Vale é alvo de primeira grande ação de agência dos EUA por fraudar compromissos de governança socioambiental em Brumadinho (MG)

brumadinho

Mais de um ano após a criação de sua Força-Tarefa Climática e ESG em março de 2021 , as metas de fiscalização relacionadas à governança socioambiental da Securities and Exchange Commission (SEC) estão finalmente sendo cumpridas. A SEC moveu recentemente uma ação de fraude contra a Vale SA, uma empresa brasileira de minério de ferro de capital aberto, por fazer declarações falsas e enganosas sobre segurança antes do rompimento de sua barragem de Brumadinho em 2019. É importante ressaltar que as declarações supostamente fraudulentas da Vale estavam contidas não apenas em arquivos da SEC e apresentações a investidores, mas também em relatórios voluntários de sustentabilidade e em um webinar ESG publicado no site da Vale. Dado o foco da SEC na aplicação de ESG,  combinado com as regras propostas recentemente divulgadas pela Comissão sobre divulgações relacionadas ao clima,o caso da Vale provavelmente se tornará a primeira de muitas novas ações de execução decorrentes de questões ESG. Como esta ação demonstra, as empresas devem tomar medidas, se ainda não o fizeram, para garantir que seus regimes de conformidade e relatórios sejam suficientemente robustos para minimizar os riscos de aplicação e litígio.

A reclamação da SEC, alegando violações da Seção 10(b) do Exchange Act e da Regra 10b-5, bem como a Seção 17(a) do Securities Act, reflete as prioridades de aplicação ambiental, social e de governança (ESG) da SEC . A denúncia , apresentada no Tribunal Distrital dos Estados Unidos para o Distrito Leste de Nova York, alega que a Vale enganou os investidores sobre a segurança e a estabilidade das barragens que construiu para reter resíduos, ou rejeitos, de suas operações de mineração. 1

Mais especificamente, após o rompimento de outra barragem da Vale, em novembro de 2015, que matou 19 pessoas em Mariana, Brasil, a Vale ficou sob intenso escrutínio regulatório e, de acordo com a denúncia, fez uma série de declarações para tranquilizar o mercado, incluindo que “aderiu a as ‘mais rigorosas’ e melhores práticas internacionais para segurança de barragens e ‘rigorosamente’ cumpridas as exigências regulatórias.” Segundo a SEC, essas declarações “tinham a intenção de não deixar dúvidas de que [a Vale] havia aprendido com o desastre da barragem de Mariana e mitigado o risco futuro de falha em suas outras barragens de rejeitos”. A denúncia da SEC alega que essas e outras declarações eram falsas e enganosas, e que a Vale estava, de fato, ciente das condições perigosas na barragem de Brumadinho. A barragem se rompeu em 25 de janeiro de 2019,

Significativamente, as declarações nas quais a SEC baseou sua ação de fiscalização foram incluídas, entre outros lugares, nos relatórios anuais de sustentabilidade da empresa e em um webinar ESG de 2018 publicado no site da Vale, divulgando o compromisso da empresa com a segurança de barragens. Por exemplo, de acordo com a denúncia, o webinar afirmou que “todas as barragens de minério de ferro da Vale estão seguras e operando dentro dos limites normais”, e que auditores externos certificaram a estabilidade das barragens.

Quando a  SEC anunciou a ação ,o Diretor da Divisão de Execução da SEC enfatizou que “todos os investidores confiam em divulgações ESG como as contidas nos Relatórios de Sustentabilidade anuais da Vale e outros documentos públicos para tomar decisões de investimento informadas”.  Conforme observado em alertas anteriores, todos os materiais voltados para o público podem fornecer prontamente uma fonte para ações de fiscalização e litígios.

As alegações contra a Vale também destacam o risco de litígio que pode resultar de falhas ESG de uma empresa. Por exemplo, antes da reclamação da SEC, a Vale havia sido processada por investidores norte-americanos em uma ação coletiva de valores mobiliários decorrente do rompimento da barragem em 2015. Esse caso foi resolvido em 2020 por US $ 25 milhões. Uma nova ação coletiva foi movida contra a Vale em 2019 após o colapso de Brumadinho e, em 31 de março de 2022, o tribunal concedeu a certificação de classe, abrindo caminho para o que provavelmente se tornará outro acordo caro para a Vale.

Em suma, os desastres de mineração da Vale são um roteiro para os vários riscos que podem surgir de declarações relacionadas a ESG, incluindo ações de fiscalização por reguladores e litígios de acionistas. Embora as circunstâncias do caso da Vale possam ser únicas, elas ilustram a importância de garantir o cumprimento das políticas e procedimentos ESG. O caso também ressalta a necessidade de garantir que as divulgações ESG, obrigatórias ou voluntárias, sejam precisas e não enganosas.

____________________________________________________________________

1. Embora a Vale seja uma sociedade anônima brasileira, suas American Depository Shares e notas são negociadas na Bolsa de Valores de Nova York.


compass black

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pela “The National Law Review” [Aqui!].

Começa hoje audiência do Caso do Tsulama de Mariana na Inglaterra: assista!

tsulama 1

  • Ocorre de hoje até sexta 8, a audiência do Caso de Mariana na Inglaterra. Assista aqui:
    A busca por justiça para as vítimas do desastre de Mariana continua viva nos tribunais ingleses.
  • O Caso de Mariana na Inglaterra busca responsabilizar a BHP, empresa Anglo-australiana, com sede na Inglaterra, por seu papel no rompimento da Barragem de Fundão, em Mariana (MG), em 2015, considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil. A BHP, junto com a Vale, controla a Samarco, joint-venture responsável por administrar a barragem.
  • O escritório PGMBM representa mais de 200 mil pessoas (físicas e jurídicas) pede indenização avaliada em bilhões de reais para as vítimas da tragédia de Mariana, no maior caso já protocolado nas cortes inglesas.
  • Hoje, 4 de abril, o escritório de advocacia PGMBM representa seus clientes na audiência no Tribunal de Apelação em Londres perante três juízes que determinarão se o caso contra a mineradora BHP poderá ser julgado pela corte inglesa.
  • A audiência dura cinco dias, e uma decisão será anunciada pelos juízes posteriormente, após avaliação das evidências e argumentos apresentados por ambas às partes.
  • Se a jurisdição inglesa for aceita, o caso deve seguir para a fase de mérito, em que será avaliada a responsabilidade das rés e a extensão dos danos para determinar a compensação justa para os atingidos pelo rompimento da barragem.
  • O processo começou em 2018.
  • Em julho do ano passado, o PGMBM obteve o direito de reabrir o caso após decisão anterior que negava a jurisdição no país.
  • O PGMBM busca reparação integral para seus clientes, que incluem moradores de cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo localizadas ao longo da Bacia do Rio Doce e que hoje, seis anos depois, ainda vivem sob os efeitos da tragédia em seu dia a dia.

Desastre aconteceu há seis anos

Considerado o maior desastre ambiental da história do Brasil, o rompimento da barragem do Fundão em Mariana aconteceu há mais de seis anos, e até hoje muitos continuam à espera de serem adequadamente compensados pelas suas perdas.

Em 2018, o escritório PGMBM entrou com uma ação contra a BHP Group Plc (antiga BHP Billiton PIc) e BHP Group Limited, controladoras da Samarco, na Inglaterra, país sede da BHP.

Em julho de 2021, um painel de juízes do Tribunal de Apelação (formado pelo Lord Justice Geoffrey Vos, Chefe da Divisão Civil do Tribunal de Apelação, Lord Justice Nicholas Underhill, Vice-presidente do Tribunal de Recursos, e Lady Justice Sue Carr), reabriu o processo e concedeu permissão para recorrer da decisão negativa de 2020. Em Abril de 2022, o Tribunal de Apelação de Londres decidirá se o caso pode ser julgado na Inglaterra.

Sobre o PGMBM

PGMBM é uma parceria única entre advogados britânicos, brasileiros e americanos, motivados a defender vítimas de delitos cometidos por grandes corporações, com escritórios em Londres, Estados Unidos, Holanda e Brasil. O escritório é especializado em casos de poluição e desastres ambientais originados no Brasil e em outras partes do mundo, tratando de reclamações decorrentes dos desastres de Mariana e Brumadinho, bem como de vários outros desastres ambientais significativos. O PGMBM também está na vanguarda das reivindicações dos consumidores no Reino Unido, representando milhares de pessoas afetadas por grandes corporações. Essas reivindicações incluem processos contra Volkswagen, Mercedes, British Airways, EasyJet, Bayer AG, Johnson & Johnson e outras grandes empresas multinacionais.

