O Super El Niño começa a mostrar os dentes — e o Vale do Ribeira já sente seus efeitos

Enchentes em São Paulo, Paraná e no Sul mostram que o evento climático extremo de 2026 já começou a cobrar sua conta — meses antes do verão

O texto publicada por James Dinneen na revista Nature em 13 de setembro traz um alerta que deveria receber atenção especial no Brasil: o El Niño de 2026 não apenas está se fortalecendo muito rapidamente, como apresenta características que dificultam utilizar os grandes eventos anteriores como simples modelos para antecipar o que acontecerá nos próximos meses. Estamos diante do primeiro El Niño forte predominantemente formado no Pacífico oriental desde o final da década de 1990, mas agora operando sobre um planeta quase três décadas mais quente.  

A questão central levantada pela Nature é justamente essa combinação. O El Niño modifica a circulação atmosférica e redistribui chuva e calor em escala planetária, mas seus efeitos não são idênticos em todos os episódios. A localização do aquecimento do Pacífico, a intensidade alcançada pelo fenômeno e sua interação com outros componentes do sistema climático determinam respostas diferentes. O evento de 2026 apresenta ainda uma particularidade inquietante: começou a se fortalecer mais cedo do que grandes El Niños anteriores, incluindo os de 1997 e 2015, e alguns modelos indicam que poderá alcançar intensidade excepcional.

Os efeitos já aparecem em diferentes partes do planeta. A pesca da anchoveta no Peru foi profundamente afetada pelo aquecimento das águas superficiais; secas atingem América Central e Caribe; incêndios se intensificaram na Indonésia; problemas começam a aparecer na agricultura e na segurança alimentar de partes da África e da Ásia; enquanto Chile e Peru experimentaram episódios de precipitação extrema e inundações. Em outras palavras, embora o El Niño ainda esteja caminhando para sua fase mais intensa, a conta climática começou a chegar.

No Brasil, não é mais necessário olhar para o outro lado do planeta para encontrar sinais dessa mudança. O Vale do Ribeira está oferecendo neste momento uma demonstração particularmente preocupante do tipo de situação que poderá acompanhar os próximos meses.  As chuvas dos últimos dias provocaram forte elevação do rio Ribeira de Iguape, enchentes, isolamento de comunidades e retirada de famílias de suas residências. Em Iguape foram registrados 158 milímetros de chuva em três dias e, em Eldorado, o rio Ribeira chegou a subir aproximadamente nove metros. Municípios como Eldorado, Iporanga e Barra do Turvo entraram em situação de emergência, enquanto outras localidades da região também registraram desabrigados, desalojados e interrupções de infraestrutura.

O problema tampouco termina no Vale do Ribeira. O Cemaden alertou para riscos hidrológicos e de movimentos de massa em uma extensa faixa que compreende São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Sul, os níveis dos rios Iguaçu e Uruguai permaneceram elevados; em São Paulo, além da bacia do Ribeira de Iguape, outras bacias apresentaram propagação de ondas de cheia. As enchentes atualmente observadas em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo são compatíveis com o padrão de excesso de precipitação associado ao El Niño que já está estabelecido.

Há algo especialmente inquietante nessa situação: estamos apenas em setembro. Os próprios órgãos federais de monitoramento climático já haviam advertido que o El Niño permaneceria ativo pelo menos até o início de 2027, com elevada probabilidade de alcançar intensidade muito forte durante a primavera e o verão. O cenário para setembro, outubro e novembro aponta chuvas acima da média em áreas do Sul, enquanto partes do centro-norte brasileiro deverão experimentar justamente o fenômeno oposto: redução das precipitações combinada com temperaturas elevadas e agravamento do déficit hídrico.

Esse é um aspecto que frequentemente desaparece quando se reduz o El Niño simplesmente à ideia de “mais chuva”. O fenômeno funciona como um gigantesco reorganizador da circulação atmosférica. Enquanto determinadas regiões enfrentam precipitações extremas, enchentes e deslizamentos, outras podem experimentar secas, ondas de calor, incêndios florestais e perda de produtividade agrícola. O mesmo evento climático pode produzir simultaneamente excesso e escassez de água dentro de um país de dimensões continentais como o Brasil.

No Vale do Ribeira, entretanto, existe ainda outra dimensão que precisa ser considerada. Estamos falando de uma região com grande concentração de Mata Atlântica preservada e importante presença de comunidades rurais, indígenas e quilombolas, muitas delas estabelecidas em áreas diretamente dependentes dos rios e das estradas regionais. Uma enchente, portanto, não significa apenas casas alagadas. Pode significar isolamento territorial, perda de cultivos, interrupção de transportes, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e comprometimento das condições de reprodução econômica e social dessas comunidades.

Aliás, não se pode alegar completa surpresa. Ainda em julho, um seminário realizado em Registro reuniu pesquisadores, produtores rurais e técnicos justamente para discutir os riscos do El Niño para a agricultura do Vale do Ribeira. Poucos dias antes das atuais enchentes, a Câmara Municipal de Registro realizou uma audiência pública sobre prevenção de enchentes diante da perspectiva de eventos climáticos extremos.

O que está ocorrendo agora deveria, portanto, ser interpretado menos como uma anomalia meteorológica isolada e mais como um primeiro teste concreto da capacidade brasileira de enfrentar o ciclo climático que está começando.

Há ainda uma diferença fundamental entre 2026 e os grandes El Niños do passado. Como enfatiza a reportagem da Nature, o fenômeno atual está se desenvolvendo sobre um planeta substancialmente mais quente. Isso significa que a atmosfera pode conter mais vapor d’água e que eventos de precipitação extrema podem ganhar intensidade. Significa também que períodos secos podem ocorrer sob temperaturas mais elevadas, ampliando evapotranspiração, déficit hídrico e risco de incêndios. O El Niño não criou o aquecimento global, mas está atuando sobre o novo patamar climático produzido pela acumulação de gases de efeito estufa.

É justamente por isso que a situação do Vale do Ribeira precisa ser observada com atenção muito além das fronteiras paulistas. As imagens de rios transbordando, famílias deixando suas casas e comunidades ficando isoladas podem estar mostrando apenas os primeiros capítulos de um ciclo que deverá atravessar a primavera e o verão brasileiros.

