Ciência e tecnologia fluminense nas trevas e a possibilidade da volta de Gustavo Tutuca à SECT

Inquirido a opinar sobre a qualidade do eventual substituto do efêmero secretário de Ciência e Tecnologia fluminense, deputado Pedro Fernandes (PMDB), respondi que considerava que a infindável capacidade do (des) governador Pezão de apontar secretários fracos para dirigir áreas estratégicas, e o que um nome ainda mais desqualificado poderia ser indicado para a pasta.

Eis que hoje a coluna “Informe” do jornal “O DIA” nos informa que o potencial futuro secretário de Ciência e Tecnologia poderá ser um velho conhecido, o deputado Gustavo Tutuca, o qual já deixou triste memória em sua passagem anterior pela secretaria de Ciência e Tecnologia (SECT) do Rio de Janeiro (ver reprodução da coluna abaixo).

IMG-20170714-WA0058

A questão é que Gustavo Tutuca não apenas um currículo acadêmico bisonho (aliás, a coisa mais relevante que se sabe de Tutuca é que ele é conterrâneo de Pezão!), mas também possui um perfil refratário ao diálogo com as universidades, como ficou demonstrado ao longo do tempo em que permaneceu à frente da SECT.  A coisa foi tão ruim com Tutuca que teve gente lamentou a partida de Pedro Fernandes que, pelo menos, fingia dialogar com as universidades!

Além disso, após se omitir totalmente em relação ao caos instalado no sistema de ciência e tecnologia fluminense, Gustavo Tutuca ainda se deu ao trabalho de comandar a criação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar supostas irregularidades cometidas no pagamento de bolsas e auxílios nas universidades estaduais (Aqui!). Esta ação foi vista contra uma tentativa de intimidar as universidades e está até hoje atravessada na garganta de muita gente.

Interessante notar que a volta de Gustavo Tutuca também significará o desmembramento da área de desenvolvimento social e a recriação de uma secretária que seria entregue à uma deputada federal do PMDB. Com isso fica evidente a farsa que é o discurso do (des) governo Pezão de que há compromisso com o enxugamento de máquina e o corte de cargos comissionados! Aliás, a única coisa que se está enxugando neste (des) governo são os orçamentos das universidades e das escolas da rede Faetec!

Mas é importante que as universidades se preparem para a volta de Gustavo Tutuca para a SECT, pois esta volta representa apenas a sinalização de que as trevas em que vivemos neste momento ainda poderão piorar, e muito. E como diz a primeira lei de Murphy, “nada está tão ruim que não piorar”.

tutuca não

Em tempo, a imagem acima já está sendo circulada nas redes sociais para “saudar” a possível volta de Gustavo Tutuca à SECT.  Ao que tudo indica, essa volta não vai ser marcada pela mesma tolerância com que Tutuca foi tratado na anterior. A ver!

Após passagem efêmera e obscura, deputado Pedro Fernandes renuncia ao cargo de secretário estadual de Ciência e Tecnologia

pf sc

Deputado Pedro Fernandes durante sua cerimônia de filiação ao PMDB quando teve a ficha abonada pelo ex-(des) governador Sérgio Cabral.

Tendo tomado posse do cargo de secretário de Ciência e Tecnologia do Rio de Janeiro em fevereiro de 2017 (Aqui!), o deputado estadual Pedro Fernandes pediu demissão do cargo na manhã desta 3a. feira, alegando contrariedade com o atraso dos salários dos servidores da sua pasta (Aqui!).

Antes que eu me debruce sobre as razões alegadas pelo jovem deputado para retornar ao seu posto na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), afirmo que mais um secretário passa pela Ciência e Tecnologia sem ter o mínimo preparo para gerir uma área tão estratégica no atual momento do desenvolvimento  da economia mundial.  Lamentavelmente, o (des) governo Pezão conseguiu imprimir um nível de degradação na ciência e tecnologia que jamais vi em meus quase 40 anos de Rio de Janeiro. E olha que já tivemos governadores péssimos e anti-ciência, mas Pezão superou todos eles.

Em relação às razões alegadas pelo deputado Pedro Fernandes para pedir demissão do cargo que ocupava há pouco mais de 5 meses, o fato é que elas fossem genuínas a passagem teria sido ainda mais breve. É que Pedro Fernandes já tinha colocado a regularização do pagamento dos salários na sua pasta como condição antes, e continuou no cargo. A razão ou razões devem ser outras, e talvez fiquemos sabendo melhor sobre elas nos próximos dias e semanas.