STF vai decidir competência para julgar tragédia de Brumadinho

Supremo definirá se processo crime será enviado para a Justiça Federal ou se poderá ser julgado na cidade, pelo Tribunal do Júri Estadual, conforme pede o Ministério Público

brumadinho

A controvérsia sobre a instância de competência para julgamento do processo crime envolvendo o rompimento da barragem Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho (MG), será levada ao Supremo Tribunal Federal (STF). No dia 30 de março, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) admitiu recurso do Ministério Público de Minas Gerais (MPMG) contra decisão que havia enviado para a Justiça Federal a ação, na qual se discute a prática de 270 homicídios e um volume massivo de crimes ambientais na região. Caso o recurso do MPMG seja aceito pelo STF, o processo volta para a Comarca de Brumadinho.

“Queremos que o crime seja julgado pelo Júri Popular, em Brumadinho. Seguimos acreditando na punição dos culpados e na responsabilização das empresas para que a impunidade como precedente não torne o crime recorrente”, afirma Alexandra Andrade, presidente da Associação dos Familiares de Vítimas e Atingidos pelo Rompimento da Barragem Mina Córrego do Feijão (AVABRUM), lembrando ainda que, entre os 270 mortos, estavam duas gestantes, o que eleva o número de vítimas fatais da tragédia para 272 pessoas.

Seis vítimas ainda não foram encontradas, e as buscas pelos corpos continuam na região. “Lutamos por justiça, encontro, memória em honra das 272 vítimas e não repetição do crime. Não queremos que outras famílias passem pelo que nós estamos passando”, completa Alexandra.

De acordo com o ministro Jorge Mussi, vice-presidente do STJ, o caso possui repercussão geral e a matéria constitucional nele suscitada pelo MPMG deve ser decidida pelo STF. A decisão de Mussi chegou cinco dias depois da cobrança expressa neste sentido feita ao STJ em ato público no dia 25 de março, em Brumadinho, e no mesmo dia em que a AVABRUM e a Região Episcopal Nossa Senhora do Rosário (RENSER) remeteram à Corte um ofício solicitando prioridade na tramitação do processo.

De acordo com o MPMG, não há interesse federal no julgamento dos crimes, pois os homicídios não foram praticados contra bens, serviços ou interesses da União, mas contra pessoas comuns que trabalhavam, moravam ou passavam pelo local, e foram atingidas de surpresa pelo gigantesco volume de lama.

“Considerando que a instituição do Júri é garantia fundamental da sociedade brasileira, e diante das 270 pessoas assassinadas em decorrência do rompimento da barragem de rejeitos da Vale, o MPMG defenderá, agora perante o STF, que o Tribunal do Júri, a ser instalado em Brumadinho, é o competente para julgar os homicídios e os crimes ambientais que ocorreram com a tragédia”, afirmou o MPMG, em nota.

Tsulama de Mariana: movido por escritório britânico em nome de 200 mil clientes, processo contra a mineradora BHP terá audiência no dia 4 de abril

mariana

No próximo dia 4 de abril, o Tribunal de Apelação da Inglaterra inicia audiência da maior ação civil coletiva em número de clientes já apresentada nas cortes inglesas. Trata-se também de uma das 10 apelações mais importantes do ano, segundo a revista especializada inglesa The Lawyer.

O Caso de Mariana na Inglaterra, ajuizado pelo escritório multinacional PGMBM contra a mineradora anglo-australiana BHP, envolve mais de 200 mil autores. Entre eles, estão moradores de várias cidades de Minas Gerais e Espírito Santo, membros da comunidade indígena Krenak, 25 prefeituras, cinco autarquias, 530 empresas e 6 instituições religiosas.

No processo intitulado “Município de Mariana & Ors v BHP Group, BHP Billiton and BHP Group”, o PGMBM busca reparação integral para os danos causados aos atingidos pelo rompimento da Barragem de Fundão, da Samarco, localizada em Mariana (MG), em 2015. O desastre causou a morte de 19 pessoas e devastação generalizada em dezenas de cidades de Minas Gerais e do Espírito Santo. Os rejeitos de minério de ferro liberados pela barragem se espalharam por quase 700 quilômetros ao longo da bacia do Rio Doce, desde Mariana (MG) até Linhares (ES), alcançando o Oceano Atlântico. A calamidade é considerada o maior desastre ambiental do Brasil.

“As multinacionais obtêm grandes lucros em suas operações internacionais e devem ser responsabilizadas pelos prejuízos que causam com essas atividades. A melhor maneira de fazer isso acontecer é que elas sejam responsabilizadas nas cortes de seus países de origem”, afirma Tom Goodhead, sócio-administrador do PGMBM. Por meio de joint venture com a Vale, a anglo-australiana BHP é coproprietária da Samarco, operadora da Barragem de Fundão que rompeu em 2015. 

O PGMBM, que é especializado em litígios de grande porte e causas coletivas contra grandes corporações, também move ação na Alemanha contra a empresa certificadora TÜV SÜD, responsável pelo laudo de estabilidade da Barragem do Córrego do Feijão, em Brumadinho, que se rompeu em 2019, causando a morte de 270 pessoas.

Entenda o caso

Em 2018, o escritório PGMBM ajuizou uma ação coletiva na Inglaterra contra a BHP Group Plc (antiga BHP Billiton PIc) e BHP Group Limited, coproprietária da Samarco junto com a Vale, representando mais de 200.000 clientes.

Em julho de 2021, um painel de juízes (formado pelo do Tribunal de Apelação (Divisão Civil), Lord Justice Geoffrey Vos ; o Vice-presidente do Tribunal de Apelação Lord Justice Nicholas Underhill; e a e Lady Justice Sue Carr) reabriu o processo e concedeu permissão para recorrer da decisão negativa de 2020 sobre a jurisdição na Inglaterra. A próxima audiência está prevista para o dia 4 de abril e vai durar cinco dias inteiros, perante três juízes que então decidirão se o caso do PGMBM contra a mineradora BHP poderá ser julgado pela corte inglesa.

Sobre o PGMBM

O escritório PGMBM é uma parceria única entre advogados britânicos, brasileiros e americanos, motivados a defender vítimas de delitos cometidos por grandes corporações, com escritórios em Londres, Estados Unidos, Holanda e Brasil. O escritório é especializado em casos de poluição e desastres ambientais originados no Brasil e em outras partes do mundo, tratando de reclamações decorrentes dos desastres de Mariana e Brumadinho, bem como de vários outros desastres ambientais significativos. O PGMBM também está na vanguarda das reivindicações dos consumidores no Reino Unido, representando milhares de pessoas afetadas por grandes corporações. Essas reivindicações incluem processos contra Volkswagen, Mercedes, British Airways, EasyJet, Bayer AG, Johnson & Johnson e outras grandes empresas multinacionais.

‘Trata-se de sobrevivência’: um inglês de Yorkshire em busca de justiça pelo desastre da barragem de Mariana

mariana 1Área do distrito de Bento Rodrigues, em Mariana, destruída após o rompimento da barragem de Fundão em novembro de 2015. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

Por Deborah Linton para o “The Guardian”

Em 2015, o pior desastre ambiental do país forçou Jonathan Knowles a deixar sua casa brasileira. Agora, ele e 200.000 outras vítimas esperam ganhar um processo de £ 5 bilhões em um tribunal inglês

O brilho amarelo pálido do sol da primavera do Brasil se pondo sobre o Rio Doce em uma noite de sexta-feira em outubro de 2015, a vida para Jonathan Knowles era tão boa quanto antes. A vida modesta que ele levava de um negócio de válvulas de água o fez terminar cada semana de trabalho da mesma maneira, com sua esposa Sheila e seu filho de quatro anos, Enzo. Eles arrumavam cadeiras no jardim de sua casa de dois quartos, uma construção nova nos arredores de Governador Valadares, no interior de Minas Gerais, onde pegavam carne marinada na churrasqueira e exibiam videoclipes dos anos 80 de um projetor para uma parede. “Adorávamos nossa vida”, lembra Knowles, um yorkshire que se mudou para o Brasil por amor.

Uma semana depois, às 15h45 do dia 5 de novembro, a barragem de rejeitos de Fundão estourou na cidade de Mariana, a 240 quilômetros de distância, liberando cerca de 40m 19 pessoas, deixando centenas de desabrigados e desencadeando o maior desastre ambiental do país . Aldeias, meios de subsistência, fazendas, peixes e vida selvagem foram obliterados. Ele destruiu, danificou ou contaminou tudo em seu caminho, os tribunais ouviram desde então.

Moradores olham para o bairro de Bento Rodrigues, submerso na lama após o rompimento da barragem

A vila de Bento Rodrigues ficou completamente submersa na lama após o rompimento da barragem. Centenas ficaram desabrigados e 19 mortos na área. Fotografia: Ricardo Moraes/Reuters

Torrentes de água poluída correram por 650 km (400 milhas) no Oceano Atlântico, causando um prejuízo estimado de £ 2,5 bilhões na biodiversidade da região e deixando para trás uma limpeza que deve levar mais de uma década.

