A marcha do veneno continua: governo Bolsonaro libera mais 16 agrotóxicos

974227-001

Inoculado contra as críticas sobre os 503 agrotóxicos liberados apenas em 2019, o Ministério da Agricultura  tornou publicado hoje (02/03)  a liberação de mais 16 agrotóxicos.  A medida foi publicado hoje no Diário Oficial da União (DOU), por meio do Ato nº 13 do Departamento de Sanidade Vegetal e Insumos Agrícolas da Secretaria de Defesa Agropecuária.

A discrepância notada em 2019 entre a liberação de venenos com base química e os de controle biológica continua, pois apenas dos 16 apenas 2 utilizam o uso de inimigos naturais para erradicar organismos que são considerados pragas agrícolas. Mas é preciso lembrar que em ato anterior, o Ato Nº  12, o MAPA havia liberado outros 32 agrotóxicos, totalizando 38 nos primeiros dois meses de 2020.

Ainda não tive tempo de analisar quais substâncias foram liberadas em 2020, mas o MAPA já informou que “todos os defensivos que tiveram o registro publicado nesta segunda-feira já estão registrados e em uso no Brasil como ingredientes ativos de outros agrotóxicos já comercializados”, o que coloca novamente em xeque o argumento inicialmente utilizado pelo governo Bolsonaro para a liberação massiva de agrotóxicos que era a de introduzir produtos mais recentes e com menor toxicidade para a saúde humana e o meio ambiente.

O fim da falácia da modernização como base para a liberação dessa enxurrada de novos venenos é o fato de que pelo menos 4 dos agrotóxicos aprovados estão proibidos pelo menos na União Europeia (i.e., Glufosinato, Sulfentrazona, Diafentiurom e Tiodiocarbe).

Além disso, além da costumeira presença das empresas ligadas à CropLife entre os interessados nessa nova rodada de liberações, pude verificar que dos 16 agrotóxicos relativos ao Ato nº 13 , 11 deles têm como fabricante primário uma empresa localizada na China.  Este fato reforça a relação direta entre Brasil e China no circuito mundial dos agrotóxicos e na grande de circulação de commodities agrícolas. O problema é que as commodities brasileiras valem sempre menos dos que os agrotóxicos chineses, deixando ainda mais evidente quem sai ganhando ou perdendo nessa parceira envenenada.

Como estamos apenas no início de março, o total de 16 agrotóxicos sendo liberados pelo Ato Nº 13 deve ser apenas um pálido prenúncio do que ainda virá ao longo de 2020, especialmente agora que a ministra Tereza Cristina encurtou o período total de avaliação dentro do seu ministério para minguados 60 dias.

 De fato está estabelecido o “libera geral” em termos da entrada de agrotóxicos altamente perigosos no Brasil para alegria do latifúndio agro-exportador e das multinacionais fabricantes de venenos agrícolas. As consequências dessa situação será o inevitável aumento da contaminação de nossos ecossistemas naturais, dos trabalhadores rurais que aplicam essas substâncias altamente perigosas e, por fim, a água e os alimentos que os brasileiros estão ingerindo.

E antes que eu me esqueça do placa geral de agrotóxicos liberados em 14 meses de governo Bolsonaro: o grande total é 551.

A Portaria 43 escancara as portas de entrada para agrotóxicos perigosos no Brasil

agrotóxicos 1Com a Portaria Nº 43, o governo Bolsonaro escancara as portas do mercado brasileiro para agrotóxicos altamente perigosos banidos em outras partes do mundo

O governo Bolsonaro quebrou em 2019 um recorde histórico na aprovação de agrotóxicos no Brasil, muitos deles banidos em outras partes do mundo por serem altamente perigosos para a saúde humana e para o ambiente. Não contente com essa volúpia para aprovar substâncias com alto poder de contaminação, o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA), sob o comando da ministra Tereza Cristin, a resolveu escancarar de vez as portas que precariamente limitavam a entrada de novos (nem tão novos assim, é preciso que se frise) com a promulgação da Portaria Nº 43 no dia 21 de fevereiro

Por meio da Portaria Nº 43  fica determinado que o tempo limite de análise de agrotóxicos e substâncias afins será de minguados 60 dias, sob pena de aprovação automática, independente do grau de periculosidade oferecido pelo produto aprovado. Como um dos alvos do atual governo tem sido justamente a redução de pessoal disponível para trabalhar nesse tipo de avaliação, os termos da Portaria Nº 43 equivalem a um cheque branco para que as multinacionais que produzem venenos agrícolas dirijam para o Brasil todos os produtos para os quais os mercados estão sendo fechados em outras partes do mundo.

