Em Campos dos Goytacazes, ensino híbrido em meio ao ascenso das contaminações é uma certeza de desastre sanitário

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As razões que guiam a Secretaria Municipal de Educação de forçar os profissionais da educação a aplicar um nebuloso modelo híbrido de ensino, em meio ao que tudo indica seja uma terceira onda aguda e letal da pandemia da COVID-19, não tem outro nome que não seja “convite para o desastre”. É que conhecendo a precariedade que cerca a aplicação dos tais padrões de segurança sanitária que supostamente deveriam reger o convívio aglomerado no Brasil, a única coisa certa é que teremos mais contaminações e provavelmente mortes não apenas entre os profissionais da educação, mas também entre crianças e familiares. E tudo isso para quê? Atender as pressões dos donos das escolas particulares que querem retomar uma normalidade impossível? 

Não há como ficar assistindo esse absurdo de forma passiva, pois já temos um alto número de mortes entre profissionais de educação no município de Campos dos Goytacazes. Cabe ao SEPE e ao SIPROSEP defender os profissionais da educação municipal dessa decisão absurda. A nós que vivemos nessa cidade cabe denunciar esse despropósito, pois senão nos tornaremos cúmplices do que irá acontecer.  

O que será preciso para sensibilizar o prefeito Wladimir Garotinho e seus secretários para que ajam com um mínimo de racionalidade e não imponham esse modelo híbrido que resultará em mais mortes em um município que já perdeu 1.392 vidas para a COVID-19? Que o Brasil chegue a 1 milhão de mortos na pandemia?

Finalmente, uma curiosidade: o press release da Secretaria Municipal de Educação diz que “as condições sanitárias atuais do município, que estão controladas”.  Esse controlada é por quem? Só se for pelo SARS-COV-2 e pela COVID-19. E isso tudo em meio à ampla circulação da variante indiana.  A COVID-19 e os donos de casas funerárias agradecem!

Perguntar não ofende: em Campos dos Goytacazes, o que produz o “setor produtivo”?

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Em uma ofensiva razoavelmente bem articulada, um conjunto de entidades patronais campistas vem promovendo uma campanha midiática contra o pacote de impostos promovido pelo prefeito Wladimir Garotinho que continua atolado nos corredores da Câmara de Vereadores de Campos dos Goytacazes.

A novidade é que essas entidades patronais se apresentam agora sob o manto unificado de um tal “setor produtivo”. Que os patrões querem sempre pagar menos impostos eu até entendo, pois essa é uma forma clássica de acumulação da riqueza gerada pelos trabalhadores. Mas ao se apresentar como “setor produtivo”, os que rejeitam o pagamento de impostos com o Conde Drácula rejeita o colar de alhos, me permite levantar a singela pergunta: o que produz o setor produtivo campista?

É que comercializar o que os outros produzem não é produzir, mas simplesmente vender, não configurando assim produção. E como no meio deste setor produtivo tem muita gente que vive do rentismo, fica ainda mais curioso saber como se dá a definição de produção de que se fala. Simples assim!

Meu nome é Wladimir, mas pode me chamar de Rafael

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Se for feita uma retrospectiva dos primeiros cinco meses do governo Wladimir Garotinho (PSD) à frente do executivo municipal de Campos dos Goytacazes, a primeira sensação é de um tremendo “dejà vu” (literalmente o que já foi visto) em relação ao governo de Rafael Diniz. É que Wladimir vem repetindo a mesma fórmula que mistura derrama fiscal e ataques aos servidores públicos, além de uma estranha propensão a contratar empresas cujo CNPJ foi obtido fora dos limites municipais, o que configura uma sinistra tendência a desconstituir o que resta da economia municipal.

A verdade é que entre um aumento de imposto e outro, incluindo ainda uma estranhíssima lei que implica na expropriação de terras privadas, Wladimir Garotinho demonstra a mesma ojeriza demonstrada por Rafael Diniz em relação aos servidores públicos municipais. A diferença é que Wladimir está associando a cassação de direitos e  benefícios a um projeto explícito de privatização de setores essenciais, a começar pelos serviços municipais de saúde.

