Anpocs), ele mais uma vez foi extremamente gentil comigo, e me desejou sorte na continuidade do processo de construção do CCH, da qual ele, mesmo à distância, continou contribuindo para consolidar.

Com certeza, a perda física de Robert Kant de Lima será mais sentida pelos seus familiares e companheiros de construção da UFF. Mas esta perda afeta para além da família e dos colegas da UFF, pois, sua contribuição e influência intelectual foram muito mais além, deixando suas marcas até aqui na Uenf.

Onde começa a selvageria? Onde acaba a civilização?

civilização

POR LUCIANE SOARES DA SILVA*

Este texto não traz nenhuma grande novidade. Mas o escrevo pensando em todos os alunos que já formei desde 2001 em Porto Alegre, nas cidades do interior do Rio Grande do Sul, no Rio de Janeiro  e como professora , pesquisadora e extensionista na Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro. O valor deste texto não estará na novidade, mas na experiencia histórica. Era frequente em minhas aulas com policiais gaúchos, uma narrativa sobre as glórias do passado, o respeito à família e a autoridade. Nos idos dos anos 2000, o tema dos direitos humanos era coisa dos vermelhos (ou do Partido dos Trabalhadores já que Olívio Dutra era governador naquele momento). Nós, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, acreditávamos que estávamos caminhando para superação destas representações sobre um passado, que ao final, era o saudosismo ditatorial. Era recusa a qualquer diálogo sobre a ordem democrática, sobre o suicídio e a saúde mental dos policiais, sobre a necessidade de mudança urgente nas ações de Secretaria de Segurança Pública.

Quando iniciei meus estudos no Rio de Janeiro, passei realmente os quatro anos de doutorado andando em favelas para entender a dinâmica daquele enfrentamento entre Estado e tráfico. Sim, como socióloga, eu precisava ver os acordos, precisava ouvir as formas de resolução de conflitos, precisava sentir como era a entrada de um caveirão na Favela da Maré. E tenho plena certeza de que toda injustiça sobre aqueles que não têm o poder de defesa, é um ato de covardia.

Em que momento esta covardia sofreu sua metamorfose ? Em que momento o uso do saquinho na cabeça passou a ser aplaudido e os homens de preto passaram a receber a idolatria da população?

Me espanta saber que chegamos a 2022 sem justiça por Marielle, por dezenas de crianças mortas nas favelas cariocas. Com índices altíssimos de encarceramento.  E tendo eleito um patrono de chacinas para governar o Rio de Janeiro.

Aí está  o ponto no qual minha experiência coletiva recupera um enredo complexo: temos recebido um ódio intenso. De homens e mulheres que defendem o aumento de armas. Não creio que seja uma patologia coletiva. Mas lendo Theodor Adorno penso sobre a profundidade de frustração de uma vida sem utopia, sem perspectiva revolucionária, dentro de um quadro decadente de capitalismo financeirizado.  Olhando as ações recentes do Estado, na ação truculenta de fiscais do TRE em Campos dos Goytacazes, na violência desmedida de policiais militares, na aceitação de mentiras e na confissão do presidente sobre desejos perversos e criminosos, me pergunto: como faremos oposição a intensa desumanização vivida desde 2016? Os bárbaros estão entre a população periférica? Quando o presidente conclui que meninas de 14 anos em uma comunidade, “bonitinhas” só podem estar “indo ganhar a vida” esta declaração explicita sua representação sobre o povo. O mesmo foi dito sobre os quilombolas na Hebraica. Monstruoso ele foi na Câmara ao defender a tortura diante de milhões de brasileiros.  Quando cresceu esta deformação odiosa e hipócrita entre nossos familiares? Que potência de morte os consome para que apoiem a tortura e esqueçam os parentes perdidos durante uma pandemia ?

Nossa ciência, que sempre pensou a cultura, a natureza, a civilização se depara com uma questão desagradável: a barbárie como conexão espiritual de um grupo cujo instrumento de ação é o ódio.