Vejamos por exemplo o caso do Clorpirifós que está tendo o seu futuro colocado em xeque até nos EUA após uma decisão da Corteva (divisão agrícola criada após a  fusão da Dow com a DuPont) de suspender até 2021 a produção de dois defensivos agrícolas com este ingrediente ativo.  Dentre os problemas atribuídos ao Clorpirifós estão o baixo peso no nascimento, QI reduzido e distúrbios de atenção. Esse corolário de doenças que afetam principalmente crianças levou a proibição do Clorpirifós pela União Europeia e em vários estados dos EUA. Mas apesar de toda a maré existente contra o Clorpirifós apenas em 2019 o governo Bolsonaro liberou a incrível quantidade de 14 agrotóxicos contendo este princípio ativo, transformando o Brasil em uma espécie de porto seguro para uma substância que está sendo banida em quase todo o mundo.

Como já apontei anteriormente aqui neste blog, a tendência manifesta do Brasil de se transformar em uma espécie de último refúgio para agrotóxicos banidos em outras partes do mundo faz a alegria das corporações que produzem venenos agrícolas. O fato é que estas empresas poderão estender a vida útil de produtos indesejados em seus países de origem, nem que isto acarrete graves consequências para a população brasileira e o nosso meio ambiente. Mas cada centavo de lucro que essas empresas terão, o Brasil terá de gastar outros tantos com o custeio de serviços de saúde para os trabalhadores agrícolas que estão sendo contaminados pelo contato com essas substãncias.

Por isso é fundamental que a edição da Portaria Nº 43 não seja empurrada para debaixo do tapete sob a excusa de que precisamos nos concentrar na defesa da democracia brasileira que estaria sendo ultrajada pelo presidente Bolsonaro. O fato é que não há mais nada ultrajante para a nossa frágil democracia do que a transformação do Brasil em um porto seguro para agrotóxicos banidos até nos países onde são fabricados.

Crítica à exportação de agrotóxicos altamente tóxicos produzidos na Suíça e na UE para o Brasil

Padrões duplos na proteção da saúde humana e do Ambiente. Protestos contra a Ministra da Agricultura Tereza Cristina durante a Semana Verde em Berlim

protesto

Protesto contra a Ministra da Agricultura do Brasil durante a Semana Verde em Berlim Fonte: Chris Grodotzki / GREENPEACE

Por Von Ulrike Bickel para a Amerika21

Zurique / Berlim. A organização suíça Public Eye acusa o grupo agrícola Syngenta de exportar toneladas do inseticida altamente tóxico profenofós da Suíça para o Brasil, 37 toneladas somente em 2018. Este inseticida, um organofosforado, está proibido em solo suíço por causa de seu perigo para os seres humanos e o meio ambiente desde 2005. Segundo a ecotoxicologista Nathalie Chèvre, da Universidade de Lausanne, o profenofós é uma neurotoxina como Sarin. No Brasil, é um dos agrotóxicos mais comuns na água potável, escreve Public Eye em um relatório de pesquisaO profenofós usado principalmente no cultivo de algodão, milho, beterraba, soja, batata e legumes.

O maior número de agrotóxicos no mundo é usado no Brasil, com aproximadamente 7,3 litros de consumo de agrotóxicos per capta por ano . Além disso, mais de 1.200 novos agrotóxicos foram autorizados pelos governos dos presidentes Michel Temer e Jair Bolsonaro nos últimos três anos .

A Syngenta, líder global em produtos químicos para proteção de culturas, teve mais de US $ 10 bilhões em vendas em 2018 e é a única empresa autorizada a vender agrotóxicos que contêm profenofós no Brasil. Segundo a Public Eye, apenas as vendas da Syngenta devem responder por cerca de um quarto do mercado global da profenofós, que é de cerca de US $ 100 milhões por ano.