Há que se considerar ainda que Wladimir não possui um séquito de menudos neoliberais como o que seguiu Rafael Diniz até os últimos dias de seu infeliz governo. No lugar dos jovens bem barbeados e de cabelos tratados, Wladimir retornou parte da velha guarda que serviu seu pai e  sua mãe, o que, convenhamos, não muda a natureza neoliberal desse início de governo.

Em comum com o grupo de Rafael Diniz, e talvez em tons mais fortes, Wladimir volta a apresentar as mesmas certezas de destino manifesto que o coloque em um suposto padrão de alta moral que o habilita a desqualificar as críticas como se todos os seus críticos fossem piromaníacos institucionais que não querem o melhor para a cidade de Campos dos Goytacazes. Nós que já vivemos o governo dos pais sabemos que esse é um tipo de selo de qualidade do Garotismo, mas é desapontador ver que Wladimir continua com o mesmo tipo de pensamento, apesar de ser reconhecidamente um sujeito afável e com tintas de boa praça. O problema é que na hora de governar traços pessoais não são suficientes para imprimir uma marca própria na forma de governar.

Finalmente, na obra “Dezoito Brumário de Louis Bonaparte”, Karl Marx disse que “a história se repete, a primeira vez como tragédia e a segunda como farsa.”.  No caso envolvendo os governos de Rafael Diniz e Wladimir Garotinho, entretanto, fica difícil saber se estamos diante da farsa ou da tragédia, mas está claro que estamos diante, infelizmente, da repetição de uma forma de governar que não resolve nada, e piora tudo.

Cravo e ferradura na saúde municipal em Campos dos Goytacazes: num dia corte de direitos dos servidores, em outro contrato milionário sem licitação

Empresa vai ganhar R$ 33,572 milhões com dispensa de licitação em Campos

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Por Roberto Barbosa para “O Rebate”

Nesses tempos loucos de pandemia, a empresa MX Gestão e Saúde Ltda não tem do que reclamar, pois vai ganhar a bagatela de R$ 33,572 milhões da Fundação Municipal de Saúde de Campos, por meio de um contrato emergencial e com dispensa de licitação. 

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Ganha um título de mestre em juridiquês quem souber interpretar o detalhamento das tarefas que a empresa vai executar, segundo o edital publicado no Diário Oficial do Município:

“Serviço especializado em coordenação, análise situacional e prestação de serviços assistenciais em saúde na rede municipal, objetivando a análise operacional, administrativa assistencial e de gerenciamento, com a finalidade de buscar a otimização de recursos financeiros dispendidos pela municipalidade”. 

Para entender e concorrer, vale fazer uma prece a São Guimarães, o padroeiro das causas confusas e rentáveis.

Tempos Estranhos

Não é qualquer dinheiro. Campos dos Goytacazes tem 45 mil pessoas vivendo em extrema pobreza e 180 mil trabalhadores dependurados no Auxílio Emergencial do Governo Federal.

Esta semana, com apoio de 15 vereadores, o prefeito Wladimir Garotinho sacrificou o vale-alimentação no valor de R$ 200 de três mil servidores e aprovou uma lei que prevê confisco de imóveis privados que estão em desuso. O objetivo é levar à leilão, com dinheiro revertido para o município. São tempos estranhos na república do chuvisco.

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Este texto foi publicado inicialmente pelo jornal “O Rebate” [Aqui!].

Com ataque aos direitos dos servidores, Wladimir coloca Campos na vanguarda do atraso

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Ainda que não se saiba perfeitamente o que a Câmara de Vereadores aprovou do chamado “Pacote de Maldades” enviado em ritmo de urgência urgentíssima pelo jovem prefeito Wladimir Garotinho (PSD), uma coisa parece certa: a tunga nos direitos dos servidores foi alcançada como queria o grupo político que o sustenta e é por ele sustentado. Segundo fontes da imprensa local, dentre os direitos retirados estão o “pagamento de complementação aos servidores cedidos pelo Estado; fim do abono de permanência, que é destinado aos profissionais que já tem idade para se aposentar, mas continuam nos cargos públicos; revogação do auxílio-alimentação, de R$ 200, para servidores que tiver o salário bruto acima de R$ 3.409,37“. 