A pergunta decisiva, portanto, não é mais se o El Niño de 2026 produzirá impactos no Brasil. Ele já está produzindo. A pergunta agora é se governos municipais, estaduais e federal utilizarão os sinais emitidos pelo Vale do Ribeira e por outras regiões atingidas para preparar sistemas de Defesa Civil, infraestrutura, agricultura, saúde pública e proteção das populações vulneráveis para aquilo que ainda poderá vir.

Se as projeções apresentadas pela Nature e pelos órgãos brasileiros de monitoramento estiverem corretas, o que estamos vendo em setembro não representa o final de uma crise climática. Pode ser apenas o seu começo.

Do Nepal ao Brasil: a adaptação climática deixou de ser escolha e virou questão de sobrevivência

Em artigo publicado nesta quinta-feira (10/09), na seção Tendências/Debates da Folha de S.Paulo, os pesquisadores Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo fazem um alerta que deveria ocupar lugar central no debate público brasileiro: diante do avanço da crise climática, antecipar os impactos já não é apenas desejável; tornou-se condição para reduzir mortes, perdas econômicas e destruição de infraestrutura.

Intitulado “Do Nepal ao Brasil, antecipação é decisiva para a adaptação climática”, o texto parte do recente colapso glacial ocorrido na região de Langtang Lirung, no Nepal. O evento produziu uma violenta enxurrada associada ao derretimento de gelo, capaz de destruir estradas, pontes, instalações e comunidades em poucos minutos. O ponto importante levantado pelos autores é que tais acontecimentos deixaram de poder ser tratados simplesmente como “desastres naturais”. O aquecimento do clima está alterando rapidamente as condições que controlam geleiras, chuvas extremas, secas, enchentes e deslizamentos, enquanto boa parte das sociedades continua planejando o território com base em um clima que já não existe.

Há ainda uma dimensão de justiça climática que merece destaque. Como observam Artaxo, Getirana e de Christo, o Nepal contribuiu muito pouco para a crise climática global, mas figura entre os países mais vulneráveis aos seus efeitos. Essa assimetria recoloca no centro do debate a responsabilidade histórica das grandes economias emissoras e a necessidade de financiamento, transferência tecnológica e cooperação internacional para adaptação. Não basta reconhecer que certos países e populações são vulneráveis; é necessário criar condições materiais para que possam se proteger.

Para o Brasil, o alerta ganha uma dimensão adicional diante do Super El Niño de 2026-2027, mencionado pelos autores como potencial amplificador de extremos climáticos. Ondas de calor, secas na Amazônia e no Nordeste, enchentes, tempestades e deslizamentos no Sul e em áreas costeiras poderão testar duramente sistemas urbanos e infraestruturas que já demonstram fragilidades mesmo sob condições menos extremas. O problema torna-se particularmente grave porque nossas cidades cresceram, em grande medida, ignorando rios, encostas, áreas inundáveis e limites ambientais.

Um aspecto especialmente relevante do artigo é a defesa da antecipação. Isso significa abandonar a lógica predominante segundo a qual governos esperam o desastre ocorrer para então mobilizar Defesa Civil, decretar emergência e contabilizar prejuízos. Os autores defendem o fortalecimento de sistemas de monitoramento e alerta, modelos climáticos e hidrológicos de maior resolução, protocolos de segurança, intervenções de urbanismo climático e novas formas de governança capazes de transformar previsões científicas em medidas concretas de proteção.

Essa discussão é particularmente pertinente no Brasil, onde existe conhecimento técnico suficiente para identificar muitas das áreas que sofrerão com enchentes, deslizamentos, secas ou calor extremo, mas frequentemente falta transformar esse conhecimento em planejamento territorial, investimento público e políticas preventivas permanentes. A tragédia, portanto, muitas vezes começa bem antes da chuva, da enchente ou da onda de calor: começa quando alertas científicos são ignorados, obras de prevenção são adiadas e a ocupação de áreas vulneráveis continua sendo tolerada.

O artigo de Paulo Artaxo, Augusto Getirana e Pedro Henrique de Christo, publicado pela Folha de S.Paulo, traz assim uma mensagem simples, mas incômoda: não podemos impedir todos os eventos extremos que já foram colocados em movimento pela mudança climática, mas podemos decidir quantas pessoas estarão expostas a eles e quão devastadores serão seus efeitos. Em tempos de Super El Niño e aquecimento global acelerado, esperar o desastre para agir não constitui falta de previsão. É uma escolha política.

Super El Niño de 2026-2027 poderá antecipar em uma década o clima da Terra

Projeções mostram que 2027 pode atingir 1,76°C acima dos níveis pré-industriais e funcionar como uma janela para o clima que, pela tendência atual, seria esperado apenas por volta de 2037

O material mostrado acima e que foi publicado pelo The Washington Post em sua conta no Instagram chama atenção para uma característica particularmente preocupante do atual ciclo do El Niño: sua combinação com o aquecimento global provocado pelas emissões humanas poderá fazer com que o planeta experimente, já em 2027, temperaturas que, seguindo a tendência recente de aquecimento, seriam esperadas apenas por volta de 2037.

A comparação é especialmente didática porque mostra que o El Niño não cria sozinho o aquecimento global. O fenômeno funciona, neste caso, como uma espécie de “máquina do tempo climática”. Durante um El Niño intenso, enormes quantidades de calor acumuladas no Pacífico tropical ocidental deslocam-se para leste. A atividade atmosférica acompanha esse deslocamento e transfere parte do calor armazenado no oceano para a atmosfera; a circulação atmosférica, por sua vez, contribui para redistribuí-lo pelo planeta.

O problema é que esse fenômeno natural ocorre agora sobre um planeta que já foi profundamente aquecido pela ação humana. As concentrações crescentes de gases de efeito estufa, resultantes principalmente da queima de carvão, petróleo e gás natural, elevaram a temperatura média da Terra. O El Niño acrescenta temporariamente mais calor a esse sistema já aquecido.

