Liminar suspende temporariamente inquérito sobre tragédia em Mariana

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da Agência Brasil, Foto: Lucas Bois

O inquérito havia pedido a prisão preventiva de seis funcionários da Samarco, entre eles o presidente licenciado Ricardo Vescovi, além de um engenheiro da VogBR.

O Superior Tribunal de Justiça (STJ) concedeu liminar suspendendo o inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais que apurou responsabilidades no rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, em Mariana (MG), em novembro do ano passado. A suspensão vale até que a Justiça decida o conflito de competência e estabeleça se o caso vai para a esfera federal ou se fica na esfera estadual.

Concluído em fevereiro, o inquérito indiciou e pediu a prisão preventiva de seis funcionários da Samarco, entre eles o presidente licenciado Ricardo Vescovi, além de um engenheiro da VogBR, empresa que prestava serviços à mineradora.

No mês passado, o Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) e o Ministério Público Federal (MPF) pediram que o inquérito fosse enviado à Justiça Federal. A solicitação tinha como objetivo reunir, na mesma jurisdição, todo o julgamento relacionado ao rompimento da barragem. Segundo o MPMG e o MPF, a medida ajudaria a evitar decisões contraditórias, já que a Justiça Federal vinha analisando os delitos ambientais ocorridos na Bacia do Rio Doce.

No entanto, a juíza Marcela Decat de Moura negou o pedido e manteve a tramitação do inquérito na Justiça Estadual, na comarca da Mariana. Em seu despacho, ela argumentou que a sociedade do município mineiro precisa exercer a garantia constitucional de julgar, no local dos fatos, os indivíduos que supostamente praticaram os crimes dolosos contra a vida.

O MPF decidiu então acionar o STJ. No último dia 11, o ministro Nefi Cordeiro informou à juíza Marcela Decat de Moura sua decisão de suspender temporariamente o inquérito.

A barragem da mineradora Samarco se rompeu na tarde do dia 5 de novembro, no distrito de Bento Rodrigues, zona rural a 23 quilômetros de Mariana. A tragédia deixou 19 mortos e inundou a região com lama, causando destruição de vegetação nativa e poluindo as águas da Bacia do Rio Doce.

Prorrogação

Um segundo inquérito da Polícia Civil de Minas Gerais, com foco nos crimes ambientais decorridos do rompimento de barragem, pode ter o prazo ampliado. O relatório final das investigações deveria ter sido concluído até ontem (22). No entanto, os delegados encarregados do caso solicitaram à Justiça a prorrogação do prazo. A juíza Marcela Decat de Moura será encarregada de avaliar o pedido.

FONTE: http://tragedianunciada.mabnacional.org.br/2016/03/23/liminar-suspende-temporariamente-inquerito-sobre-tragedia-em-mariana/

Vice News faz nova matéria sobre o TsuLama

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​Quem poderá salvar o Rio Doce? Para o governo, é a própria Samarco

Por Débora Lopes

Da coluna ‘Desastre em Mariana’

No início do mês, o governo federal e os estados de Minas Gerais e do Espírito Santo assinaram um acordo extrajudicial com as empresas Samarco, Vale e BHP Billiton para mitigar os prejuízos causados à Bacia do Rio Doce, catastroficamente afetada pelo rompimento da barragem de rejeitos em novembro do ano passado. O investimento será de mais de R$ 4 bilhões. Porém, especialistas no assunto contestam a “carta branca” oferecida à Samarco, que contratou a Golden Associates, uma consultoria internacional, para mapear os impactos ambientais e traçar o plano de ações de recuperação.

A desconfiança parte também do Ministério Público Federal (MPF), que, em nota oficial, questionou a decisão por entender que ela “prioriza a proteção do patrimônio das empresas em detrimento da proteção das populações afetadas e do meio ambiente”.

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Margem do Rio Doce após o rompimento da barragem em Bento Rodrigues. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Em seu site oficial, a Samarco detalha que o acordo definiu a criação de uma Fundação que será composta por “Conselho de Curadores, Diretoria Executiva, Conselho Consultivo e Conselho Fiscal; além de especialistas técnicos e auditorias independentes”.