“A vida era fenomenal – até que se tornou sobre sobrevivência”, diz Knowles, 57, que está entre as mais de 200.000 pessoas que entraram com um processo de US$ 6,9 bilhões (£ 5 bilhões) – entre as maiores ações coletivas da história jurídica inglesa – contra a mineração anglo-australiana. multinacional BHP , que era dona da Samarco em conjunto com a gigante brasileira de mineração de minério de ferro Vale.

O caso deve ser reavaliado no tribunal de apelação no próximo mês, na última etapa de uma luta legal de três anos e meio em solo britânico que busca “reparação completa e justa” em nome de mais de 190.000 indivíduos, 530 empresas, 150 membros das comunidades indígenas Krenak, 25 municípios e 15 instituições religiosas, incluindo a arquidiocese católica romana de Mariana. Para as vítimas, é uma “oportunidade de justiça de verdade”, disse no ano passado o procurador-geral da região, Frederico de Assis Faria .

Para Knowles, a visão do rio imediatamente após o desastre deixou uma marca indelével: “A água estava marrom como uma sopa grossa de chocolate; uma avalanche de lama. Veio como ondas gigantes. Com o passar dos dias, toda a superfície até onde você podia ver se tornou um cobertor de peixes mortos. Vacas e cavalos flutuavam sem vida em suas costas, apenas suas pernas visíveis acima da água.

Vista aérea de detritos e lama ao longo de um vale após o rompimento das barragens

A devastação em Bento Rodrigues no dia seguinte à catástrofe. Fotografia: Felipe Dana/AP

“Aquela água costumava ser tudo. É onde as pessoas se reuniam para pescar, voar de asa delta e praticar esportes aquáticos, caminhar e correr nos finais de semana. De seus bancos férteis cresceram dez variedades diferentes de manga; macacos viviam em uma ilha em seu centro.”

Após o colapso, tornou-se um lugar a temer, diz ele. “Mesmo agora, seis anos depois, você pode colocar um ímã em um saco plástico e, se tocar na lama ao redor do rio, ele gruda.”

Uma vida revirada

Knowles e Sheila, nascida no Brasil, se conheceram em Harrogate, Inglaterra, em 2009, quando ela era passageira do ônibus que ele dirigia. Eles se mudaram para o Brasil no ano seguinte, enquanto ela estava grávida de Enzo: “Nós nos instalamos no meio do nada. A terra é plana como uma panqueca, exceto por uma enorme montanha que fica, como uma espinha, nos arredores.

“O rio de uma milha de largura serpenteia pela paisagem e a área tem seu próprio clima único. Um calor constante e parado bate do chão.”

Um casal senta-se com seu filho em um banco de parque

Jonathan Knowles e sua esposa, Sheila, com seu filho de 10 anos, Enzo, em Harrogate, North Yorkshire. Fotografia: Richard Saker/Guardian

Knowles, que trabalhava na construção civil, chegou ao Brasil durante um boom de construção. Em março de 2015, ele começou a importar válvulas que havia desenvolvido para ajudar a população local a regular as contas de água flutuantes. Em setembro – dois meses antes do rompimento da barragem – ele havia vendido um quarto de seu estoque e empatado.

A notícia do desastre chegou no início da manhã de 6 de novembro. “Na vila, eventos de mudança de vida foram anunciados por um carro fornecendo informações por Tannoy. Era a primeira coisa da manhã e estávamos dentro de casa. Entrei no jardim da frente e reconheci a descrição, em português, de uma avalanche de água. Então veio uma palavra que eu não tinha ouvido antes – ‘barragem’, português para barragem.”

Os moradores foram orientados a armazenar água em banheiras, bacias e recipientes para durar um mês. “Enchemos uma lixeira de 1.000 litros e, algumas semanas depois, mais 2.000 litros de um poço fora da cidade. Durante seis semanas, tomamos banho em baldes, usamos água engarrafada para escovar os dentes, lavar e ferver legumes e usar água da torneira para limpar. Caminhões que ofereciam garrafas de água gratuitas estacionados todos os dias e as pessoas faziam fila na rua.

“As pessoas pararam de sair. A indústria de hospitalidade alimentar parou. A Starbucks parou de servir porque não conseguia lavar os copos.”

Nos dias que se seguiram, os cientistas identificaram metais tóxicos, incluindo arsênico, mercúrio, níquel e alumínio no abastecimento de água, que foi rapidamente tratado. Um estudo de dezembro de 2021 com mais de 300 pessoassobre o impacto desses metais na população local encontrou um “risco elevado para a saúde das comunidades que vivem nas áreas vizinhas”. Incluiu relatos de distúrbios de saúde mental, lesões de pele, distúrbios gastrointestinais, dores ósseas e mal-estar, todos potencialmente ligados ao desastre.

Uma mulher brasileira na margem de um rio laranja altamente poluído

A lama tóxica poluiu o rio Doce, usado por indígenas brasileiros como a tribo Krenak para pescar, mas também como local religioso. Fotografia: Heriberto Araújo/Guardian

Knowles se lembra de um esforço para fazer as pessoas confiarem no abastecimento de água. “Muito da população confia em Deus, e a igreja estava encorajando as pessoas a não entrarem em pânico, mas a escrita estava na parede”, diz ele. “Eu não podia mais confiar que a água em que bebíamos e nos banhamos, o chão em que andávamos, era seguro. A construção foi interrompida e ninguém estava comprando válvulas de água. Meu negócio iria embora; nosso dinheiro acabaria”.

Logo após o Natal de 2015, com suas últimas 1.000 libras, Knowles comprou um voo de volta para Harrogate, em Yorkshire. Ele chegou em março de 2016 com uma mala e um cartão de crédito. Sheila e Enzo ficaram no Brasil na casa dos pais dela. Eles se juntaram a ele na Inglaterra em 2018, assim que ele conseguiu pagar as passagens aéreas.

Foto aérea de gaivotas voando sobre um rio marrom-avermelhado

Gaivotas sobrevoam a foz do poluído Rio Doce, próximo a Regência. Fotografia: Ricardo Moraes/Reuters

Knowles, que também tem três filhos adultos e cinco netos de seu primeiro casamento, diz: “Deixar meu filho no Brasil me destruiu por dentro. Eu estava com medo de que se eles não saíssem, eles morreriam. Eu tive que voltar para a Inglaterra e ganhar dinheiro para nós. Eu não podia ficar sentado esperando por um milagre.”

Ele arrumou um emprego de lavador de louças, vivendo com £ 1 por dia: “Eu ficava na prateleira ‘vendida por’ em Asda esperando que os pedaços finais fossem reduzidos a 10 p. Eu encheria minha bolsa com o que quer que aparecesse.

“Eu economizei para renovar minhas licenças de ônibus e caminhões, depois consegui meu antigo emprego de volta na empresa de ônibus. Eu estava me concentrando na sobrevivência; não havia tempo para desmoronar.”

Ele dormiu no sofá de um amigo, depois alugou um quarto vago barato, onde ainda mora. Sheila, 52, e Enzo, agora com 10, moram em um pequeno apartamento alugado a 10 minutos de distância. É o único arranjo de vida que a família pode pagar.

Jonathan Knowles com Sheila e filho Enzo

Jonathan Knowles com Sheila e seu filho, Enzo, no Brasil. Eles dizem que o processo judicial reaberto é sua última esperança de ter dinheiro suficiente para viver como uma família sob o mesmo teto. Fotografia: Cortesia de Jonathan Knowles

Knowles diz: “Levá-los para a Grã-Bretanha foi um grande passo. Antes de eles chegarem, nos comunicávamos diariamente pelo WhatsApp. Eu tentaria explicar a Sheila meus temores de saúde a longo prazo para Enzo. As pessoas estavam compartilhando imagens em grupos de mídia social de erupções cutâneas que desenvolveram e peixes com desfigurações que você esperaria de um incidente nuclear. Tentei explicar que o que afetou os peixes hoje pode deixar um legado para os humanos no futuro.”

O processo judicial, diz ele, é sua única esperança de reunir sua família sob o mesmo teto. A luta legal foi lançada em 2018 pelo escritório de advocacia internacional PGMBM em nome de seus mais de 200.000 reclamantes. O caso foi arquivado pelo tribunal superior em janeiro de 2021, após uma contestação da BHP, e depois pelo tribunal de apelação em março de 2021, em apoio ao caso da BHP de que reivindicações e um esquema especial de compensação já estavam em andamento no Brasil .