Como resultado das revelações sobre as exportações da Syngenta, a conselheira nacional suíça Lisa Mazzone (Verdes) já havia feito campanha pela “proibição de exportação de agrotóxicos proibidos na Suíça” no final de 2017, e contou com o apoio de 41 parlamentares de todos os campos políticos. No entanto, a iniciativa parlamentar foi anulada porque o período de dois anos para seu tratamento havia expirado. O Conselho Federal reconheceu em 2018 que o uso desses agrotóxicos, principalmente nos países em desenvolvimento, poderia causar sérios problemas de saúde ou ambientais, mas considerou uma proibição de exportação “não proporcional”.  O Conselho Federal prefere a adoção de medidas que “restrinjam menos a liberdade econômica”.

Agora, no contexto do “Pacote Ambiental”, o Conselho Federal só quer mudar a regulamentação suíça de agrotóxicos nesta primavera, para que as exportações de pesticidas proibidos na Suíça dependam de consentimento prévio e expresso do país importador. A Syngenta rejeitou esta emenda ao regulamento “porque levaria a uma regulamentação ineficaz e desnecessária que colocaria em risco a atratividade da Suíça como local de produção”.

Paralelamente à Semana Verde em Berlim, cerca de 40 pessoas do Greenpeace, do Centro de Pesquisa e Documentação Chile-América Latina, e a Rede de Informações e Ações Foodfirst se manifestaram contra a ministra da Agricultura do governo de extrema direita do Brasil, Tereza Cristina, que estava presente no evento. Tereza Cristina foi a porta-voz do grupo de deputados de proprietários de terras (a chamada “Bancada Ruralista”) no parlamento brasileiro, e ficou conhecida em todo o país por meio de uma lei que ela havia introduzido para facilitar a aprovação acelerada de agrotóxicos. Isso lhe rendeu o apelido de “musa de venenos agrícolas” ou “rainha do veneno”. Em seu primeiro ano no cargo, Tereza Cristina aprovou recentemente 503 agrotóxicos, muitos deles proibidos na Europa. Na crítica, Tereza Cristina também se destaca porque promove o cultivo de culturas geneticamente modificadas (OGMs), e está comprometida com a legalização de terras ilegalmente apropriadas às custas de pequenos agricultores, povos indígenas e reservas naturais.

No final de novembro de 2019, o Ministério Federal Alemão de Cooperação e Desenvolvimento Econômico assumiu 81,9 milhões de euros em novos compromissos em negócios bilaterais com o Brasil, incluindo 40,4 milhões em projetos do Ministério da Agricultura.

A Pestizid-Action-Netzwerk eV há muito critica o fato da União Europeia aplicar padrões duplos para a proteção da saúde e do meio ambiente. Por exemplo, agrotóxicos altamente perigosos, que há muito são proibidos na Europa, podem continuar sendo exportados para países em desenvolvimento e lá podem causar sérios danos à saúde humana e ao meio ambiente. Muitos agrotóxicos podem ser encontrados em grandes quantidades nos solos e na água em todo o mundo,. Os agrotóxicos são os principais responsáveis ​​pelo dramático declínio da biodiversidade e causam uma série de doenças graves.

Portanto, juntamente com a organização de ajuda católica Misereor, Slow Food Germany e Bioland, em novembro de 2019, o governo alemão pediu a proibição mundial de agrotóxicos altamente perigosos e interrompeu imediatamente a exportação de agrotóxicos proibidos na Alemanha. Alternativas práticas à proteção química das culturas e formas de agricultura mais ecologicamente compatíveis estão disponíveis e devem ser implementadas.

Ontem, em Berlim, 27.000 pessoas foram às ruas pela décima vez na manifestação “Estamos fartos” por uma “reviravolta agrícola”, ou seja. para agricultura amiga dos animais, do ambiente e do clima, em vez de agricultura industrial. O protesto também foi dirigido contra o Acordo da União Europeia com o Mercosul, que, entre outras coisas, reduzirá as tarifas sobre as exportações europeias de agrotóxicos de 14 para 0%, e pede “comércio justo mundial, respeito aos direitos dos agricultores em todo o mundo, e proteção consistente das florestas”.

