Cientista que se diz neutro escolheu o lado do opressor

Estive hoje no V Distrito de São João da Barra realizando coletas de amostras de água para uma pesquisa do qual sou orientador no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Ecologia e Recursos Naturais da UENF. Após mais uma manhã exaustiva de trabalho tive o prazer de encontrar com o Sr. Walter Toledo,  que é uma das vozes mais lúcidas da resistência no V Distrito de São João da Barra. Ele, apesar de cego, enxerga a realidade melhor do que muita gente que eu conheço, e compartilha sempre sua sabedoria com imensa generosidade. Por respeito e admiração a pessoas como o Sr. Walter é que eu tenho um lado bem definido nessa disputa tão desigual que ocorre no V Distrito de São João da Barra.

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E nunca é demais dizer que não acredito em cientista neutro. Aliás, como já disse  o bispo sul africano Desmond Tutu, se você é neutro em situações de injustiça, você escolhe o lado do opressorPor isso, eu tenho lado, e querem saber, me sinto muito bem acompanhado, como mostra a imagem acima.

 

Após decisão lapidar da justiça, Sítio do Birica é prova de que a vida ainda pulsa no V Distrito de São João da Barra

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Graças a uma decisão que eu considero lapidar do juiz Leonardo Cajueiro D´Azevedo, o Sítio do Birica que é um dos símbolos da resistência da agricultura familiar no V Distrito de São João da Barra acaba de ganhar uma boa dose de sobrevida. Em um desdobramento que deverá surpreender muita gente, o juiz Leonardo Cajueiro decidiu a suspensão da execução da desapropriação do Sítio do Birica, bem como o mandado de imissão de posse que havia sido determinado em momento anterior.

Essa decisão não é importante apenas porque se preserva o espaço de trabalho e moradia da Dona Noêmia Magalhães, liderança expressiva dos agricultores do V Distrito, mas também porque mantém intacto um espaço que se transformou num verdadeiro santuário da vida selvagem desde que a implantação do Porto do Açu implicou na supressão de grandes áreas de vegetação de restinga.

Vejamos o que diz a decisão do juiz Leonardo Cajueiro conforme aparece publicado no site do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro:

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Da decisão eu ressaltaria os seguintes trechos que foram apontados pelo juiz Leonardo Cajueiro, pois acredito que vão ao centro do conflito que envolve centenas de famílias de agricultores pobres de um lado, e do outro o governo do Rio de Janeiro (na figura da CODIN) e os controladores do Porto do Açu:

1) verifica-se que, diante da análise do caso concreto, e somente em casos excepcionais, poderá ser determinada a realização de perícia antes da imissão provisória na posse. Tal posição justifica-se em razão de previsão constitucional refletiva do direito fundamental à dignidade da pessoa humana e à moradia. Neste sentido, a desapropriação por interesse público impõe que a indenização deva ser justa e prévia, refletindo o verdadeiro valor do imóvel desapropriado.

2)  É de se considerar que, embora conste laudo de avaliação do imóvel nos autos, o procedimento foi realizado de forma unilateral pelo ente expropriante, condição que o descaracteriza como prova apta a indicar a justa indenização a ser paga ao proprietário

O que eu considero essencial nesses dois pontos é que os mesmos sintetizam o que temos apontado ao longo dos últimos seis anos em face das desapropriações promovidas pela CODIN! E nesse sentido é alentador notar que o juiz Leonardo Cajueiro tenha chegado a essa compreensão. Além disso, como a situação que levou a essa decisão não é única, é de se imaginar que outros casos de reversão de imissão de posse (ainda que provisórios) venham a acontecer.  Afinal de contas, apesar de toda a sua notoriedade, o Sítio do Birica não é o único em que os procedimentos elencados na decisão foram realizados. E com graves prejuízos às famílias afetadas, quero frisar.

Porto do Açu: a sinceridade da CODIN é mais do que reveladora

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Para quem pensava que as escabrosas desapropriações promovidas pela Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (CODIN) para beneficiar os herdeiros de Eike Batista no comando do Porto do Açu, aconselho a pensar de novo. É que acaba de me chegar, vejam imagens abaixo, mais uma documentação de um processo de desapropriação de terras promovido pela CODIN (e acatado pela justiça de São João da Barra) para promover o parcelamento de terras de um suposto distrito industrial na região ainda compreendida pelo que se conhece como localidade de Mato Escuro.

Agora vejamos as imagens para que eu possa ressaltar três peculiaridades do referido processo de desapropriação.