Com essa retirada de direitos, além de encolher vencimentos, o prefeito certamente aumentará o número de servidores que irão solicitar aposentadoria nos próximos meses e também solicitarão o retorno aos seus órgãos de origem. Essas são consequências óbvias que já devem ter sido antecipadas por quem preparou esse ataque aos servidores. Quem ainda não foi avisado que os serviços públicos municipais irão piorar é a população que mais depende deles.

Há que se ressaltar que todos os cálculos que vi em termos da economia que será alcançada por essas medidas apontam no sentido de que ela será mínima, se alguma.  E, pior, sem que haja qualquer alteração na pressão que determinados custos impõe aos cofres públicos, inclusive no pagamento da folha de pessoal, onde os cargos nomeados representam um custo normalmente mais significativo do que os direitos e incentivos que estão subtraídos dos servidores.

É interessante notar que ao se adiantar à reforma administrativa que começou a tramitar no congresso nacional, Wladimir Garotinho se coloca na dianteira de mais uma onda de ataque aos direitos dos servidores públicos. Nesse sentido, ele se coloca na vanguarda do atraso já que se sabe que a precarização da condição salarial dos servidores só beneficia mesmo corporações privadas que se beneficiam da privatização do Estado, normalmente com contratos extremamente salgados que não garantem a qualidade dos serviços públicos, aliás, muito pelo contrário.

Assim, um governo que começou com a cara de um pequeno museu de velhas novidades agora migra para a condição de ser a vanguarda do atraso. E isso tudo em pouco menos de cinco meses de duração. Isso me faz pensar que os próximos 43 meses têm tudo para serem parecidos com os longos e dolorosos 48 meses do governo de outro jovem que chegou à Prefeitura de Campos prometendo respeitar e valorizar os servidores municipais. 

Finalmente, há que se dizer que com esse ataque aos servidores municipais fica evidente que o “Garotismo” se tornou uma espécie de braço auxiliar do “Bolsonarismo” no estado do Rio de Janeiro, principalmente no município de Campos dos Goytacazes. Resta saber apenas como isso se refletirá nas próximas eleições que ocorrerão em 2022. Eu não me surpreenderia nem um pouco se virmos o pai do prefeito, Anthony Garotinho, subindo ou oferecendo o palanque para a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro. Afinal, vanguarda do atraso por vanguarda do atraso, fica difícil ver quem é mais atrasado.

O passo descompassado de Wladimir Garotinho na relação com os servidores municipais

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Há algo de muito estranho acontecendo no interior do governo do jovem prefeito Wladimir Garotinho quando se trata de definir as relações com os servidores públicos municipais, com base no que se gasta para fazer a máquina pública funcionar. É que bastou que bastou uma notificação do Tribunal de Contas do Estado (TCE) no sentido de que teria  sido ultrapassado o limite de gastos com pessoal que Wladimir já se serviu de suas redes sociais para lançar a semente de que terá de cortar na carne (dos servidores, é claro) para que haja um suposto retorno aos limites impostos pela Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF).

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A menção de que irá se reunir com os sindicatos para buscar “caminhos possíveis e soluções práticas” parece, em superfície, uma sinalização de que, na iminência de baixar o porrete nos mais fracos, Wladimir decidiu que é preciso conversar para que a cabeça dos que irão ser sacrificados esteja na posição certa. 

O fato é que se houvesse realmente interesse em estancar pontos indevidos de sangria, um primeiro lugar que deveria ser avaliado é a Câmara de Vereadores onde, segundo reportagens publicadas pelo Portal Viu, a gastança anda desenfreada, e com um número de cargos comissionados que não deixa de fora nem familiares (ainda que por laços de casamento) do próprio prefeito.

Assim, se é para começar baixar os gastos com a folha de pessoal que se examine primeiro situações em que as indicações políticas para cargos comissionados que nada contribuem para o funcionamento da máquina municipal. É que sinalizar que vai a prioridade é mexer com o pessoal da saúde, em meio à antessala de uma terceira onda ainda mais mortal da COVID-19, é, antes de qualquer coisa, de péssimo gosto em termos da desmoralização de profissionais que passaram quatro anos comendo o pão que o diabo amassou nas mãos de Rafael Diniz e seus menudos neoliberais.