_________________________________________________

Este artigo foi originalmente publicado em alemão pela Amerika21 [Aqui!].

Idec lança E-book com verdades e mitos sobre os agrotóxicos

e-book idec

O Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec) lançou um E-book que deveria ser ler por todos os interessados em maior esclarecimento sobre as características e consequências do uso extensivo de agrotóxicos na agricultura brasileira.

Considero que esse E-book pode servir como uma ferramenta importante para desconstruir vários mitos cercando o uso dessas substâncias, e que atualmente são disseminados até pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). Falo aqui da alegação de que a simples lavagem de alimentos remove os resíduos de agrotóxicos que os mesmos contém. 

O fato é que o Brasil vem sendo transformado em uma espécie de refúgio para agrotóxicos banidos em outras partes do mundo. Isto implica na necessidade urgente de se informar melhor a população sobre essas substâncias e seus efeitos negativos sobre a saúde humana e o ambiente. É que se depender da ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), muitos mais agrotóxicos de alta toxicidade serão liberados para dar fôlego ao modelo de agricultura envenenada que ela representa. 

Quem desejar baixar gratuitamente o E-book lançado pelo IDEC, basta clicar [Aqui!].

O ano do veneno: com mais 36 agrotóxicos, governo Bolsonaro totaliza 503 liberações em 2019

Agrotóxicos.-Fonte-UnisinusCom mais 36 liberações, o governo Bolsonaro liberou o número recorde de 503 agrotóxicos em 2019

O governo Bolsonaro resolveu celebrar o ano mais tóxico da história da agricultura brasileira com a promulgação no dia de hoje (27/12) do Ato  No. 91 através do qual foram liberados mais 36 agrotóxicos para comercialização no território nacional, alcançando o “grand total” de 503 desde o início do ano.

Entre as substâncias aprovadas está o famigerado Fipronil, apontado como causador do extermínio de centenas de milhões de abelhas no Brasil apenas em 2019. Com a liberação de mais produtos contendo essa substância banida na União Européia, o governo Bolsonaro liberou sete agrotóxicos à base de Fipronil ao longo de seu primeiro ano de existência.  Outro produto proibido na União Europeia, o herbicida Sulfentrazona, teve mais três liberações, chegando a um total de oito produtos liberados desde janeiro.

Abelhas1-660x372Com a liberação de sete produtos contendo o Fipronil aumenta o risco de extermínio das abelhas

Outro aspecto marcante dessa nova rodada de liberações é a persistência da indústria chinesa no fornecimento de agrotóxicos que estão sendo colocados no mercado nacional.  Como ocorreu em outros atos de liberação, a indústria chinesa detém mais de 70% dos produtos que agora estarão livres para comercialização no Brasil.

Um fato que fica evidente nessa nova rodada de venenos liberados é que todo o discurso de que a verdadeira tsunami de agrotóxicos liberados seria para introduzir produtos menos tóxicos e mais modernos na agricultura brasileira não passa de uma falácia destinada a dar um revestimento de modernidade a produtos que já foram banidos em outras partes do mundo.

Como em outros casos de regressão na proteção ambiental e da saúde humana, o recorde estabelecido em 2019 não deverá representar um freio para que ainda mais agrotóxicos em 2020.  Isso decorre de uma captura óbvia dos órgãos reguladores por parte do latifúndio agro-exportador e das corporações multinacionais que produzem venenos agrícolas. A consequência disso deverá ser um grau ainda maior de envenenamento dos brasileiros de forma direta (pelo contato ocupacional dos trabalhadores) ou indireta (por meio da ingestão de alimentos e águas contaminados por agrotóxicos).

biosuecia_0A rede sueca Paradiset impôs um boicote a produtos brasileiros não orgânicos. A volúpia de aprovações de agrotóxicos, muitos banidos na União Europeia, deverá ampliar a rejeição aos produtos brasileiros

Agora, como já escrevi várias vezes ao longo do ano, que ninguém se surpreenda se o boicote iniciado na Suécia pelo CEO da rede de mercearias orgânicas Paradiset, Johannes Cullberg, se espalhar para outras partes do mundo. É que está ficando cada vez mais claro que a falta de limites que foi estabelecida no Brasil não terá nenhuma tolerância em outras partes do mundo.

