“Triste surpresa”: peixes da Amazônia estão contaminados por partículas de plástico

Cientistas descobrem a primeira evidência de poluição plástica em peixes de água doce da bacia amazônica

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A piranha-de-barriga-vermelha (Pygocentrus nattereri) é uma espécie do rio Xingu que foi contaminada por plásticos. Foto: Thomas Males / Alamy Foto De Stock

Por Ian Sample, editor de Ciências do “The Guardian”  [1]

Pesquisadores descobriram a primeira evidência de contaminação de plástico em peixes de água doce na Amazônia, destacando a extensão em que sacos, garrafas e outros resíduos despejados nos rios estão afetando a vida selvagem do mundo.

Testes no conteúdo estomacal de peixes no Rio Xingu, no Brasil, um dos principais afluentes do Rio Amazonas, revelaram partículas de plástico em mais de 80% das espécies examinadas, incluindo o onívoro pacu papagaio, o herbívoro  RedHook Silver Dollar e a carnívora piranha de barriga vermelha

Os pesquisadores se concentraram em peixes no Xingu por causa de sua rica diversidade e amplitude de hábitos alimentares. Os peixes variavam de 4 cm a quase 30 cm de comprimento e pesavam  de 2 gramas a cerca de um quilo.

A análise do conteúdo estomacal dos peixes identificou uma dúzia de polímeros distintos usados para fabricar itens plásticos, incluindo bolsas, garrafas e equipamentos de pesca. A maioria das peças era preta, vermelha, azul, branca ou translúcida e variava de partículas de 1 mm para flocos com 15 mm de largura.

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Resíduos plásticos de estômagos de peixes Serrasalmidae do rio Xingu. Foto: Environmental Pollution

“Foi uma triste surpresa porque no estágio inicial de nossa pesquisa o objetivo principal era entender a ecologia alimentar do peixe, mas quando começamos a analisar o conteúdo do estômago encontramos o plástico”, disse Tommaso Giarrizzo, que estuda ecologia aquática na Universidade Federal do Pará . “É alarmante porque essa poluição está espalhada por toda a bacia amazônica.”

Os cientistas escolheram o conteúdo estomacal de 172 peixes pertencentes a 16 espécies. Escrevendo na revista Environmental Pollution, os cientistas descrevem como 13 das espécies haviam consumido plásticos, independentemente de serem herbívoros que se alimentavam de plantas fluviais, carnívoros que sobreviviam principalmente de outros peixes, ou onívoros. Os herbívoros podem confundir pedaços de plástico por sementes, frutas e folhas, enquanto os onívoros provavelmente ingerem plásticos capturados em  macrófitas que compõem boa parte de sua dieta. Enquanto isso, os carnívoros, como a piranha, provavelmente consomem plásticos quando comem presas contaminadas.

Marcelo Andrade, também da Universidade Federal do Pará, disse: “É horrível saber que os detritos plásticos são ingeridos por 80% das espécies de peixes analisadas, e que muitas delas são consumidas por humanos na Amazônia. A poluição plástica é uma ameaça real para os seres humanos em todo o mundo. ”

No total, 96 peças de plástico foram recuperadas de estômagos de 46 peixes. Os testes mostraram que mais de um quarto eram de polietileno, um material usado em artes de pesca que muitas vezes é descartado em rios e oceanos. Outros foram identificados como PVC, poliamida, polipropileno, rayon e outros polímeros usados para fazer sacos, garrafas, embalagens de alimentos e muito mais.

Os rios são responsáveis por até um quinto dos resíduos plásticos encontrados nos oceanos. Grande parte da poluição é causada pela má gestão de resíduos ou pelo lixo sendo despejado intencionalmente nos cursos de água. Mais de 90% dos detritos plásticos que chegam a águas abertas vêm de 10 rios, oito na Ásia e dois na África.

Giarrizzo disse que mais pesquisas são necessárias para entender a origem do plástico nos rios da Amazônia e avaliar o impacto que ele pode ter na saúde humana. Uma preocupação, segundo ele, é que substâncias químicas perigosas possam se ligar aos plásticos encontrados em peixes, e assim comê-los pode levar a um acúmulo de substâncias químicas perigosas no corpo.