Apesar do foco deste blog não ser o governo municipal, tenho que lamentar que as mesmas fórmulas de encurtamento de direitos que são ensejadas pelas políticas ultraneoliberais do governo Bolsonaro pareçam ser as preferidas pelo governo Wladimir. É que mais do que nunca, haveria que se prestigiar quem efetivamente trabalha em vez de se ameaçar com a retirada de direitos.

Finalmente, que os sindicatos que representam os servidores municipais façam o que se espera deles em termos de defender de forma obstinada os direitos que estão agora sob ameaça.

Restaurante Popular de Campos dos Goytacazes vai ser reaberto nesta 6a. feira

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Recebi via o Whatsapp do prefeito Wladimir Garotinho (PSD), o convite abaixo que se refere à cerimônia de reabertura do Restaurante Popular de Campos dos Goytacazes, a qual deverá ocorrer com toda pompa e circunstância amanhã de manhã (07/05), com a presença do atual governador Cláudio Castro e do casal de ex-governadores Anthony Garotinho e Rosinha Garotinho.wp-1620310897356.jpg

A primeira coisa que se pode dizer sobre esta reinauguração é de que ela repara um grave prejuízo causado aos segmentos mais pobres da população campista pelo governo do ex-prefeito Rafael Diniz que no início do seu mandato se mostrou como um “serial killer de políticas sociais”. 

Ao promover a reabertura do restaurante popular, Wladimir Garotinho restabelece uma política social relativamente barata, mas que tem uma importância crucial para os segmentos mais fragilizados da população que hoje literalmente passa fome pelas esquinas de uma cidade que possui um dos orçamentos mais caros da América Latina.

Como alguém que sempre defendeu a reabertura do restaurante popular, agora vou acompanhar o que os usuários terão a dizer sobre a qualidade do alimento fornecido, bem como das medidas que serão adotadas para manter o devido controle de segurança durante a vigência da pandemia.

E não é preciso dizer que reabrir o restaurante popular deverá ser apenas a primeira medida para recuperar a rede de proteção social que foi destruída por Rafael Diniz.  Afinal, sem, por exemplo, um programa de renda mínima, a fome será aliviada com a reabertura do restaurante popular, mas não deixará de ser o flagelo que hoje é.  

Campos dos Goytacazes: a COVID-19 se espalha como fogo em canavial seco, mas nem parece

 

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Eu venho tentando me abster de oferecer maiores opiniões sobre o cenário municipal, pois tenho preferido me concentrar em questões mais gerais, com a qual prefiro me concentrar. Mas talvez provocado por duas instigantes no blog agora batizado de “Peido News“, impulsionado pelo sempre inquieto Douglas da Mata, resolvi abrir uma exceção e abordar o que os números da COVID-19 mostram para Campos dos Goytacazes, em que pese a retomada quase absoluta da “normalidade” do comércio local.

Comecemos pelo gráfico disponibilizado ontem pela Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes em sua página oficial na rede social Facebook:

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Os números não deixam que não queira ser, seja enganado. Chegamos ao absurdo número de  1.044 óbitos confirmados, o que representa 0,2 da população campista, um pouco acima do valor de 0,18 que abarca o total de mortos em relação à população brasileira.  Pensar que uma doença que poderia ter sido relativamente controlada se houve vacinação no tempo correto esteja causando este estrago deveria revirar os estômagos e as mentes de todos nós. Mas outro número é igualmente avassalador, a taxa de ocupação dos leitos de Unidades de Terapia Intensiva (UTI) que é de astronômicos 96,5%.  Esse número só não é maior porque a taxa de mortos está alta, criando uma situação em que os pacientes dão baixa, em vez de receber alta.

Para complicar ainda mais a situação, a campanha de vacinação contra a COVID-19 caminha a passos de uma tartaruga que teve suas quatro patas quebradas, fato que amplia não apenas a chance de termos ainda mais pessoas infectadas, como também o surgimento de variantes ainda mais contagiosas e letais do que aquelas que já estão circulando na cidade. Em cima dessa lentidão, ainda temos a continuação de filas que favorecem ainda mais a ocorrência de casos de transmissão do Sars-Cov-2.

