Republicando um texto de 2011 e refletindo sobre sua atualidade: os riscos da fragmentação identitária

France. Class Struggle vs. Identity Struggles? - <span lang="fr">Rafik  Chekkat </span>

Em junho de 2011 publiquei o artigo abaixo no número 200 da hoje extinta revista “Somos Assim” e decidi republicar hoje porque me parece que algumas questões apontadas nele continuam merecendo ser respondidas.  Lembro que eu já havia republicado este texto em 2018 aqui neste blog, mas percebo que a atualidade permanece após quase 15 anos. 

As novas múltiplas identidades e o seu papel na perpetuação da exploração

Em uma das minhas visitas a uma rede social na internet encontrei um adesivo apontando para uma nova utopia “por um mundo sem racismo, machismo e homofobia”.  Em tese essa é uma utopia positiva, pois ninguém com uma visão democrática de vida iria querer viver ameaçado por alguma destas facetas opressivas. Mas uma coisa que me intriga é por que subitamente fomos tomados por uma consciência tão fracionada da violência cotidiana em que vivemos submetidos dentro do sistema capitalista. Aliás, pior, por que aceitamos tantas identidades para os oprimidos sem que ninguém se questione sobre quem foram seus criadores.

Uma primeira observação necessária é a de que, pelo menos no âmbito do Brasil, essas identidades foram introduzidas pela Fundação Ford em meados da década de 90 do Século XX.   Em uma visita que fiz à sede da Fundação Ford no Rio de Janeiro, após retornar do meu doutorado nos Estados Unidos, tive uma conversa com tintas de premonição dado que meu interlocutor me adiantou uma agenda de ações que se materializou dentro dos nossos discursos cotidianos na década seguinte.  Não devo ser o único a apontar a gênese norte-americana dessa multiplicidade de identidades que hoje conformam o discurso politicamente correto, usado por governantes e membros de organizações não-governamentais como se fosse um mantra da libertação social de supostas minorias oprimidas. Mas o fato é que esta gênese continua sendo meticulosamente escondida dos seus promotores.

Mas qual seria a razão da omissão da maternidade para os setores oprimidos pelo funcionamento das engrenagens sociais? A resposta para esta charada precisa ser buscada na utilidade que as mesmas tiveram no contexto da sociedade estadunidense. Se olharmos para o levante dos direitos civis a favor dos negros que ocorreu nos EUA ao longo da década de 60 do Século XX, veremos que a maioria das lideranças não possuía uma visão de questionamento da sociedade capitalista. Pelo contrário, buscava-se incluir os negros nos circuitos de consumo que historicamente estiveram reservados aos brancos. Ainda que num primeiro momento estas lideranças tenham sido perseguidas e algumas assassinadas (como no caso de Martin Luther King), esta agenda de inclusão progressiva acabou servindo para manter a maioria das estruturas sócio-econômicas e políticas basicamente intocadas.  Em suma, um movimento que nasceu com potenciais revolucionários, acabou sendo domesticado e assimilado.

 Ainda que os norte-americanos tenham tentado exportar o seu modelo de inclusão conservadora mesmo antes da queda do Muro de Berlim, foi justamente este evento que ofereceu a oportunidade que precisavam para fazê-lo.  O desmantelamento da URSS e a hegemonia neoliberal que se seguiram também contribuíram para a disseminação das tentativas de fragmentar a identidade dos oprimidos, coisa que acabou ocorrendo na década seguinte. Neste sentido, o aparecimento de múltiplas minorias como resultado do fracionamento das identidades que vigoraram desde quando Karl Marx lançou o Manifesto Comunista em 1848 (isto é burgueses e proletários) só foi possível devido ao desaparecimento de um dos contendores da Guerra Fria. Em outras palavras, estas múltiplas identidades são uma expressão direta do fracasso do socialismo real e da hegemonia, ainda que momentânea, da ideologia neoliberal. Por outro lado, o fato de que até partidos e movimentos sociais que se pretendem revolucionários tenham assimilado estas novas identidades expressa a força da ideologia neoliberal. Ainda que alguns desses partidos e movimentos tenham adotado o discurso politicamente correto e as identidades que o acompanham por motivos táticos (e até oportunistas), isto não diminui o fato de que a hegemonia neoliberal impôs uma nova e fragmentada visão dos oprimidos.  Essa fragmentação, aliás, implicou numa falácia muito eficaz que consiste em desviar a gênese da opressão das relações de classe para outros tipos de relação, como as raciais, étnicas, religiosas e de gênero.  É preciso reconhecer que esta é uma estratégia muito eficaz, pois agora chega a ser brega (senão coisa de dinossauros ideológicos) tentar explicar todas essas facetas da opressão como algo intrínseco ao próprio Capitalismo.