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O conteúdo estomacal dos peixes do rio Xingu revelou partículas de plástico. Foto: Mario Tama / Getty Images

“Embora os efeitos do consumo humano de microplásticos sejam amplamente desconhecidos, nossos resultados são uma preocupação de saúde pública, já que a Amazônia tem o maior consumo per capita de peixes do mundo”, disse ele.

O professor Steve Ormerod, co-diretor do Instituto de Pesquisa da Água da Universidade de Cardiff, disse: “Embora grande parte da publicidade e ênfase na poluição plástica tenha se concentrado nos oceanos do mundo, este artigo acrescenta evidências crescentes de que os plásticos também representam um risco potencial para a poluição. ecossistemas fluviais do mundo.

“Em alguns aspectos, esses resultados não surpreendem porque a Amazônia carrega cerca de 60.000 toneladas de lixo plástico todo ano no Atlântico, e amostras para esse trabalho no afluente do Xingu foram coletadas perto de Altamira – uma cidade de mais de 100.000 habitantes. pessoas. No entanto, com peixes individuais neste estudo, em média, com 22% -37% de seu conteúdo intestinal absorvido pelo plástico, certamente existem preocupações sobre os efeitos físicos ou toxicológicos.

“Com um número crescente de estudos que agora registram o plástico dentro de animais aquáticos, acho que agora temos que ir além desta fase descritiva em investigações das principais fontes de material plástico em rios, qual é o destino desse material em teias alimentares e, mais importante ainda, quais são os efeitos nos organismos e ecossistemas. Esta é toda a informação crítica se quisermos administrar o problema de plástico de uma forma baseada em evidências. ”


Texto publicado originalmente em inglês [1]

Norsk Hydro e as diversas facetas da hecatombe socioambiental em Barcarena (PA)

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Enquanto a mídia corporativa brasileira rapidamente soterrou o incidente ambiental causado pelo Norsk Hydro na cidade de Barcarena (PA), o jornal britânico “The Guardian” publicou uma matéria que abrangeu todos os aspectos que envolvem a empresa “quase estatal” da Noruega e sua atuação em território paraense [1].

Com o título “Poluição, doença, ameaças e assassinato”, a matéria assinada pelo jornalista Dom Phillips mostra que por muitos anos a população de Barcarena vem reclamando e sofrendo com a poluição causada pelas operações da Hydro Norsk que opera sob o olhar complacente do governo do Pará e dos órgãos ambientais.

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Entre os vários aspectos abordados na matéria uma que deixa claro o papel da Norsk Hydro  nessa pequena hecatombe socioambiental tem a ver com as doenças que foram acometidas contra a população local pelo consumo de água contaminada por rejeitos tóxicos cuja assinatura é única e os liga diretamente às operações da empresa norueguesa. Para que se tenha uma ideia do problema, análises das amostras coletadas próximas no duto clandestino que operada pela Norsk Hydro mostraram a presença de altos níveis de alumínio, nitrato, sulfato, clareto e chumbo. Apenas no caso do alumínio o valor encontrado de 22 mg por litro está bem acima do limite legal no Brasil que é de apenas 0,1 mg por litro!   

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Mais sinistra ainda é a situação dos que ousam denunciar as ligações entre o adoecimento da população e a contaminação causada pelas operações da Norsk Hydro cujo maior exemplo foi o assassinato do líder comunitário Paulo Nascimento que era um das principais vozes a denunciar os danos ambientais sendo causados na região da Barcarena.

Como já disse antes, não tenho expectativa alguma em que uma resposta para os problemas causados pela Norsk Hydro seja produzida no Brasil. Aqui a coisa está “dominada”. Mas a pressão que já era grande na Noruega, agora deverá aumentar com essa matéria do “The Guardian”.

Finalmente, algo que me veio à mente em relação ao posicionamento do governo da Noruega que cortou o aporte de recursos para o Fundo Amazônia sob a desculpa de que essa era uma punição pelo fato do governo brasileiro não ter contido o desmatamento na região amazônica. Agora, parece que a medida visava era cobrir os próprios descaminhos das operações de uma empresa “quase estatal” onde o governo norueguês detém uma parcela significativa do estoque de ações.