É justamente essa combinação que torna os números apresentados pelo Washington Post tão significativos. Segundo as projeções reproduzidas pelo jornal, existe cerca de 95% de probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início dos registros instrumentais, que remontam ao século XIX. A temperatura média global poderia chegar a aproximadamente 1,76°C acima da média pré-industrial.

Isso não significa que o planeta terá atingido definitivamente esse patamar de aquecimento. Com o enfraquecimento do El Niño, 2028 poderá apresentar uma temperatura inferior à de 2027. Entretanto, esse recuo temporário não deve ser confundido com uma reversão do aquecimento global. O cientista climático Zeke Hausfather resume bem essa diferença ao observar que as emissões humanas estão acrescentando ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor comparável ao efeito de um El Niño.

A imagem da escada talvez seja a melhor forma de compreender o problema. Os grandes episódios de El Niño podem produzir degraus temporários para cima, enquanto as emissões humanas continuam elevando permanentemente o nível da própria escada. Depois que o El Niño desaparece, a temperatura pode recuar parcialmente, mas o planeta não retorna às condições climáticas anteriores.

Há ainda um aspecto político importante nessa discussão. O número de 1,76°C chama atenção porque ultrapassa temporariamente a referência de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Um único ano acima desse limite não significa formalmente que a meta tenha sido definitivamente ultrapassada, pois ela se refere ao aquecimento médio de longo prazo. Entretanto, experimentar antecipadamente temperaturas próximas de 1,8°C poderá revelar de maneira bastante concreta como funcionará um planeta permanentemente mais quente.

E é precisamente aí que o atual Super El Niño deve servir de alerta. Ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e enchentes não resultarão exclusivamente do El Niño, nem ocorrerão de maneira uniforme em todas as regiões. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura; ao interagir com um clima progressivamente aquecido, porém, aumenta a possibilidade de extremos mais severos em diferentes partes do planeta.

Para o Brasil, essa discussão deveria ocupar posição central no planejamento governamental. O país reúne grandes concentrações populacionais em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, extensas regiões sujeitas a secas e incêndios e uma infraestrutura urbana que frequentemente demonstra pouca capacidade de enfrentar eventos meteorológicos extremos. Conhecemos cada vez melhor os riscos, mas seguimos investindo muito menos do que seria necessário em prevenção e adaptação. Talvez essa seja a mensagem mais importante do material publicado pelo Washington Post. O Super El Niño de 2026-2027 não está simplesmente produzindo uma anomalia climática passageira. Ele poderá oferecer uma antecipação das condições que tendem a se tornar normais dentro de pouco mais de uma década se as emissões continuarem crescendo.

Nesse sentido, 2027 poderá funcionar como uma janela aberta para 2037. O que veremos através dela não deverá ser tratado como uma curiosidade meteorológica, mas como uma advertência sobre o mundo que estamos construindo. E, diferentemente do El Niño, que eventualmente termina, o aquecimento provocado pela acumulação de gases de efeito estufa não desaparecerá quando as águas do Pacífico voltarem a esfriar.


Fonte do material gráfico e das informações apresentadas nas imagens: Instagram do The Washington Post, publicação de 13 de agosto de 2026.

Super El Niño, austeridade fiscal e a crise da adaptação climática: por que o litoral brasileiro continua caminhando para um desastre anunciado

Embora a ciência já disponha de informações suficientes para antecipar grande parte dos impactos do fortalecimento do El Niño, a ausência de planejamento territorial, a destruição dos ecossistemas costeiros e a persistência das políticas de austeridade mantêm o Brasil perigosamente vulnerável a uma sucessão de desastres que já deixaram de ser imprevisíveis

Os modelos climáticos produzidos pelos principais centros internacionais de monitoramento convergem para um diagnóstico preocupante: o atual episódio de El Niño deverá permanecer ativo ao longo dos próximos meses e poderá atingir grande intensidade até o final de 2026. Trata-se de um cenário que merece atenção especial porque ocorre em um contexto marcado pelo aquecimento excepcional do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul, resultado do avanço das mudanças climáticas induzidas pelas emissões de gases de efeito estufa. A interação entre esses diferentes fatores aumenta significativamente a probabilidade de ocorrência de eventos extremos em diversas regiões brasileiras.

No entanto, limitar a discussão aos aspectos meteorológicos seria um equívoco. O problema central não reside apenas na intensidade que o El Niño poderá alcançar, mas na elevada vulnerabilidade construída ao longo de décadas de ocupação desordenada do território, degradação ambiental e sucessivos adiamentos das políticas públicas de adaptação climática. O fenômeno climático funciona como um poderoso multiplicador de riscos, incidindo sobre uma costa que já se encontra profundamente fragilizada por decisões políticas e econômicas que reduziram sua capacidade natural de enfrentar eventos extremos.  Essa constatação é particularmente importante quando se observa o litoral brasileiro. Ainda prevalece entre grande parte da população a percepção de que os efeitos do El Niño se resumem ao aumento ou à redução das chuvas. Embora essa seja uma das manifestações mais conhecidas do fenômeno, seus impactos sobre as zonas costeiras são muito mais complexos e potencialmente mais destrutivos.

Ao alterar a circulação atmosférica sobre a América do Sul, o El Niño modifica a frequência e a intensidade da atuação de frentes frias, ciclones extratropicais e sistemas de ventos persistentes. Quando esses processos coincidem com marés elevadas e com um oceano mais aquecido, cria-se um ambiente extremamente favorável à ocorrência de ressacas, alagamentos costeiros, erosão acelerada das praias e danos à infraestrutura instalada junto à linha de costa.

Por outro lado, existe ainda um mecanismo pouco conhecido fora dos círculos especializados, mas decisivo para compreender o agravamento da erosão costeira. Ventos persistentes transferem maior quantidade de energia para a superfície do oceano, elevando a altura, o período e a força das ondas que alcançam o litoral. Como consequência, aumenta a velocidade da coluna d’água na zona de arrebentação, intensificam-se as correntes longitudinais ao longo das praias e tornam-se mais vigorosas as chamadas correntes de retorno (rip currents), responsáveis pelo transporte de grandes volumes de areia para áreas mais profundas.