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Primeira curiosidade é a repetição do uso da estratégia do “réu ignorado”, quando a propriedade possui ocupante tão conhecido que o mesmo é citado como parte interessada e citada no processo! A intenção da CODIN com o uso desta estratégia é a óbvia tentativa de dificultar o direito constitucional de recorrência. E há que se salientar que, como este, existem dezenas de casos onde a CODIN usou essa estratégia!

A segunda curiosidade é a declaração de que a “urgência” da desapropriação se deve a dois motivos que, por si só, são reveladores da forma com que essas escabrosas desapropriações foram e estão sendo realizadas. O primeiro motivo chega a ser engraçado…”a necessidade incontroversa de acelerar o desenvolvimento econômico do Norte Fluminense“. Mas é no seguinte motivo que a coisa fica evidente…. “a necessidade de permitir a rápida transferência de glebas, para fins de implantação efetiva do Distrito Industrial“.  Como assim? Desde quando a imissão provisória de posse garante ao ente público a rápida transferência de terras desapropriadas? E mais, quem é que vai garantir a implantação efetiva desse suposto distrito industrial? A Prefeitura de São João da Barra ou a Prumo Logística Global? Como o distrito é para ser municipal, a cosia ficaria esquisita se essa transferência de terras fosse feita em favor da Prumo Logística Global, não é?

A terceira curiosidade é que nesse caso, a meritíssima juíza decidiu acionar o réu que não é ignorado a se manifestar sobre a necessidade de perícia! Como pelo exame da documentação fica claro o uso de outra estratégia manjada, a subestimação do valor da propriedade, o fato de que o agricultor afetado pela desapropriação requerer nova perícia deve abrir uma interessante avenida para que se questione não apenas o valor dessa desapropriação, mas de todas as outras que ocorreram com base nos preços irrisórios calculados pela CODIN.

Por fim, é lamentável notar que a pressa na aprovação no Plano Diretor de São João da Barra fosse, como aparece nesse caso de desapropriação, oferecer base legal para mais tomada de terra de agricultores pobres que vivem de sua terra para sobreviver.  E, não, o nome disso não é desenvolvimento!

Porto do Açu: o enclave que controla 33% do território de São João da Barra

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No dia 11 de outubro de 2013,  fiz uma postagem neste blog para tratar da transformação do Porto do Açu num enclave estadunidense no Norte Fluminense (Aqui!). Passados  pouco mais de 16 meses, e graças ao blog do Professor Roberto Moraes, sabemos agora que cerca de 33% território do município de São João da Barra faz parte deste enclave (Aqui!).

E como bem elucida o Prof. Roberto Moraes, parte considerável deste território foi tomado de centenas de famílias pobres pelo (des) governo do Rio de Janeiro sob a batuta de Sérgio Cabral que usou desculpa, hoje se sabe, esfarrapada de tomar terras de agricultores e pescadores para criar um distrito industrial em São João da Barra.  Para quem ainda não leu a interessantíssima postagem que o Prof .Roberto Moraes produziu, a área de terras controlada pela Prumo Logística Global é de espantosos 130.000 hectares!

Apesar de eu já ter abordado o fenômeno do “land grabbing estatal” ocorreu em São João da Barra num artigo científico que foi publicado em 2012 pelo Journal of Latin American Geography (Aqui!), não posso de deixar peculiar que todo esse processo tenha se dado sob os auspícios de um decreto promulgado no segundo governo de Getúlio Vargas (o Decreto 3.365 de1941) que estabeleceu a desapropriação por necessidade ou utilidade pública e interesse social.

Diante da grandeza desses números, não há mesmo o que estranhar na pressa que se apossou do prefeito Neco para fazer aprovar a nova versão do Plano Diretor de São João da Barra. É que, como bem apontou o Prof. Roberto Moraes, os interesses imobiliários envolvidos são, digamos, parrudos. 

Finalmente, há de se estranhar por que até hoje as atividades da Companhia de Desenvolvimento Industrial do Rio de Janeiro (CODIN) não foram alvo de um processo de investigação pelo Ministério Público, especialmente à luz do que foi apresentado pelo Prof. Roberto Moraes no tocante ao papel desempenhado por essa agência na transferência (no mínimo precoce) das terras desapropriadas para um ente privado.