Mas em que pesem as dificuldades de se retomar um debate que privilegie a classe como categoria explicativa para as opressões de todos os tipos, a crise sistêmica que o sistema capitalista atravessa auxilia a sua retomada.  A verdade é que determinadas situações, como a que ocorreu recentemente na Praça Porta do Sol em Madri, demonstram de forma cabal que sem um entendimento de classe da realidade pouco adianta galvanizar as energias geradas pelo descontentamento social. E pior, o que começa com um potencial de impor transformações no status quo acaba servindo para alimentar aquelas facetas mais sombrias da sociedade contemporânea, já que em face da despolitização causada pela fragmentação identitária, a tendência sempre será de que o potencial de transformação seja anulado, resultando em frustração e raiva.

Finalmente, retornando ao inicio desta reflexão, eu me pergunto o que aconteceria se repentinamente o mundo acordasse sem racismo, machismo e homofobia. Será que estaria cessada toda a violência e opressão que vemos hoje pelo mundo afora?

Uma eulogia para Esdras Pereira

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Faleceu hoje o fotojornalista Esdras Pereira. A ele devo a experiência de ter conduzido meu primeiro esforço para dialogar e transferir conhecimento para fora dos muros da universidade por meio da revista semanal “Somos Assim”. É que a partir de um convite que surgiu de um papo pós-crepe, colaborei com a Somos Assim, um veículo que marcou época na cidade de Campos dos Goytacazes na primeira década do Século XXI por seu projeto jornalístico arrojado para uma cidade que teima em continuar provinciana.

Com os anos de Somos Assim, aprendi muito com o Esdras no tocante ao processo de comunicação, pois ele era a alma da revista, onde imprimia as suas digitais desde a preparação dos textos, passando pela aquisição de imagens, chegando na diagramação. Essa capacidade sempre me pareceu rara, pois apesar de estar claramente mais confortável com a câmera fotográfica na mão, o Esdras tinha plena capacidade de fazer tudo acontecer na Somos Assim  A verdade é que, acima de tudo, ele era uma pessoa exigente não apenas com seus colaboradores, mas principalmente consigo mesmo.

A experiência na Somos Assim também me trouxe a oportunidade de conhecer Esdras Pereira na intimidade da sua família, já que ele me abriu as portas da sua casa para incontáveis almoços que ele mesmo preparava com esmero e dedicação.  Era na cozinha que ele melhor combinava rigor com criatividade, e do seu fogão acabavam sempre saindo comidas deliciosas. Ali pude presenciar a face de marido e pai de um profissional que acima de tudo prezava pelo cuidado com os seus. Apesar de não ser o tipo de pai que passava a mão na cabeça dos filhos (na verdade filho e filhas), o Esdras era extremamente amoroso e preocupado com cada um deles, estivessem aqui em Campos dos Goytacazes ou na distante Macau.

Algo que sempre guardarei do Esdras era o seu compromisso com a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf). Por causa desse compromisso, ele se envolveu em refregas que eram mais minhas do que dele, mas sempre com uma disposição para fazer valer o que lhe parecia correto. Nesse sentido, a morte do Esdras representa a perda de um aliado da Uenf que em muitas ocasiões se mostrou mais defensor da universidade do que muitos que estiveram ou ainda estão dentro dela.