Para o engenheiro industrial e ativista dos direitos dos animais Alexandre G. Valente, “a Golden Associates vai apresentar o relatório que ficar conveniente pra mineradora”. Ele também acredita que o acordo firmado é desprovido de cláusulas específicas. “Ele não preconiza nada do que será feito no rio”, relata.

Quatro meses depois do episódio, o leito do Rio Doce continua a ser contaminado com rejeitos da barragem, já que o vazamento até hoje não foi contido. “Isso significa que estamos com um problema ainda em curso”, alerta Carlos Rezende, professor titular e chefe do laboratório de Ciências Ambientais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF).

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Moradores de Governador Valadares (MG) rezando durante distribuição voluntária de água. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Para ele, o mapeamento dos impactos ambientais na região deveria ficar a cargo de um comitê de bacia, como o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Doce. “Um órgão colegiado com representações de diferentes usuários e [que] tem como pressuposto organizar o uso múltiplo das águas de um determinado recurso hídrico.”

De acordo com o especialista, será necessário muito empenho por parte da Samarco para trazer o Rio Doce e toda a região de volta à vida. “Os peixes foram temporariamente dizimados, assim como uma fauna pouco conhecida”, detalha. “Então, essa ausência de informação prejudica terrivelmente qualquer estimativa.”

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Morador de Resplendor (MG), lamenta a vista para um Rio Doce enlameado. Foto: Felipe Larozza/ VICE

Se o debate popular acerca do acontecido em Marina se dissipou ou caiu no esquecimento, o coordenador de campanhas do Greenpeace, Nilo D’Avila, tem uma teoria. “A lama da Lava Jato sombreou a lama de Mariana“, pontua. Para ele, o Brasil vive um momento político conturbado. “As questões ambientais estão longe de ocupar a opinião pública.”

Há também o lado social do ocorrido. Sob o ponto de vista do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), a decisão “representa a rendição ao criminoso”. Em nota oficial, o movimento denuncia que o acordo foi “realizado em gabinetes e sem participação nenhuma das vítimas que foram atingidas”.

FONTE: http://www.vice.com/pt_br/read/rio-doce-samarco

Concentração de ferro no mar de Regência aumentou 20 vezes, aponta pesquisa da Ufes

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Quase 60% das espécies de fitoplâncton desapareceram do mar de Regência, Norte do Espírito Santo, após a chegada da lama de rejeitos de minério da Samarco, de acordo pesquisadores da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes). A análise do mar, realizada no final do ano passado, identificou a presença de ferro, manganês, cromo e alumínio na água.

O estudo apontou que a concentração de ferro no mar aumento 20 vezes. Com isso, a diversidade marítima da região está diminuindo. Antes da chegada da lama, cerca de 60 espécies de fitoplâncton eram encontradas nas região, recentemente, esse número não passa de 25.
Todas essas informações serão apresentadas ao Ibama, na manhã desta terça-feira (15), durante um workshop. No evento, pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul também vão apresentar o resultado da análise de contaminação de peixes e crustáceos da região.

Fase crônica

De acordo com o coordenador de Estudos do Meio Marinho para o Impacto da Lama do Rio Doce e professor da Ufes, Alex Bastos, durante a chegada da lama de rejeitos, o mar de Regência estava na fase aguda da contaminação, agora, o mar passa pela fase crônica, quando o nível de metais pesados diminuiu, mas tende a permanecer assim por um longo período.

“O que observamos preliminarmente é que o momento agudo do impacto passou, os teores de metais diminuíram e a produção de clorofila voltou a uma condição não tão absurda como estava antes. Entendemos que essa é a fase do impacto crônico, que seria um novo estabelecimento no sistema marinho na região do Rio Doce, no mar de Regência”, contou à Rádio CBN Vitória.

Recuperação

O coordenador da pesquisa explica que ainda é cedo para saber quando o mar de Regência será totalmente recuperado. Bastos destacou que os estudos precisam continuar por, no mínimo, um ano para que seja feito um raio x do ecossistema.

“Temos que ter certeza, passado um ano, por exemplo, onde teremos variações de temperatura, chuva, hidrologia do rio, tirando todas essas variáveis do sistema, como o ecossistema se comportou a partir de uma nova realidade em termos de metais, nutrientes, características da lama e maior aporte de sedimento”, explicou. Durante o workshop será definido quais serão os próximos passos da pesquisa.