De toda forma, Pedro Fernandes não deixará nenhum legado que mereça este nome, pois como outros secretários apenas usou da estrutura da secretaria de Ciência e Tecnologia para se auto-promover. E voltar para a Alerj é a saída mais confortável que ele poderia escolher, pois com o mandato na mão ele não sofrerá as consequências que estão sendo jogadas nas costas dos servidores que estão sem receber seus salários desde Abril. Em outras palavras, já vai tarde.

E que ninguém se espanta se o (des) governador Pezão indicar alguém ainda mais despreparado para chefiar a SECTI. É que a capacidade dele de piorar as coisas chega às raias do insuperável.

 

Site “Viomundo” publica entrevista sobre crise das universidades do Rio de Janeiro

A convite do jornalista Luiz Carlos Azenha, do site Viomundo, respondi a uma série de questões relacionadas à crise que assola o Rio de Janeiro e seus efeitos específicos sobre as universidades estaduais (Uenf, Uerj e Uezo) que se encontram à beira da inviabilização por causa da falta de verbas de custeio e pagamento de salários de seus servidores.

Abaixo reproduzo a introdução feita por Luiz Carlos Azenha, e deixa ainda o link para que o conteúdo da entrevista seja acessado no Viomundo.

Governo do Rio não cobra dívida da Nextel, Carrefour e Light, mas deixa universidades à míngua; corte de luz e água pode detonar equipamentos caros

captura-de-tela-2017-07-10-axxs-19.29.40

Por Luiz Carlos Azenha

As universidades públicas do Rio de Janeiro enfrentam, conjuntamente, talvez a maior de todas as crises. Salários atrasados, estrutura física dilapidada, alunos que desistem ou entram em depressão com a penúria.

E, no entanto, elas foram concebidas para diminuir as terríveis desigualdades sociais das regiões em que se encontram, notadamente a Universidade Estadual do Norte Fluminense e o Centro Universitário da Zona Oeste.

São pioneiras das cotas raciais e sociais, quesito no qual deram aula à elitista Universidade “Bandeirante” de São Paulo (USP) — eu me sinto à vontade para falar, já que me formei nela.

Obviamente, a crise das três instituições não existe no vácuo. O Rio de Janeiro enfrenta uma gravíssima crise financeira, resultado de uma combinação de gastos desnecessários, renúncia fiscal, incúria administrativa e pura e simples corrupção.

Para entender melhor, fizemos uma série de perguntas a Marcos A. Pedlowski, professor associado do Laboratório de Estudos do Espaço Antrópico (LEEA) do Centro de Ciências do Homem (CCH) da Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF) e segundo vice-presidente da Associação de Docentes da UENF (Aduenf).

Ele é bacharel e mestre em Geografia pela UFRJ e PhD em “Environmental Design and Planning” pela Virginia Polytechnic Institute and State University (Virginia Tech).

Marcos tocou numa questão importante: desde a gestão de Moreira Franco como governador do Rio (1987-1991), com poucos hiatos, o Rio tem sido uma espécie de laboratório da política econômica neoliberal (privatização com ‘ajuste’).

O Gato Angorá da lista da Odebrecht, parceiro da Globo, fez um estrago que foi aprofundado desde então pelos governos do PMDB (do trio Cabral, Cunha e Picciani).

Quem desejar ler a íntegra desta entrevista, basta clicar [Aqui!]

O ato das cruzes na Uenf: do luto à luta

luto

Por decisão dos sindicatos que representam os segmentos que compõem a comunidade da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), a entrada do campus Leonel Brizola em Campos dos Goytacazes foi utilizada para um ato de protesto contra o projeto de destruição comandado pelo (des) governo Pezão. Esse ato consistiu na colocação de cruzes de madeira que simbolizam a ameaça mortal que a política de corte de financiamento público representa para a continuidade da universidade criada por Darcy Ribeiro.

Entretanto, é preciso que fique claro que por detrás do luto que as cruzes colocadas hoje na entrada do campus Leonel Brizola há uma forte disposição de resistir à política de privatização da Uenf e de manter a universidade fiel aos princípios humanísticos que guiaram a sua construção durante o segundo governo de Leonel Brizola.

A Uenf é importante demais para as regiões do interior norte do Rio de Janwieo para que se aceite passivamente a destruição do modelo revolucionário que foi idealizado por Darcy Ribeiro, e que tantos frutos já trouxe não apenas para a ciência fluminense, mas para segmentos da população que não teriam tido condições de cursar um ensino superior de qualidade se não fosse por sua existência.