[1] https://www.theguardian.com/world/2018/mar/16/brazil-pollution-amazon-aluminium-plant-norwegian

 

The Guardian: A Samarco sabia!

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O jornal britânico “The Guardian” publicou na manhã desta 5a. feira um artigo assinado pelos jornalistas Dom Philips and Davilson Brasileiro mostrando que a Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) sabia com uma antecedência de pelo menos 6 meses que a barragem do Fundão poderia romper, podendo ter tomado providências para impedir o maior desastre ambiental da história da mineração mundial, mas não o fez por uma opção por manter suas taxas de lucro em detrimento da segurança dos habitantes de Bento Rodrigues e da proteção ambiental [1].

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A reportagem vai além e mostra que mais de 2 anos depois da ocorrência do TsuLama, ninguém aceitou responsabilidade pelas 19 mortes que ocorrerão em Bento Rodrigues, e muito menos pelas graves consequências impostas sobre os ecossistemas do Rio Doce. Essa falta de responsabilização, mostra a matéria, está explicitada no fato de que a Mineradora Samarco não pagou nenhuma das 24 multas lavradas pelo IBAMA que totalizam mais de R$ 400 milhões. 

A Samarco (Vale+BHP Billiton) tampouco entregou novas casas para todos os moradores da região de Bento Rodrigues que perderam aquelas em que viviam antes da eclosão do TsuLama.

Enquanto isso, a Samarco (Vale+BHP Billiton) vai empurrando com a barriga os processos que existem na justiça e se esquivando de pagar as multas lavradas, enquanto age para retomar o processo de mineração em Bento Rodrigues.

A reportagem encerra lembrando que o governo “de facto” de Michel Temer quer aumentar as áreas de mineração no Brasil, ao mesmo tempo em que está procedendo para fazer as regras de licenciamento ambiental ainda mais flexíveis.


[1] https://www.theguardian.com/world/2018/feb/28/brazil-dam-collapse-samarco-fundao-mining

O longo braço do socialismo de mercado chinês alcança a Amazônia brasileira

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Em mais uma daquelas matérias que a mídia corporativa brasileira opta por ignorar, o jornal britânico “The Guardian” revelou no último domingo que dois empresários chineses foram pegos num esquema que desmatou 6 km de floresta no estado do Amapá [1].

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O interessante é que , segundo o que o jornalista Dom Philips revela, esses dois empresários chineses estavam fomentando um esquema de corrupção que poderia ter causado danos ambientais estimados em 30 milhões de dólares.  Sinal que as estritas regras anti-corrupção adotadas na China não valem para quando seus agentes capitalistas penetram em outros países, especialmente aqueles da periferia como é o caso do Brasil.

Mas a extração criminosa de madeiras certamente não é o único negócio em que empresários chineses ou não estão envolvidos neste momento na Amazônia brasileira. Um exemplo claro é a própria monocultura da soja onde grandes corporações multinacionais estão fomentando a expansão da cultura, ainda que se saiba que às custas do desmatamento de áreas ocupadas por florestas nativas.

Não custa lembrar que a China é um dos principais mercados consumidores da soja brasileira.


[1] https://www.theguardian.com/world/2017/dec/17/brazil-amazon-china-corruption-amazon-amapa?CMP=share_btn_fb

Michel Temer, o “muy amigo” das petroleiras britânicas

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O jornal britânico “The Guardian” publicou ontem (19/11) uma matéria que está provocando um verdadeiro escândalo nas terras da Rainha Elizabeth. Trata-se da revelação de que o ministro britãnico de Comércio Internacional, Greg Hands, agiu sobre o governo “de facto” de Michel Temer para conseguir amplas vantagens para as petroleiras BP, Shell e Preier Oil dentro do Brasil [1].

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Esse lobby envolveu não apenas a concessão de isenções fiscais, acabar com o conteúdo nacional no Pré-Sal,  fragilizar o processo de licenciamento ambiental,  e o principal,  vender a preços mais do que generosos do blocos de exploração do pré-Sal para a BP e para a Shell.

O “interlocutor”  utilizado pelo ministro Greg Hands para fazer valer os interesses das petroleiras britânicas foi o secretário-executivo do Ministério de Minas e Energia, Paulo Pedrosa.  O lobby foi tão escancarado que Greg Hands postou uma fotografia do seu encontro com Paulo Pedro em sua página na rede social Twitter (ver abaixo).