Fonte: CBN Vitória (93,5 FM)

FONTE: http://www.gazetaonline.com.br/_conteudo/2016/03/noticias/cidades/3933623-concentracao-de-ferro-no-mar-de-regencia-aumentou-20-vezes-aponta-pesquisa-da-ufes.html

Sul 21: Barragem da Samarco continua vazando e lama segue descendo o rio, diz presidente da CUT-MG

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Presidenta da CUT – MG, Beatriz Cerqueira, fala sobre a tragédia de Mariana. Foto: Guilherme Santos/Sul21

Beatriz Cerqueira: “É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

Marco Weissheimer

O impacto do rompimento da barragem da Samarco em Bento Rodrigues, ocorrido no último dia 5 de novembro, no subdistrito do município de Mariana, é muito maior do que se consegue ver hoje e terá consequências devastadoras para a vida de muitas comunidades. O alerta é da professora Beatriz Cerqueira, presidente da Central Única dos Trabalhadores em Minas Gerais, que vem acompanhando o caso desde o início e participa de uma articulação de sindicatos, movimentos sociais e populares de Minas que luta para que os responsáveis paguem civil e criminalmente pelo ocorrido. Em entrevista ao Sul21, Beatriz Cerqueira, fala sobre essa mobilização e sobre a dimensão do impacto social e ambiental do rompimento da barragem, “que não foi um acidente”, faz questão de enfatizar, “mas sim um crime ambiental”.

“O crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite. Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores”, diz a dirigente da CUT, que critica a chantagem econômica promovida pela mineradora sobre as comunidades da região atingida, bem como o acordo firmado pela empresa com a União, que não contou com a participação dos atingidos.

Sul21: Você poderia resumir os acontecimentos que se seguiram ao rompimento da barragem da Samarco? Qual a sua avaliação sobre as consequências trágicas do rompimento e seus possíveis desdobramentos?

Beatriz Cerqueira: A barragem de Fundão rompeu no dia 5 de novembro. Esse rompimento gerou a devastação imediata e completa de Bento Rodrigues, subdistrito de Mariana. Mas a lama também percorreu uma extensa área até chegar ao rio Doce, comprometer toda a bacia desse rio e, finalmente, chegar até o mar. Embora, nacionalmente, se conheça mais a situação do subdistrito de Bento Rodrigues, outros subdistritos e municípios também foram muito atingidos. É o caso, por exemplo, do município de Barra Longa, localizado a uma hora e meia de Mariana. Neste município, a lama invadiu o centro da cidade cobrindo as casas da região central quase até o teto. A força da lama foi tal que, ao passar pelo rio, ela voltou por cinco quilômetros contra a correnteza.

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“Não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram”. (Foto: Guilherme Santos/Sul21)

O rompimento da barragem provocou o comprometimento de toda a bacia do rio Doce, a vida do rio e o abastecimento de água de diversos municípios da região. Diante desses acontecimentos, uma das primeiras coisas que precisa ficar clara é que não se tratou de um acidente. Estamos dizendo isso desde o dia 6 de novembro e o que nós avaliávamos foi comprovado pelo inquérito da Polícia Civil concluído na semana passada. Diferente do discurso da mineradora, esse inquérito conclui que não ocorreram impactos sísmicos que pudessem provocar o rompimento da barragem. O inquérito da Polícia Civil demonstrou que houve uma série de fatores causados pela negligência da empresa, que resultaram no rompimento. Entre esses fatores estão equipamentos com deficiência, assoreamento de partes da barragem e falta de manutenção em vários trechos da barragem. Então, não estamos falando de um acidente, mas sim de um crime e a luta da CUT e de todos os movimentos populares e sociais de Minas Gerais é para que os responsáveis paguem civilmente e criminalmente pelo que fizeram. O segundo aspecto que estamos discutindo agora é a situação dos atingidos pelo rompimento da barragem.

Sul21: Qual o número consolidado de vítimas, entre mortos e desaparecidos?

Beatriz Cerqueira: Entre mortos e desaparecidos, são 20 pessoas. Dezessete mortos, dois desaparecidos e nós estamos considerando uma vigésima vítima, que foi o feto de uma jovem grávida de quatro meses que, na luta para sair da lama que atingiu sua casa em Bento Rodrigues, sofreu um aborto. Quanto aos atingidos, são todos os moradores que vivem na região do percurso da lama. Na verdade, todo o estado de Minas Gerais foi atingido por esse crime da Samarco, Vale e BHP.

