300 mil mortes pode ser uma subestimativa grosseira dos óbitos causados pela COVID-19 no Brasil

cemiterio

Por Matheus Magenta, da BBC News Brasil em Londres

300 mil mortes por COVID-19? Total já pode ter passado de 410 mil no Brasil, apontam pesquisadores.  Oficialmente, o Brasil ultrapassou nesta quarta-feira (24/3) a marca trágica de 300 mil mortos por covid-19 durante a pandemia. Mas registros hospitalares brasileiros apontam que o número de pessoas que morreram em decorrência de casos confirmados ou suspeitos da doença no país pode já ter passado de 410 mil.

Essa estimativa aparece em duas análises distintas, uma liderada por Leonardo Bastos, estatístico e pesquisador em saúde pública do Programa de Computação Científica da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), e outra pelo engenheiro Miguel Buelta, professor titular da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP).

Ambas se baseiam em dados oficiais de síndrome respiratória aguda grave (SRAG), um quadro de saúde caracterizado por sintomas como febre e falta de ar.

A legislação brasileira estabelece que todo paciente que é internado no hospital com SRAG precisa obrigatoriamente ter seus dados notificados ao Ministério da Saúde por meio do Sistema de Informação de Vigilância Epidemiológica da Gripe (conhecido como Sivep-Gripe). Esse sistema é utilizado há anos e permite saber quantos casos de infecções respiratórias necessitaram de hospitalização e evoluíram para óbito no país.

No primeiro semestre de 2019, foram registrados 3.040 óbitos por síndrome respiratória aguda grave. No mesmo período em 2020, foram registrados 86.651. Até o momento, de todas as pessoas com SRAG e resultado laboratorial para algum vírus na pandemia, mais de 99% acabaram diagnosticadas com covid.

Esses dados são considerados bons indicadores por não sofrerem tanto com a escassez de testes ou resultados falsos positivos. Mas há alguns problemas, entre eles o atraso: pode levar bastante tempo até uma internação ou uma morte ser contabilizada no sistema.

Então, como saber o número atual mais próximo da realidade? Como os pesquisadores chegaram à estimativa de 410 mil ou 415 mil mortes por doença respiratória grave?

Projeção do agora

Bem, os cientistas fazem o que se chama de nowcasting, que grosso modo é uma projeção não do futuro (forecasting), mas do agora. Isso se faz ainda mais necessário durante a pandemia por causa dessa demora da entrada dos registros de hospitalizações e mortes no sistema digitalizado.

É como se os dados disponíveis hoje no sistema oficial formassem um retrato desatualizado e cheio de buracos. Para preencher e atualizar essa imagem, é preciso calcular, por exemplo, qual é o tamanho desse atraso, de uma morte de fato à entrada do registro dela no sistema, a fim de “prever” o que está acontecendo atualmente.

Bastos lidera análises de nowcasting numa parceria que envolve o Mave, grupo da Fiocruz de Métodos Analíticos em Vigilância Epidemiológica, e o Observatório Covid-19 BR, grupo que reúne cientistas de diversas instituições (como Fiocruz, USP, UFMA, UFSC, MIT e Harvard).

“(O nowcasting) corrige os atrasos do sistema de notificação vigente, isto é, adianta-se as notificações oficiais futuras pelo tempo médio entre a ocorrência dos primeiros sintomas no paciente e a hospitalização, quando há o registro dos seus dados no sistema de vigilância. Esse tempo abrange várias etapas: desde procurar um hospital, coletar o exame, o exame ser realizado e o resultado do teste positivo para COVID-19 estar disponível para ser incluído no banco de dados. O tempo acumulado entre essas etapas do processo causa atrasos de vários dias entre o número de casos confirmados no Sivep-Gripe (plataforma oficial de vigilância epidemiológica) e os casos ainda não disponíveis no sistema, que são compensados somando aos casos já confirmados uma estimativa de casos que devem ser confirmados no futuro”, detalha o Observatório COVID-19 BR.

A dificuldade de monitorar em “tempo real” o que acontece durante epidemias é global, e diversos cientistas ao redor do mundo tentam achar soluções para esse problema.

Os cálculos atuais sobre a pandemia no Brasil liderados por Bastos foram feitos a partir da adaptação de um modelo estatístico proposto em 2019 por ele e mais oito pesquisadores.

Para apontar um retrato atual mais preciso da pandemia, essa modelagem estatística (hierárquica bayesiana) corrige os atrasos dos dados incorporando nos cálculos, por exemplo, a partir do conhecimento prévio da ciência sobre o que costuma acontecer durante o espalhamento de doenças como gripe. Mais detalhes no artigo disponível neste link aqui.