Enquanto isso, quem circula pelas ruas dos dois centros que a cidade possui atualmente (Hiistórico e Pelinca) vai ter que se beliscar para ter certeza que não está vivendo uma cena do filme “Matrix”, pois em Campos dos Goytacazes parece não haver mais necessidade de se impor medidas restritivas para conter o avanço da pandemia. Para alegria dos necrocomerciantes que não se importam sequer com o aumento de mortes entre suas próprias fileiras, tudo em nome do nada santo direito de levantar as portas para deixar lojas às moscas.

E o prefeito Wladimir Garotinho nessa barafunda toda? Parece mais um personagem de um daqueles épicos que destacam a desnecessidade de alguém, seja o famoso “A volta dos que não foram” ou “Apertem os cintos que o piloto sumiu”.  No caso de mais um jovem prefeito que parece não saber o rumo a tomar enquanto o navio afunda, não tenho como deixar de ser acometido pelos sentimentos de tristeza e desolação. Mas vá lá, pelo menos o comércio segue aberto, em que pese o fato de que o vento sopra forte no canavial em chamas…..

100 dias de governo Wladimir Garotinho: um pequeno museu de velhas novidades

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Wladimir Garotinho, cercado pela população, no momento da vitória eleitoral em 2020

Antes de iniciar minha análise dos primeiros 100 dias do governo liderado por Wladimir Garotinho (PSD) em Campos dos Goytacazes, quero recomendar aos leitores do blog que leiam a que foi feita pelo Douglas da Matta no “Diário da Pandemia” dois dias atrás.  É que sendo o Douglas uma das mentes mais astutas e argutas a observar a nossa realidade provinciana, a leitura do texto A volta na planície em 98 dias é obrigatória.

Há que se reconhecer que não se pode avaliar completamente um governo que deverá durar 1.400 dias, apenas pelo que se fez nas primeiras 100 rotações completas da Terra em torno do nosso sol, mas isso não impede que tenhamos pistas do que ainda virá. E até aqui, não temo em dizer que estamos presenciando a execução de uma pequeno museu de velhas novidades.  Pode-se até minimizar a falta de inovação em função da persistência da pandemia da COVID-19, mas não há minimização que explique algumas situações que estão se pondo diante dos olhos de quem quer enxergar.

O Restaurante Popular continua fechado e a fome continua correndo solta nas ruas da cidade

Uma das promessas que eu considero mais simples de serem cumpridas seria a reabertura do Restaurante Popular Romilton Bárbara. Em uma corrida de cavalos, essa seria uma barbada.  É que além do custo financeiro ser baixo e o retorno social ser altíssimo, inexplicavelmente esse processo vem se arrastando como uma tartaruga que está com as quatro patas quebradas. Primeiro se arvorou uma parceria com o “parça” Bruno Dauaire que ocupa silenciosamente a Secretaria Estadual de Desenvolvimento Social e Direitos Humanos que fez parecer que a reabertura seria coisa de dias. Depois veio um estranho programa de parceria com a iniciativa privada envolvendo a concessionária Águas do Paraíba e a rede de supermercados Super Bom.  Como o envolvimento da Águas do Paraíba só resulta em alguma coisa prática quando envolve o aumento dos já fabulosos lucros da empresa subsidiária do grupo “Águas do Brasil”, de prático só vi o anúncio da parceria.

Enquanto isso, a fome continua campeando as ruas de uma cidade que possui um dos maiores orçamentos públicos da América do Sul.

A ausência de uma política municipal de renda mínima, enquanto se nomeia centenas de cargos em comissão na prefeitura e na Câmara de Vereadores

Cidades com orçamentos tão ou mais comprometidos que os de Campos dos Goytacazes criaram, ainda que tímidos, programas de renda mínima. Na situação em que centenas de milhares de famílias desta cidade se encontram, o reestabelecimento de um programa de renda mínima teria tido um efeito energizador não apenas para quem poderia ter algo na mesa para comer, mas também porque dinamizaria o comércio local e geraria empregos que andam escassos neste momento, em um verdadeiro ciclo virtuoso.   Mas até agora, não houve sequer a sinalização de que se pretende fazer isso.