Nós temos lutado para que a empresa não controle nem tutele a relação com os atingidos. Não pode ser a empresa a definir, sozinha, o que é necessário para os atingidos e mesmo quem são os atingidos, mas é isso que a mineradora tem feito desde novembro de 2015. Ela define quem são os atingidos e tenta impor o que esses atingidos precisam como mecanismos de compensação. Os movimentos sociais e populares estão trabalhando para que os atingidos se organizem e não sejam tutelados pela mineradora. É uma luta muito desigual porque a Vale, a BHP e a Samarco colocaram toda a estrutura de seu poder econômico para fazer esse monitoramento e esse controle.

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De fato, o que nós identificamos é que atuação da mineradora ficou muito aquém das suas responsabilidades. Ela vem tentando diminuir as necessidades das pessoas atingidas. No município de Barra Longa, eu acompanhei a luta das mulheres para que sejam repostas questões básicas do cotidiano de suas casas, como, por exemplo, o funcionamento de máquinas de lavar. Houve o caso de uma senhora idosa que só teve a reposição de sua máquina de lavar após apresentar um laudo médico para a Samarco comprovando que ela não podia torcer a roupa com as mãos. Existem outros casos muito semelhantes envolvendo negativa de direitos.

Outro aspecto fundamental envolvido neste episódio é o do abuso do poder econômico. É necessário que Minas e o Brasil rediscutam o modelo de mineração implantado no país e a serviço de quem ele opera. Em 2014, a Samarco teve um lucro líquido de R$ 2,8 bilhões de reais. A sua produção é toda voltada para a exportação e grande parte de seu lucro não é revertido em benefícios sociais para a população, indo para os acionistas. Cabe assinalar ainda que as mineradoras exerceram até hoje um papel estratégico no financiamento de campanhas eleitorais. Os principais candidatos à presidência da República, os principais candidatos ao governo de Minas e um grande leque de candidatos a deputado estadual, a deputado federal e a vereador são financiados pelas mineradoras. Muitas pesquisas nas universidades também são financiadas por mineradoras. Além disso, temos as grandes campanhas publicitárias feitas nos meios de comunicação, comprometendo a cobertura jornalística feita por essas empresas.

Sul21: O que representa, hoje, o setor de mineração em Minas Gerais? Qual o tamanho, o perfil e a dinâmica dessa atividade?

Beatriz Cerqueira: O nosso problema é que Minas Gerais não cuidou da diversificação da sua economia. O minério de ferro é um dos principais produtos da pauta de exportação do Estado. Existe uma coisa assustadora, sobre a qual pouco se fala, que são os mineriodutos (quatro, no total), que fazem o transporte do minério da mina até o porto, para exportação. O que se gasta de água para esse transporte é superior ao consumo de grandes cidades da região metropolitana de Belo Horizonte, ou de cidades como Governador Valadares, que teve todo o seu consumo de água comprometido pelo rompimento da barragem. A negligência envolvendo a segurança, a utilização desse sistema de mineriodutos e de barragens de rejeitos são práticas para diminuir custos. O minério de ferro teve uma queda de preço no mercado internacional. Mesmo assim, as mineradoras mantiveram ou mesmo aumentaram seus lucros. Como isso é possível? Diminuindo custos, inclusive na área da segurança. O inquérito apontou que vários equipamentos não estavam funcionando.

Outra característica desse modelo é a prática intensa de terceirizações, inclusive de modo ilícito, razão pela qual a Samarco está sendo investigada pelo Ministério Público do Trabalho. Mais de 50% dos funcionários da Samarco são terceirizados. Dos trabalhadores que morreram, somente um era vinculado diretamente à empresa. Esses trabalhadores sequer tiveram por parte da empresa um aviso do iminente rompimento da barragem. Então, temos um conjunto de negligências operando para cortar custos e manter a lucratividade.

Sul21: Há muitas barragens desse tipo operando em Minas?