Corredor Logístico e mais desapropriações no V Distrito: eis um bom motivo para a pressa em aprovar o novo Plano Diretor de São João da Barra

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Recebi um comentário de um leitor do blog acerca da minha postagem sobre a peculiar pressa do prefeito Neco em aprovar o novo Plano Diretor Municipal de São João da Barra, onde parece estar uma das chaves do segredo:  uma nova rodada de desapropriações de terras para a construção do chamado “Corredor Logístico do Porto do Açu” que, aliás, já foi alvo de dois dos decretos de desapropriações promulgados pelo então (des) governador Sérgio Cabral.

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Mas vejamos o que disse o leitor:

Professor,

Não sei até que ponto a Câmara vai discutir e mudar algo no Plano Diretor que lá se encontra, mas teríamos que saber se as mudanças prometidas (nas audiências públicas, grifo meu) foram cumpridas, dentre elas a do traçado do Corredor Logístico , o que acarretará mais desapropriações.

Soube que o Corredor Logístico voltaria para o traçado antigo, mas com essas mudanças no traçado da BR-101 que também estão discutindo em Campos, não faço ideia de onde ele irá passar e quando.

Assumindo que a hipótese do leitor esteja correta, vê-se que a necessidade de que a Câmara Municipal realize um trabalho com uma lupa apurada, visto os danos sociais e ambientais que afligem atualmente a população do V Distrito em função das desapropriações que serviriam para a criação, nunca consumada, de um distrito industrial. 

O fenômeno da salinização no V Distrito: era para ser pontual , mas não foi!

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Em meio aos reclamos da população que vive no V Distrito de São João da Barra por causa de uma percebida piora na qualidade da água por causa da salinização, estou realizando visitas a diferentes pontais da região para coletar água e realizar medidas de condutividade elétrica nas amostras. Esse é um projeto que deverá ocorrer ao longo de 2015, e por causa de critérios básicos de validação científica, não posso ainda afirmar categoricamente o que, de fato, está ocorrendo nas diferentes localidades onde o fenômeno da salinização está sendo notado pelos moradores.

Mas sobre um local específico eu posso me manifestar por causa das repetidas medidas de condutividade que realizei em amostras coletadas. Falo da propriedade rural do Sr. Durval Alvarenga que está localizada nas imediações da localidade de Água Preta, e que foi um dos pontos mais atingidos pela água salgada que saiu do aterro hidráulico do Porto do Açu. Pois bem, estive novamente no ponto onde o sal se acumulou, e coletei uma amostra cujo valor alcançou 5.760 μS/cm, o que equivale a cerca de 10% do encontrado na água do mar.  Por qualquer parâmetro que se utilize, essa água é inviável para o consumo humano e usos agrícolas. Além disso, esse resultado demonstra que a propalada característica pontual (no tempo e no espaço) da salinização causada pela água que escapou do aterro hidráulico não se sustenta.

Enquanto isso, o Sr. Durval continua sem sequer receber uma visita dos responsáveis pelo empreendimento para tratar do ressarcimento das perdas econômicas (ao menos para o Sr. Durval elas são gigantescas e com efeitos extremamente perversos) que ele acumula desde Novembro de 2012 quando as águas salgadas invadiram a parte mais produtiva da sua propriedade.

 

Câmara de São João da Barra tomada medida salutar e necessária: exige mais prazo para analisar novo Plano Diretor Municipal

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Em que pese as pendengas que estão assolando as relações políticas em São João da Barra, recebi positivamente a posição da Câmara Municipal de São João da Barra de requer mais tempo para analisar o projeto de lei que reformula o Plano Diretor de São João da Barra. É que desde o ano passado notei aqui neste blog a minha estranheza não apenas com a velocidade com que esse projeto foi preparado e apresentado á população sanjoanense (Aqui!), mas também com a própria formulação dos mapas que darão sustentação ao novo ordenamento territorial do município (Aqui!). 

O fato é que a população de São João da Barra, em especial a do V Distrito, tem ainda fresco em sua memória como e quando se deu a aprovação da lei que estabeleceu o Plano Diretor que está vigente atualmente.  Não custa nada lembrar que, entre outras esquisitices, a reunião da Câmara Municipal, então presidida pelo atual prefeito, ocorreu às 19:00 horas do dia 31 de dezembro de 2008, abrindo caminho para os escandalosos decretos de desapropriação promulgados em 2009 e que lesaram centenas de famílias de agricultores, muitas ainda aguardando o devido ressarcimento pelas terras que lhes foram tomadas para a construção não realizada de um suposto “Distrito Industrial de São João da Barra”.

E renovo aqui a pergunta: quem ganha com o novo Plano Diretor de São João da Barra?

