Na segunda entrevista da série “Campos dos Goytacazes: entre becos e saídas”, doutoranda da UENF analisa a importância da Escola Técnica Antonio Sarlo

Dando continuidade a série de entrevistas “Campos dos Goytacazes: entre becos e saídas“, convidei a historiadora e mestre em Políticas Sociais, Dayane da Silva Santos Altoé,  e que atualmente é doutoranda do Programa de Políticas Sociais da Universidade Estadual do Norte Fluminense (Uenf), para analisar a situação da educação oferecida em áreas rurais no estado do Rio de Janeiro, e particularmente os desafios envolvidos na possível assimilação da Escola Estadual Agrícola Antonio Sarlo na estrutura da instituição em que ela cursa seu doutoramento.

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Dayane da Silva Santos Altoé no  lançamento do livro “A Trajetória Histórica da Escola Técnica Estadual Agrícola Antonio Sarlo”

A escolha de Dayane da Silva Santos Altoé para esta entrevista é particularmente oportuna, não apenas porque a Antonio Sarlo foi o objeto de sua dissertação e que resultou na publicação do livro intitulado “Políticas para a educação profissional: a trajetória histórica da Escola Técnica Estadual Agrícola Antonio Sarlo” [1], mas também porque em sua tese de doutoramento, ela está estudando a experiência  de escolas técnicas agrícolas que pertenciam à Universidade Federal Fluminense, e depois foram absorvidas pelo IFRJ e pelo IFF.

Considero que as respostas oferecidas pela doutoranda Dayane da Silva Santos serão de especial interesse para aqueles que acreditam que há sim espaço para o fortalecimento da educação no campo e não do aumento de fechamentos de escolas rurais como vem, por exemplo, ocorrendo no município de Campos dos Goytacazes na gestão do prefeito Rafael Diniz.

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Blog do Pedlowski (BP): Em particular, a senhora estudou com bastante profundidade a história da Escola Técnica Estadual Agrícolas Antonio Sarlo, tendo inclusive obtido o seu grau de mestre em Políticas Sociais pela UENF e publicado um livro centrado na trajetória desta instituição de ensino. O que mais lhe chamou a atenção na história da instituição, especialmente no que se refere à importância da mesma para o município de Campos dos Goytacazes?

Dayane da Silva Santos (DSSA): Guiada pela curiosidade e interesse por estudos relacionados à história da educação, sobretudo, sobre as instituições escolares me deparei com a Escola Técnica Estadual Agrícola Antonio Sarlo mais conhecida como “Colégio Agrícola de Campos”. Em uma rápida pesquisa, percebi com espanto os seus mais de sessenta anos de existência já que eu, na condição de estudante de história e campista, apenas ouvira falar que havia um “Colégio Agrícola de Campos”. Quando fiz a primeira visita as dependências da escolas fui mais uma vez tomada pelo sentimento de surpresa, pois se situavam no Parque Aldeia, um bairro periférico do Distrito de Guarus, em uma fazenda com 150 hectares. Durante as investigações descobri que a aquisição da área e a construção da escola foram viabilizadas por recursos da Secretaria Estadual de Agricultura e por uma Associação de Crédito criada por usineiros. Era plausível em um contexto de modernização agrícola a construção de uma escola agrotécnica com vistas a estimular a melhoria da produtividade em município de destaque nacional na produção de açúcar. Todavia, a escola não se ocupou apenas da formação técnica em agropecuária, mas de cursos correspondentes ao primeiro ciclo do ensino fundamental devido a restrita rede escolar, na região, durante os anos de 1950 e 1960.

