É hora de rever o sistema de pós-graduação brasileiro

Por Lewis Joel Greene

Foto: Steve Goodyear.Foto: Steve Goodyear.

O contraste entre o aumento do número de publicações científicas brasileiras e a aparente estagnação de seu impacto na maioria das disciplinas deveria ser uma fonte de preocupação para os decisores políticos responsáveis pela pós-graduação em universidades e a distribuição de bolsas de estudo e financiamento à pesquisa. Como a maior parte da pesquisa acadêmica no Brasil é realizada por estudantes de pós-graduação, é razoável considerar a modificação do nosso sistema de pós-graduação.

Ao longo dos anos, o investimento brasileiro em ciência e tecnologia tem aumentado significativamente, porém a filosofia básica de pós-graduação aparentemente mudou muito pouco. A ênfase continua a ser no número de diplomas e documentos produzidos, mais que na formação do aluno. Por formação queremos dizer as habilidades necessárias para realizar pesquisas e preparar a próxima geração de cientistas brasileiros. Estas incluem a capacidade de analisar problemas, formular soluções específicas, levar a cabo estas soluções no laboratório, pensar e escrever de forma clara, de modo que seja compreensível aos pares, e, finalmente, conhecer e compreender a história do desenvolvimento de sua área acadêmica. É claro que existem outras habilidades necessárias, mas estas são as mais importantes. Devemos esperar que os nossos alunos continuem a se desenvolver e amadurecer ao longo de suas carreiras acadêmicas. Isso não está acontecendo e, como regra geral, até agora viemos treinando técnicos em sua maior parte, em vez de doutores.

Em meados da década de 1970, houve muitas discussões sobre o fato de que o Brasil precisava produzir milhares de doutores para chegar a níveis de primeiro mundo em número de doutores/100.000 habitantes. Reconhecia-se que a maioria dos primeiros formados teriam uma formação menos que ideal, porém entendia-se e esperava-se que o sistema se tornasse mais rigoroso com o tempo. Infelizmente, isso não ocorreu e, para piorar a situação, os doutores mal treinados estão agora formando a próxima geração de doutores.

Historicamente, desde a institucionalização da pós-graduação no Brasil, nos anos sessenta, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), as universidades voltadas para a pesquisa (quase todas públicas) e as agências de fomento estaduais tiveram, todos eles, algum grau de responsabilidade sobre a estratégia para o desenvolvimento de cursos de pós-graduação no país, com uma contribuição substancial para a ciência brasileira. Eu sugiro que um painel de membros da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SPBC) seja convocado para analisar o desempenho da pós-graduação desde o seu início, em princípio dos anos 1970, e sugerir novas abordagens que podem ser mais eficazes do que a atual em relação à qualidade dos nossos alunos e do empreendimento científico no Brasil.

Sobre Lewis Joel Greene

Atualmente é professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo, no departamento de Biologia Celular, Molecular e Bioagentes Patogênicos. É supervisor do Centro de Química de Proteínas, na Fundação Hemocentro de Ribeirão Preto, onde desenvolve estudos de caracterização química, funcional e estrutural de proteínas, utilizando abordagens tradicionais em química de proteínas e análise proteômica.

FONTE: http://blog.scielo.org/blog/2015/01/26/e-hora-de-rever-o-sistema-de-pos-graduacao-brasileiro/#.VMt7TWjF9sh

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