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Beatriz Cerqueira: No total, são mais de 400 barragens. O que nos preocupa é que o caso dessa barragem que rompeu expôs um esquema de favorecimento e de agilidade no processo de licenciamento. Foram pouco mais de dois meses para que houvesse o licenciamento para a operação da barragem, por decisão monocrática no secretário adjunto do Meio Ambiente à época. Estamos falando de licenciamentos em 2007, 2008 e 2013. Esse processo faz com que o Estado também seja responsável por esse tipo de crime, por omissão, negligência e favorecimento no processo de licenciamento das barragens. Isso que essa barragem que rompeu era considerada segura. Se olharmos os relatórios das barragens em Minas essa que rompeu não era considerada de risco, mas sim como segura.

Sul21: Como está sendo a atuação institucional neste caso? Os órgãos do governo, Ministério Público e Judiciário estão enfrentando o poder e a pressão econômica da Samarco?

Beatriz Cerqueira: O Ministério Público tem tido uma atuação muito forte e positiva junto aos atingidos. O que nos causou estranhamento e indignação foi o processo de acordo da empresa com a União sem a participação dos atingidos. Esse acordo, pela informação que temos, traz consigo a autorização para a retomada das atividades por parte da mineradora. O poder econômico das mineradoras tem atuado fortemente neste tema. Materializando esse poder, cabe esclarecer que a Samarco, hoje, tem como duas de suas principais controladoras a Vale e a BHP. Mas o consórcio que compõe a Vale tem o BNDES, o Bradesco e os fundos de pensão do Banco do Brasil e dos funcionários da Petrobras. Então, esses atores que estão silenciosos desde que o crime aconteceu também precisam ser cobrados, pois são controladores da Samarco. O que se percebe é que, publicamente, tenta-se jogar a responsabilidade só para a Samarco, omitindo o papel da BHP, da Vale e suas controladoras.

Sul21: Do ponto de vista da repercussão midiática do caso junto à opinião pública de Minas Gerais, o assunto já está desaparecendo das manchetes principais?

Beatriz Cerqueira: Esse é um de nossos desafios, não deixar que Mariana caia no esquecimento. Temos pautado permanentemente esse tema no movimento sindical. No dia 28 de abril, dia em memória às vítimas de acidentes de trabalho, teremos um ato nacional do movimento sindical, em Mariana, envolvendo várias centrais e o DIEESE. O dia 1º de maio, em Minas Gerais, terá um tribunal popular para discutir os crimes da mineração. É uma luta desigual, pois a empresa tem uma estratégia muito forte na disputa da opinião pública. Desde o ano passado, a Samarco tem promovido campanhas publicitárias dizendo que tem feito tudo o que é necessário, o que não é verdade. Na prática, os atingidos, os ribeirinhos, os pescadores do rio Doce não têm tido a assistência necessária na maioria dos municípios. Neste momento, a própria Samarco avalia que não tem mais que fornecer água, mesmo que a qualidade da água do rio Doce não esteja adequada para novas captações.

Sul21: Como está essa questão do abastecimento de água? Os municípios mais diretamente atingidos seguem captando água do Rio Doce?

Beatriz Cerqueira: O sistema está comprometido. Quem conseguiu, fez captação de outros rios. Mas quem depende diretamente do rio Doce, como Governador Valadares, tem enfrentado muitos problemas e voltou a captar. Há muita falta de transparência nas informações disponibilizadas para a população que, em função disso, está justificadamente desconfiada com a qualidade da água neste momento. É importante destacar ainda que a lama continua descendo. Minha última visita à região foi no dia 13 de fevereiro. Eu vi com os meus olhos que a lama continua descendo, chegando à bacia do rio Doce e chegando ao mar. A barragem continua vazando e a lama continua descendo pelos rios.

Sul21: Depois do rompimento, não houve a instalação de um sistema de contenção para interromper o vazamento?

Beatriz Cerqueira: Não, não houve. A lama continua descendo, mais de três meses depois do rompimento. Eu estive lá na semana que completou cem dias do rompimento. Publiquei um vídeo no meu Instagram que mostra isso (ver abaixo).

Sul21: Já há um diagnóstico inicial sobre o tamanho do impacto ambiental do rompimento?