O resultado desse conjunto de processos é uma remoção acelerada dos sedimentos que naturalmente protegem as praias. À medida que o estoque sedimentar diminui, a faixa de areia se estreita, a linha de costa recua e cresce a exposição de dunas, calçadões, rodovias, edificações e outras infraestruturas construídas em áreas extremamente vulneráveis. O problema fica ainda mais grave porque a erosão apresenta caráter cumulativo: cada ressaca intensa reduz a capacidade natural da praia de dissipar a energia das ondas seguintes. Em consequência, tempestades de intensidade moderada podem provocar danos muito superiores aos observados anteriormente, simplesmente porque a costa já perdeu parte de seus mecanismos naturais de proteção.

Entretanto, os impactos do fortalecimento do El Niño não se restringem às regiões sujeitas ao excesso de chuvas e às ressacas. Em áreas onde o fenômeno tende a reduzir as precipitações e elevar as temperaturas, como porções da Amazônia e do Nordeste brasileiro, a diminuição das vazões fluviais favorece a intrusão de água salgada em estuários, lagoas costeiras e aquíferos, altera o equilíbrio ecológico de manguezais e compromete atividades fundamentais como a pesca artesanal, além do abastecimento de água de inúmeras comunidades.

Esse quadro torna-se ainda mais preocupante porque hoje não é mais possível interpretar os impactos costeiros exclusivamente a partir das oscilações do Oceano Pacífico. O aquecimento persistente do Atlântico Tropical e do Atlântico Sul adiciona calor e umidade à atmosfera, potencializando tempestades, alterando padrões de circulação dos ventos e intensificando a energia das ondas que alcançam o litoral brasileiro. Em outras palavras, os impactos que deverão ser observados ao longo dos próximos meses resultarão da interação entre a variabilidade climática natural representada pelo El Niño e um sistema climático já profundamente alterado pelo aquecimento global.

Mas reduzir essa discussão aos processos físicos significaria ignorar um aspecto ainda mais importante: a vulnerabilidade costeira brasileira é, antes de tudo, uma construção social e política. Embora eventos extremos façam parte da dinâmica natural do sistema climático, sua transformação em desastres depende diretamente das formas de ocupação do território. Nas últimas décadas, o litoral brasileiro passou por um intenso processo de expansão imobiliária, impulsionado por grandes empreendimentos turísticos, resorts, condomínios fechados, complexos residenciais de alto padrão e obras de infraestrutura voltadas à valorização econômica da faixa costeira. Em muitos casos, essa expansão ocorreu precisamente sobre os ambientes que desempenham papel fundamental na proteção natural da costa.

Dunas, restingas, manguezais, praias, áreas úmidas e remanescentes de Mata Atlântica não constituem obstáculos ao desenvolvimento, como frequentemente sugerem setores interessados na flexibilização da legislação ambiental. Ao contrário, esses ecossistemas representam uma verdadeira infraestrutura natural de adaptação às mudanças climáticas.  As dunas armazenam e redistribuem sedimentos, permitindo que as praias recuperem parte do material perdido durante ressacas. A vegetação de restinga estabiliza a areia e reduz a erosão provocada pelo vento. Os manguezais dissipam parte da energia das ondas e das marés, diminuindo a intensidade das inundações costeiras. Já a Mata Atlântica desempenha papel essencial na estabilização de encostas e na regulação hidrológica das bacias que deságuam no litoral.

Quando esses ecossistemas são substituídos por concreto, asfalto e grandes empreendimentos imobiliários, perde-se justamente a primeira linha de defesa contra eventos extremos. O resultado é um aumento expressivo da exposição ao risco, acompanhado da necessidade crescente de obras de engenharia cada vez mais caras e, muitas vezes, incapazes de reproduzir os serviços ambientais anteriormente prestados pelos ecossistemas naturais. Não por acaso, muitas das áreas hoje classificadas como críticas para erosão costeira coincidem exatamente com trechos que sofreram intensa ocupação urbana ou turística nas últimas décadas.

Esse processo revela uma contradição que precisa ser enfrentada. Grande parte das políticas públicas continua tratando o litoral prioritariamente como espaço de valorização imobiliária e expansão econômica, quando deveria reconhecê-lo como um território estratégico para a adaptação climática. Ao flexibilizar normas ambientais, reduzir áreas protegidas ou permitir a ocupação de ambientes ecologicamente frágeis, o próprio Estado contribui para ampliar riscos que posteriormente serão apresentados como simples consequências de fenômenos naturais.

Sob essa perspectiva, o El Niño deixa de ser apenas um evento climático extraordinário para revelar problemas estruturais acumulados ao longo de décadas de planejamento territorial inadequado. Os desastres que poderão ocorrer nos próximos meses não decorrerão exclusivamente da intensidade do fenômeno atmosférico, mas da combinação entre mudanças climáticas, degradação ambiental e escolhas políticas que aumentaram progressivamente a vulnerabilidade das zonas costeiras brasileiras. É justamente nessa dimensão política da adaptação climática que reside um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil.

O maior déficit brasileiro: transformar conhecimento científico em políticas públicas

Se o Brasil dispõe hoje de um conhecimento científico suficientemente robusto para antecipar boa parte dos impactos de um episódio intenso de El Niño, por que o país continua tão vulnerável aos desastres climáticos? A resposta não está na ciência, mas na política. Instituições como o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), a Marinha do Brasil, além das universidades e centros estaduais de pesquisa, produzem regularmente previsões meteorológicas, modelos climáticos, mapas de suscetibilidade e sistemas de alerta reconhecidos internacionalmente por sua qualidade técnica. O país, portanto, não sofre de falta de informação ou de insuficiência de capacidade científica. O verdadeiro problema reside na enorme distância que separa o conhecimento produzido por essas instituições das decisões efetivamente adotadas pelos diferentes níveis de governo. Enquanto a capacidade científica brasileira avançou significativamente nas últimas décadas, a capacidade política de incorporar esse conhecimento ao planejamento territorial permaneceu praticamente estagnada.