Para chegar até o número de 415 mil mortes por SRAG, Bastos explica à BBC News Brasil que são analisados primeiro os dados da semana atual e da anterior, a fim de identificar quantos casos e óbitos tiveram uma semana de atraso.

“Assim, aprendemos a respeito do atraso e usamos isso para ‘prever’/corrigir a semana atual e as últimas 15 semanas. O total de 415 mil mortes por SRAG é a soma dos casos observados acumulados até 15 semanas atrás com as estimativas mais recentes corrigidas.”

cemitério 2Cemitério no bairro Bom Jardim, em Fortaleza. Fonte: JARBAS OLIVEIRA/AFP

Em sua análise, Miguel Buelta, professor da USP, aponta um número parecido.

Ele explica em seu perfil no Twitter que analisou os dados de óbitos por COVID e SRAG até 14 de março e calculou a subnotificação dos últimos 60 dias a partir dos dados atrasados que foram entrando no sistema no período. “Fiz o cálculo para 14/01/2021. Subnotificação = 37% naquela data. Se este valor fosse mantido até hoje, no lugar dos 300 mil óbitos, poderíamos ter hoje 410 mil.”

Mas Buelta acredita que o valor pode ser ainda maior. “A situação atual é muito mais emergencial. É uma tragédia. Vamos todos lutar contra isso. Isolamento social e ajuda emergencial. Fora disso não há solução.” Mais detalhes sobre o modelo estatístico usado por ele aqui neste link.

1,7 milhão de internados

Na análise liderada por Bastos, da Fiocruz, estima-se que o Brasil tenha registrado mais de 1,7 milhão de internações durante a pandemia de coronavírus por causa de doenças respiratórias graves. Na pandemia de H1N1, em 2009, o total foi de 202 mil hospitalizações.

Ao se debruçar sobre os dados, ele aponta ainda uma tendência de piora na ocupação de hospitais no Distrito Federal e em nove Estados: Rondônia, São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Rio Grande do Norte, Espírito Santo, Maranhão, Ceará e Minas Gerais.

Todos eles têm mais de 20 hospitalizações por 100 mil habitantes. Em Rondônia, essa taxa chega a 49, por exemplo.

Por outro lado, Rio Grande do Sul e Santa Catarina parecem ter conseguido conter a tendência de alta das hospitalizações. Isso, no entanto, pode significar tanto que a situação melhorou quanto que não tem mais como o número piorar dada a superlotação dos hospitais. De todo modo, ambos os Estados ainda estão em um patamar bastante elevado, acima de 20 hospitalizados por 100 mil habitantes.

“Hospitalizações e óbitos só vão reduzir quando uma boa parcela das populações prioritárias, segundo o Programa Nacional de Imunização, forem imunizadas. Antes disso, sem uma redução efetiva da transmissão, veremos onda depois de onda”, afirma Bastos.

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Este texto foi publicado pela BBC News Brasil [Aqui!].

Cartórios registram mais de 1.000% de aumento nos óbitos por SRAG no período da pandemia no Brasil

No Rio de Janeiro o aumento de 2.500%. Chama atenção também o aumento do número de mortes por causa indeterminada no estado do Rio de Janeiro desde o início da pandemia, que registra aumento de 8.533% em comparação com 2019.

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COVID-19: Portal da Transparência dos Cartórios lança novo módulo detalhado de pesquisa de óbitos, e mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) disparam em 2020, com aumentos estaduais que chegam a mais de 6.000%

Os Cartórios de Registro Civil brasileiros registraram um aumento de 1.012% nos números de mortes por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) desde o registro do primeiro óbito no Brasil (16/03). Os dados fazem parte do novo módulo do Portal da Transparência do Registro Civil lançado nesta segunda-feira (27.04) e que reúne os dados relativos a óbitos causados pelo novo coronavírus e demais doenças respiratórias relacionadas à doença que causou a atual pandemia mundial.

O Painel COVID Registral (http://transparencia.registrocivil.org.br/registral-covid), que até a tarde desta segunda-feira (27.04) contabilizava 4.839 mortes suspeitas ou confirmadas por COVID-19, passa agora também a contabilizar registros de óbitos por Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), Pneumonia, Septicemia, Insuficiência Respiratória e Causas Indeterminadas, possibilitando ainda a comparação com o total de óbitos por causas naturais registrados pelos Cartórios em todo o Brasil, com recortes estaduais, municipais e por períodos determinados, sendo também possível a comparação dos dados de óbitos nos anos de 2019 e 2020.