Bem vindos a luta de classes, bem vindos ás formas de racismo e xenofobia mais odiosos, bem vindos ao novo mundo velho.

Quanto a nós, em nosso desejo de vida, seguiremos nos salvando desta tragédia civilizatória. Brasil, quando chegam os bárbaros? Quem já os observa?

Oferto um poema de Kostantínos Kaváfis.

 “A espera dos bárbaros

O que esperamos nós em multidão no Fórum?

Os Bárbaros, que chegam hoje.

Dentro do Senado, porque tanta inação?
Se não estão legislando, que fazem lá dentro os senadores?

É que os Bárbaros chegam hoje.
Que leis haveriam de fazer agora os senadores?
Os Bárbaros, quando vierem, ditarão as leis.

Porque é que o Imperador se levantou de manhã cedo?
E às portas da cidade está sentado,
no seu trono, com toda a pompa, de coroa na cabeça?

Porque os Bárbaros chegam hoje.
E o Imperador está à espera do seu Chefe
para recebê-lo. E até já preparou
um discurso de boas-vindas, em que pôs,
dirigidos a ele, toda a casta de títulos.

E porque saíram os dois Cônsules, e os Pretores,
hoje, de toga vermelha, as suas togas bordadas?
E porque levavam braceletes, e tantas ametistas,
e os dedos cheios de anéis de esmeraldas magníficas?
E porque levavam hoje os preciosos bastões,
com pegas de prata e as pontas de ouro em filigrana?

Porque os Bárbaros chegam hoje,
e coisas dessas maravilham os Bárbaros.

E porque não vieram hoje aqui, como é costume, os oradores
para discursar, para dizer o que eles sabem dizer?

Porque os Bárbaros é hoje que aparecem,
e aborrecem-se com eloquências e retóricas.

Porque, subitamente, começa um mal-estar,
e esta confusão? Como os rostos se tornaram sérios!
E porque se esvaziam tão depressa as ruas e as praças,
e todos voltam para casa tão apreensivos?

Porque a noite caiu e os Bárbaros não vieram”.
E umas pessoas que chegaram da fronteira
dizem que não há lá sinal de Bárbaros.

E agora, que vai ser de nós sem os Bárbaros?
Essa gente era uma espécie de solução.


*Luciane Soares da Silva é é docente  e pesquisadora da Universidade Estadual do Norte Fluminense  (Uenf), onde atua como chefe Laboratório de Estudos sobre Sociedade Social e do Estado (Lesce)

Sete em cada dez familiares não têm notícias de parente encarcerado na pandemia

carcereFoto: Milad Fakurian/ UNSPLASH

bori

No período da pandemia, 69,6% das famílias apontam estar sem qualquer tipo de informação ou contato com parente encarcerado. Entre os familiares que têm conseguido manter algum tipo de contato com o preso, o acesso à informação tem se dado principalmente por meio de cartas ou pelos advogados e assistentes sociais das unidades prisionais. Esses são os resultados de estudo sobre os impactos da Covid-19 em familiares de presos do estado de São Paulo realizado pelo Núcleo de Estudos da Burocracia (NEB), da Fundação Getulio Vargas, em parceria com a Associação de Familiares e Amigos de Presos e Presas (AMPARAR).

Os pesquisadores realizaram um survey online com 1.283 familiares de pessoas que estão presas em unidades prisionais do estado de São Paulo, entre os dias 25 de junho e 4 de julho de 2020. Das 1.283 respondentes, 99% são mulheres. “É um dado que reflete a sobrecarga das mulheres, tanto mães quanto esposas, na atenção e no suporte ao familiar preso”, afirma Mariana Haddad, pesquisadora do NEB e do Núcleo de Pesquisa Escola da Metrópole. Com relação ao perfil da pessoa presa, cujo familiar respondeu à pesquisa, 97% foram apresentados como homens e 3% como mulheres. Deste total, 20,5% são presos provisórios e 89,4% encontram-se estão em regime fechado.