Por outro lado, um observador astuto do Diário Oficial do Município, me informou que nestes primeiros 100 dias de governo a gestão de Wladimir Garotinho realizou 960 nomeações em cargos de confiança, enquanto a Câmara de Vereadores teria feito outras 168. O custo conjunto dessas nomeações? A bagatela de R$ 50 milhões por ano, deixando óbvia a questão de que um programa de renda mínima iria custar menos do que isso.

A desastrosa opção de se majorar o pagamento do IPTU e de outros impostos municipais

Uma das facetas do governo do ex-prefeito Rafael Diniz foi realizar uma pequena derrama fiscal, principalmente no chamado Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) e na famigerada Taxa de Iluminação, acrescentando-se aí os generosos aumentos nas contas de água e esgoto.  Ao assumir a prefeitura, o que fez Wladimir Garotinho? Não só manteve as maldades do governo anterior, mas também diminuiu o desconto para aqueles que decidissem pagar de uma só vez o IPTU, implicando na prática em um aumento no valor do imposto. 

Com isso, o que temos notícia é que a arrecadação inicial com o pagamento do IPTU ficou aquém do esperado, para surpresa dos “jênios” que decidiram por essa opção de oneração dos contribuintes municipais que já se encontram à beira da asfixia financeira por causa dos efeitos prolongados da pandemia da COVID-19.

A falta de uma política de recuperação das vias municipais

Outra faceta marcante do governo anterior foi o completo abandono das vias municipais que se transformam em um paraíso para os donos de oficina de automóveis e lojas de vendas de pneus. E o que fez o governo de Wladimir Garotinho nos seus primeiros 100 dias para reverter essa situação calamitosa.  Essa é fácil…. nada.  Com isso, a maioria das ruas na malha urbana principal estão transformadas em uma espécie de área de treinamento para o Rally Paris-Dacar.  

A mesma coisa pode ser dita para o sistema de sinalização que possui incontáveis semáforos operando, quando operam, em condições lamentáveis.

E mais uma vez, a ação para reparar essa situação não seria tão cara para a cidade, caso houvesse uma efetiva mordernização na forma de gerir os próprios municipais.

A insistência na aposta com a monocultura da cana de açúcar

Por relações umbilicais com o setor canavieiro, o governo Wladimir Garotinho embarcou, ainda que timidamente, em um suposto projeto de ressurreição que está sendo embalado pelos grandes proprietários rurais do município. É preciso que se tenha claro que não existe qualquer possibilidade de que os investimentos públicos ou privados para esse fim venham a ocorrer.  

E isso se dá por um motivo simples e inescapável: a fronteira do açúcar e do álcool se moveu para fora das regiões tradicionais e o que há de mais moderno e capitalizado no setor está no Centro Oeste e em São Paulo e Minas Gerais. Por que grupos monopolistas voltariam a se fixar no Norte Fluminense se estão se dando muito melhor em outras paragens? 

A única saída  viável para a agricultura em Campos dos Goytacazes está na produção de alimentos, e que ocorre de forma mais produtiva em pequenas propriedades, como aquelas geradas pela reforma agrária.

A hesitação frente às pressões para conter o avanço da pandemia da COVID-19 em Campos dos Goytacazes

Uma das áreas críticas em qualquer município brasileiro é o da gestão e controle da pandemia da COVID-19.  Nessa área, apesar de Campos dos Goytacazes estar chegando a 1.000 mortos oficiais (temos que levar em conta a subnotificação que está objetivamente ocorrendo) com um ritmo de infecção que ultrapassa os 100 casos diárias. o que faz com o estoque de Unidades de Terapia Intensiva (UTIs) estejam em 100% de ocupação.