Entre os Estados que mais contabilizaram aumento no número de mortes por SRAG está Pernambuco, com aumento de 6.357% no período da pandemia, seguido por Amazonas, aumento 4.050%; Rio de Janeiro, aumento de 2.500%, e Ceará, com aumento de 1.666%. O estado de São Paulo também registrou aumento, de 866%.  Também chama atenção o aumento do número de mortes por causa Indeterminada no estado do Rio de Janeiro desde o início da pandemia, que registra aumento de 8.533% em comparação com 2019. Os números absolutos podem ser verificados diretamente no Portal.

Desenvolvido mediante padrões profissionais da área médica, o painel traz uma metodologia própria de contabilização das causas mortis. Seguindo os critérios hierárquicos das regras do Código Internacional de Doenças (CID-10), procurando-se classificar a ordem das causas de falecimento de modo a especificar a doença que levou o paciente a óbito. Desta forma:

  • Condição 1: Quando na Declaração de Óbito (DO) houver menção de COVID-19, Coronavírus, Novo Coronavírus, considerou-se como causa COVID-19 (suspeita ou confirmada);
  • Condição 2: Menção Síndrome respiratória grave, considerou-se como causa Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG);
  • Condição 3: Menção de Pneumonia considerou-se como causa Pneumonia;
  • Condição 4: Sepse como única causa informada, considerou-se Sepse;
  • Condição 5: Insuficiência Respiratória como única causa informada, considerou-se Insuficiência Respiratória;
  • Condição 6: Se o óbito não foi classificado em nenhuma das condições anteriores, considerou-se Outra Causa.

“Os dados dos Cartórios de Registro Civil se mostraram úteis para profissionais da área médica de diversos Estados e municípios, assim como para toda a sociedade, podendo auxiliar governos na prevenção do avanço da doença entre a população”, explica o vice-presidente da Arpen-Brasil, Luis Carlos Vendramin Júnior. “Desta forma este novo painel busca refinar ainda mais os dados constantes nas Declarações de Óbitos, utilizando uma metodologia própria e a classificação internacional de doenças, de forma a darmos nossa contribuição para que Poder Público e sociedade conheçam o avanço da doença”, explica.

As estatísticas apresentadas na ferramenta se baseiam nas Declarações de Óbito (DO) – documentos preenchidos pelos médicos que constataram os falecimentos – registradas nos Cartórios do País relacionadas à COVID-19. Os novos gráficos permitem compreender ainda a proporção de óbitos por gênero e idade e, em breve, a identificação do local de falecimento, assim como o local de residência da pessoa falecida (nem sempre o mesmo em que veio a falecer).

Prazos do Registro

Mesmo a plataforma sendo um retrato fidedigno de todos os óbitos registrados pelos Cartórios de Registro Civil do País, os prazos legais para a realização do registro e para seu posterior envio à Central de Informações do Registro Civil (CRC Nacional), regulamentada pelo Provimento nº 46 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), podem fazer com que os números sejam ainda maiores.

Isto por que a Lei Federal 6.015 prevê um prazo para registro de até 24 horas do falecimento, podendo ser expandido para até 15 dias em alguns casos, enquanto a norma do CNJ prevê que os cartórios devem enviar seus registros à Central Nacional em até oito dias após a efetuação do óbito. Portanto, o portal que é atualizado dinamicamente

A Covid-19 é uma doença altamente contagiosa que já deixou mais de 180 mil mortos no mundo. A primeira morte em decorrência da infecção pelo novo coronavírus foi registrada no Brasil no dia 16 de março. Entre seus sintomas, estão tosse seca, coriza, dor no corpo e febre – todos muito semelhantes aos apresentados em casos de gripes e resfriados. Segundo dados do Ministério da Saúde 86% dos casos de Covid-19 não apresentam sintomas. Para garantir o diagnóstico, são necessários testes específicos, que estão cada vez mais escassos nos postos de atendimento.

Sobre a Arpen-Brasil

Fundada em setembro de 1993, a Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil) representa a classe dos Oficiais de Registro Civil de todo o país, que atendem a população em todos os estados brasileiros, realizando os principais atos da vida civil de uma pessoa: o registro de nascimento, o casamento e o óbito.

Assessoria de Imprensa da Arpen-Brasil

Assessores de Comunicação: Alexandre Lacerda, Ana Flavya e Fernanda Grandin

Tel: (11) 3116-0020

E-mail: imprensa@arpenbrasil.org.br

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Registros de mortes por SRAG disparam, revelando os efeitos devastadores da COVID-19 no Brasil

efeito manadaO número de mortes por insuficiência respiratória bate recordes, revelando real impacto das infecções por coronavírus no Brasil

No dia 07 de Abril publiquei uma nota sobre o f aumento explosivo da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em meio à pandemia da COVID-19, e que servia para ocultar a grave subnotificação que está ocorrendo no Brasil em relação às infecções e óbitos causados pelo coronavírus.

