Greve dos caminhoneiros evidencia a face frágil do capitalismo flexível

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A atual greve (parece que agora realmente virou greve e não locaute) dos caminhoneiros é o sonho de todo professor que, como eu, precisa ensinar as principais características do capitalismo flexível. É que nela estão concentradas várias facetas que cotidianamente enfrentamos e não nos damos conta.

Como ensino anualmente, o chamado capitalismo flexível tem como um dos seus pilares básicos, o sistema “just in time” (literalmente no tempo certo) é uma forma de administração da produção que determina que nada deve ser produzido, transportado ou comprado antes da hora certa para um consumidor já definido e que está disposto a pagar pelo produto antes de o mesmo sequer ter iniciada a sua montagem [1].

A ideia do “just in time” é combinar uma redução no processo de desperdício com a diminuição da quantidade estocada e, teoricamente, numa melhoria da qualidade no sistema de produção. Além disso, para isso dar certo, há uma precarização dos trabalhadores que são transformados em “colaboradores” das empresas onde passam a cumprir múltiplas tarefas por salários normalmente achatados pela falta da proteção de sindicatos que defendam seus direitos.

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Pois bem, para poder entender para a situação criada por menos de uma semana de greve dos caminhoneiros onde falta quase tudo em termos de produtos básicos, a começar por combustíveis e gêneros alimentícios, será forçoso não apenas incluir o “just in time”, como também a precarização dos trabalhadores, no caso os caminhoneiros e seus ajudantes. 

Um exemplo prático que posso dar é que fui num posto de gasolina em Campos dos Goytacazes e comprei a quantidade exata de combustível que desejava e com aquele ritmo manso de que nada está  acontecendo. Já na 5a. feira de manhã ao sair para trabalhar, dei de cara com filas enormes em todos os postos de gasolina que encontrei pelo caminho.  Atribuo isso aos estoques reduzidos com os quais os donos desses estabelecimentos funcionam, de forma a minimizar o montante de capital empatado no produto que estão vendendo. Mas como quase todos os empresários funcionam ajustados ao “just in time”, o que se viu foi uma clássica sequência de quedas de dominós, onde o primeiro (no caso os postos de gasolina) começou a arrastar todos os demais.

O interessante aqui é notar que se essa lição sobre o verdadeiro calcanhar de Aquiles que a produção flexível, a partir do “just in time“, representa para capitalistas e seus representantes no aparelho de estado, for assimilada por trabalhadores do setor de transportes é bem possível que brevemente tenhamos uma verdadeira greve geral no Brasil. 

É que diante de um governo fraco e incapaz de atender as necessidades mínimas da maioria da população brasileira, é muito provável que outros movimentos venham a eclodir. E aí nem com tropa armadas será possível segurar o processo de contestação que hoje está localizado nos caminhoneiros.


[1] https://www.ibccoaching.com.br/portal/descubra-as-vantagens-e-desvantagens-do-just-in-time/

2 pensamentos sobre “Greve dos caminhoneiros evidencia a face frágil do capitalismo flexível

  1. luiz antônio disse:

    gostaria de saber em relação a UENF.
    se o reitor ou algum responsável já tomou alguma decisão em relação as aulas da semana que vem na UENF.
    se não tem meio de transporte não tem como checar lá.

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