No entanto, os juízes de apelação concederam uma rara oportunidade de reabrir o caso em julho passado, abrindo caminho para outra decisão, prevista para abril. Os juízes descreveram o caso como de “excepcional importância, tanto pelo número de reclamantes quanto pela importância para eles de obter a indenização a que possam provar ter direito”.

O tribunal acrescentou “que, de qualquer forma, a situação enfrentada pelo tribunal era difícil e nova” e “se beneficiaria de uma consideração completa e completa por este tribunal”. A BHP sustentou que o processo não pertence ao Reino Unido.

A família de Knowles não recebeu nenhuma compensação no Brasil, onde a Samarco, a BHP e a Vale estabeleceram a Fundação Renova para mitigar as consequências ambientais do colapso e indenizar indivíduos e algumas pequenas empresas por perdas e danos. Destina-se a fornecer reparação total, mas foi criticado por sua constituição, velocidade e justiça, o tribunal de apelação ouviu. O tribunal também observou deficiências no sistema de justiça brasileiro.

Equipes de resgate em um mar de lama com uma caminhonete meio enterrada ao fundo.
Equipes de resgate buscam vítimas do desastre em Bento Rodrigues em 2015. Foto: Ricardo Moraes/Reuters

A BHP disse ao Guardian que, até novembro de 2021, a Renova gastou mais de R$ 19,6 bilhões em projetos de reparação e reabilitação ambiental e econômica, incluindo R$ 7,78 bilhões em compensação e ajuda financeira a 359.000 pessoas. Eles introduziram um novo sistema simplificado de indenização em agosto.

A casa da família Knowles ainda está de pé, mas eles não conseguiram vendê-la. “O que aconteceu não pode ser reparado ou colocado de volta, então tudo se resume à sobrevivência. Minha família e eu não temos mais um lugar próprio para morar; perdemos a coisa mais fundamental – um teto sobre nossas cabeças.

“Para ver este caso e receber dinheiro suficiente para um depósito, para começar de novo, corretamente, é tudo o que ousamos esperar.”

Encontre mais cobertura sobre a idade da extinção aqui e siga os repórteres de biodiversidade Phoebe Weston e Patrick Greenfield no Twitter para obter as últimas notícias e recursos


blue compass

Este texto foi originalmente escrito em inglês e publicado pelo jornal “The Guardian” [   ].

Instituições financeiras investiram R$ 270 bilhões em mineradoras com interesses em terras indígenas na Amazônia

Indigenous People Manifest in Brasília, Brazil
Indígenas Fazem Manifestação em Brasília

Apenas nos últimos cinco anos, as mineradoras Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração T’aboca e Mamoré (ambas do Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto receberam USD 54 bilhões em financiamento do Brasil e do exterior. Considerando a cotação atual do dólar em cerca de R$ 5, o montante chega a R$ 270 bilhões de reais.

O dado é resultado de uma pesquisa que contou com o apoio do Observatório da Mineração.

O relatório Cumplicidade na Destruição IV – Como mineradoras e investidores internacionais contribuem para a violação dos direitos indígenas e ameaçam o futuro da Amazônia foi  lançado hoje pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e a Amazon Watch.

Eu escrevi o texto do relatório e ajudei na investigação que teve a participação do InfoAmazônia, do Brasil e a Profundo, da Holanda. Este relatório tem foco exclusivo na mineração é o segundo produzido em parceria com o Observatório da Mineração.

O primeiro, lançado em novembro de 2020, mostrou como instituições financeiras sediadas nos Estados Unidos estavam por trás de investimentos em mineradoras e empresas do agronegócio e de energia envolvidas em conflitos com povos indígenas na Amazônia.

Ao atualizar os valores, aprofundar a investigação e focar em mineração, o novo relatório revela que corporações sediadas nos Estados Unidos continuam entre as principais financiadoras cúmplices na destruição.

Juntas, as gestoras Capital Group, a BlackRock e a Vanguard investiram USD 14,8 bilhões nas mineradoras com interesses em terras indígenas e histórico de violações de direitos.

Instituições brasileiras também tem grande participação no financiamento dessas mineradoras: o fundo de pensão brasileiro Previ (Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil) é o responsável pelos mais altos investimentos nestas mineradoras, com mais de USD 7,4 bilhões, seguido pelo banco Bradesco, com quase USD 4,4 bilhões e a Caixa Econômica Federal, com USD 786 milhões.

Foto de destaque: Adriano Machado/Greenpeace

Vale recebeu US$ 35,8 bilhões. Belo Sun também se beneficiou

A empresa que mais recebeu investimentos e empréstimos nesse período foi a Vale, com USD 35,8 bilhões de dólares, mostrando que nem mesmo os sucessivos desastres em Mariana e Brumadinho diminuíram o apetite dos investidores com relação à mineradora.

Os dados mostram também o grande interesse do Canadá em financiar a mineração no Brasil.

O Royal Bank of Canada, maior banco privado do país, injetou USD 512 milhões nas mineradoras, e é o principal investidor institucional do Projeto Volta Grande, de mineração de ouro, da empresa Belo Sun, considerado socialmente e ecologicamente inviável.

Vista aérea da região da Volta Grande do Xingu, de onde se vê a Vila da Ressaca, sob ameaça da Belo Sun- Cícero Pedrosa Neto/Amazon Watch

A Belo Sun, que tenta há anos aprovação para este mega projeto no Pará, até agora barrado por ações do Ministério Público, da Defensoria Pública, com licenciamento suspenso e que nunca respeitou a consulta prévia requerida aos indígenas da região, é parte do grupo canadense Forbes & Manhattan.

Recentemente, a Belo Sun fez um “acordo” inédito com o INCRA do Pará para se apropriar da área de assentamentos rurais e poder avançar com o projeto. Nos últimos anos, a Forbes & Manhattan também ganhou um aliado de peso: um general que liderou a missão brasileira no Haiti, amigo de Hamilton Mourão há 40 anos, virou lobista do grupo canadense, se aproximou da cúpula do governo Bolsonaro e conseguiu destravar questões pendentes para a mineradora.

Bancos alemães são parte do pacote

Em outubro, antecipando alguns dos dados e recortes possíveis do relatório, mostrei aqui que os bancos alemães Commerzbank, Deutsche Bank e DZ Bank investiram mais de 1 bilhão de dólares em mineradoras multinacionais que atuam no Brasil, considerando apenas as operações brasileiras dessas empresas. A principal beneficiária foi a inglesa Anglo American, uma das 5 maiores mineradoras do mundo.

Em dezembro,a rede alemã Deutsche Welle repercutiu a matéria e a teia de investimentos e falta de transparência e responsabilização.

“Se um banco quiser fazer uma diligência mínima – o que deveria, e está previsto fazer – sem dúvida, conseguiria descobrir muitas coisas questionáveis, rapidamente”.

Porém, “há mais de dez anos estes bancos estão envolvidos em financiamentos diretos a mineradoras e empresas de commodities envolvidas em conflitos. Será que não fazem a menor ideia de quem são estas empresas?”, eu disse em entrevista para a Deutsche Welle, questionando os “princípios de responsabilidade” que estas instituições teoricamente se comprometem, a falta de acompanhamento interno e a diferença entre a teoria dos acordos que assinam e a prática de para onde vai o dinheiro.

Para Rosana Miranda, assessora de campanhas da Amazon Watch, este é um problema crônico e generalizado, como o Cumplicidade na Destruição tem revelado sistematicamente.

“Esses bancos e fundos de investimentos ainda consideram que investir em mineração é um bom negócio, ignorando o extenso histórico de violações e impactos provocados por esse setor. Este novo relatório demonstra a urgência com que eles precisam se comprometer com mudanças reais a fim de deter o rastro de destruição da mineração”, afirma Miranda.

Indígenas protestam contra a mineração em seus territórios na Esplanada dos Ministérios em Brasília (junho de 2021) – Cícero Pedrosa Neto/Amazon Watch

Mineradoras miram 34 terras indígenas na Amazônia, uma área três vezes o tamanho da cidade de Brasília ou Londres

Apesar dos anúncios recentes de grandes mineradoras de que abandonariam seus interesses em territórios indígenas milhares de requerimentos minerários com interferências nessas áreas seguem ativos na base de dados da Agência Nacional de Mineração (ANM). A abertura de terras indígenas para a mineração e o garimpo está no centro da agenda do governo Bolsonaro.

Com o avanço no Congresso dos projetos de lei como o PL 191/2020 – que figura entre as prioridades do Executivo para 2022 – e o PL 490/2007, esses requerimentos podem garantir às mineradoras prioridade na exploração desses territórios.