O acesso à informação por meio dos advogados particulares foi um dos principais motivos para os familiares afirmarem que o advogado tem ajudado a proteger o preso no contexto atual. Em resposta à pergunta ‘Você acredita que esse advogado tem ajudado a proteger seu familiar nesse momento de pandemia?’, 41,4% dos que acreditam que sim o justificam pelo fato de o advogado ser o único meio de notícias para ambos os lados (presos e familiares).

Preocupação com a saúde

Para 54,1% dos familiares respondentes, as condições de saúde do preso são a principal preocupação, sendo que 42% das famílias têm medo de contaminação do familiar preso com o coronavírus. Parte das famílias apresenta preocupação com os familiares asmáticos e se teriam acesso a bombinhas. Outros apontam apreensão com questões de saúde mental dos presos, especialmente dada a restrição de visitas. Há ainda depoimentos sobre o receio de que os agentes prisionais possam ser vetor de transmissão e levar o vírus para dentro das unidades.

Familiares entrevistados também apontam preocupação em relação ao familiar preso estar passando fome, visto que os presos não estão recebendo os chamando “jumbos”. Do mesmo modo, a questão da higiene dos presos também apareceu como uma preocupação no momento atual. Sem as visitas e, novamente, sem poder enviar materiais (“jumbos”), os familiares ficam com receio dos presos estarem sem os itens básicos de higiene, os quais seriam imprescindíveis na prevenção da Covid-19.

“Somado ao fornecimento limitado de refeições em algumas unidades prisionais, os dados apontam que as famílias estão com dificuldades de enviar o “jumbo”, tanto por conta da proibição de visitas quanto pelos problemas financeiros agravados pela pandemia do coronavírus. O cenário reforça a necessidade de inclusão de uma refeição noturna no cardápio das unidades prisionais como garantia de direitos básicos da pessoa presa e de condições adequadas de saúde em um contexto de pandemia”, avalia Gabriela Lotta, professora da EAESP FGV, coordenadora do NEB e pesquisadora do Centro de Estudos da Metrópole.

Acesso à Justiça e falta de suporte

A falta de suporte para lidar com a situação da pandemia também tem sido uma reclamação dos familiares de presos. Cerca de 96% das famílias alegaram não ter recebido qualquer suporte da Secretaria da Administração Penitenciária (SAP) neste momento. Ao avaliarem os diretores das unidades prisionais, 41% das famílias avaliam a atuação como ruim ou péssima no enfrentamento da situação, contra apenas 7% avaliando a atuação como boa ou ótima.

Três em cada quatro familiares entrevistados afirmam não acreditar que o defensor público ou o advogado particular possa proteger o familiar preso no contexto atual. E 30,8% apontaram a falta de atenção com a família, que fica muitas vezes sem retorno ou notícias. Quase metade (48%) dos familiares responderam que o preso tem advogado particular, enquanto 39% responderam que a defesa é realizada pela Defensoria Pública e 12% afirmaram não ter qualquer tipo de advogado ou defesa.

Dos respondentes que afirmam não acreditar que o defensor público tem ajudado a proteger o preso, 38% não conhecem o defensor público nem tiveram contato com ele. Com relação aos advogados, 46,3% dos familiares apontam que o fato de o advogado não ajudar neste momento não é culpa ou problema dele, já que há limitações externas neste momento.

“O que observamos é que, no sistema carcerário, a falta de informação, a dificuldade do efetivo acesso à Justiça, o atendimento precário à saúde e até a insegurança alimentar são questões que têm se tornado mais críticas com a pandemia”, afirma Giordano Magri, pesquisador do NEB.