“Câmara de SJB requer maior prazo para analisar Plano Diretor”

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“Por entender que a apreciação do Projeto de Lei que dispõe sobre o Plano Diretor de São João da Barra é de vital importância para o desenvolvimento do município, a Câmara de Vereadores encaminhou um ofício à Prefeitura requerendo um prazo maior para analisar este e outros dois projetos protocolados na Câmara no último dia 27 com solicitação de aprovação em caráter de urgência, ou seja, em 30 dias.

Segundo o presidente da Câmara, Aluizio Siqueira Filho, este prazo é muito pequeno e ficou ainda menor porque o mês de abril tem muitos feriados. Além do Plano Diretor, o pedido feito pela Prefeitura inclui a apreciação de um projeto que instituiu a lei de perímetros urbanos do município e outro que disciplina e ordena o uso e a ocupação do solo e seu parcelamento.

– Este prazo termina no dia 28 de abril e não teríamos tempo hábil para realizar uma audiência pública aqui. Entendemos que esses projetos precisam de uma análise técnica a fim de evitar eventuais questionamentos futuros que possam prejudicar a população. Por isso, pedimos à Prefeitura mais 60 dias para analisar essas matérias – explicou Aluizio, lembrando que um Plano Diretor que levou dois anos em análise na Prefeitura não pode ser apreciado em apenas 30 dias pelo Legislativo.

No oficio enviado ao Executivo, a Câmara também solicita cópias das gravações de áudio das audiências públicas realizadas em 2014 sobre o Plano Diretor e as atas de sua formalização. “Fizemos esta solicitação para que a Câmara tenha conhecimento do que foi debatido e combinado com a população que compareceu às audiências públicas”, concluiu.”

http://camarasjb.rj.gov.br/noticias/317-camara-requer-maior-prazo-a-prefeitura-para-analisar-plano-diretor

Band TV produz matéria sobre o Porto do Açu: das super expectativas à dura realidade

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A Band TV enviou a jornalista Mariana Procópio ao V Distrito de São João da Barra e produziu uma interessante matéria sobre o descompasso entre as promessas de desenvolvimento e a dura realidade dos agricultores que foram desapropriados e que, até hoje, não receberam as compensações financeiras devidas.

Essa matéria apenas uma das que deverão ir ao ar no Brasil e fora dele onde onde fica demonstrado que a única que tem escala super no Porto do Açu é a diferença entre as promessas e o que foi de fato transformado em realidade positiva. É que as negativas claramente são também SUPER!

E como resumiu uma moradora do V Distrito… depois que entrou o porto, ficou pior. Simples assim!

Mais um dia de caos na Barra do Açu. Ação “band aid” da PMSJB já foi tragada pelas águas

Os moradores da Barra do Açu continuam vivendo momentos de aflição com a maré alta que está jogando muita água dentro das ruas da localidade. No dia de hoje, a Prefeitura Municipal de São João da Barra tentou realizar uma ação improvisada para criar barreiras de areia na orla da Praia do Açu para invadir o avanço das águas, mas a forte do mar já derrubou tudo o que foi feito de manhã ainda no início desta 6a. feira (20/03).

Enquanto isso, a Prumo Logística continua tentando vender a ideia de que as obras do Porto do Açu não possuem qualquer relação com o desastre ambiental em curso na Praia do Açu. Muitos moradores estão me ligando indignados para dizer que se a situação não estivesse tão preocupante, eles até ririam da piada (de mau gosto, frisam eles).

Agora, até o momento continuo aguardando um pronunciamento do novo superintendente regional do Instituto Estadual do Ambiente, Sr. Luiz Fernando Felippe Guida, para ver quais medidas serão tomadas para dar conta desse problema que, friso novamente, estava previsto no EIA/RIMA que a OS(X) apresentou para obter as licenças ambientais necessárias para a construção da sua Unidade de Construção Naval (UCN) e do Canal de Navegação do Porto do Açu!

Abaixo imagens que acabam de me chegar e que mostram a situação que está se desenvolvendo no dia de hoje na Praia do Açu.

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O mar continua avançando na Praia do Açu. Onde andam o INEA e a Prumo?

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O mar segue avançando e destrói trecho inteiro da Av. Atlântica na Praia do Açu, mas fui informado por um morador daquele local que a Prefeitura Municipal de São João da Barra ainda não interditou a área, o que oferece mais risco, pois até semana passada carros passavam por ali. De forma preventiva, alguns moradores colocaram pedaços de madeira e tijolos para fechar a área.

Abaixo um vídeo foi produzido agora pouco, e que mostra a força do avanço do mar!