Outra briga que o Esdras assumiu e que acabou lhe custando dissabores fortes foi a defesa dos pequenos agricultores expropriados pelo governo do Rio de Janeiro para a implantação do Porto do Açu. Apesar de ter sido um entusiasta da implantação do porto, o Esdras assumiu a defesa das famílias do V Distrito de São João da Barra quando verificou o tratamento desumano que foi dado a elas.  Por essa postura, sempre respeitei as atitudes do Esdras, pois sabia que com ele, mesmo na discordância, havia espaço para o diálogo. E acima tudo serei grato, pois outros preferiram a posição cômoda de fingir que não estavam vendo o que estava sendo feito com famílias pobres que repentinamente tiveram suas terras tomadas em nome de um projeto de desenvolvimento que jamais se materializou.

Lamentavelmente não pude usufruir da companhia do Esdras nos últimos anos, e não consegui atender o convite que ele me enviou para estar na abertura de sua última mostra fotográfica, “Flores e Papiros”, que ocorreu recentemente no Galpão da Arte da Femac Móveis.  Mas se estivesse ido certamente teríamos compartilhado de boas gargalhadas, pois essa era uma marca registrada dos papos que  mantivemos ao longo da nossa convivência, mesmo em momentos em que não tínhamos concordância sobre um determinado assunto. E é a lembrança de sua poderosa gargalhada que sempre lembrarei do Esdras Pereira. E uma coisa é certa: gostando-se ou não dele, Esdras Pereira tinha uma personalidade que não passava despercebida.  

Descanse em paz Esdras Pereira!

Meninas de Guarus: a justiça para os pobres sempre tarda

A imagem abaixo é uma reprodução de uma matéria do portal G1 sobre a prisão de vários dos envolvidos no infame caso conhecido como “Meninas de Guarus” que agitou a cidade de Campos dos Goytacazes em 2009 (notem que o ano citado é 2009!).

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Não vou me alongar nos detalhes sobre os  agora condenados, mas nas vítimas. É que os detalhes que emanam das apurações apontam que crianças pobres eram submetidas até a 30 “programas” por dia, onde eram obrigadas a praticar sexos com adultos e sob a influência de todo tipo de drogas perigosas. Apenas estes detalhes sórdidos me fazem pensar que a sociedade falhou com essas crianças e continua falhando com adolescentes e adultos que eles já se tornaram após longos 7 anos de espera por justiça.

E quero novamente lembrar o papel que a Revista Somos Assim comandada pelo jornalista Esdras Pereira cumpriu para impedir que todos os crimes cometidos pelos envolvidos nesse caso hediondo ficassem impunes. Quando olho em retrospectiva para o papel que a Somos Assim cumpriu só posso me orgulhar de ter estado associado ao projeto pelo tempo em que ele abasteceu a cidade de Campos dos Goytacazes com informação qualificada e baseada no mais puro jornalismo investigativo.

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Quanto aos que agora estão sendo presos por condenações associadas ao Meninas de Guarus, eu espero que fiquem lá o tempo suficiente para que desapareçam quaisquer chances de retornarem a cargos públicos. Pode parecer pouco, mas num país como o Brasil onde as injustiças contra os pobres são perpetuadas todos os dias, isto já seria um bom começo.

Meninas de Guarus: por que a prisão dos pedófilos demorou tanto?

Hoje o caso “Meninas de Guarus” ganhou espaço na mídia nacional, e o nome dos presos no dia de ontem também (Aqui!,Aqui! e Aqui!). O que mais me intriga é por que um caso como esse demorou tanto a chegar na fase da prisão dos acusados. É que se fosse um grupo de pessoas humildes não seria de se estranhar que as prisões não tivessem levado cinco longos anos para ocorrer. Mas como no meio dos acusados estão pessoas de conhecimento notório e poder político e econômico, as vítimas e suas famílias tiveram que viver todo esse tempo no sobressalto, pois a chance da retaliação só diminuirá agora com o início das prisões.

Tenho notado que diversos personagens estão querendo se apresentar como a origem da denúncia. Mas aqui é preciso dizer que o crédito para que o caso não sumisse de circulação no seu nascedouro cabe ao jornalista Esdras Pereira que fez da sua revista “Somos Assim” um veículo de transparência sobre um capítulo sórdido da nossa história recente.  Deste modo, é bom que se dê o crédito a quem merece, e não a quem agora quer jogar para a torcida.