Essa desconexão manifesta-se de forma particularmente evidente nas zonas costeiras. Há décadas o Brasil dispõe de um instrumento legal destinado justamente a orientar o planejamento dessas áreas: o Plano Municipal de Gerenciamento Costeiro (PMGC), previsto no âmbito do Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro (PNGC). Em princípio, cada município costeiro deveria possuir um diagnóstico detalhado das áreas sujeitas à erosão, às inundações, às ressacas e à elevação do nível do mar, estabelecendo critérios claros para o uso e a ocupação do território, para o licenciamento ambiental e para a prevenção de desastres. Na prática, entretanto, esse instrumento permanece quase inexistente. Levantamentos realizados por órgãos públicos e pesquisadores indicam que menos de quinze municípios brasileiros possuem Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro efetivamente estruturados e institucionalizados. Algumas avaliações realizadas ao longo da presente década apontavam um cenário ainda mais preocupante, indicando que apenas nove municípios haviam concluído todas as etapas necessárias para sua implementação. Trata-se de um quadro extremamente preocupante quando se considera que o Brasil possui 443 municípios inseridos na zona costeira, dos quais 279 confrontam diretamente o Oceano Atlântico.

A consequência dessa omissão é que a imensa maioria das cidades costeiras brasileiras continua enfrentando riscos crescentes sem qualquer planejamento territorial especificamente voltado para as mudanças climáticas. Empreendimentos continuam sendo licenciados em áreas naturalmente suscetíveis à erosão; condomínios avançam sobre dunas e restingas; bairros inteiros permanecem vulneráveis às inundações; e obras de drenagem seguem sendo concebidas para responder ao clima do passado, ignorando completamente as novas condições impostas pelo aquecimento global. Não surpreende, portanto, que danos materiais e perdas humanas aumentem mesmo em episódios que poderiam produzir consequências muito menores caso existisse um planejamento territorial consistente. Essa realidade revela uma inversão de prioridades que precisa ser urgentemente corrigida: o Brasil continua investindo muito mais na reconstrução posterior aos desastres do que na prevenção de seus impactos.

Uma estratégia muito mais eficiente, econômica e ambientalmente adequada consiste em recuperar e conservar os ecossistemas que funcionam como infraestrutura natural de adaptação climática. Manguezais, restingas, dunas, praias e áreas úmidas desempenham funções que dificilmente podem ser reproduzidas por grandes obras de engenharia. Esses ambientes dissipam parte da energia das ondas, estabilizam sedimentos, armazenam água, reduzem processos erosivos e funcionam como barreiras naturais contra ressacas e inundações. Ao contrário do que frequentemente se afirma, conservar esses ecossistemas não representa obstáculo ao desenvolvimento. Trata-se, na verdade, de um investimento estratégico capaz de reduzir futuros prejuízos econômicos, ambientais e sociais. O problema é que essa perspectiva frequentemente entra em conflito com interesses associados à especulação imobiliária, à expansão do turismo de alto padrão e à implantação de grandes empreendimentos sobre áreas ambientalmente frágeis. Em consequência, decisões voltadas para ganhos imediatos acabam comprometendo a capacidade adaptativa do litoral durante décadas.

Entretanto, mesmo que houvesse consenso político sobre a necessidade de fortalecer a adaptação climática, persistiria um obstáculo cuja importância costuma receber muito menos atenção do que merece: o financiamento público. Nas últimas décadas, sucessivos programas de ajuste fiscal reduziram significativamente a capacidade de investimento do Estado brasileiro justamente nas áreas responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental, pela prevenção de desastres e pela adaptação às mudanças climáticas. Essa escolha possui consequências extremamente concretas. Elaborar Planos Municipais de Gerenciamento Costeiro, monitorar continuamente a evolução da linha de costa, recuperar ecossistemas degradados, ampliar redes de drenagem, fortalecer as Defesas Civis, modernizar sistemas de alerta, capacitar equipes técnicas e preparar os serviços públicos de saúde e assistência social exige recursos permanentes. Não se trata de ações pontuais, mas de políticas públicas contínuas que dependem de financiamento estável. Sem orçamento adequado, planos permanecem restritos ao papel e acabam incapazes de proteger a população diante de riscos que já são amplamente conhecidos.

Essa talvez seja uma das maiores contradições da política climática brasileira. Ao mesmo tempo em que os impactos das mudanças climáticas se tornam progressivamente mais evidentes, continuam prevalecendo concepções econômicas que tratam investimentos em prevenção como despesas passíveis de adiamento sempre que surgem pressões por contenção dos gastos públicos. Essa lógica ignora um princípio elementar da gestão de riscos: cada real economizado hoje em prevenção tende a transformar-se em múltiplos reais gastos amanhã na reconstrução de infraestrutura, no atendimento às populações atingidas, na recuperação das atividades econômicas e na reparação de danos ambientais frequentemente irreversíveis. A adaptação climática precisa deixar de ser tratada como um gasto para ser reconhecida como um investimento estratégico na proteção do território nacional.

Essa mudança torna-se ainda mais urgente diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño. Os eventos registrados recentemente na Região Sul, caracterizados por chuvas intensas, tempestades severas, ventos destrutivos e episódios de granizo, demonstram que o país já atravessa um período de elevada instabilidade atmosférica. Embora não seja correto atribuir cada episódio extremo exclusivamente ao El Niño, esses acontecimentos funcionam como um importante sinal de alerta para aquilo que poderá ocorrer caso o fenômeno alcance a intensidade atualmente projetada pelos modelos climáticos. Ao mesmo tempo, as projeções indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e do Nordeste, ampliando os riscos de incêndios florestais, comprometimento do abastecimento de água, redução da produção agrícola, dificuldades para a pesca artesanal e agravamento da insegurança alimentar.

Essa diversidade de impactos evidencia uma característica frequentemente negligenciada nas políticas públicas brasileiras: a geografia dos riscos climáticos é profundamente desigual. Enquanto determinadas regiões enfrentarão excesso de água, outras conviverão com escassez hídrica extrema. Enquanto algumas cidades precisarão reforçar sistemas de drenagem e proteção costeira, outras dependerão prioritariamente da gestão de reservatórios, da proteção de mananciais e do combate aos incêndios. Não existe, portanto, uma única política de adaptação capaz de responder adequadamente a todos esses desafios. Cada território exige estratégias específicas, mas essas respostas precisam integrar uma política nacional coerente, baseada na cooperação entre União, estados, municípios, universidades e instituições científicas.