Por causa da grande demanda, incluindo alunos do núcleo urbano do município, o espaço físico da escola passou a contar com vários prédios de salas de aula, galpões para tratores e ferramenta, refeitório e um alojamento para alunos residentes construído desde a fundação. Em todo o prédio da Sede Administrativa é possível perceber dezenas de placas de formados do curso técnico em agropecuária cujas informações nos permitem identificar um significativo número de alunos oriundos de outros estados da federação, tal fato pode ser explicado devido a escola, por anos, ter desfrutado de uma posição singular, sendo a única voltada à formação de técnicos em agropecuária a funcionar com regime de internato e semi-internato. Sua grandiosidade física e o número de técnicos que formou por anos, contrastava-se com recente processo de declínio no cenário educacional demonstrado não só pela redução acentuada do número de matrículas para a formação profissional tradicionalmente oferecida, como pelo descaso do governo estadual ao desconsiderar sua importância histórica e características. Foram estas circunstâncias que mais despertaram minha atenção.   

(BP): É sabido que a Antonio Sarlo vem sofrendo com um grave processo de degradação nos últimos anos. Quais foram as principais causas deste processo e de que forma este processo vem se manifestando no cotidiano da instituição?

(DSSA): Bom, é preciso diferenciar grosso modo duas situações, a primeira diz respeito ao descaso que a educação pública tem sofrido. Quando pensamos na rede estadual, da qual o Antonio Sarlo faz parte, nos deparamos com um cenário infelizmente bastante comum: desvalorização e precarização dos servidores, escassez de recursos humanos e financeiros, além do fechamento de escolas. A segunda situação, a qual tenho mais propriedade em tratar, está relacionada a ameaça de extinção da formação técnica em agropecuária oferecida pela escola. Durante a trajetória de pesquisa que conclui em 2012, pude ouvir pessoas que cotidianamente fazem o curso: gestores, professores e alunos. Suas falas retratam problemas relativos a duas esferas: uma externa ligada aos fatores econômicos, que interferem diretamente nas demandas para a formação; e outra interna, constituída por decisões políticas tomadas no âmbito da Secretaria de Estado de Ciência, Tecnologia e Inovação.

No primeiro caso, como em sua gênese e trajetória a formação em agropecuária oferecida pela escola esteve associada à qualificação profissional e disseminação de técnicas direcionadas ao setor sucroalcooleiro é nítido que a falência das usinas da região e a emergência das atividades petrolíferas no município deslocariam o interesse dos jovens para a profissionalização na área do petróleo e indústria. Quanto à gestão da Secretaria, não se trata de responsabilizá-la exclusivamente, já que o processo de redução de número de matrículas já estava deflagrado antes mesmo da incorporação da escola por sua parte (1999), mas também não se pode negar que algumas de suas iniciativas comprometem o atendimento das necessidades específicas do ensino profissional agrícola, uma delas é falta de recursos financeiros e humanos, são raros os concursos para profissionais efetivos, os professores da  área técnica quando realizei a pesquisa tinham ingressado na instituição durante a década de 1980.

Além disso, não houve nesta gestão a disponibilidade de recursos para manutenção de animais, fato que ocasionou a transferência dos poucos que ainda pertenciam a escola para a Uenf, e finalmente, no ano de 2011, a Secretaria comunicou o encerramento do recebimento de novos alunos para o alojamento, condição sine qua non para que alunos oriundos de áreas rurais, com poucos recursos financeiros e interessados na profissionalização agrícola, possam concluir o curso que é oferecido em horário integral.

(BP): Acredito que a senhora esteja acompanhando as tentativas para anexar a Antonio Sarlo à estrutura da Universidade Estadual do Norte Fluminense. A senhora acredita que esta seria uma saída positiva para resolver a crise que a Antonio Sarlo atravessa? Por que?

(DSSA): Recordo-me que em 2011, no mês de agosto, a Uenf divulgou um informativo que anunciava as discussões sobre a transferência do Antonio Sarlo para a universidade. Na comunicação era destacada a necessidade de se debater na Câmara de Graduação, no Colegiado Acadêmico e no Conselho Universitário as possibilidades de anexação. Naquela ocasião, os professores das disciplinas técnicas e o gestor alimentavam expectativas positivas quanto a transformação do  “Agrícola” em uma escola de aplicação da universidade. Confesso, que sentia um certo receio, tanto é que, na dissertação, quando me refiro a esta situação, expresso minha dúvida na seguinte frase: “Seria essa uma nova fase para a escola? Ou seu último suspiro de vida?