Mesmo após declarações públicas de gigantes como a Vale e a Anglo American – que tem interesse na TI Munduruku, entre outras – de que abriram mão dos seus pedidos para pesquisa e exploração mineral nesses territórios, muitos dos seus requerimentos seguem ativos no sistema da ANM – em alguns casos, até aumentaram.

Além disso, alguns requerimentos  foram redesenhados para que as áreas de exploração fiquem contíguas às terras indígenas  – caso da Vale, que anunciou e logo após decidiu cercar a TI Xikrin no Pará, por exemplo – ainda causando enormes impactos. Enquanto isso, as principais instituições financeiras globais estão capacitando o destrutivo setor de mineração da Amazônia com bilhões de dólares em investimentos, empréstimos e subscrição.

O relatório “Cumplicidade na Destruição IV” foca nos interesses minerários em terras indígenas de nove mineradoras: Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil, Mineração Taboca e Mamoré Mineração e Metalurgia (ambas do Grupo Minsur), Glencore, AngloGold Ashanti e Rio Tinto.

Juntas, elas possuíam em novembro de 2021 um total 225 requerimentos minerários ativos com sobreposição em 34 Terras Indígenas – uma área que corresponde a 5,7 mil quilômetros quadrados – ou mais de três vezes a cidade de Brasília ou de Londres.

“Enquanto os Povos Indígenas lutam para garantir o direito à vida, tanto em nossos territórios quanto em todo o planeta, o governo brasileiro e as empresas da mineração tentam avançar um projeto de morte. Não é possível seguirmos convivendo com atividades que obrigam os povos indígenas a chorar o assassinato cotidiano de seus parentes, ou a testemunhar a destruição de biomas dos quais são os guardiões para avançar um projeto que não gera desenvolvimento real, e sim destruição e lucros nas mãos de poucos”, afirma Sonia Guajajara, da coordenação executiva da Apib.

As terras indígenas mais afetadas por esses pedidos são a TI Xikrin do Cateté (PA) e a TI Waimiri Atroari (AM), ambas com 34 requerimentos cada, seguidas pela TI Sawré Muybu (PA), com 21. A etnia mais impactada por estes pedidos de mineração é a Kayapó (PA), com 73 requerimentos.

O Pará é o estado com a maior concentração de pedidos, que duplicaram entre julho e novembro de 2021. Os dados foram obtidos a partir de uma parceria com o projeto Amazônia Minada, do portal InfoAmazonia, que resultou em um painel interativo – lançado junto com o relatório – que permite pesquisa em tempo real na base de dados da ANM.

“É preciso um entendimento geral de que essas áreas não estão disponíveis para exploração mineral, e nem devem estar, tanto pelo respeito ao direito constitucional de autodeterminação dos povos indígenas sobre os seus territórios quanto pela sua importância para combater as mudanças climáticas e garantir a vida no planeta. O mesmo vale para territórios tradicionais e outras áreas de preservação. Esse entendimento deve vir do Estado, mas também das empresas (que têm totais condições de saber quais áreas estão pleiteando para sequer protocolar esses requerimentos), e das corporações financeiras que as financiam”, complementa Dinaman Tuxá, da coordenação executiva da Apib.

Cumplicidade na Destruição IV detalha ainda, em estudos de caso, os impactos e as violações de direitos protagonizados por cinco dessas mineradoras – Vale, Anglo American, Belo Sun, Potássio do Brasil e Mineração Taboca.

Com apoio do Observatório da Mineração, foram resgatadas as trajetórias desses conflitos e seus desdobramentos atuais, que vão desde a invasão de territórios tradicionais à contaminação por metais pesados e o desrespeito ao direito de consulta e consentimento livres, prévios e informados.

O relatório mostra, com testemunhos das comunidades afetadas que desafiam as declarações oficiais das empresas sobre sua atuação, como a presença e a atuação dessas corporações desfigura para sempre a vida desses povos e comunidades e podem contribuir efetivamente para a destruição dos ecossistemas e para o aprofundamento das mudanças climáticas.

“Os danos da mineração ao meio ambiente e à vida dos povos da floresta são brutais e pioraram muito no governo Bolsonaro. No ano passado, o desmatamento ligado à mineração na Amazônia aumentou 62% em relação a 2018, ano em que ele foi eleito. A aprovação do Projeto de Lei 191/2020 pode causar a perda de 16 milhões de hectares de floresta amazônica, além de colocar em risco a vida de milhares de povos indígenas e tradicionais. Mais do que nunca, precisamos comprometer além do governo brasileiro, as empresas do setor, seus investidores e a comunidade internacional para impedir o aprofundamento da destruição da Amazônia e dos ataques aos direitos dos povos indígenas”, afirma Ana Paula Vargas, diretora de Programas para o Brasil da Amazon Watch.

Atualização: posicionamento das empresas citadas

Vale

A Vale nega que siga possuindo qualquer requerimento em terras indígenas no Brasil. Segundo a mineradora, em nota: “No ano passado, a Vale anunciou a desistência de todos os seus processos minerários em TIs no país (o que inclui requerimentos de pesquisa e lavra). Os pedidos de desistência foram protocolados na Agência Nacional de Mineração (ANM) ao longo de 2021. Essa decisão se baseia no entendimento de que a mineração em TIs só pode se realizar mediante o Consentimento Livre, Prévio e Informado (CLPI) dos próprios indígenas e uma legislação que permita e regule adequadamente a atividade.

Também não procedem as alegações sobre suposta contaminação do rio Cateté, o que já foi corroborado em laudos periciais, elaborados por peritos judiciais, em diversas áreas científicas, que comprovam inexistência de causalidade entre a operação minerária de Onça Puma e a suposta contaminação”.

AngloGold Ashanti

A AngloGold Ashanti informa que não opera e não tem interesse em operar em Terras Indígenas (TIs). Na década de 1990, a produtora de ouro solicitou requerimentos de pesquisa mineral em diversas regiões no país. Três dessas áreas posteriormente foram demarcadas como Terras Indígenas (TIs), o que levou a companhia a desistir das mesmas. A decisão foi protocolada junto à Agência Nacional de Mineração (ANM) no final da década de 1990. No entanto, como não houve atualização do processo no sistema da ANM, a AngloGold Ashanti ratificou a retirada do requerimento de pesquisa em 21 de junho de 2021. Atualmente, os investimentos da empresa no Brasil estão concentrados basicamente na expansão de suas minas localizadas em Minas Gerais e Goiás.

English version: Investment funds injected US$ 54 billion into mining companies with interests in Indigenous territories in the Amazon

AJUDE A MANTER ESTE OBSERVATÓRIO

No momento, o Observatório da Mineração é mantido e financiado com recursos próprios do seu fundador, Maurício Angelo, repórter especial e responsável pelo projeto. E por instituições aliadas que acreditam na necessidade de um jornalismo investigativo para o bem comum.

Os projetos, relatórios, aulas e parcerias ajudam a manter o site ativo e aberto ao leitor, mesmo com os custos enormes de tempo, dedicação e dinheiro que o Observatório da Mineração exige.

Estamos buscando novos parceiros e financiadores, desde que alinhados com o nosso propósito, histórico e perfil. Leia mais sobre o impacto alcançado até hoje pelo Observatório, as aulas que ministramos e entre em contato.

Aos leitores: estamos avaliando um modelo de financiamento coletivo. Apoie o site seguindo nas redes sociais (TwitterYoutubeInstagram e Facebook) e compartilhando o conteúdo com os seus amigos!

color compass

Este texto foi publicado inicialmente pelo Observatório da Mineração [Aqui!].

Um desastre anunciado: um alerta do que está por vir no Brasil

Brumadinho,_Minas_Gerais_(47021723582)

Por Jan Morrill para o “EarthWorks”

Cerca de quatrocentos municípios do estado de Minas Gerais, no centro do Brasil, declararam estado de emergência depois que chuvas excepcionalmente fortes atingiram a região no início de janeiro. Inundações generalizadas submergiram casas, bloquearam estradas e levaram a dezenas de mortes e centenas de milhares de evacuações . Embora as inundações extremas sejam devastadoras em qualquer circunstância, muitas comunidades da região enfrentam outra situação ainda mais ameaçadora: instalações de armazenamento de resíduos de minas potencialmente instáveis ​​que podem entrar em colapso a qualquer momento.

Enquanto as empresas de mineração são rápidas em culpar as fortes chuvas pelos problemas com suas barragens de rejeitos, a instabilidade das barragens é o resultado de anos de decisões que priorizam os lucros sobre a segurança. Barragens de rejeitos mais seguras e resilientes são mais caras para construir e manter. As mineradoras escolheram opções mais baratas, como barragens a montante , para disposição de rejeitos. À medida que as mudanças climáticas trazem condições climáticas cada vez mais severas e extremas, barragens de rejeitos projetadas e construídas para maximizar os lucros colocarão em risco cada vez mais comunidades a jusante. 