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Mais detalhes sobre as tratativas do ministro Greg Hands com o governo “de facto” de Michel Temer em prol das petroleiras britânicas estão disponíveis no site jornalístico do Greenpeace do Reino Unido [2].

Em tempo, Paulo Pedrosa estaria também ativamente envolvido no processo de privatizção da Eletrobras. Se mantiver o mesmo padrão de preocupação com os interesses da população brasileira, já podemos saber que tudo será entregue a preços irrisórios.


[1] https://www.theguardian.com/environment/2017/nov/19/uk-trade-minister-lobbied-brazil-on-behalf-of-oil-giants.

[2] https://unearthed.greenpeace.org/2017/11/19/brazil-shell-bp-greg-hands-liam-fox/

Jogos Olímpicos: a ressaca depois da festa e as dívidas impagáveis

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O jornal inglês “The Guardian” publicou hoje uma ampla matéria escrita pelo cientista político Luís Eduardo Soares sobre a ressaca que inapelavelmente se abaterá sobre o Rio de Janeiro após o encerramento dos Jogos Olímpicos  (ver imagem monstrando uma reprodução parcial da matéria).

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A abordagem tomada por Luís Eduardo Soares vai além dos clichês patrióticos que ressaltam uma suposta capacidade do brasileiro em produzir grandes coisas, desafiando desconfianças que apenas refletiriam um suposto complexo de vira lata no plano interno, e de um imperialismo cultural no plano externo.

Luis Eduardo Soares também vai além ao colocar a herança problemática para além das dívidas impagáveis quando ressalta o tipo de transformação segregacionista que foi operada na cidade do Rio de Janeiro, deixando como resultado uma cidade ainda mais dividida e, pior, sem liderança ou direção a seguir. 

Luis Eduardo Soares encerra dizendo que  o Rio de Janeiro é bom quando apresenta sua face espetacular, mas com problemas graves no seu cotidiano. E essa característica, somadas todas as dívidas e obras inacabadas é que seriam a base de uma ressaca que começará já nesta segunda-feira.

Quem desejar ler a matéria completa, basta clicar (Aqui!)

The Guardian mostra o lado B dos Jogos Olímpicos Rio 2016

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Ainda que com erros e exageros localizados, a cobertura que a mídia internacional está dando do chamado “Lado B” dos Jogos Olímpicos em vias de encerramento na cidade do Rio de Janeiro é muito reveladora de que nem tudo é dourado sob os arcos olímpicos do COI.

Um exemplo disso é a matéria que acaba de ser publicada online pelo jornal inglês “The Guardian” e que leva a assinatura de Jonathan Watts com um título em português que poderia ser lido como “O assassinato de residentes de favelas continuam enquanto os Jogos seguem em frente no Rio de Janeiro”  (Aqui!) (ver reprodução parcial abaixo).

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Além de dar voz de residentes da Vila do João que estão sofrendo um verdadeiro cerco, e que já resultou em várias mortes, após o incidente fatal que vitimou um militar da Força Nacional, Watts chama a atenção para o fato de que para proteger atletas e turistas, o Estado brasileiro recheou toda a região que leva até o aeroporto internacional do Galeão com tropas militares. Entretanto, como bem colocou um dos moradores entrevistados, para os moradores mesmo é que sobra é o terror de viver entre o fogo cruzado criado pelos confrontos das forças militares com narcotraficantes. numa condição que beira um estado de sítio não declarado.

Watts chama ainda a atenção de seus próprios colegas da mídia internacional que estão gastando rios de tinta para noticiar o falso assalto envolvendo membros da delegação dos EUA, enquanto pouco ou nada se fala sobre a militarização dos espaços ocupados pelos pobres.

A matéria é encerrada com uma comparação nada abonadora de um morador da Favela da Maré que declarou a Watts que “ao contrário das competições de tiros das Olimpíadas, os alvos na vida real são pessoas negras que estão mortas de medo”.

Enquanto isso na mídia corporativa brasileira o que se ouve são patriotadas e demonstrações contínuas de misoginia e desrespeito.