O Super El Niño começa a mostrar os dentes — e o Vale do Ribeira já sente seus efeitos

Enchentes em São Paulo, Paraná e no Sul mostram que o evento climático extremo de 2026 já começou a cobrar sua conta — meses antes do verão

O texto publicada por James Dinneen na revista Nature em 13 de setembro traz um alerta que deveria receber atenção especial no Brasil: o El Niño de 2026 não apenas está se fortalecendo muito rapidamente, como apresenta características que dificultam utilizar os grandes eventos anteriores como simples modelos para antecipar o que acontecerá nos próximos meses. Estamos diante do primeiro El Niño forte predominantemente formado no Pacífico oriental desde o final da década de 1990, mas agora operando sobre um planeta quase três décadas mais quente.  

A questão central levantada pela Nature é justamente essa combinação. O El Niño modifica a circulação atmosférica e redistribui chuva e calor em escala planetária, mas seus efeitos não são idênticos em todos os episódios. A localização do aquecimento do Pacífico, a intensidade alcançada pelo fenômeno e sua interação com outros componentes do sistema climático determinam respostas diferentes. O evento de 2026 apresenta ainda uma particularidade inquietante: começou a se fortalecer mais cedo do que grandes El Niños anteriores, incluindo os de 1997 e 2015, e alguns modelos indicam que poderá alcançar intensidade excepcional.

Os efeitos já aparecem em diferentes partes do planeta. A pesca da anchoveta no Peru foi profundamente afetada pelo aquecimento das águas superficiais; secas atingem América Central e Caribe; incêndios se intensificaram na Indonésia; problemas começam a aparecer na agricultura e na segurança alimentar de partes da África e da Ásia; enquanto Chile e Peru experimentaram episódios de precipitação extrema e inundações. Em outras palavras, embora o El Niño ainda esteja caminhando para sua fase mais intensa, a conta climática começou a chegar.

No Brasil, não é mais necessário olhar para o outro lado do planeta para encontrar sinais dessa mudança. O Vale do Ribeira está oferecendo neste momento uma demonstração particularmente preocupante do tipo de situação que poderá acompanhar os próximos meses.  As chuvas dos últimos dias provocaram forte elevação do rio Ribeira de Iguape, enchentes, isolamento de comunidades e retirada de famílias de suas residências. Em Iguape foram registrados 158 milímetros de chuva em três dias e, em Eldorado, o rio Ribeira chegou a subir aproximadamente nove metros. Municípios como Eldorado, Iporanga e Barra do Turvo entraram em situação de emergência, enquanto outras localidades da região também registraram desabrigados, desalojados e interrupções de infraestrutura.

O problema tampouco termina no Vale do Ribeira. O Cemaden alertou para riscos hidrológicos e de movimentos de massa em uma extensa faixa que compreende São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No Sul, os níveis dos rios Iguaçu e Uruguai permaneceram elevados; em São Paulo, além da bacia do Ribeira de Iguape, outras bacias apresentaram propagação de ondas de cheia. As enchentes atualmente observadas em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e São Paulo são compatíveis com o padrão de excesso de precipitação associado ao El Niño que já está estabelecido.

Há algo especialmente inquietante nessa situação: estamos apenas em setembro. Os próprios órgãos federais de monitoramento climático já haviam advertido que o El Niño permaneceria ativo pelo menos até o início de 2027, com elevada probabilidade de alcançar intensidade muito forte durante a primavera e o verão. O cenário para setembro, outubro e novembro aponta chuvas acima da média em áreas do Sul, enquanto partes do centro-norte brasileiro deverão experimentar justamente o fenômeno oposto: redução das precipitações combinada com temperaturas elevadas e agravamento do déficit hídrico.

Esse é um aspecto que frequentemente desaparece quando se reduz o El Niño simplesmente à ideia de “mais chuva”. O fenômeno funciona como um gigantesco reorganizador da circulação atmosférica. Enquanto determinadas regiões enfrentam precipitações extremas, enchentes e deslizamentos, outras podem experimentar secas, ondas de calor, incêndios florestais e perda de produtividade agrícola. O mesmo evento climático pode produzir simultaneamente excesso e escassez de água dentro de um país de dimensões continentais como o Brasil.

No Vale do Ribeira, entretanto, existe ainda outra dimensão que precisa ser considerada. Estamos falando de uma região com grande concentração de Mata Atlântica preservada e importante presença de comunidades rurais, indígenas e quilombolas, muitas delas estabelecidas em áreas diretamente dependentes dos rios e das estradas regionais. Uma enchente, portanto, não significa apenas casas alagadas. Pode significar isolamento territorial, perda de cultivos, interrupção de transportes, dificuldades de acesso aos serviços de saúde e comprometimento das condições de reprodução econômica e social dessas comunidades.

Aliás, não se pode alegar completa surpresa. Ainda em julho, um seminário realizado em Registro reuniu pesquisadores, produtores rurais e técnicos justamente para discutir os riscos do El Niño para a agricultura do Vale do Ribeira. Poucos dias antes das atuais enchentes, a Câmara Municipal de Registro realizou uma audiência pública sobre prevenção de enchentes diante da perspectiva de eventos climáticos extremos.

O que está ocorrendo agora deveria, portanto, ser interpretado menos como uma anomalia meteorológica isolada e mais como um primeiro teste concreto da capacidade brasileira de enfrentar o ciclo climático que está começando.

Há ainda uma diferença fundamental entre 2026 e os grandes El Niños do passado. Como enfatiza a reportagem da Nature, o fenômeno atual está se desenvolvendo sobre um planeta substancialmente mais quente. Isso significa que a atmosfera pode conter mais vapor d’água e que eventos de precipitação extrema podem ganhar intensidade. Significa também que períodos secos podem ocorrer sob temperaturas mais elevadas, ampliando evapotranspiração, déficit hídrico e risco de incêndios. O El Niño não criou o aquecimento global, mas está atuando sobre o novo patamar climático produzido pela acumulação de gases de efeito estufa.

É justamente por isso que a situação do Vale do Ribeira precisa ser observada com atenção muito além das fronteiras paulistas. As imagens de rios transbordando, famílias deixando suas casas e comunidades ficando isoladas podem estar mostrando apenas os primeiros capítulos de um ciclo que deverá atravessar a primavera e o verão brasileiros.

A pergunta decisiva, portanto, não é mais se o El Niño de 2026 produzirá impactos no Brasil. Ele já está produzindo. A pergunta agora é se governos municipais, estaduais e federal utilizarão os sinais emitidos pelo Vale do Ribeira e por outras regiões atingidas para preparar sistemas de Defesa Civil, infraestrutura, agricultura, saúde pública e proteção das populações vulneráveis para aquilo que ainda poderá vir.

Se as projeções apresentadas pela Nature e pelos órgãos brasileiros de monitoramento estiverem corretas, o que estamos vendo em setembro não representa o final de uma crise climática. Pode ser apenas o seu começo.

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