As minas de minério de ferro do Brasil armazenam seus resíduos em barragens de terra, chamadas barragens de rejeitos, construídas a partir de resíduos de minas. Barragens de rejeitos, especialmente aquelas construídas usando elevações a montante, são particularmente propensas ao colapso se os rejeitos ficarem saturados e o nível da água atrás da barragem subir. Antes do início das chuvas, a Agência Nacional de Mineração (ANM) já havia classificado 36 barragens em Minas Gerais (das 40 em todo o país) como potencialmente em risco de ruptura. Três dessas barragens estão em “risco iminente de colapso”, representando uma ameaça terrível para as comunidades a jusante. 

Além das chuvas recentes, o governo brasileiro questionou especificamente os sistemas de drenagem e os sinais de erosão em 18 barragens de propriedade da gigante brasileira de mineração Vale como sinais de falha potencial. O Ministério Público deu 10 dias para a Vale fornecer um relatório sobre as ações que a empresa planeja tomar para garantir que essas barragens não se rompam. 

No sábado, 8 de janeiro , uma pilha de resíduos desabou na mina de minério de ferro Pau Branco da produtora francesa de tubos de aço Vallourec. Os resíduos da mina fluíram para uma barragem de retenção de água no local, o que causou o transbordamento da barragem. Aqui estão vídeos impressionantes do evento e das consequências.

A pilha de estéril era uma pilha de co-disposição de material estéril e rejeitos, e foi registrada como barragem de rejeitos na ANM . O transbordamento inundou uma grande rodovia, varrendo carros e levando a um fechamento de dois dias. Também forçou a evacuação de um funcionário e 400 animais que o Centro de Reabilitação de Animais Silvestres (CRAS) localizava abaixo da mina. Segundo o Observatório de Mineração“. A equipe responsável pela operação, cerca de 1 veículos, 6 pessoas, riscos de ir a uma área interdada, com ameaça de risco de risco de 2 riscos pela Agência Nacional de Mineração.” [a equipe responsável pela evacuação, cerca de 60 pessoas em 21 veículos, enfrentou os riscos associados a entrar em uma área de emergência com a ameaça de ruptura [da barragem] detectada pela Agência Nacional de Mineração.] Os reguladores brasileiros multaram a empresa em US$ 51,6 milhões  pelo derramamento e as operações suspensas na mina. Esse desastre não foi uma surpresa para organizações comunitárias e autoridades locais que levantaram preocupações sobre a estabilidade da pilha de descarte de resíduos em 2021. Seus avisos foram ignorados pela empresa e pelos reguladores brasileiros. 

No dia 11, uma barragem da mina Mar Azul, uma das três barragens classificadas como em risco iminente de colapso, teria se rompido e enviado rejeitos para corpos d’água a jusante. A Vale, mineradora proprietária das três barragens de alto risco, divulgou um comunicado dizendo que a integridade estrutural da barragem não foi comprometida e que o escoamento foi causado por deslizamentos de terra na face da estrutura. A comunidade a jusante expressou medo de que toda a barragem desmorone. Eles também foram isolados por inundações . Recentemente, a Vale construiu um muro de contenção de 10 andares para mitigar um possível rompimento da barragem de rejeitos. O muro fez com que as águas das chuvas voltassem para a comunidade a jusante de Macacos. 58 famílias foram evacuadas e outras 12 ficaram retidas pelas águas das enchentes. 

A comunidade de Macacos não é a única a temer o rompimento de uma barragem. Dezenas de comunidades em Minas Gerais estão enfrentando circunstâncias semelhantes. A cidade de Congonhas está preocupada com o possível colapso da barragem da CSN Casa de Pedra, pois a água se acumula atrás da estrutura. Uma revisão independente da barragem identificou possíveis problemas de estabilidade em 2019 e com as recentes inundações a ANM elevou sua classificação de emergência para “não controlada”. 

Um desastre está se desenrolando no Brasil, mas houve pelo menos sete vazamentos e rupturas de barragens de rejeitos nos últimos dois meses em todo o mundo. Os governos devem implementar fortes regulamentos de rejeitos orientados pela segurança pública, como os descritos em Segurança em primeiro lugar: Diretrizes para o gerenciamento responsável de rejeitos de minas .

O Movimento dos Atingidos por Barragens pede a solidariedade internacional para doar aos esforços de ajuda humanitária às milhares de pessoas que ainda vivem em situações de emergência causadas pelas inundações e pelas barragens instáveis ​​de rejeitos. Mais informações aqui . As doações podem ser feitas por transferência bancária com as informações abaixo ou via PayPal com este link.

color compass

Este texto foi escrito orginalmente em inglês e publicado pelo “EarthWorks” [Aqui!].

Brumadinho: o crime ambiental completa três anos

Rompimento de barragem matou 264 pessoas e causou dano irreversível para o meio ambiente

unnamed (2)O mar de lama tóxica no Córrego do Feijão em Brumadinho (MG) | Foto: Greenpeace Brasil

São Paulo, 24 de janeiro de 2022  No dia 25 de janeiro, o rompimento da barragem da mina Córrego do Feijão, na cidade de Brumadinho (MG), completará três anos. Ao todo, foram 264 pessoas mortas em decorrência do rompimento da barragem, sendo que seis vítimas ainda continuam desaparecidas. Ainda assim, são 36 meses de um crime ambiental que ainda segue impune. Durante esse período assistimos a negligência do poder público omisso e, principalmente, falta de comprometimento ambiental e humano da empresa Vale S.A, responsável pelo rompimento da barragem.

A barragem rompida apresentava um volume de 11,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos. Essa grande quantidade de rejeitos, somados à velocidade em que foram liberados, destruiu grande parte da vegetação e da fauna locais. Segundo dados do Ibama, houve a perda de cerca de 134 hectares de florestas nativas de Mata Atlântica, o equivalente a 153 campos de futebol e 70,65 hectares de Áreas de Preservação Permanente (APP) ao longo de cursos d’água afetados pelos rejeitos de mineração. Nos mais de 300 km do Rio Paraopeba analisados pela SOS Mata Atlântica (desde a região de Córrego do Feijão até o reservatório de Retiro Baixo, em Felixlândia), a água estava imprópria, sem condições de uso. A organização também verificou que os rejeitos contaminaram até o Rio São Francisco, um dos mais importantes do Brasil.

No que diz respeito às áreas urbanas, ao menos 17 municípios no entorno do Rio Paraopeba foram afetados, atingindo cerca de 600 mil pessoas. Os povos originários da região também foram impactados. Na aldeia Naô Xohã, que conta com indígenas das etnias pataxó e pataxó hã-hã-hãe, enquanto alguns permanecem no território, outros se deslocaram para os centros urbanos em razão do risco de contaminação. Entretanto, há ainda dezenas de indígenas que lutam para serem reconhecidos como atingidos e que exigem que a Vale S/A pague os valores emergenciais, além de garantir a realocação das famílias para um novo território.

Confira especial completo do Greenpeace Brasil sobre o caso Brumadinho aqui

Um dia depois do rompimento da barragem, o Greenpeace Brasil esteve em Brumadinho documentando o crime ambiental e cobrando justiça diante de tamanho crime ambiental.

De acordo com a porta-voz do Greenpeace Brasil, Pamela Gopi: “O que aconteceu em Brumadinho não foi um desastre ambiental de proporção local, foi um crime ambiental de alcance global, que afetam famílias, comunidades locais que sequer são consultadas no momento de implementação de uma barragem. Desde o primeiro momento, o Greenpeace esteve presente no local, não apenas coletando imagens, mas denunciando ocorrido e hoje seguimos cobrando ações efetivas do poder público para que crimes como estes não se repitam em nossa história”.

Outros “Brumadinhos” podem acontecer
A degradação do meio ambiente tem intensificado a ocorrência de eventos extremos como fortes chuvas, temperaturas altas, estiagens e secas que vêm ocasionando enchentes, deslizamentos de terras e tragédias como o rompimento de barragens. Tudo reflexo das mudanças climáticas.

Estados como Minas Gerais, Bahia, Maranhão, Tocantins, Goiás, Piauí, Pará, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul e Santa Catarina são exemplos de regiões que atualmente estão sentindo de maneira intensa os efeitos da crise climática. Apesar disso, a maioria dos estados brasileiros não estão preparados para lidar com a crise: atualmente, somente sete unidades da federação (PE, MG, SP, AC,TO, RS e GO) possuem um plano de adaptação climática e, mesmo nesses casos, faltam ações efetivas.

