Projeções mostram que 2027 pode atingir 1,76°C acima dos níveis pré-industriais e funcionar como uma janela para o clima que, pela tendência atual, seria esperado apenas por volta de 2037
O material mostrado acima e que foi publicado pelo The Washington Post em sua conta no Instagram chama atenção para uma característica particularmente preocupante do atual ciclo do El Niño: sua combinação com o aquecimento global provocado pelas emissões humanas poderá fazer com que o planeta experimente, já em 2027, temperaturas que, seguindo a tendência recente de aquecimento, seriam esperadas apenas por volta de 2037.
A comparação é especialmente didática porque mostra que o El Niño não cria sozinho o aquecimento global. O fenômeno funciona, neste caso, como uma espécie de “máquina do tempo climática”. Durante um El Niño intenso, enormes quantidades de calor acumuladas no Pacífico tropical ocidental deslocam-se para leste. A atividade atmosférica acompanha esse deslocamento e transfere parte do calor armazenado no oceano para a atmosfera; a circulação atmosférica, por sua vez, contribui para redistribuí-lo pelo planeta.
O problema é que esse fenômeno natural ocorre agora sobre um planeta que já foi profundamente aquecido pela ação humana. As concentrações crescentes de gases de efeito estufa, resultantes principalmente da queima de carvão, petróleo e gás natural, elevaram a temperatura média da Terra. O El Niño acrescenta temporariamente mais calor a esse sistema já aquecido.
É justamente essa combinação que torna os números apresentados pelo Washington Post tão significativos. Segundo as projeções reproduzidas pelo jornal, existe cerca de 95% de probabilidade de 2027 se tornar o ano mais quente desde o início dos registros instrumentais, que remontam ao século XIX. A temperatura média global poderia chegar a aproximadamente 1,76°C acima da média pré-industrial.
Isso não significa que o planeta terá atingido definitivamente esse patamar de aquecimento. Com o enfraquecimento do El Niño, 2028 poderá apresentar uma temperatura inferior à de 2027. Entretanto, esse recuo temporário não deve ser confundido com uma reversão do aquecimento global. O cientista climático Zeke Hausfather resume bem essa diferença ao observar que as emissões humanas estão acrescentando ao sistema climático, a cada década, uma quantidade de calor comparável ao efeito de um El Niño.
A imagem da escada talvez seja a melhor forma de compreender o problema. Os grandes episódios de El Niño podem produzir degraus temporários para cima, enquanto as emissões humanas continuam elevando permanentemente o nível da própria escada. Depois que o El Niño desaparece, a temperatura pode recuar parcialmente, mas o planeta não retorna às condições climáticas anteriores.
Há ainda um aspecto político importante nessa discussão. O número de 1,76°C chama atenção porque ultrapassa temporariamente a referência de 1,5°C estabelecida no Acordo de Paris. Um único ano acima desse limite não significa formalmente que a meta tenha sido definitivamente ultrapassada, pois ela se refere ao aquecimento médio de longo prazo. Entretanto, experimentar antecipadamente temperaturas próximas de 1,8°C poderá revelar de maneira bastante concreta como funcionará um planeta permanentemente mais quente.
E é precisamente aí que o atual Super El Niño deve servir de alerta. Ondas de calor, secas, incêndios, chuvas extremas e enchentes não resultarão exclusivamente do El Niño, nem ocorrerão de maneira uniforme em todas as regiões. O fenômeno reorganiza a circulação atmosférica e modifica os padrões de precipitação e temperatura; ao interagir com um clima progressivamente aquecido, porém, aumenta a possibilidade de extremos mais severos em diferentes partes do planeta.
Para o Brasil, essa discussão deveria ocupar posição central no planejamento governamental. O país reúne grandes concentrações populacionais em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos, extensas regiões sujeitas a secas e incêndios e uma infraestrutura urbana que frequentemente demonstra pouca capacidade de enfrentar eventos meteorológicos extremos. Conhecemos cada vez melhor os riscos, mas seguimos investindo muito menos do que seria necessário em prevenção e adaptação. Talvez essa seja a mensagem mais importante do material publicado pelo Washington Post. O Super El Niño de 2026-2027 não está simplesmente produzindo uma anomalia climática passageira. Ele poderá oferecer uma antecipação das condições que tendem a se tornar normais dentro de pouco mais de uma década se as emissões continuarem crescendo.
Nesse sentido, 2027 poderá funcionar como uma janela aberta para 2037. O que veremos através dela não deverá ser tratado como uma curiosidade meteorológica, mas como uma advertência sobre o mundo que estamos construindo. E, diferentemente do El Niño, que eventualmente termina, o aquecimento provocado pela acumulação de gases de efeito estufa não desaparecerá quando as águas do Pacífico voltarem a esfriar.
Fonte do material gráfico e das informações apresentadas nas imagens: Instagram do The Washington Post, publicação de 13 de agosto de 2026.