Mas até aqui não apenas os esforços de educar a população são praticamente inexistentes, mas como se mostra uma incrível hesitação em se impor medidas restritivas mais fortes. E mesmo diante dentro cenário, ainda se conjectura fragilizar um sistema já raquítico de controle de circulação de pessoas porque um punhado de necrocormerciantes se pôs a protestar. Se essa fragilização se confirmar, o que teremos, com certeza, será a prosperidade de um único setor do comércio, o das funerárias.

O pequeno museu de velhas novidades

Por todas essas questões que selecionei para abordar é que não há como deixar de apontar que nos primeiros 100 dias dp governo de Wladimir Garotinho, o que temos é um pequeno museu de velhas novidades. E pior velhas novidades deixadas por um governo anterior que foi fragorosamente derrotado nas urnas. 

Há que se reconhecer que, diferente de Rafael Diniz, Wladimir Garotinho tem se colocado a cara na rua e ido até onde as coisas estão acontecendo.  Além disso, salvo alguns momentos de contrariedade, Wladimir tem tido uma postura de “fair play” com os críticos. Mas isso não o desobriga de procurar formas ágeis de resolver problemas que custariam pouco enquanto criaram uma dinâmica positiva na população, fator esse que será fundamental para qualquer esforço de retomada na ainda distante pós-pandemia.

Agora, se continuar insistindo em velhas estratégias de acomodação com grupos que sempre se beneficiaram da máquina pública, o mais provável é que Wladimir fique preso em uma teia mortal que sufocará suas chances de ser o gestor moderno que ele anuncia querer ser.

Com 900 mortos pela COVID-19, necrocomerciantes pressionam pela reabertura do comércio em Campos dos Goytacazes

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Em meio ao recrudescimento dos casos de COVID-19,  a Prefeitura de Campos dos Goytacazes e o Ministério Público Estadual agiram para adotar formas mínimas de restrição da circulação de pessoas na cidade, especialmente na região do centro histórico. Essas medidas, ainda que tímidas em função do aprofundamento do colapso hospitalar, resultou na ida às ruas de representantes de sindicatos e associações patronais da área do comércio que pressionam pelo fim imediato desse esforço tímido de contenção da pandemia.

Essa ação dos que eu caracterizo de “necrocomerciantes” (em homanagem ao filosófo camaronês Achilles Mbembe que cunho o termo “necropolítica”) reflete as mesmas ações emanadas de dentro do governo Bolsonaro que procuram intimidar governadores e prefeitos que tentam ensejar medidas que visam conter a expansão da pandemia e, portanto, do número de mortos.

Para justificar sua aliança com o Sars-Cov-2, os representantes desse setor exibem números de empregos que deverão ser destruídos caso as ações restritivas não sejam suspensas. Como sempre os números relativos a empregos são fabulosos e grandiloquentes, mas dificilmente expressam a verdade. É que todos sabemos que a crise do comércio campista, especialmente no seu centro histórico, é algo que antecede a pandemia da COVID-19, e que, frise-se, não se encerrará quando o Sars-Cov-2 finalmente for domado.

Quem conhece minimamente a situação do comércio local sabe que a concorrência de grandes empresas de atacado que chegaram ao município nos últimos anos, e o comércio via sites da internet estão na raiz da crise agônica que o comércio local enfrenta. Desta forma, a insistência em permanecer abertos em meio ao colapso hospitalar em curso na cidade de Campos dos Goytacazes é mais ideológica do que lógica, visto que as lojas reabertas continuarão literalmente às moscas, pois quem ainda pode comprar alguma coisa vai sempre usar formas que minimizem a exposição ao um vírus que está se mostrando cada vez mais letal.

O prefeito Wladimir Garotinho precisa lembrar que a imensa maioria dos votos que o elegeram não vieram dos necrocomerciantes, mas sim daqueles que compõe a maioria dos infectados e dos mortos. São os segmentos mais pobres não apenas que garantiram a eleição de Wladimir, mas também aqueles que estão passando por enormes dificuldades financeiras e sofrendo o maior peso da pandemia. Assim, até para ser justo com seus eleitores, o prefeito deveria se ocupar mais da execução de medidas que ampliem a cobertura social aos mais pobres e se concentrar nos esforços para acelerar o processo de vacinação contra a COVID-19. Simples assim!