Greve dos caminhoneiros, ferrovias e reforma agrária: o futuro do Brasil na balança

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Enquanto a greve (ou seria locaute?) dos caminhoneiros continua paralisando as cidades brasileiras, várias questões relevantes estão sendo postas para que nos debrucemos sobre o necessário debate de que futuro realmente queremos para o Brasil e a maioria do seu povo.

Uma dessas questões se refere ao tamanho da malha ferroviária de um país com dimensões continentais que optou por depender do transporte rodoviário para mobilizar pessoas e produtos.  Ainda que seja de conhecimento amplo o fato de que o transporte por trens é ridiculamente pequeno no Brasil, o ridículo da nossa situação só fica mais claro quando comparamos a nossa malha ferroviária com países de dimensões territoriais próximas das nossas, como é o caso dos EUA, Rússia, China, Índia e Canadá (ver figura abaixo).

trens 2018

Pelos dados acima, o Brasil fica muito aquém da malha ferroviária da maioria desses países, mas a comparação com os EUA e a China revela de forma mais dramático o nosso atraso nessa área. E, pior, quando consideramos a relação entre extensão territorial da malha ferroviária e a dos países, vemos que o Brasil possui de longe a pior proporção. Assim, enquanto nos EUA, a proporção é de 43.4 , no caso brasileiro é de estrondosos 285.6, significando que nossa malha é quase 7 vezes menor.  Isto sem falar que quando comparamos com a ferroviária argentina, a nossa consegue ser menor.

Mas que ninguém se engane, a opção por impedir o florescimento da nossa malha ferroviária é apenas uma faceta da opção por continuamente favorecer os interesses das montadoras de caminhões que foram as reais ganhadoras da opção feita por seguidos governos pelo transporte rodoviária, incluindo o período do regime militar do qual tantos caminhoneiros em greve se mostram saudosos.

Outra questão que está sendo colocada na berlinda é a questão da dependência dos brasileiros de áreas de produção de alimentos que estão longe das principais concentrações populacionais.  Basta ir a qualquer supermercado ou hortifruti para notar o rápido esvaziamento das gondolas cujo preenchimento é fortemente dependente do transporte rodoviário.  Essa situação nos leva inevitavelmente a uma discussão sobre a necessidade da realização de uma ampla reforma agrária que esteja centrada na produção de alimentos.  

Apenas à guisa de exemplo, hoje fui ao mercado municipal de Campos dos Goytacazes realizar um exercício duplo composto pro dois movimentos: o primeiro foi tentar adquirir legumes e frutas que hoje inexistem em outros locais, enquanto que o segundo se tratou de verificar a origem do que estaria sendo vendido.

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Apesar do oferecimento aquém do normal, não tive dificuldade de comprar o que desejava, ainda que a preços mais salgados. Além disso, para nenhuma surpresa minha, verifiquei que os produtos que comprei haviam sido buscados no entorno da área urbana de Campos dos Goytacazes, onde existem diversos assentamentos de reforma agrária. E a oferta seria maior se houvesse por, exemplo, um plano municipal de apoio à produção dentro destes assentamentos, coisa que sequer foi ventilada por diferentes administrações que ocuparam a Prefeitura Municipal de Campos dos Goytacazes desde o início da instalação do Assentamento Zumbi dos Palmares em 1997. 

O fato é que sem ter a pretensão de exaurir o debate sobre as amplas ramificações do que está sendo desvelado pela greve dos caminhoneiros, me parece que se unirmos o problema da malha ferroviária diminuta com a não realização de uma ampla reforma agrária, veremos que temos diante de nós uma grande oportunidade para abrir o debate sobre o tipo de modelo de desenvolvimento que queremos para o Brasil. E é por isso que eu já disse e repito: os caminhoneiros atiraram no que viram, e acertaram no que não viram.

Um pensamento sobre “Greve dos caminhoneiros, ferrovias e reforma agrária: o futuro do Brasil na balança

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