Beatriz Cerqueira: Não. Esse é outro objeto de disputa que faz parte também do acordo da União com a Samarco. A União está assumindo a responsabilidade pelas questões ambientais. Mas existe um inquérito policial aberto para apurar as responsabilidades no processo de licenciamento e o crime ambiental. Além deste, temos o inquérito já concluído que pediu a prisão preventiva de sete acusados. É um cenário de disputa, onde a empresa tenta diminuir o tamanho do impacto. Temos relatos que a própria empresa contratou ribeirinhos, logo no início, que pudessem recolher os peixes mortos para que esse dano se tornasse o menos visível possível. É importante dizer que o crime ocorreu na época da piracema, quando os peixes se reproduzem. O impacto disso será devastador na vida das comunidades e dos pescadores. A lama destruiu muitas pastagens e áreas de agricultura familiar, que viviam da produção de leite.

Os impactos são muito maiores do que aquilo que a gente consegue ver. Conseguimos ver os atingidos que perderam suas casas ou que perderam alguém de sua família. Mas os impactos são muito superiores. O que eu acho mais perverso é a chantagem feita pela mineradora. Essas empresas criaram um sistema onde diversas comunidades passaram a viver em torno da mineração. Tome o exemplo de uma cidade linda como Mariana, numa região de turismo histórico, que apostou na mineração como sua maior fonte de renda. Acontece que, nas cidades que fizeram essa escolha, não se vê melhores indicadores de qualidade de vida, comparando com outras comunidades. Não há prestação de serviços públicos essenciais em áreas como saúde, educação e habitação de qualidade melhor do que em regiões que não têm mineração.

Como a economia destas cidades gira em torno das mineradoras, vende-se a ideia de que a paralisação das atividades da empresa vai trazer queda de arrecadação e desemprego. A chantagem econômica é muito forte e continua na região. Hoje, mesmo depois do que aconteceu, vemos manifestações em favor da empresa. Há movimentos nas redes sociais intitulados “Fica Samarco”, “Somos todos Samarco”.

Sul21: Alguém já foi preso em função do que aconteceu?

Beatriz Cerqueira: Não. Houve o pedido de prisão preventiva do presidente da empresa, que está licenciado e de diretores responsáveis pelo projeto, pela segurança, mas ninguém foi preso ainda.

FONTE: http://www.sul21.com.br/jornal/barragem-da-samarco-continua-vazando-e-lama-segue-descendo-o-rio-diz-presidente-da-cut-mg/

Enquanto rejeitos da Samarco continuam vazando, governo Dilma sacramenta acordo vergonhoso com mineradoras

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A imagem acima é de cerimônia de assinatura do “acordão” entre os governos federal e dos estados de Minas Gerais e do Espírito Santo com as mineradoras envolvidas no TsuLama que eclodiu em Mariana (MG) no dia 05 de Novembro causando mortes e destruição de ecossistemas inteiros na bacia hidrográfica do Rio Doce.

Para o Movimento dos Atingidos por Barragens, o MAB, este acordo (ou seria rendição?) representa uma constatação das relações promíscuas que se estabelecem mediante os financiamentos privados de campanha que, como já é sabido, decidem quais são os candidatos que ganham as eleições (Aqui!).

Este acordo é ruim sob muitos aspectos, a começar pela exclusão dos atingidos pelos efeitos catastróficos do TsuLama de qualquer interferência na definição dos termos do acordo. Mas mais do que isto, as concessões que foram feitas e  declaradas publicamente pela Dilma Rousseff em defesa da viabilidade da Mineradora Samarco. É que por detrás da preocupação fajuta com empregos e desenvolvimento, o que se concede é a perpetuação de um modelo de exclusão social e que está também alicerçado em graves incidentes de degradação ambiental.

Assim, ainda que sob a capa do Neodesenvolvimentismo lulopetista, o que assistimos nessa relação domesticada do Estado brasileiro com as mineradoras nada mais é do que a submissão dos interesses nacionais àqueles ditados pelos fundos financeiros mundiais que hoje controlam também este setor.

Felizmente, continuo insistindo nisso, graças à documentação visual e documental que está circulando via a internet, as mineradoras Vale e BHP Billiton poderão ficar impunes no Brasil, mas pagarão um custo ainda maior por sua omissão nos países centrais, onde os investidores tendem a não querer se envolver com empresas com o tipo de passivo ambiental e social que foi gerado em Mariana.