“É urgente que os governantes, principalmente na esfera estadual, elaborem estratégias e planos de ações que proporcionem a mitigação das consequências das mudanças climáticas, zelando pela vida de suas populações. Os planos de adaptação climática e mapeamento de áreas de risco, além de orçamentos destinados a perdas e danos, e materiais para populações vulneráveis são apenas alguns exemplos de ações que devem ser priorizadas pelos governos diante da emergência climática”, finaliza Gopi.

Nos 3 anos do rompimento da barragem, Brumadinho ainda não tem um fim à vista

Três anos após o rompimento da barragem de Brumadinho, ainda não foram concluídas as indenizações, o desmonte das barragens “a montante”, extremamente vulneráveis ​​ao rompimento, e a condenação criminal dos responsáveis

brumadinho 2

Delegação dos atingidos e ativistas de Brumadinho em frente ao Bundestag alemão no outono de 2019. Foto: Christian Russau

Por Christian Russau para a Kobra

Amanhã, 25 de janeiro, será o terceiro aniversário do rompimento da barragem de Brumadinho. Mais de 270 pessoas morreram, juntamente com o rompimento da barragem de Mariana em 5 de novembro de 2015, um dos maiores desastres ambientais da história brasileira. Essa é a leitura oficial. Mas os afetados, seus parentes e ativistas deixam claro: “O rompimento da barragem não foi um acidente – foi um crime”.

Era 25 de janeiro de 2019 uma barragem de uma bacia de retenção de resíduos de lama de minério da mina Córrego do Feijão se rompeu. A empresa que opera e é proprietária da mina e do reservatório de rejeitos, a mineradora brasileira Vale, disse que o reservatório rompido continha 11,7 milhões de metros cúbicos de rejeitos de minério.

Após o rompimento da barragem da primeira lagoa de detenção, a lama de minério inundou e submergiu a segunda barragem da lagoa de detenção mais próxima. Depois disso, a lama continuou descendo a montanha como um tsunami, destruindo tudo em seu caminho. Entre outras coisas, a onda de lama de minério varreu uma cantina de trabalho, onde muitos trabalhadores almoçavam, ônibus em que estavam sentados trabalhadores que iam ou voltavam do turno de trabalho foram enterrados sob as massas de lama. Pelo menos uma aldeia foi destruída, e pequenos territórios indígenas e quilombolas também sofreram meses depois com a má qualidade da água dos rios afetados.

A mina e a barragem de rejeitos são de propriedade do grupo minerador brasileiro Vale SA. A mina do Córrego do Feijão e a barragem de rejeitos foram colocadas em operação em 1956 pela Companhia de Mineração Ferro e Carvão, em 1973 foi integrada à subsidiária da Thyssen Ferteco Mineração antes sendo adquirida pela Vale SA em 2003 foi adquirida. A barragem agora rompida foi construída em 1976 pela subsidiária da Thyssen Ferteco Mineração.

A TÜV Süd de Munique, a subsidiária brasileira TÜV Süd do Brasil,  fez em nome da Vale e – conforme explica a TÜV Süd na homepage – “com base nas exigências legais (DNPM 70.389/2017) uma revisão periódica de barragens (documento de 18 junho de 2018) e uma Inspeção Regular de Segurança de Barragens (documento datado de 26 de setembro de 2018) realizada.” Quatro meses depois, a barragem se rompeu. 272 pessoas morreram, incluindo o pai de Marcela.

“O rompimento da barragem não foi um acidente – foi um crime.” É o que diz Marcela Nayara Rodrigues. Ela faz uma pausa, pausa, luta com as palavras. Ela respira. Isso foi em Berlim no outono de 2019. Marcela viajou para Berlim junto com outros parentes dos afetados e ativistas para, entre outras coisas, registrar uma queixa em Munique e falar com membros do parlamento no Bundestag alemão.

Marcela Nayara Rodrigues é da cidade de Brumadinho, no estado brasileiro de Minas Gerais, não muito longe da metrópole de Belo Horizonte. Brumadinho é uma daquelas pequenas cidades do interior do grande e vasto Brasil, onde não é gerada nenhuma pequena parte do produto interno bruto, tão importante para os governantes de Brasília e os chefes das empresas na sede corporativa porque é uma expressão do lucro que as Empresas auferem, mas trabalham com as mãos pesadas de gente como o pai de Marcela. Ele trabalhava para a mineradora Vale há muitos anos e era assim que sustentava a pequena família. Então veio o intervalo.

Quem Marcela vê como responsável pelo intervalo? Foi a empresa brasileira Vale, que, como proprietária e operadora da mina e da bacia de retenção, foi responsável pela estabilidade da barragem, ou foi mais responsabilidade da empresa alemã TÜV SÜD, que por duas vezes declarou a barragem inquebrável em 2018? Marcela Nayara Rodrigues vê a Vale como a principal responsável pela segurança da mina e barragem. “É a própria empresa que deve garantir que a mineração seja segura e não coloque os trabalhadores em risco. E se a Vale contrata uma empresa para verificar a segurança, então esperamos um certificado de segurança devidamente elaborado.”

O certificado de segurança, que foi emitido pelos funcionários da TÜV SÜD, é questionado por muitos dos afetados e suas famílias. E-mails que se tornaram conhecidos após a violação mostram a pressão que a Vale exerceu sobre a TÜV SÜD para certificar a segurança. Os promotores no Brasil também têm informações de que pelo menos duas outras empresas de consultoria se recusaram a certificar a segurança dessa barragem. No entanto, a TÜV SÜD confirmou a segurança. De acordo com o conhecimento disponível ao Ministério Público, isso poderia ter acontecido contra um melhor conhecimento.

Claudia Müller-Hoff é advogada e trabalha para a organização de direitos humanos ECCHR, com sede em Berlim. O ECCHR, juntamente com a organização de ajuda episcopal Misereor, entrou com uma ação contra a TÜV SÜD na Alemanha em outubro de 2019 e também apresentou acusações criminais contra gerentes alemães responsáveis. Claudia Müller-Hoff disse em entrevista à KoBra em outubro de 2019: “A barragem teve sérios problemas de estabilidade desde novembro de 2017, pelo menos. Provamos que tanto a Vale quanto a TÜV SÜD estavam cientes disso. Eles, no entanto, garantiram a estabilidade da barragem. E aí está o cerne do problema para a TÜV SÜD. E a conexão direta com a Alemanha neste caso é que havia um engenheiro diretamente responsável que supervisionou todo o processo a partir daqui. De acordo com vários depoimentos de testemunhas, este senhor voou várias vezes ao Brasil para inspecionar o trabalho da subsidiária. E sabemos que os engenheiros no local só poderiam declarar a barragem segura com sua aprovação. Em última análise, eles atestaram a estabilidade da barragem. Portanto, assumimos que o engenheiro alemão deu sua aprovação para isso.”

Este processo faz parte de um processo criminal contra a TÜV SÜD. Mas o seu progresso ainda está para vir.

Enquanto isso, um processo civil foi aberto em Munique contra a TÜV SÜD por outro escritório de advocacia, que está exigindo pagamentos de indenização em nome dos afetados. “Aconteceu um terrível acidente” em Brumadinho, admitiu à mídia na época Florian Stork, diretor jurídico da TÜV Süd. Ele não quer “questionar o sofrimento de forma alguma”, mas: a TÜV SÜD não vê “nenhuma responsabilidade legal” pela catástrofe de 25 de janeiro de 2019.

Aqui, também, o tribunal terá que examinar: os responsáveis ​​da Vale e da TÜV Süd estavam cientes de que a barragem da mina do Córrego do Feijão corria risco de colapso e emitiram certificado de segurança contra seu melhor conhecimento? O tribunal de Munique quer fazer um julgamento neste caso civil em 2022. No Brasil, as ações legais dos afetados continuam, assim como a ação penal movida pelo ECCHR contra a TÜV Süd na Alemanha.

“Para mim, o anúncio é uma questão pessoal: porque meu pai foi morto no rompimento da barragem e porque o negócio corrupto com segurança precisa mudar – porque está destruindo nossas vidas e nosso planeta”, diz Marcela Nayara Rodrigues. Um veredicto não traria seu pai de volta, mas talvez algo mudasse no setor de mineração brasileiro no futuro.

Mude alguma coisa: os políticos do Brasil, que há anos olhavam para o outro lado quando se tratava dos riscos e consequências sociais da mineração, olham apenas para os números macroeconômicos de exportação de todas as pelotas de minério que vão para o exterior, inclusive para a Alemanha, que fica em torno de 45% de suas importações de minério de ferro do Brasil, as políticas do maior estado da América do Sul foram pró-mineração, para dizer o mínimo. Ainda é assim hoje, logo após a ruptura, com a mídia mundial olhando para o país e seu setor de mineração com todos os seus custos ambientais e sociais, a política brevemente frenética e levou ao óbvio: o fim das barragens de rejeitos mais vulneráveis: o barragens “a montante”.

