Por que tanta surpresa com a má qualidade do nosso parlamento?

Tenho notado nas mais variadas análises e repercussões da votação do impeachment da presidente Dilma Rousseff uma certa estupefação com o espetáculo tragicômico que foi oferecido ao Brasil pelos que votaram a favor do impedimento. 

Uma analista astuta, por outro lado, apontou que se Eduardo Cunha usou a votação num domingo para constranger o voto contrário ao impedimento, ele prestou o serviço involuntário de nos mostrar que o tal “baixo clero” de que tanta se fala e nunca se vê, é muito mais numeroso e torpe do que se atribui normalmente.

Eu diria que se alguém não tinha noção da fraqueza intelectual e moral da maioria da Câmara de Deputados até hoje era por simples falta de curiosidade sobre quem são seus membros. Aliás, não é só na Câmara que se pode verificar a baixíssima capacidade de oferecer falas minimamente lógicas e amplas. Basta ir em qualquer em qualquer assembleia legislativa ou câmara de vereadores que o espetáculo oferecido é igual ou pior.

A culpa disso é de um sistema partidário controlado pelas corporações que beneficia quem tem dinheiro (muitas vezes de Caixa 2) para impulsionar candidaturas que, em tempos normais, não teriam a menor chance. Além disso, a falsa certeza de que a tal “Ficha Limpa” garantiria parlamentares mais probos criou uma ilusão de limpeza que equivale a limpar o chão com um pano sujo de fezes. 

A verdade é que esses parlamentares representam o que pensam as elites e porções significativas da classe média brasileiras. O apoio à tortura, à violência contra os pobres, ao fanatismo religioso que adormece as consciências, e à moral seletiva e hipócrita é uma marca de quem manda nesse país desde que os portugueses por aqui aportaram entregando espelhinhos para os nativos.  Então, convenhamos, esses deputados caricatos são apenas a face explícita dos velhos escravocratas que ainda mandam nesse país. 

Mas para quem reclama apenas do parlamento, eu diria que o buraco é bem mais embaixo, ou, bem mais acima. Vejamos a situação do Supremo Tribunal Federal  (STF) que senta há quase 4 meses num pedido de prisão contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha. Qual é a razão de tamanha demora para uma decisão tão óbvia? Somado isso às prisões arbitrárias de pessoas que sequer tiveram crimes reconhecidos pelo juiz Sérgio Moro, encontramos uma simbiose entre o show de horrores da Câmara durante a votação do impeachment com o que efetivamente representa o STF na manutenção de uma situação de contínua desigualdade social no Brasil.

Querem uma expressão óbvia disso? A recente indicação e aprovação da jovem advogada Marianna Fux para o posto de desembargadora do Tribunal de Justiça do Rio Janeiro. Principal mérito dela? Ser filha do ministro do STF, Luiz Fux! Afora, umas poucas linhas em alguns veículos da mídia corporativa, esse jogo de compadres foi aceito de muito bom grado. Ninguém se mostrou enojado como fazem com o pagamento da Bolsa Família para um punhado de pobres. Tudo muito limpinho e cheiroso.

Felizmente, e sempre há um felizmente, toda essa situação está sendo mostrada na TV. E para quem pensa que o produto final disso são massas enebriadas, eu diria que é possível que surpresas ocorram. É que, enquanto aquelas pessoas de tez clara vestindo verde amarelo pulavam felizes toda vez que um voto hediondo (como o proferido por Jair Bolsonaro em memória de um dos maiores torturadores da história do Brasil), os pobres olhavam com outros olhos o prenúncio de tempos muitos duros pela frente. Daí que ninguém se surpreenda ao ver que quem hoje planta ventos para Dilma Roussef vá colher tempestades num futuro não distante. A ver!

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