Defender a Uenf é, acima de tudo, apostar num futuro melhor justamente para aqueles que não teriam como estudar se não fosse por sua existência. E repito, o que o (des) governo Pezão está fazendo com as universidades estaduais é um crime não apenas com o presente, mas principalmente com o futuro.

Abaixo um vídeo produzido pela Associação de Docentes da Uenf sobre o “ato das cruzes”.

UERJ, UENF e UEZO lançam manifesto que denuncia o descaso com a educação superior pública no Estado

legenda-site-3-fotos

 O reitor Ruy Garcia Marques e a vice-reitora Maria Georgina Muniz Washington, em conjunto com o reitor da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (UENF), Luis Passoni, e a reitora e vice-reitora do Centro Universitário da Zona Oeste (UEZO), respectivamente, Maria Cristina de Assis e Luanda Silva de Moraes, elaboraram um manifesto público em reunião realizada na manhã desta quarta-feira, dia 28 de junho, no campus Maracanã. Também participaram do encontro os chefes de gabinete Roberto Dória (UERJ) e Raul Palácio (UENF).

O documento cobra soluções para a deterioração progressiva das condições mínimas de funcionamento das três instituições, como a falta de insumos para as aulas práticas, as dívidas com fornecedores e terceirizados e o atraso nos pagamentos dos salários e bolsas. O manifesto também conclama a sociedade a se envolver ativamente na luta em defesa do futuro da educação superior pública de qualidade, gratuita e socialmente referenciada.

Manifesto-FINAL-das-Universidades-Estaduais-RJ

FONTE: http://www.uerj.br/lendo_noticia.php?id=1205

Universidades estaduais sob ataque e os riscos disso para o futuro

Uma rápida análise do que anda acontecendo em diferentes estados brasileiros mostrará que algo comum está ocorrendo, e não é belo. Falo aqui do ataque em regra às universidades estaduais, e que é mais visível em estados como o Rio de Janeiro e Paraná, mas também está se manifestando em Minas Gerais, Paraíba, Rio Grande do Norte e Bahia.  A escusa dos diferentes governadores para negar os recursos necessários para fazer funcionar as universidades é a crise financeira dos estados.  Este argumento, falso, quero logo dizer, está sendo utilizado em estados como a Bahia onde a crise financeira sequer existe.  Além disso, esse ataque às universidades estaduais transpõe os limites partidários, pois enquanto no Rio de Janeiro e Paraná os governadores são do PMDB e do PSDB, em Minas Gerais e Bahia, ambos os governadores são do PT.   Este raro e infeliz momento de unidade partidária é explicado pelo fato de que todos esses partidos estão aplicando políticas neoliberais quando miram nas universidades estaduais em nome da manutenção do fluxo do dinheiro público para o sistema rentista.

Mas afora os aspectos intrínsecos que caracterizam as universidades públicas no tocante à produção de conhecimento científico e formação de recursos humanos estratégicos, estas instituições trazem consigo um elemento bastante singular que é o de serem instrumentos bastante eficientes de descentralização espacial do ensino público superior. É que até recentemente as universidades federais tinham sua restringida às capitais ou cidades médias, deixando o oferecimento de ensino superior interiorizado para as universidades estaduais ou, ainda, para instituições privadas de ensino.  O melhor exemplo que eu conheço do papel dinamizador das universidades estaduais na expansão de oportunidades de ensino qualificado é o da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) que foi criada em 1962 para servir como elemento de dinamização econômica da região em torno da cidade de Campinas, e hoje é simplesmente uma das melhores universidades da América Latina. O fato é que junto com a evolução da Unicamp houve uma vigorosa transformação das bases produtivas existentes em Campinas, mas houve um efeito multiplicador que provocou um processo de desenvolvimento da economia regional.

Se olharmos o papel que a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) cumpriu nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, eu diria que a instalação da instituição ultrapassou o que foi alcançado pela Unicamp, simplesmente porque a realidade social e econômica existente era muito mais precária do que a existente na região de Campinas.  Como estou na Uenf há quase duas décadas pude presenciar e participar das mudanças que a universidade gerou desde 1993.  Um exemplo bem básico é o fato de que hoje muitas prefeituras possuem pessoal técnico formado pela Uenf, e que estes profissionais são naturais desta região, sendo que uma parte não desprezível só pode obter um diploma de ensino superior por causa dela.