Houve um grande clamor depois que a barragem da bacia de retenção da mina de minério de ferro da Vale na mina Córrego do Feijão, perto da vila de Brumadinho, em Minas Gerais, rompeu em 25 de janeiro deste ano. Tão grande que mesmo políticos arqui-neoliberais pró-indústria declararam publicamente que agora, após as duas rupturas de Mariana (5 de novembro de 2015) e Brumadinho (25 de janeiro de 2019), as estruturas de barragens mais vulneráveis ​​para rejeitos (ou seja, bacias de retenção de principalmente resíduos de mineração liquefeitos) – as chamadas barragens “a montante” não devem mais ser permitidas no futuro e, além disso, as existentes devem ser desativadas e desmanteladas até 2021. Essa decisão, tomada sob pressão da mídia, No entanto, o governo arquineoliberal de Bolsonaro, na forma de seu ministro do Meio Ambiente, Salles, o anunciou de maneira habilmente divulgada logo após a ruptura de Brumadinho, mas foi derrubado novamente apenas alguns meses depois, em agosto de 2019. Se a atenção da mídia caiu e algum tempo passou, então o interesse favorável à indústria prevalece sobre a proteção da natureza e das pessoas.

As barragens, que foram construídas a montante apenas em Minas Gerais e estão em operação, foram originalmente programadas para atingir a vida útil máxima e as barragens devem ser descomissionadas até 2021. Mas depois a Agência Federal de Mineração ANM deu às empresas até mais seis anos, dependendo do tamanho da barragem. O tamanho da memória é levado em consideração para o novo prazo restante, de acordo com a ANM da época. Na verdade, todas as barragens “a montante” devem estar em operação até 15 de agosto de 2021, o mais tardar. A desativação estendida permitirá que as mineradoras concluam os trabalhos em setembro de 2022 para aterros com até 12 milhões de metros cúbicos de rejeitos, agosto de 2025 para instalações de até 30 milhões de metros cúbicos e até agosto de 2027 para estruturas com mais de 30 milhões de metros cúbicos de enchimento de lodo de mineração.

Mas mesmo essa abordagem pró-indústria não está à altura da indústria de mineração do Brasil. Um olhar sobre o estado mineiro de Minas Gerais revela o problema: das 54 barragens existentes no estado de Minas Gerais que foram construídas pelo método “a montante”, 49 ainda não foram desmontadas, segundo a fundação estadual de meio ambiente Fundação Estadual do Estudo criado pelo Meio Ambiente (Feam).

O presidente da Associação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg), Flávio Roscoe, descreveu recentemente o prazo especificado, no entanto, como “irrealizável”. Ele estima que o processo de descomissionamento durará pelo menos até 2030. “Não vale a pena estabelecer um prazo irrealista. A legislatura, então, estabeleceu uma data sem analisar como isso deveria acontecer”, disse o presidente da Fiemg, Roscoe. Segundo Roscoe, o setor de mineração já investiu R$ 16,7 bilhões – o equivalente a atualmente 2,7 bilhões de euros – em medidas para aumentar a segurança dessas barragens e seu descomissionamento nos últimos três anos. De acordo com o panorama divulgado pela Fiemg, sete barragens já foram desmontadas e outras 12 serão desmontadas até 25 de fevereiro de 2022. No total, a indústria chegou assim a 19 barragens de rejeitos desmontadas da marca de construção “Upstream”.

Muitas barragens de rejeitos de mineração são construídas usando o método “upstream”, que é de longe o menos caro, mas também o mais vulnerável de todos os sistemas de barragens de rejeitos. Depois, há o método do centro e o método a jusante. O último, o método a jusante, é o mais caro, mas o mais seguro de todos os métodos de construção de barragens de rejeitos. Como lembrete, as estatísticas de falhas de barragens dizem que falhas de rejeitos são estatisticamente 10 vezes mais propensas a falhar do que barragens hidrelétricas (o que é interessante porque a Comissão Internacional de Grandes Barragens (ICOLD) não incluiu barragens de despejo de minas em seu registro de 58.000 barragens , porque então eles fariam as estatísticas de falhas de barragens parecerem tão devastadoras). No método “upstream”, é construída uma barragem, atrás da qual o lodo de mineração é armazenado, após alguns anos este secar, uma nova barragem é construída em cima da barragem e parte do material então (espero bastante) seco, que então novamente tem uma camada absorve lama. Este processo pode ser repetido até dez vezes, resultando em barragens com várias centenas de metros de altura. 

Com o método do centro, o empilhamento é realizado na área da barragem, com o método “a jusante”, a barragem é alargada em declive. As barragens “a montante” há muito são proibidas na América Latina, por exemplo, no Chile. No Brasil, isso ainda está se arrastando. uma nova barragem é construída em cima da barragem e parte do material então (espero bastante) seco, que então absorve uma camada de lama novamente. Este processo pode ser repetido até dez vezes, resultando em barragens com várias centenas de metros de altura. Com o método do centro, o empilhamento é realizado na área da barragem, com o método “a jusante”, a barragem é alargada em declive. 

As barragens “a montante” há muito são proibidas na América Latina, por exemplo, no Chile. No Brasil, isso ainda está se arrastando. uma nova barragem é construída em cima da barragem e parte do material então (espero bastante) seco, que então absorve uma camada de lama novamente. Este processo pode ser repetido até dez vezes, resultando em barragens com várias centenas de metros de altura. Com o método do centro, o empilhamento é realizado na área da barragem, com o método “a jusante”, a barragem é alargada em declive. As barragens “a montante” há muito são proibidas na América Latina, por exemplo, no Chile. No Brasil, isso ainda está se arrastando. Com o método do centro, o empilhamento é realizado na área da barragem, com o método “a jusante”, a barragem é alargada em declive. As barragens “a montante” há muito são proibidas na América Latina, por exemplo, no Chile. No Brasil isso ainda está se arrastando. Com o método do centro, o empilhamento é realizado na área da barragem, com o método “a jusante”, a barragem é alargada em declive. As barragens “a montante” há muito são proibidas na América Latina, por exemplo, no Chile. No Brasil isso ainda está se arrastando.

Os pagamentos de indenização aos afetados, que a mineradora Vale tem que fazer, também estão sendo sacados. Nem todos foram indenizados, os processos ainda estão em andamento e os advogados ainda estão atuando em nome da Vale, relata a mídia brasileira. Na verdade, a jurisdição do Brasil prescreve um prazo máximo de até três anos. Mas sempre há argumentos jurídicos inovadores, noticia o jornal Brasil de Fato. Por exemplo, muitas das pessoas afetadas pelo rompimento da barragem de Mariana ainda não receberam nenhuma compensação, e os novos assentamentos prometidos e ordenados pelo tribunal ainda não foram amplamente concluídos. A separação de Mariana já faz mais de seis anos. O caminho para a justiça é longo, mas permanece questionável se algum dia levará ao objetivo.

color compass

Este texto foi escrito originalmente em alemão e publicado pela Kooperation Brasilien [Aqui!].

A herança maldita da mineração: 18 barragens da Vale sob risco em Minas Gerais

Feam e MP notificam Vale por duas barragens na mina de Gongo Soco

vale barragens

O Governo do Estado, através da Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), e o Ministério Público de Minas Gerais notificaram a Vale para que, no prazo de 10 dias, tome providências quanto a segurança das barragens Sul Superior e Sul Inferior, da mina de Gongo Soco, em Barão de Cocais, e do dique Paracatu, da mina Fazendão, em Catas Altas, além de outras 15 estruturas, em Itabira, Ouro Preto, Mariana, Itabirito, Nova Lima e Belo Vale.
 
Está sendo exigido da Vale relatório técnico fotográfico, acompanhado de anotação de responsabilidade técnica (ART), informando quais são as medidas executadas ou o respectivo cronograma detalhado para tomar as seguintes ações: mitigar e corrigir os processos erosivos instalados no
entorno das estruturas; fazer a manutenção e limpeza dos sistemas de drenagem interna, superficial e do extravasor; reduzir a contribuição pluvial da bacia de drenagem para o reservatório da barragem e garantir a manutenção de rotina da estrutura, realizando inclusive o controle de vegetação.
 
A notificação tem caráter preventivo e foi feita após constatado que as 18 barragens “apresentam ocorrências que devem ser tratadas para evitar prejuízos no funcionamento de suas estruturas, sendo todas elas de responsabilidade da Vale”, segundo informou o Governo do Estado. “Para essas barragens, as notificações solicitam medidas para o tratamento dos processos erosivos nos entornos e para a garantia da manutenção das estruturas”.
 
color compass
Este texto foi inicialmente publicado pelo “Diário de Barão” [Aqui!].