Brasil envenenado por agrotóxicos: dominância chinesa na produção e alta proibição na União Europeia

pixabay_agrotoxicos_nuvem

Finalmente tive a chance de consolidar a base de dados que criei para acompanhar e caracterizar os agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro para serem comercializados no Brasil ao longo de 2019. Até segunda ordem, o total de agrotóxicos liberados em 2019 atingiu o valor estratosférico de 467, e não 439 como muitas fontes alardeiam.

Dentro de uma análise ainda básica, duas características dos agrotóxicos liberados pelo Ministério da Agricultura, sob o comando lépido e faceiro da ministra Tereza Cristina (DEM/MS), quais sejam, a dominância das importações de produtos produzidos na China, ainda que a constelação de países estrangeiras aportando agrotóxicos no Brasil seja composta por 18 países. Entretanto, as empresas sediadas na República Popular da China representam incríveis 67% dos produtos autorizados pelo governo Bolsonaro (ver figura abaixo).

Fabricante

Outro detalhe igualmente saliente das aprovações realizadas pelo Ministério da Agricultura é o fato de que 30% dos produtos liberados estão proibidos na União Europeia (ver figura abaixo).

Status EU

Ainda que isso seja apenas uma sinalização de que estamos consumindo produtos que já não podem ser vendidos em mercados mais exigentes com a saúde humana e ambiental, o fato é que o Brasil está aceitando utilizar vários produtos que foram retirados dos mercados internacionais por terem associados a diversas doenças sérias, incluindo diversos tipos de câncer. Além disso, várias das substâncias que agora estão sendo comercializadas legalmente no Brasil também já foram proibidas internacionalmente por causarem danos graves ao meio ambiente.

Quem acessar a base completa e estudar alguns dos seus elementos mais salientes, tais como a função das substâncias aprovadas, o status na União Europeia, os graus de toxicidade humana e ambiental, bem como o tipo de substância aprovada, notará coisas curiosas.  Uma delas é que determinadas substâncias combinam mais de um princípio ativo que dotam os produtos em que eles resultam em mais de função. Além disso, existem agrotóxicos que contêm princípios ativos permitidos e proibidos pela União Europeia.  Tudo isso tende a desmentir que se está aumentando o nível de segurança dos agrotóxicos, e, quando muito, o que se faz é baratear o custo desses insumos que é relativamente alto, mesmo para os grandes latifundiários na exportação de commodities.

O número altíssimo de autorizações de “produtos técnicos” ou “produtos técnicos clones” indica que as aprovações realizadas ao longo de 2019 também podem ter aumentado o número de agrotóxicos disponíveis no mercado brasileiro para muito além dos aprovados, visto que esses produtos técnicos geram um número maior de produtos prontos para consumo. Em outras palavras, a onda tóxica que foi gerada por essas aprovações pode ser bem maior do que está se estipulando quando se considera apenas o número de aprovações.

A minha expectativa é que, lamentavelmente, a onda de venenos autorizados pelo governo Bolsonaro ainda está longe de terminar e que teremos uma repetição do que vimos em 2019 no próximo ano. E sabe-se lá quais produtos indesejados por mercados mais exigentes a segurança serão trazidos para o Brasil para continuar alavancando o nível de lucro das corporações produtoras de venenos agrícolas, a começar pelas sediadas na China.

Quem desejar acessar a base completa com os 467 agrotóxicos liberados pelo governo Bolsonaro em 2019, basta clicar Aqui!

 

Com Tereza Cristina é assim: mais agrotóxicos, menos carne na dieta do brasileiro

tereza cristina jair bolsonaro

A ministra da Agricultura, Tereza Cristina (DEM/MS), é responsável por uma curiosa dinâmica na dieta alimentar dos brasileiros. Por um lado, sob seu comando, os brasileiros viram um recorde histórico de aprovações de novos agrotóxicos com um total de 567 produtos sendo liberados em menos de 11 meses. Por outro, vivemos agora uma profunda carestia nos preços da carne bovina que tem tudo para se estender para outros produtos de origem animal, já que os consumidores estão sendo empurrados para o consumo de ovos, frangos e porcos.