Infelizmente, o Brasil ainda permanece excessivamente preso a uma cultura política marcada pela improvisação. Recursos continuam sendo liberados principalmente após a ocorrência das tragédias; obras emergenciais substituem planejamento permanente; reconstrução recebe prioridade sobre prevenção; e os alertas produzidos pela comunidade científica frequentemente deixam de produzir consequências práticas na administração pública. Essa lógica precisa ser definitivamente superada. Os sinais emitidos pela ciência são suficientemente claros, os instrumentos legais para o planejamento territorial já existem e o conhecimento técnico necessário encontra-se amplamente disponível. O que continua faltando é vontade política para transformar a adaptação climática em uma prioridade permanente de Estado.

Caso essa mudança não ocorra, será cada vez mais difícil atribuir as futuras tragédias exclusivamente à intensidade dos fenômenos naturais. Em larga medida, elas representarão o resultado de escolhas políticas conscientes: a opção por manter políticas de austeridade que limitam investimentos públicos, por flexibilizar a proteção dos ecossistemas costeiros e por permitir que interesses imediatos da especulação imobiliária prevaleçam sobre a segurança ambiental da população. O Brasil dispõe de todas as condições técnicas para reduzir significativamente sua vulnerabilidade aos eventos extremos que tendem a se intensificar nas próximas décadas. O desafio já não é compreender os riscos, mas decidir enfrentá-los. Persistir adiando essa decisão significará aceitar que a geografia dos desastres continue sendo produzida menos pela força da natureza do que pela incapacidade do Estado brasileiro de transformar conhecimento científico em políticas públicas consistentes de adaptação climática.

O tempo da prevenção é agora

Diante desse cenário, torna-se inevitável perguntar se o Brasil está efetivamente preparado para enfrentar as consequências de um episódio de El Niño de grande intensidade. A resposta exige uma distinção importante. Do ponto de vista científico, o país dispõe de instituições altamente qualificadas e de capacidade técnica suficiente para antecipar grande parte dos impactos que poderão ocorrer nos próximos meses. O INPE, o INMET, o Cemaden, a Marinha do Brasil, as universidades e diversos centros estaduais de pesquisa produzem previsões, boletins, sistemas de monitoramento e cenários prospectivos que permitem identificar com razoável antecedência as regiões mais suscetíveis aos diferentes tipos de eventos extremos. Em outras palavras, o Brasil não enfrenta um déficit de conhecimento científico.

Entretanto, possuir informação qualificada está longe de significar que o país esteja preparado para responder aos riscos anunciados. O maior problema continua sendo a enorme distância entre as previsões produzidas pela comunidade científica e sua incorporação pelas diferentes esferas de governo. Em muitos casos, os alertas são conhecidos com antecedência, mas permanecem sem consequências práticas. Áreas de risco continuam sendo ocupadas; empreendimentos seguem sendo licenciados em ecossistemas costeiros frágeis; sistemas de drenagem permanecem insuficientes; estruturas de contenção deixam de receber manutenção adequada; e os órgãos responsáveis pela prevenção convivem com limitações orçamentárias e institucionais que reduzem significativamente sua capacidade de atuação.

As inundações que atingiram o Rio Grande do Sul entre 2023 e 2024 constituem um exemplo eloquente dessa desconexão entre ciência e política. Os eventos meteorológicos foram extraordinários, mas seus efeitos foram amplificados por deficiências acumuladas durante muitos anos na manutenção da infraestrutura, no planejamento territorial e na preparação dos sistemas de resposta. O desastre revelou que eventos extremos podem superar rapidamente estruturas degradadas e políticas públicas insuficientes, especialmente quando se combinam à fragmentação das responsabilidades entre União, estados e municípios e à recorrente tendência de liberar recursos apenas depois da ocorrência das catástrofes. Trata-se de uma lógica que, além de produzir perdas humanas e materiais muito maiores, acaba transferindo os custos mais elevados justamente para as populações socialmente mais vulneráveis.

Por essa razão, o fortalecimento do atual episódio de El Niño deveria ser interpretado como uma oportunidade para substituir a cultura da reação pela cultura da prevenção. A ciência já oferece informações suficientes para indicar que o país atravessa um período de elevado risco climático, cujos efeitos serão distintos conforme as características ambientais, sociais e econômicas de cada região. Isso significa que União, estados e municípios não podem aguardar a ocorrência de novos desastres para começar a agir. O momento exige a elaboração imediata de planos de contingência capazes de responder aos diferentes cenários projetados pelos modelos climáticos.

Nas regiões Sul, Sudeste e em grande parte da costa brasileira, esses planos precisam contemplar a possibilidade de chuvas intensas, ventos de grande velocidade, tempestades de granizo, ressacas, erosão costeira, alagamentos urbanos, inundações, deslizamentos de encostas e interrupção de serviços essenciais. Para que sejam efetivos, deverão definir responsabilidades institucionais, aperfeiçoar os sistemas de monitoramento e alerta, estabelecer rotas de evacuação, estruturar locais de acolhimento temporário e fortalecer a coordenação entre Defesa Civil, órgãos ambientais, universidades, serviços de saúde e assistência social. Não basta produzir boletins meteorológicos; é indispensável que a informação científica seja convertida em protocolos operacionais capazes de reduzir a exposição da população aos riscos.

Ao mesmo tempo, os modelos climáticos indicam elevada probabilidade de secas severas em partes da Amazônia e da região Nordeste. Nesses territórios, os planos de contingência precisarão seguir uma lógica distinta, priorizando a gestão dos recursos hídricos, a proteção de reservatórios e mananciais, o abastecimento de água para populações urbanas e rurais, a preparação dos serviços de saúde para enfrentar ondas de calor, o monitoramento da qualidade do ar e o fortalecimento das estruturas de prevenção e combate aos incêndios florestais. A redução das vazões dos rios poderá ainda comprometer o transporte, o abastecimento de alimentos, a produção agrícola, a pesca artesanal, a geração de energia e o acesso à água potável em inúmeras comunidades, exigindo políticas específicas de apoio aos agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas e demais populações tradicionais, que normalmente figuram entre as primeiras vítimas das crises climáticas e dispõem de menor capacidade econômica e institucional para enfrentá-las.