Outro aspecto bastante significativo, e que é muito pouco mencionado, é que as universidades estaduais são grandes consumidoras do comércio local, além de oferecerem oportunidades de emprego, seja diretamente dentro da universidade ou fora dela a partir da capacidade de seus profissionais de empregarem.  A Uenf é um excelente exemplo disso, pois sendo a maior instituição estadual fora da região metropolitana do Rio de Janeiro, a sua execução orçamentária serviu como um dínamo para a economia não apenas de Campos dos Goytacazes, mas também de todos os municípios onde haja algum nível de atuação de seus laboratórios de pesquisa e unidades de ensino à distância.

Assim, ao atacar as universidades estaduais, o que os governos de plantão estão fazendo é praticar vários atentados contra o presente e o futuro das regiões do interior. É que a inviabilização das universidades estaduais não apenas fecha espaços de desenvolvimento científico e tecnológico e de formação de recursos humanos, mas também contribuem para a precarização do serviço público e, de quebra, contribuem para a quebra da economia regional. Em outras palavras, o ataque às universidades estaduais traz sérias consequências para aquelas regiões mais distantes das capitais, onde normalmente o ambiente econômico é deprimido historicamente, como é o caso lapidar do Norte Fluminense.

No caso da Uenf, dadas todas as evidentes demonstrações do seu potencial dinamizador para o Norte/Noroeste Fluminense, a lógica ditaria que, neste momento, já houvesse um poderoso movimento político em sua defesa. Esse movimento deveria incluir não apenas as prefeituras e câmaras de vereadores, mas também entidades corporativas e empresariais. Afinal, sem a Uenf, o mais provável é que toda a região sob sua influência vá cair numa estagnação ainda maior do que a já existente. 

Mas não, até agora o que se vê praticado é um misto de indiferença e cumplicidade com a política de destruição sendo executada pelo (des) governo Pezão. E, de vez em quando, ainda aparece algum expert dizendo que a culpa é da Uenf que não faz isso ou aquilo para se aproximar da população.   O pior ainda é ter de ouvir a ladainha de que a Uenf tem que se abrir para o investimento privado, como se houvesse algum interesse real em investir em ciência e tecnologia dentro do capitalismo regional. Toda essa conversa só serve para que Pezão e seus (des) secretários continuem entregando bilhões em sua famigerada farra fiscal, e expressa o evidente descompromisso com qualquer processo de desenvolvimento regional que esteja ancorado numa indústria que está em um processo evidente de decadência (falo aqui da petrolífera, já que a do açúcar e do álcool tornou-se irrelevante faz tempo).

Assim, a sobrevivência das universidades estaduais, a Uenf inclusa, só será possível se as instituições e suas comunidades forem capazes de dialogar com quem efetivamente entende a sua importância. Falo aqui daquela parcela da população que veem nas universidades estaduais a única oportunidade real de um futuro melhor não apenas para si, mas para todos. Eu digo isso porque ao sair nas ruas e conversar com as pessoas, ouço sempre manifestações indignadas com o que está sendo feito contra a Uenf.   Procurar o diálogo com amplas camadas da população deverá ser uma tarefa central para garantir que as universidades estaduais não sejam destruídas. Como o ataque é intenso e incessante, qualquer minuto perdido neste diálogo poderá tornar o eclipse da Uenf um processo inevitável.

Profecia cumprida: secretário aparece na Uenf e diz que não pode se comprometer com nada

20170410_103334.jpg

O secretário estadual de Ciência, Tecnologia, Inovação e Desenvolvimento Social (SECTIDS), Pedro Fernandes, chegou no campus Leonel Brizola em torno das 10:30 portando um vistoso colete, e foi logo recepcionado com uma ruidosa, mas respeitosa, manifestação por parte da comunidade universitária da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf).

Este slideshow necessita de JavaScript.

Visivelmente pressionado, mas calmo, o secretário Pedro Fernandes repetiu a ladainha de que nada pode fazer para resolver o atraso do pagamento de salários e bolsas, e se declarou envergonhado por visitar uma instituição que ainda está funcionando, mas onde a comunidade tem que cumprir suas funções sem quaisquer das condições essenciais garantidas.

De prático, Pedro Fernandes apontou que quaisquer soluções práticas para se saldar os atrasos de salários, bolsas e no pagamento das empresas terceirizados só poderá ser resolvido pelo secretário estadual de Fazenda, Gustavo Barbosa, ou pelo (des) governador Luiz Fernando Pezão.

Bom, se era para vir na Uenf e dizer isso, o secretário Pedro Fernandes poderia ter se poupado da viagem. Mas pelo menos ele poderá voltar para o Rio de Janeiro com uma amostra pequena do estado de insatisfação que grassa hoje na comunidade universitária da Uenf,  e que certamente aumentará após esta visita que promete ter, quando muito, resultados pífios.