A ilusão da normalidade: Uenf vai reiniciar as aulas em meio à completa precariedade

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Ao contrário do que foi decidido pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro  (Uerj) que só reiniciará suas aulas após ter garantido o aporte de recursos mínimos para viabilizar seu funcionamento, a Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf) está às vésperas de um nada auspicioso reinicio de aulas na próxima segunda-feira (06/03). No que seria normalmente um evento a ser comemorado por demonstrar a pujança da universidade criada por Darcy Ribeiro e construída por Leonel Brizola, esse reinício de aulas se dá sem que quaisquer das condições mínimas para a Uenf cumprir o seu papel de produzir ensino, pesquisa e extensão de qualidade estejam garantidas.

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Aliás, o quadro não poderia ser pior. Se não bastasse estarem os salários e bolsas acadêmicas com pagamentos atrasados, o reinício das aulas se dará sem serviços de segurança, jardinagem e alimentação, e com a limpeza operando em nível apenas precário, fazendo com que o campus Leonel Brizola esteja literalmente se transformando numa bela demonstração de sucessão secundária, ou seja, virando um matagal. Além disso, tampouco existem os insumos necessários para que as aulas práticas possam ser oferecidas, restando aos professores oferecerem aquelas clássicas aulas de “cuspe e giz”, fato esse que faz a qualidade pedagógica despencar para níveis abissais. E detalhe, como os quadros de giz foram substituídos por painéis de vidro, vai acabar sendo mesmo só na base do cuspe, pois inexistem os pincéis apropriados para os usos dos mesmos.

Somando-se ao caos já existente uma série de roubos e atos de vandalismo criaram um ambiente de completa insegurança onde quem se atreve a freqüentar o campus Leonel Brizola tem agora que se preocupar sobre a possibilidade de ser a próxima vítima, como foi o caso do aluno de doutorado que ficou horas amarrado a uma árvore enquanto a unidade experimental existente na Escola Antonio Sarlo era saqueada.

Além disso, não há como deixar de notar que o secretário estadual de Ciência Tecnologia, Inovação e Ação Social, o deputado Pedro Fernandes, dá contínuas demonstrações de só saber da existência da Uerj e da rede de escolas da Faetec.  Esse verdadeiro desprezo pela Uenf é uma clara demonstração de que a cavalaria não está a caminho, provavelmente porque o secretário sequer sabe onde ficam localizadas as cidades de Campos dos Goytacazes e Macaé onde a Uenf possui seus campi.

Mas se a situação está tão ruim como estou descrevendo, por que então as aulas estão sendo reiniciadas? Eu particularmente atribuo a decisão de reiniciar as aulas a um voluntarismo equivocado dos dirigentes da Uenf que apostam na condescendência do (des) governo Pezão para aqueles que mostrarem que podem tirar leite de pedra, sem que sequer as pedras sejam entregues. O fato é que está mais do que claro que deste (des) governo não há como se esperar qualquer tipo de condescendência, especialmente porque isto pode ser tomado por uma atitude de seguir (usando os termos usados por um colega na rede privada que os professores da Uenf usam para se comunicar) bovinamente as ordens que ainda emanam do Palácio Guanabara.

Desgraçadamente essa postura “bovina” dos dirigentes da Uenf para mim é uma receita quase certa para que o fim da universidade que conheço desde que aqui cheguei em 1998 seja acelerado. É que a desmoralização a que estamos sendo submetidos é tanta que não há como não haver degradação dos melhores princípios que foram idealizados por Darcy Ribeiro para a Uenf cumprir no tripé formado pelas atividades de ensino, pesquisa e extensão. Além disso, depois da degradação e da precarização é quase certo que virá um processo abrupto de privatização que privará os jovens vindos das camadas mais pobres de sequer sonharem em estudar na Uenf. Aliás, ao retornar as aulas sem pagamentos das bolsas acadêmicas e com o restaurante universitário fechado, o que estaremos aplicando na Uenf é o princípio de que só pode frequentar boas universidades brasileiras aquele que puder pagar por isso. E, pior, ainda se arrisca a naturalizar o péssimo exemplo de que os professores da Uenf devem fingir que estão ensinando, e que nossos estudantes devem fingir que estão aprendendo alguma coisa.

Agora é preciso que se lembre quem é o verdadeiro culpado pelo desmantelamento das universidades estaduais e das escolas técnicas da Faetec, pois ele tem nome e endereço: Luiz Fernando Souza (também conhecido por Pezão), Palácio Guanabara, Avenida Pinheiro Machado, S/N. E do senhor Pezão que as futuras gerações deverão se lembrar quando não tiverem mais como freqüentar uma universidade pública e gratuita como a Uenf.

Finalmente, uma nota de precaução: que ninguém se surpreenda se a ilusão da normalidade seja bruscamente rompida por uma greve de professores e servidores técnicos-administrativos. É que trabalho sem salário é, até segunda ordem, algo que só escravos circunscritos em algum latifúndio perdido nos rincões amazônicos aceitam, e sob a mira das armas. A ver!

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