O fato inescapável é que Tereza Cristina sintetiza bem o que é o latifúndio agro-exportador brasileiro, pois além de ser engenheira agrônoma formada pela Universidade Federal de Viçosa, ela cresceu na política defendendo posições ultra-conservadoras, entre as quais se destacam a defesa de terras a estrangeiros, a flexibilização das regras de liberação de agrotóxicos, e o endurecimento ao tratamento dado aos povos indígenas que tiveram suas terras tomadas pelo avanço do latifúndio.

Depois de se tornar ministra, Tereza Cristina já ofereceu exemplos bastante didáticos de que o presidente Jair Bolsonaro não poderia escolhido pessoa melhor para levar adiante a sua pauta de destruição ambiental e de submissão contínua às demandas infinitas dos setores mais atrasados da agricultura nacional. 

Mas é agora com a crise de carestia nos preços da carne que a ministra da Agricultura está deixando bastante explícita sua posição de completo desprezo pelas necessidades da maioria da população brasileira de poder consumir proteína animal a preços minimamente acessíveis.  Assim, quando perguntada sobre a situação causada pela elevação dos preços da carne bovina, Tereza Cristina não apenas negou a possibilidade dos preços baixarem, afirmando que a carne bovina estava “muito barata“, mas também de forma jocosa indicou a possibilidade do consumo de frango quem não puder comprar carne bovina.

Resultado de imagem para churrasco picanha

Com a carne bovina a preços nada módicos, o brasileiro vai ter que dizer adeus ao churrasco. Enquanto isso, os chineses estão saboreando a carne bovina brasileira sem sofrimento

A verdade é que estamos sendo onerados porque o governo Bolsonaro se nega a proteger os consumidores brasileiros, focando sua ação na venda para exportação. Por isso, é que a carne bovina estão tão cara neste momento, pois para garantir o fluxo de moedas fortes, o mercado interno está sendo totalmente desprotegido. 

 

Com mais 57 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro quebra recorde histórico e transforma o Brasil em uma piscina envenenada

Man spraying toxic pesticides or insecticides on fruit growing plantation. Natural light on hard sunny day. Blue sky with clouds in background.Com mais 57 agrotóxicos liberados, governo Bolsonaro quebra recorde histórico e transforma o Brasil em uma piscina de agrotóxicos banidos em outras partes do mundo

Se há uma área onde não se pode questionar a eficiência e a coerência do governo Bolsonaro essa é a da liberação de agrotóxicos. É que no dia de hoje, com a publicação do Ato No. 82 que liberou mais 57 agrotóxicos, o total para 2019 é de 467. Com isso,  a ministra Tereza Cristina, a “Musa do Veneno”, consegue tornar o Brasil uma espécie de bacia das almas para produtos banidos em outras partes do mundo.

Como já é de praxe, vou atualizar a base que construí ao longo de 2019 com as principais características desses “novos” agrotóxicos e vou postar assim que tiver todos os dados preenchidos, o que normalmente leva algum tempo para evitar erros de preenchimento.

Mas de cara é possível notar que a China continua sendo a principal fornecedora dos produtos que foram liberados no dia de hoje, com mais de 50% dos produtos aprovados vindos de industrias chinesas. Esse fato mostra quão integrado e dependente o agronegócio brasileira se tornou da China que, por um lado, fornece a maioria dos venenos agrícolas que estão sendo consumidos no Brasil e, por outro, se transformou objetivamente no principal mercado das commodities agrícolas brasileiras.  O problema é que neste intercâmbio comercial, nós acabamos ficando com a “parte podre” do processo, pois acumulamos o envenenamento maior de nossos solos e águas, bem como a ampliação do desmatamento e da degradação de nossos biomas florestais, a começar pela Amazônia.

Um aspecto que ainda deverá ser analisado é a negligência óbvia sobre a saúde dos trabalhadores rurais e de todos que entrem em contato direto e indireto com esse número aumentado de substâncias altamente tóxicas que estão sendo colocadas no mercado brasileiro. E há que se frisar que isto ocorre para atender as necessidades dos grandes latifundiários que hoje controlam a exportação das commodities onde está fortemente concentrado o uso dessas substâncias.

