Bernie Sanders e Jeremy Corbyn mostram que o novo nem sempre tem face jovem

A propensão do eleitorado brasileiro de se deixar atrair por propagandas enganosas e oferecer votações expressivas em quem se apresenta como o novo contra o velho já foi mostrada ao longo do tempo em votações expressivas em personagens como Fernando Collor, Aécio Neves e Rafael Diniz, o jovem velho prefeito de Campos dos Goytacazes.  Estas votações não são apenas fruto de marqueteiros habilidosos que vendem o velho como se fosse o novo, mas também de uma expectativa sincera do eleitorado de que a superação da antiga política coronelista seja realizada por pessoas jovens que, apesar de suas origens oligárquicas, desejam apontar novos rumos para o Brasil.

Os partidos que se assumem de esquerda também se servem dessa expectativa ao abraçar agendas que visam atingir o eleitorado jovem, seja com candidatos de cara jovem ou com programas que abraçam demandas setoriais que, apesar de justas, expressam uma fragmentação de pautas que termina por gerar uma perda de perspectiva sobre qual é o problema que gera todas as desigualdades existentes. 

Se olharmos para fora do Brasil, veremos que essa atração pelo aparentemente novo na política é um fenômeno global. Exemplos disso podem ser encontrados com o Syriza na Grécia, o Podemos na Espanha e até na recente eleição presidencial francesa onde um banqueiro de face jovem, Emmanuel Macron, conseguiu se eleger na primeira eleição em que concorreu na vida, basicamente por se apresentar como uma pessoa de ideias novas.  A mim me parece que essa venda da velha política por faces jovens é sintetizada pela expressão “new vine in old bottles” (ou “vinho novo em garrafa velha”) que pode ser entendido como a insuficiência de se apresentar como novo se as ideias são velhas.

E efetivamente todos os jovens políticos inicialmente que eu citei são defensores de políticas de privatização do estado e de receitas amargas que só são sentidas pelos segmentos mais pobres da população. De quebra, se observarmos a ação do Syriza na Grécia é fácil verificar que os supostos jovens de esquerda já aplicaram muito mais golpes contra os direitos dos trabalhadores gregos do que a velha direita, justamente porque se apresentaram como uma nova esquerda.

Por outro lado, existem dois exemplos interessantes de como dois políticos tarimbados desafiam a máquina dos seus partidos e energizam segmentos inteiros da classe trabalhadora e da juventude. Falo aqui do senador Bernie Sanders do Partido Democrata dos EUA e do deputado Jeremy Corbyn do Partido Trabalhista inglês.   Os elementos de similaridade entre Sanders e Corbyn começam dentro de seus partidos onde são vistos como inimigos do aparelho partidário, e terminam na perseguição que sofrem da mídia corporativa que os vê como velhos dinossauros defensores do “Estado do bem estar social” e, portanto, inimigos das agendas neoliberais e do livre mercado. Importante dizer que Sanders e Corbyn guardam profundas diferenças entre si, já que o segundo tem uma longa trajetória de aliança com os sindicatos e movimentos de libertação nacional, enquanto o primeiro se situa mais como um político de atuação mais ajustada ao plano nacional. 

Ainda que não tenha muita expectativa à capacidade dos dois de extrapolarem os limites da política institucional, o fato é que Sanders e Corbyn estão recolocando na mesa de debates elementos que a esquerda institucional brasileira faz tempo abriu mão de discutir, inclusive a perspectiva de algum tipo de socialismo democrático.  E mais importante, os dois têm conseguido mobilizar e unificar segmentos da juventude e da classe trabalhadora de duas economias centrais contra as agendas regressivas impostas pelas fórmulas neoliberais. De quebra, ambos têm conseguido produzindo mobilizações que apontam para a reenergização dos sindicatos e da juventude.

Deste modo, exemplos de Sanders e Corbyn são importantes também para que entendamos que, mais importante do que faces jovens apresentadas em campanhas bem boladas, precisamos analisar o conjunto das propostas que determinadas candidaturas expressam especificamente no que se refere à proteção dos direitos dos trabalhadores do campo e da cidade e da juventude. Do contrário, continuaremos caindo em ciladas trágicas cujo produto final é sempre a consumação de ataques ao pouco que existe de direitos sociais no Brasil.

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s