E para que o TsuLama não seja apenas uma palavra vazia, posto abaixo um vídeo que mostra a situação conforme estava no dia 28/02 no encontro dos rios Galaxo e Carmo. É essa realidade enlameada que se tentou jogar para debaixo de tapete hoje em Brasília. 

TV australiana ABC produz reportagem devastadora sobre o TsuLama da Samarco

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Enquanto no Brasil ficamos distraídos com os embates em torno do mandato de Dilma Rousseff, os pedalinhos do sítio frequentado por Lula em Atibaia e o triplex que a Família Marinho construiu em uma área de proteção ambiental em Paraty, o canal australiano ABC produziu e levou ao ar ontem (29/02) um documentário de 45 minutos sobre as causas e responsabilidades pelo rompimento da barragem Fundão em Bento Rodrigues (MG).

O principal mérito da reportagem produzida pelo repórter Ben Knight, sob o título de “Falha Catastrófica”, é mostrar de forma apurada o drama que os moradores de Bento Rodrigues continuam vivendo em meio ao crescente esquecimento que vem sendo propositalmente produzido para garantir a impunidade da Mineradora Samarco e das suas controladoras, Vale e BHP Billiton.

É interessante notar que enquanto no Brasil a Vale e a Samarco estavam sendo blindadas pela mídia corporativa no Brasil, na Austrália a BHP Billiton está recebendo o tratamento devido em termos de exposição das suas responsabilidades pela catástrofe que foi imposta sobre a população de Bento Rodrigues e de todos os municípios que acabaram recebendo o impacto do TsuLama.

Um dos pontos que eu particularmente gostei foi o momento em que a Samarco se recusa a responder as perguntas formuladas pelo repórter da TV, o que se mostrou um momento de tremenda saia-justa.

Assim, apesar da maior parte da reportagem estar em inglês, o seu conteúdo é bastante compreensível. Quem tiver interesse em assistir, basta clicar (Aqui!).

Campanha publicitária da Samarco: um bom exemplo do que não deve ser feito

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A campanha publicitária produzida pela Mineradora Samarco (Vale + BHP Billiton) foi muito mal recebida pelo público em geral, mas agora está servindo para pelo menos uma coisa útil para o mundo corporativo: dar uma lição do que não deve ser feito em casos de graves incidentes sociais e ambientais.

Bom, pensando bem, não sei se isso é bom ou ruim para os que estão na ponta de cá. Entretanto, a análise do articulista Marcos Bedendo da Revista Exame é mais uma pedrada na fracassada campanha da Samarco. Sob este ângulo, merece ser lida sem hesitação.

Samarco: uma grande aula do que NÃO fazer

Marcos Bedendo

Comunicar-se durante uma crise é o que há de mais complexo a se fazer em comunicação empresarial. Portanto, qualquer empresa que passa por uma crise é interessante de ser observada de perto para, com distanciamento e frieza, se aprender com os acertos e erros na condução da comunicação.

Nessa perspectiva, o caso da Samarco tem se mostrado exemplar. Não me lembro de nenhuma outra situação em que uma comunicação empresarial tenha sido feita de maneira mais desastrosa, e nada profissional, em cada etapa do processo.

Logo no início da crise, com o rompimento da barragem, a comunicação foi ineficiente e omissa. Poucas informações e nenhuma entrevista ou declaração dos diretores ou do presidente da empresa durante semanas fizeram com que a Samarco passasse a ser vista como despreparada, ineficiente e insensível.

Em momentos iniciais de crises é importante demonstrar clareza e transparência, profissionalismo e conhecimento. Afinal, ninguém sabe mais do próprio negócio do que a empresa, e se ela não consegue se articular sobre o ocorrido e tomar a liderança na comunicação, ela passa a sensação que a situação está completamente fora de controle, o que tende a exaltar os ânimos da opinião pública.

Mas incorrer em erros nessa etapa não é incomum. A Unilever teve um caso assim com a marca Ades, alguns anos atrás. A empresa teve um problema de fabricação com um lote de produtos Ades do sabor maçã, algo que, por mais infeliz que seja, é passível de acontecer em qualquer empresa e pode ser tratado com mínimos impactos para o consumidor e para a imagem da empresa. A falta de clareza na comunicação e a falta de pronunciamento inicial dos líderes da Unilever fez um problema localizado se tornar um problema de imagem de grandes proporções (relembre o caso aqui).