Por vezes, pensava que as necessidades específicas da formação técnica poderiam ser contempladas com a transferência, já que havia uma aproximação das instituições, especialmente pelo fato dos estágios do alunos do curso técnico serem realizados na estação experimental da Uenf instalada na área do colégio. Contudo, mais recentemente, ao estudar sobre a realidade das duas escolas de ensino profissional agrícola situadas no Rio de Janeiro, que até o ano de 2008 eram vinculadas à Universidade Federal Fluminense (UFF), percebi que somente estar ligada à uma Universidade não garantiu o funcionamento pleno destas instituições (Colégio Agrícola Nilo Peçanha- Pinheiral e Colégio Agrícola Ildefonso Bastos Borges- Bom Jesus do Itabapoana).

Havia queixas quanto a estas escolas serem, dentro da estrutura da UFF, instituições de “segunda categoria”, sem autonomia financeira e pedagógica. Estas situações podem ser ainda agravadas, haja vista, a grave crise financeira enfrentada pela Uenf, principalmente, durante o governo Pezão. Além disso, penso que o Antonio Sarlo aguarda por uma “redenção” vinda de “fora”, restrita a recursos financeiros. Não identifico, em contrapartida, uma mobilização endógena no sentido de atender o verdadeiro público alvo da escola: alunos filhos de agricultores ou não moradores das áreas rurais do município, que necessitam cursar o segundo segmento do fundamental ou interessados na profissionalização agrícola. Atualmente, há o empecilho do fim do alojamento, mas e antes disso?

A transferência para a Uenf, representa, na minha opinião, uma manobra que não soluciona o problema, mas desresponsabiliza os verdadeiros algozes do Antonio Sarlo.

(BP):  A senhora acredita que ainda há espaço para que sejam mantidas ou mesmo sejam criadas novas instituições de ensino voltadas para a educação no campo num estado tão urbanizado como o Rio de Janeiro? Por que?

(DSS): Sim, claro que sim! Embora os estudos da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) realizados entre os anos de 2002 e 2017, apontem para o fechamento crescente de escolas rurais no país (cerca de 30 mil), não há fundamentos para tal. Mesmo em um estado urbanizado como o Rio de Janeiro, o censo divulgado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep) revela que houve um aumento no número de inscrições em unidades escolares rurais de 2016 para 2017. Segundo o levantamento, houve 3.518 matrículas a mais em relação ao ano de 2016. Fugindo um pouco do seu questionamento, quanto ao ensino profissional agrícola acredito que também no Rio de Janeiro poderia lograr êxito um projeto de formação profissional que priorize a coletividade, as demandas da produção familiar e das diversas organizações sociais do campo compreendidas pelas Associações da Agricultura Familiar, MST e Cooperativas de Produtores.

 (BP):  Há algo que eu não perguntei, mas a senhora julga importante de mencionar acerca não apenas da situação da Escola Antonio Sarlo, mas da importância educação no campo para o estado do Rio de Janeiro e, em particular, da região Norte Fluminense?

(DSS): Gostaria que as manifestações em defesa do não encerramento da Escola Antonio Sarlo levassem em consideração os resultados da pesquisa desenvolvida no Programa de Pós- Graduação em Políticas Sociais da Uenf que foram publicados, por meio de edital público, pela Essentia Editora, pois nesta publicação não há apenas relações feitas mediante as observações realizadas durante dois anos de estudo, mas, especialmente, ponderações daqueles que construíram uma tradição formativa , enquanto alunos e posteriormente na condição de docente, e que há pelo menos dez anos resistem as investidas do governo deste estado, que mingou anos após anos após anos os recursos financeiros e humanos para que essa instituição pudesse se manter.


[1] http://www.essentiaeditora.iff.edu.br/index.php/livros/issue/view/198

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