Esse conjunto de desafios confirma uma ideia que deveria orientar toda a política brasileira de adaptação: os riscos climáticos distribuem-se de maneira profundamente desigual pelo território nacional. O país poderá conviver simultaneamente com excesso de água em algumas regiões e escassez hídrica extrema em outras, exigindo respostas diferenciadas para problemas igualmente distintos. Não existe, portanto, um modelo único de adaptação capaz de atender à diversidade ambiental e social brasileira. Cada território necessita de medidas compatíveis com suas características específicas, mas essas iniciativas precisam integrar uma estratégia nacional coerente, apoiada na cooperação entre os diferentes níveis de governo e sustentada pelo conhecimento produzido pelas instituições científicas.

Entretanto, nenhuma dessas iniciativas produzirá resultados concretos se continuar faltando aquilo que, historicamente, tem impedido a consolidação de uma política consistente de adaptação climática: recursos públicos. As diferentes esferas de governo precisam instituir imediatamente dotações orçamentárias específicas para prevenção de desastres, adaptação climática e resposta antecipada aos eventos extremos. Investimentos em monitoramento, sistemas de alerta, drenagem urbana, recuperação de manguezais, restingas e dunas, proteção de mananciais, armazenamento de água, combate aos incêndios, fortalecimento da Defesa Civil, saúde pública e assistência social não podem continuar submetidos à lógica dos cortes permanentes ou às restrições impostas pelas políticas de austeridade fiscal. Sem financiamento estável, planos de contingência permanecerão como documentos formais incapazes de alterar a realidade.

É precisamente nesse ponto que a discussão sobre o El Niño ultrapassa os limites da meteorologia para ingressar definitivamente no terreno das escolhas políticas. Persistir tratando a adaptação climática como uma despesa secundária equivale a aceitar, de forma consciente, que os prejuízos humanos, econômicos e ambientais continuarão crescendo à medida que os eventos extremos se intensificarem. A aparente economia produzida pelos cortes orçamentários transforma-se, inevitavelmente, em custos muito mais elevados na reconstrução de cidades, na recuperação de infraestruturas destruídas, na assistência às populações atingidas e na compensação de perdas que, em muitos casos, jamais poderão ser plenamente reparadas.

A pior resposta que o Brasil poderia oferecer diante do fortalecimento do atual episódio de El Niño seria continuar tratando cada desastre como um acontecimento isolado e imprevisível. Os modelos climáticos hoje disponíveis permitem antecipar grande parte dos riscos que deverão atingir o território nacional. Se as diferentes esferas de governo insistirem em ignorar esses alertas, dificilmente poderão alegar desconhecimento diante dos danos futuros. As tragédias que vierem a ocorrer resultarão não apenas da intensidade dos fenômenos naturais, mas também da incapacidade — ou da falta de vontade política — de transformar conhecimento científico em ação preventiva.

Em última análise, o desafio colocado pelo fortalecimento do El Niño transcende o próprio fenômeno climático. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de abandonar o negacionismo climático tácito que ainda orienta parcela significativa das políticas públicas e reconhecer que adaptação deixou de ser uma agenda para o futuro. Ela constitui uma necessidade imediata e uma responsabilidade permanente de Estado. Enquanto essa mudança não ocorrer, o país continuará repetindo um ciclo perverso: produzir previsões científicas cada vez mais precisas e, ao mesmo tempo, fracassar sistematicamente em prevenir os impactos que elas anunciam.

Romper com o negacionismo climático tácito

Há um aspecto que atravessa toda essa discussão e que precisa ser enfrentado de maneira explícita. O Brasil não sofre apenas com os impactos crescentes das mudanças climáticas, mas também com um negacionismo climático que raramente se manifesta por meio da negação aberta das evidências científicas, mas que se expressa de forma muito mais sutil e igualmente nociva: a recusa em transformar o conhecimento disponível em políticas públicas permanentes de adaptação.

Nas últimas décadas, tornou-se relativamente comum ouvir autoridades reconhecerem a gravidade da crise climática em discursos, conferências internacionais e documentos oficiais. Entretanto, esse reconhecimento raramente se converte em decisões compatíveis com a dimensão do problema.  Empreendimento continuam sendo aprovados s em áreas ambientalmente frágeis; seguem sendo flexibilizadas normas de proteção dos ecossistemas costeiros; os investimentos em prevenção permanecem insuficientes; e políticas de ajuste fiscal continuam limitando justamente os órgãos responsáveis pelo planejamento territorial, pela gestão ambiental e pela redução dos riscos de desastres. Em outras palavras, admite-se a existência da crise climática, mas age-se como se seus efeitos pudessem ser enfrentados futuramente ou por meio de respostas emergenciais.

Essa postura representa uma forma particularmente perversa de negacionismo. Ao contrário da negação explícita da ciência, ela reconhece formalmente o problema, mas esvazia sua importância prática ao adiar continuamente as medidas necessárias para reduzir a vulnerabilidade da sociedade. Trata-se de um negacionismo que se manifesta nos orçamentos públicos, nas prioridades de investimento, na ausência de planejamento territorial e na incapacidade de integrar a produção científica às decisões governamentais. É justamente por isso que seus efeitos costumam ser menos visíveis no debate público, embora sejam profundamente perceptíveis quando eventos extremos atingem a população.

A adaptação climática precisa deixar de ocupar uma posição secundária na agenda nacional para tornar-se uma política estruturante do desenvolvimento brasileiro. Isso significa incorporar os riscos climáticos ao planejamento urbano, ao ordenamento territorial, à política habitacional, à gestão costeira, à proteção dos recursos hídricos, à infraestrutura, à agricultura, à saúde pública e à educação. Significa, igualmente, reconhecer que a conservação de manguezais, restingas, dunas, florestas e áreas úmidas não constitui apenas uma política ambiental, mas um componente essencial da infraestrutura necessária para reduzir perdas humanas, econômicas e ecológicas diante da intensificação dos eventos extremos.

