O que realmente querem, mas ainda não dizem, os que pedem um novo golpe militar no Brasil

golpe militar

Recentemente li alguns capítulos do livro “Neoliberalismo”, do geógrafo inglês David Harvey, para uma disciplina que estou dividindo com um colega no âmbito do Programa de Pós-Graduação em Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte  Fluminense [1]. Em um desses capítulos, Harvey descreve de forma simples e direta como é que os postulados neoliberais, historicamente marginais na teoria econômica, passaram a ser o principal paradigma de gerência do estado em escala planetária.

Segundo Harvey, a fórmula para o sucesso da ideologia neoliberal resultou de uma captura de setores da classe trabalhadora que passaram a servir como aliados do grande capital, tendo como justificativa a busca do êxito individual e a acumulação de bens, bem como o pleno acesso ao consumo de bens, a maioria deles inúteis.  Para se chegar a essa espécie de Nirvana do capitalismo, os defensores dos ideais neoliberais não hesitaram em abandonar preocupações originais da sociedade capitalista, tais como a solidariedade e a justiça social, enviando-as para uma espécie de cemitério das boas intenções.

Se olharmos o que anda acontecendo neste momento no Brasil, onde minorias ruidosas se reúnem à frente de quartéis do exército para clamar pela realização de um golpe militar, só será possível entender o raciocínio de quem apresenta essa demanda a partir da frustração cada vez maior com a negação do reino dourado prometido por sucessivos governos neoliberais. 

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Manifestantes se ajoelham em posição de rendição em frente do quartel do 33o. Batalhão de Infantaria Mecanizada em Cascavel (PR) para demandar um novo golpe militar no Brasil [2]

Assim, o uso da palavra de ordem de luta contra a corrupção para justificar a volta dos militares ao poder político é apenas uma cobertura tênue para a demanda real que esses grupos realmente desejam apresentar: o extermínio puro e simples de todos aqueles que apareçam como impedindo a realização do corolário neoliberal que os levaria para um plano superior de capacidade de empreender para poder consumir cada vez mais.

Em outros tempos se diria que essa ojeriza ao oposto seria a manifestação da defesa de uma sociedade fascista. Mas estou convencido que é conceitualmente equivocado chamar essas pessoas de fascistas, pelo simples motivos que o nazifascismo de meados do Século XX, apesar se basearem em ideologias de extermínio físico dos diferentes, ainda buscavam garantir a implantação de formas de capitalismo centradas na ação do estado e na consolidação de projetos nacionais.

A diferença é que os que hoje demandam uma intervenção militar no Brasil parecem tomados por uma ideologia neoliberal que ecoa as demandas dos chamados anarco capitalistas, e o que eles querem mesmo, repito, é terem a garantia de que poderão empreender e consumir sem que sejam atrapalhados por aqueles que demandam formas societárias mais justas e solidárias. É por causa dessa diferença fundamental que se vê tanta raiva e ódio sendo disseminados por grupos que, felizmente, ainda são minoritários no Brasil.

Mas apesar de serem minoritários, isto não quer dizer que tais grupos não sejam perigosos, especialmente para todos os que explicitam a impossibilidade de seus sonhos neoliberais. E é por isso que ainda lhes falta ainda a coragem de dizer o que realmente querem que seja feita pelas tropas militares contra todos os que não comungam com seu ideal neoliberal.  E o que eles querem é aprofundamento do estado de sítio informal que já vigora na maioria das regiões pobres das cidades brasileiras, onde prevalece o extermínio dos seus habitantes. 

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O jornalista Vladimir Herzog assassinado em 25 de outubro de 1975 após se apresentar voluntariamente ao Centro de Operações de Defesa Interna

E não me venham me dizer que esses grupos estão clamando por um golpe militar o fazem por desconhecer a história recente do Brasil. Em minha opinião eles demandam o golpe justamente por saber o que foi cometido durante o regime de exceção que perdurou no nosso país entre 1964 e 1985. O que eles querem é o cometimento rotineiro de tortura e assassinato dos diferentes, especialmente se os diferentes forem pobres e negros. Simples assim.


[1] https://www.estantevirtual.com.br/livros/david-harvey/o-neoliberalismo-historia-e-implicacoes/3737565868

[2] https://cgn.inf.br/noticia/294858/manifestantes-se-ajoelham-em-frente-ao-exercito-e-clamam-por-intervencao-militar

4 pensamentos sobre “O que realmente querem, mas ainda não dizem, os que pedem um novo golpe militar no Brasil

  1. Paulo Brites disse:

    Há muito tempo venho percebendo isto. O que eu não entendendo é como os bípedes (deixei de usar o termo ser humano) não percebem que eles estão dando um tiro no pé pedindo a volta dos verdinhos. Parece que nunca estudaram um pouquinho de história. O mundo é outro e uma gerra civil hoje aqui no Brasil será catastrófica porque qualquer um pode ter um fuzil na mão. Desta vez nem vamos precisar da CIA pra dar uma ajudinha direta até porque acho que o Tio Sam não mais interessado na América LatRina.

  2. Marco Antônio disse:

    Boa tarde Professor Marcos, não compartilho desta visão, pois muitos estão embarcando nisso por revolta da grande republiqueta de bandidos em que nos transformamos de vez, e agradeça ao PT esta “onda de intervenção militar”. Houve uma ditadura sanguinária sim, e isso porque se travou uma luta entre um grupo que queria manter a ditadura militar contra outro grupo que queria substituir a ditadura militar por uma comunista. A democracia é usada como se usa papel higiênico por ambos os lados para enganar o povo. Até hoje vocês da esquerda comunista mentem falando que lutavam por democracia. Neste rascunho de país há muito que não existe direita e esquerda, mas sim quadrilhas de bandidos, e todos sugando o dinheiro público mesmo os que não roubam abertamente como Bolsonaro e Chico Alencar. Ambos pregam a sua “honestidade” como grande virtude, não enxergam como sua simples obrigação não roubar e ambos vivem do dinheiro público há décadas. E por falar em Bolsonaro, quero ver ele fazer alguma coisa, caso eleito, com este congresso escroto que será com certeza reeleito pelos “malandros-otários” . Ele diz que não fará um governo na base do “toma lá dá cá” como Sarney, Collor, FHC, Lula e Dilma… quero ver como ele conseguirá isso sem uma intervenção militar com a devida prisão dos nobres bandidos do congresso e stf. A ver.

    • Eu esquerdista comunista que lutava por democracia durante a ditadura? Não me tanto crédito, pois nasci em 1960 e felizmente não vivi o auge da repressão dos golpistas de 1964. Em tempo, você está muito parecido com os eleitores envergonhados do Jair Bolsonaro ou é só impressão minha?

      • Marco Antônio disse:

        E eu estou com a impressão de que o senhor está se fazendo de bobo. Um bom feriado para senhor e todos nós pagadores de impostos.

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