A liberdade é sempre a primeira vítima. Os professores, a segunda

IMG-20190326-WA0081.jpg

Viver em períodos de crise política e econômica e ainda ter que exercer a profissão de professor é um desafio apenas para os possuidores de nervos de aço ou com compromisso inquebrantável com o futuro de milhões de jovens brasileiros que anseiam ascender cultural e socialmente.

O caso vexaminoso em que se transformou o mero uso de uma charge para conduzir uma análise crítica sobre o uso de imagens para a formação de discursos por um professor do Liceu de Humanidades de Campos dos Goytacazes é para mim tipificador de um esforço de sufocar a liberdade de cátedra.

É que em sociedades ditas democráticas a exposição a elementos que explicitam crítica social não deveria ser apenas bem vindas, mas demandadas por aqueles que estão a cargo da formação intelectual de crianças e jovens. Tendo estado em Portugal por seis meses e acompanhado de perto como funciona o ensino para crianças, fico, inclusive, imaginando como se sentiriam os que hoje tentam punir um professor por tentar desenvolver a capacidade de crítica de seus alunos.

Entretanto, aparentemente não vivemos em uma sociedade ainda madura suficiente do ponto de vista dos valores democráticas (o aparentemente  aqui é uma espécie de liberdade poética de minha parte), pois agora o referido professor teve sua presença em sala suspensa por 60 dias e ainda sofrerá uma comissão de sindicância para responder por sua ação de utilizar uma charge como “device” analítico (ver imagens abaixo).

IMG-20190326-WA0042.jpgIMG-20190326-WA0041.jpg

A verdade é que as conclusões desta comissão especial de sindicância possuem desde já um alcance muito além de um caso individual. É que se elas implicarem em qualquer tipo de punição ao professor arrolado no “chargegate“, todos os outros milhares de professores que labutam diariamente em condições muitas vezes insustentáveis de trabalho serão igualmente condenados e expostos a todo tipo de pressão para que não exerçam a sua obrigação de entregar não apenas pacotes fechados de informação para seus alunos mastigarem mentalmente, mas sim as ferramentas de reflexão crítica que são as únicas garantias de que poderão se preparar devidamente para os desafios de um mundo cada vez mais complexos.

IMG-20190326-WA0078.jpg

Por isso defender o professor do Liceu de Humanidades que está sendo perseguido por buscar o estrito cumprimento de sua obrigação de formar cidadãos conscientes é uma obrigação não apenas de seus advogados e do sindicato a que ele está afiliado, mas de todos aqueles que possuam um real compromisso com a construção de uma sociedade efetivamente democrática em nosso país.

2 pensamentos sobre “A liberdade é sempre a primeira vítima. Os professores, a segunda

  1. Paulo Sérgio disse:

    Posicionamento importante esse!

Deixe um comentário

Faça o login usando um destes métodos para comentar:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s