Os problemas causados pela contaminação ambiental e humana decorrente da transformação do Brasil em uma espécie de piscina tóxica deverão ser sentidos nas próximos anos e décadas, visto que muitos dos produtos que estão sendo liberados ou possuem alta persistência ou geram metabólitos ainda mais tóxicos do que o produto ativo original quando são rapidamente degradados no ambiente.

Enquanto isso, os vendedores de veneno, principalmente os baseados na China, agradecem a esse ritmo desenfreado de aprovações. Mas como toda alegria pode acabar, os próximos meses deverão trazer repercussões econômicos de países que prezam minimamente pela saúde de suas populações.  A verdade inescapável é que caminhamos para um processo de isolamento sanitário por causa do nível de resíduos de agrotóxicos perigosos em que o modelo agrícola agroexportador brasileiro está baseado. Simples assim!

Nota do Observatório do Clima sobre o fim do zoneamento da cana

Governo joga etanol brasileiro na lama ao revogar zoneamento da cana

cana

Em nova ação de desmonte ambiental para atender aos lobbies paroquiais mais atrasados, o governo Bolsonaro revogou nesta quarta-feira (6) o decreto 6.961/2009, que há uma década protege a Amazônia e o entorno do Pantanal da expansão da cana-de-açúcar.

O zoneamento da cana, formalmente defendido até mesmo pela Unica, a união da indústria do setor, era o principal diferencial ambiental do biocombustível brasileiro. Foi esse decreto que impediu que as exportações de etanol do país sofressem restrições internacionais como as impostas ao biodiesel da Indonésia, ligado ao desmatamento.

A revogação desta quarta-feira, assinada pelo ministro da Economia, Paulo Guedes, e pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, é publicada no mesmo dia da Conferência Brasileira sobre Mudança do Clima, em que o Observatório do Clima lança novos dados mostrando o papel fundamental que os biocombustíveis tiveram em evitar uma forte alta nas emissões brasileiras de carbono em 2018.

Com seu ato, os dois ministros, tidos como a “ala razoável” do governo, expõem dois biomas frágeis à expansão predatória e economicamente injustificável da cana e jogam na lama a imagem internacional de sustentabilidade que o etanol brasileiro construiu a duras penas.

________________________________________

Esta nota foi originalmente publicada pelo Observatório do Clima [Aqui!].

Chuva de agrotóxicos no Brasil: total liberado pelo governo Bolsonaro chega a 410

Bolsonaro e Tereza Cristina liberam mais agrotóxicos; total alcança 410 em 2019

chuva

Lista de liberações publicada no Diário Oficial desta quinta (3) traz 57 novos registros, incluindo velhos conhecidos cancerígenos como Glifosato e 2,4-D

da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

O esforço do Ministério da Agricultura em inundar o mercado brasileiro com mais agrotóxicos segue a todo vapor. Nesta quinta-feira (3), o Diário Oficial publicou o registro de mais 57 agrotóxicos, totalizando 410 registros somente em 2019. O número já ultrapassa o total de todos os anos anteriores, exceto 2018, quando o número foi de 450.

Contrariando o argumento do Ministério d Agricultura de que os novos registros seriam de substâncias menos nocivas, a lista de hoje traz velhos conhecidos tóxicos do mercado brasileiro. Glifosato, glufosinato, atrazina, 2,4-D, mancozebe, clorpirifós, fipronil e diurom são alguns dos princípios ativos já registrados há anos no Brasil e que compõe a lista.

A novidade desta publicação é o uso da nova classificação feita pela Anvisa em agosto. Pela nova regra, diversos agrotóxicos que eram considerados extremamente e altamente tóxicos por causar cegueira e corrosão da pele se tornaram “improváveis de causar danos agudos”. Um exemplo é o Piriproxifem, que antes da mudança era classificado como “Extremamente Tóxico”, e agora aparece em uma mistura com Dinotefuram classificado como “Improvável de Causar Dano Agudo”.

Veja a lista atualizada com todas as liberações deste ano: Registros 2019 – atualizada 03-10

____________________________________________________

Este texto foi originalmente publicado pela Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida [Aqui!].