Essa transformação exige também recuperar a capacidade de planejamento do Estado brasileiro. A prevenção de desastres não pode continuar dependente de programas temporários ou de iniciativas fragmentadas entre diferentes níveis de governo. É indispensável construir uma política nacional de adaptação climática dotada de financiamento estável, metas claras, responsabilidades definidas e mecanismos permanentes de coordenação entre União, estados e municípios. Nesse processo, as universidades públicas, os institutos de pesquisa e os órgãos técnicos precisam deixar de ser consultados apenas em momentos de crise e passar a ocupar posição central na formulação e no acompanhamento das políticas públicas.

Ao mesmo tempo, torna-se imprescindível reconhecer que a adaptação climática possui uma dimensão profundamente social. Os impactos do fortalecimento do El Niño e das mudanças climáticas não atingirão toda a população de maneira uniforme. Agricultores familiares, pescadores artesanais, povos indígenas, comunidades quilombolas, moradores das periferias urbanas e populações residentes em áreas costeiras ou sujeitas a inundações e deslizamentos tendem a suportar uma parcela desproporcional dos prejuízos. A construção de uma política de adaptação, portanto, deve partir do reconhecimento dessa geografia desigual dos riscos e priorizar justamente os territórios e grupos sociais historicamente mais vulnerabilizados.

O fortalecimento do atual episódio de El Niño oferece ao Brasil uma oportunidade que não pode ser desperdiçada. Os modelos climáticos permitem antecipar grande parte dos riscos; as instituições científicas dispõem de competência reconhecida internacionalmente; e o país possui instrumentos legais capazes de orientar políticas de prevenção e adaptação. O que permanece ausente é a decisão política de mobilizar esses recursos de maneira articulada e contínua. Enquanto essa decisão continuar sendo adiada, o Brasil permanecerá preso a um ciclo perverso no qual previsões cada vez mais precisas convivem com uma incapacidade igualmente crescente de evitar desastres anunciados.

Em última análise, o desafio colocado pelo El Niño transcende o próprio fenômeno climático. Ele expõe os limites de um modelo de desenvolvimento que continua subordinando o planejamento territorial, a proteção ambiental e a segurança das populações aos imperativos da expansão imobiliária, do crescimento econômico de curto prazo e das políticas permanentes de austeridade fiscal. Romper com essa lógica deixou de ser apenas uma necessidade ambiental; tornou-se uma condição indispensável para reduzir a vulnerabilidade do território brasileiro diante de um clima em rápida transformação.

Se o Brasil pretende enfrentar de forma consequente os desafios colocados pelo atual ciclo do El Niño e pelos eventos extremos que tendem a se tornar cada vez mais frequentes nas próximas décadas, será necessário abandonar definitivamente o negacionismo climático tácito que ainda permeia as diferentes esferas de governo. A adaptação climática precisa ser elevada à condição de política de Estado, sustentada por planejamento de longo prazo, financiamento público adequado e compromisso efetivo com a redução das desigualdades socioambientais. Somente assim será possível interromper o ciclo recorrente de tragédias anunciadas que continua marcando a relação do Brasil com os desastres climáticos e construir uma sociedade efetivamente preparada para enfrentar os desafios de um planeta em acelerada transformação.

Organizações sociais alertam governo Lula para riscos de um “super El Niño” e cobram políticas de adaptação climática

Carta aponta necessidade urgente de proteção às populações vulneráveis diante do aumento de eventos extremos associados às mudanças climáticas

Em meio ao aumento das preocupações internacionais com a possível formação de um episódio muito intenso do fenômeno El Niño entre o final de 2026 e o início de 2027, organizações da sociedade civil brasileira divulgaram uma carta pública alertando o governo federal sobre a necessidade urgente de fortalecer políticas de adaptação climática e prevenção de desastres.

Segundo a reportagem publicada pelo Poder360, o documento foi elaborado pela Rede por Adaptação Antirracista em parceria com o Observatório do Clima, reunindo dezenas de entidades socioambientais e de direitos humanos. Entre os signatários estão Greenpeace Brasil, Oxfam Brasil, WWF-Brasil, SOS Mata Atlântica, Instituto Pólis, Instituto Ethos, Conectas Direitos Humanos, Coalizão Negra por Direitos e Transparência Brasil.

O alerta ocorre após estimativas divulgadas pela National Oceanic and Atmospheric Administration (NOAA), que apontam 82% de probabilidade de formação do El Niño ainda em 2026 e cerca de 37% de chance de que o fenômeno atinja intensidade “muito forte”.

Embora o termo “super El Niño” não seja oficialmente utilizado pela NOAA, ele costuma designar episódios excepcionalmente intensos, capazes de provocar impactos severos em diferentes regiões do planeta. No caso brasileiro, especialistas alertam para a possibilidade de secas mais severas no Norte e Nordeste, além de chuvas extremas no Sul do país.

Na carta, as organizações destacam que os impactos climáticos não atingem todos da mesma maneira. Populações negras, indígenas, quilombolas, periféricas e moradores de áreas de risco estariam entre os grupos mais expostos aos efeitos de enchentes, deslizamentos, ondas de calor, secas e incêndios florestais.

O documento também critica a postura recorrente de governos que atuam apenas após as tragédias. As entidades defendem políticas permanentes de prevenção, planejamento urbano, monitoramento climático e preparação comunitária. Entre as medidas propostas estão a instalação de sirenes e sistemas de alerta, criação de centros de monitoramento, elaboração participativa de planos de fuga e atualização do Plano Nacional de Adaptação.

As organizações lembram ainda que os desastres recentes no Brasil já evidenciam os custos humanos da emergência climática. O texto menciona as chuvas catastróficas em Petrópolis e os episódios extremos registrados no litoral norte paulista, reforçando que a combinação entre mudanças climáticas, desigualdade social e ausência de infraestrutura amplia drasticamente os riscos.

O debate também ganhou repercussão nas redes sociais, onde muitos usuários defenderam a importância dos alertas preventivos diante da repetição de tragédias climáticas no país. Em discussões online, diversos comentários criticaram a falta de preparação estrutural do poder público diante de eventos extremos cada vez mais previsíveis.

A íntegra da reportagem original pode ser acessada no Poder360.