Pois bem, graças aos registros de todos os óbitos ocorridos nos 114 dias iniciais de 2020 que estão no Portal da Transparência do Registro Civil, agora já se pode ter uma ideia da gravidade com que a SRAG está se abatendo sobre a população brasileira, ainda que os registros oficiais de infecção do coronavírus continue na ordem de 14 casos por um milhão de habitantes.

É que, como mostra o gráfico abaixo, apenas no período de 114 dias já morreram 43.407 brasileiros por insuficiência respiratória contra um total de 46.074 para todo o ano de 2019.

srag 2019 2020

Essa discrepância toda ocorre em meio à pandemia da COVID-19 e enfrenta uma ausência óbvia de testes, especialmente em áreas consideradas como epicentros como é o caso dos estados do Rio de Janeiro, São Paulo, Ceará e Amazonas.  No quesito de testes, por exemplo, o Brasil realizou até agora uma taxa de 1.373 testes por milhão de habitantes, enquanto a Venezuela (tão apontada como o espelho do caos pelos apoiadores do presidente Jair Bolsonaro) realizou 12.211 testes por milhão de habitantes. 

bolson covid 19Ao contrário do que afirma publicamente, o presidente Jair Bolsonaro deve saber que a COVID-19 não é uma simples “gripezinha”

Para piorar o Brasil já é segundo colocado no número de casos graves no mundo, com um total de 8.318 pacientes, contra 14.016 casos dos EUA que possuem oficialmente 20 vezes mais casos de infectados que o nosso país.

Nesse sentido, é interessante notar a fala do governador do estado de Nova York, Andrew Cuomo, que apontou o Brasil como um mau exemplo onde os governantes estão aplicando a teoria do “efeito de manada” para que haja um aumento exponencial do número de infectados na expectativa de que isso aumente o grau de imunidade da população, deixando que os que tiverem que morrer, morram.

O uso do “efeito de manada” pode até parar a pandemia, mas terá efeitos devastadores

O resultado objetivo da aceitação (e naturalização) dos efeitos mortíferos do uso do “efeito de manada” será o aumento exponencial de mortes nas próximas semanas.  É que, ao contrário das estimativas fictícias apresentadas pelo ministro da Saúde Nelson Teich de que o Brasil está com uma taxa de letalidade pequena para a COVID-19, os dados dos cartórios mostram que há sim um efeito devastador sobre milhares de famílias brasileiras. Por isso, a abertura do comércio em diversos estados e municípios que estavam aplicando o distanciamento social deverá ampliar ainda mais o alcance do vírus e, consequentemente, o número de mortos.

Em poucas palavras, o Brasil está sendo palco de uma política deliberada de “deixar o vírus se espalhar”, claramente na expectativa de que a maioria dos mortos fique circunscrita às regiões periféricas das grandes cidades, onde corriqueiramente os mortos passam despercebidos.

Meu nome é COVID-19, mas pode me chamar de SRAG

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Um dos meios de se abafar um determinado problema é chamá-lo por outro nome.  E esse parece ser exatamente o caminho que os governantes brasileiros estão escolhendo para achatar artificialmente a curva do número de mortes pelo coronavírus (a.k.a. COVID-19).  

É que os dados oficiais estão registrando, e a mídia corporativa noticiando de forma não relacional, o aumento explosivo da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG) em meio à pandemia da COVID-19, como se uma coisa não tivesse muito a ver com a outra, quando tem.

Vejamos por exemplo, os dados de SRAG que foram compilados pelo jornal “O POPULAR” que é publicado em Goiânia para  o período de 2016 a 2020 (que mal chegou a abril) que demonstram um aumento explosivo para essa condição no estado de Goiás.

doenças respiratórias

Fonte: O Popular

Ainda que a SRAG possa  ser causada por diversos tipos de vírus, o fato é que, neste momento, o número acachapante de casos em meio à pandemia do COVID-19 deveria servir para que providências mais severas fossem tomadas para se testar de forma célere os pacientes para se determinar qual agente infeccioso foi responsável por causar a condição.  Mas até onde se sabe, não é isso que está ocorrendo e muitos estão sendo enterrados sem que os testes estejam sequer sendo realizados.

Por isso é que cresce a taxa de subnotificação e, por consequência, o risco de que o Brasil se torno o próximo epicentro global do COVID-19.  Enquanto isso, os números da SRAG poderão continuar sendo contabilizados, como se uma coisa não tivesse nada a ver com a outra.