Impacto socioeconômico da pandemia

Oito em cada dez familiares afirmaram que sua renda diminuiu nesse período, sendo que 26,5% ficaram sem rendimento. Além disso, 34% das famílias estão com dificuldades para se alimentar. A renda média das famílias respondentes também caiu e atingiu o valor aproximado de R$1.097,32, enquanto a renda per capita chegou a R$371,13, abaixo da linha da pobreza elaborada pelo Banco Mundial e adotada pelo IBGE. Para 44% das famílias, o Auxílio Emergencial é o principal meio de sobrevivência nesse momento. Todavia, 22,4% delas ainda não receberam o auxílio.

“O impacto socioeconômico causado pela pandemia do coronavírus atingiu diretamente as famílias de pessoas presas e, consequentemente, seus parentes privados de liberdade. Muitas dessas famílias dizem depender do Auxílio Emergencial para sobreviver nesse momento, mas uma parcela considerável delas ainda não teve acesso a esse suporte do governo federal”, afirma Claudio Aliberti, pesquisador do NEB.

fecho

Este artigo foi produzido e inicialmente publicado pela Agência Bori [Aqui! ].

Sinal dos tempos? MP/RJ realizará evento sobre segurança pública que terá Kim Kataguiri como “debatedor”

kim

Como se pode ver pelo flyer abaixo que me chegou via o Facebook, o Ministério Público do Rio de Janeiro marcou, para o dia 15/09, o evento “Segurança Pública como direito fundamental”, que contará com palestras e mesas de debate.

mp rj

Um detalhe que chama a atenção logo de cara é o fato de que,  entre os convidados para palestrar, constam os nomes do diretor do “Instituto Liberal”, Alexandre Borges e de Kim Kataguiri, líder do Movimento Brasil Livre (MBL), que recentemente foi flagrado apresentando dados incorretos sobre a reincidência de apenados que foram libertados do grotesco sistema prisional brasileiro.

 O evento contará ainda com uma curiosa mesa sobre “Bandidolatria e democídio” que ficamos sabendo ao ler o folder que se trata de uma discussão sobre “garantismo penal e criminalidade no Brasil”. Mas é isso mesmo? Confesso que fiquei meio sem entender!

Ah, sim, Kim Kataguiri está escalado para “debater” numa mesa sobre “Segurança pública e justiça”.  Outro participante da mesa é o empresário Roberto Motta (que chegar a ser o presidente da seção fluminense do Partido Novo) que pode ser visto  [Aqui!]. De quebra, os participantes ainda poderão ser brindados com as ideias de Alexandre Borges do Instituto Liberal, outro expoente do pensamento de direita que liderou a luta pelo impeachment de Dilma Rousseff.

Com esse tipo de debatedor e programação, o que será que poderemos esperar do MP/RJ na área da segurança pública? Eu particularmente não me sinto muito otimista. Será que sou o único que sente assim depois de ler o folder deste evento?

 

 

 

Evento no dia do desaparecimento do pedreiro Amarildo discutirá o dilema da segurança pública na ordem democrática

amarildo

No dia 14/07/2015, que marca o segundo aniversário do desaparecimento do pedreiro Amarildo Dias de Souza, o Foro Permanente de Sociologia Jurídica e o de Direitos Humanos realizarão debate na Escola da Magistratura do Estado do Rio de Janeiro/EMERJ sobre AUTOS DE RESISTÊNCIA E DESAPARECIMENTOS: O DILEMA DA SEGURANÇA PÚBLICA NA ORDEM DEMOCRÁTICA.
Estarão na mesa:

  • Desembargador Sérgio Verani
  • Juiz João Batista Damasceno
  • Deputado Marcelo Freixo
  • Advogado João Tancredo 
  • Delegado Orlando Zaccone D’Elia Filho

O evento no auditório térreo da EMERJ das 09:00 às 12:00h.  O auditório fica localizado na Rua Dom Manuel, 25, Centro, Rio de Janeiro.