O caso da Samarco já era diferente desde o início.  Trata-se de um desastre de grandes proporções e, portanto, a necessidade de informação e a repercussão do caso seria enorme de qualquer maneira. A falha de comunicação inicial da Samarco neste caso era esperada e até compreensível. Se até para empresas como a Unilever o problema aconteceu, uma empresa que nunca esteve sob os holofotes da mídia dificilmente teria tido uma excelência na condução dessa etapa do processo.

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Mas se na parte “passiva” da comunicação, e no calor da crise, pode-se admitir falhas, o mesmo não pode ser feito para uma comunicação ativa feita após o processo.

No começo de fevereiro, a Samarco iniciou uma campanha publicitária com o tema “olhar para todos os lados”, na qual se utiliza do depoimento de seus funcionários e outros líderes comunitários conclamando a população a perceber o que a Samarco tem feito para reparar os problemas causados pela tragédia. O filme é finalizado com a assinatura “Fazer o que deve ser feito”, mostrando a empresa como se tivesse tido uma postura exemplar durante o acidente. Veja a seguir:

A sugestão feita pela comunicação é vil, manipuladora, e absolutamente repulsiva. A campanha é cheia de problemas e demonstra uma situação distante da realidade.

Primeiro, ao assinar com “fazer o que deve ser feito” ela dá a entender que a empresa faz as suas atividades de maneira correta, o que não é verdadeiro. Uma mineradora tem como principal negócio fazer mineração com segurança e com ausência de problemas. Deixar uma barragem se romper está longe de “fazer o que deve ser feito”.

“Fazer o que deve ser feito” é se ter ciência da responsabilidade que se tem ao investir num negócio de mineração, e mitigar, de todas as maneiras possíveis, os riscos de segurança e ambientais que uma atividade como a mineração naturalmente tem.

“Fazer o que deve ser feito” era dar atenção e agir sobre um laudo de 2013, que mostrava a possibilidade que a barragem de Fundão tinha de se romper. “Fazer o que deve ser feito” era atender à recomendação do MP para “a elaboração de estudos e projetos sobre os possíveis impactos do contato entre as estruturas”, antecipando em anos o problema que ocorreu no final de 2015 (veja noticia completa aqui).

Em segundo lugar, pensando em termos de comunicação, “fazer o que deve ser feito” deveria ser estampar os diretores que ainda permanecem na empresa no comercial, assumindo a responsabilidade pelo ocorrido e divulgando um plano de ação para a solução de todos os problemas ocorridos com o rompimento da barragem, e não vergonhosamente se esconderem atrás de funcionários, esses sim verdadeiramente valiosos e voluntariosos.

Ainda um terceiro ponto: a Samarco trata o acidente como se fosse um problema natural, como se tivesse ocorrido por causas naturais. Ele trata um acidente como uma enchente, como um desabamento em função de uma chuva, de um furacão. Não foi.

A Samarco se mostra nos comerciais como uma ONG, que voluntariamente está auxiliando os que tiveram problemas numa tragédia, se eximindo da responsabilidade inicial de ter causado o problema. E ela não é isenta! Ela foi a causadora do problema.

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Mas a comunicação deles ainda vai mais longe. Ela clama a população a “olhar para todos os lados”. Ela se coloca como uma “injustiçada” no processo de comunicação da tragédia. Como se ela tivesse sido feita de vilã pelos jornalistas que cobriram, e continuam cobrindo, o rompimento da barragem. Como se estivesse sendo culpada por um acidente “natural”.

Ele mostra uma realidade que só existe na propaganda e na cabeça dos diretores da Samarco. E que é tão infantilmente manipulada na comunicação que não conseguiu ter nem ao menos uma opinião positiva nas suas redes sociais (acompanhe a pagina deles aqui). De tão irreal, realmente ela só pode ser comparada à uma propaganda política.

De fato, é difícil achar um caso de comunicação que nos traz lições tão didáticas e tão claras do que não se fazer – um mau exemplo em todos os sentidos.

FONTE: http://exame.abril.com.br/rede-de-blogs/branding-consumo-negocios/2016/02/18/samarco-uma-grande-aula-do-que-nao-fazer/