O receituário de Gramsci para combater o “trash science” e outras deformações da produção científica flexível

gramsci

No atual semestre acadêmico estou ministrando um curso de Metodologia da Ciência para os doutorandos do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais, após ministrar por 17 anos um outro sobre fundamentos da Metodologia da Pesquisa em nível de mestrado. Por considerar que o nível de doutorado deveria exigir mais preparação de minha parte e dos meus alunos, resolvi redesenhar completamente a ementa para discutir com mais profundidade elementos da Filosofia da Ciência. É que como professor e orientador tenho me inquietado com a proliferação de uma visão de produção científica flexível, a qual vem gerando frutos malditos como o “trash science”.

Pois bem, por uma dessas coincidências acabei incluindo a leitura do Volume 11 dos Cadernos do Cárcere do filósofo e militante revolucionário italiano Antonio Gramsci. O Volume 11 não é o mais badalado, pois se refere a um esforço que Gramsci chamou de “Introdução ao estudo da Filosofia“.  A leitura do Volume 11 não é das mais fáceis, mas é essencial para os que hoje se sentem incomodados com o estado de coisas que perdura na ciência nacional e mundial.

Em uma das elaborações mais pertinentes que encontrei no Volume 11 em relação a definir o que é um cientista, separei a seguinte:

Desta  forma, pode-se dizer que não é cientista quem demonstre escassa segu­rança em seus critérios particulares, quem não tenha uma plena inteli­gência dos conceitos utilizados, quem tenha escassa informação e conhecimento do estágio precedente dos problemas tratados, quem não seja muito cauteloso em suas afirmações, quem não progrida de uma maneira necessária, mas sim arbitrária e sem concatenação, quem não saiba levar em conta as lacunas que existem nos conhecimentos já atingidos, mas as ignore e se contente com soluções ou nexos pura­mente verbais, ao invés de declarar que se trata de posições provisórias que poderão ser retomadas e desenvolvidas, etc. (Cada um desses pon­tos pode ser desenvolvido, com as oportunas exemplificações.)

Levando-se em conta que Gramsci morreu em 1932, o trecho acima revela uma análise precisa das deformações que a fragmentação da ciência já impunha aos que queriam enveredar por esse caminho. Além disso, se olharmos para cada uma das condições incluídas na passagem que eu selecionei, eu diria que uma porção significativa dos detentores de títulos de Doutor no Brasil teria graves dificuldades para cumprir não apenas o conjunto, mas pelo menos uma delas. Mas o bom é que ler o parágrafo, todos aqueles que quiserem evitar o pântano do “trash science” já saberão o que fazer para não cair dentro dele.

Em outras palavras, e citando o artigo do professor Lewis Joel Greene, professor titular voluntário (colaborador sênior) da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, Universidade de São Paulo (Aqui!), isto nos leva ao fato de que, como regra geral, até agora o sistema nacional de pós-graduação vem treinando técnicos em sua maior parte, em vez de formar doutores. Outra consequência disso é a disseminação do “trash science” e a multiplicação de casos de plágio e outros tipos de fraude acadêmica.

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