Morra quem morrer, o comércio vai reabrir. Individualismo e despolitização em tempos de pandemia

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Sem identidade coletiva e despolitizados, segmentos inteiros da população acorrem aos bares, sob as benções dos governantes 

O prefeito de Itabuna, Fernando Gomes (PTC), ficou instantaneamente famoso ao proferir a infame, mas sincera, frase “Morra quem morrer, o comércio vai reabrir” quando anunciou a reabertura do comércio na cidade que fica distante 436 km ao sul de Salvador, capital da Bahia.

Por causa de sua sinceridade rara, Fernando Gomes teve que se explicar e conviver com a declaração de um toque de recolher emitido pelo governador Rui Costa (PT) que convive tenta diminuir os números alarmantes de infecção e mortes por COVID-19 na Bahia.

Agora, esqueçamos de Fernando Gomes, que pelo menos é sincero,  para visualizar as imagens do vídeo abaixo vindas do afluente do bairro do Leblon na zona sul da cidade do Rio de Janeiro no primeiro dia de abertura de bares e restaurantes autorizada pelo dublê de bispo e prefeito Marcelo Crivella  (Republicanos)

Ao menos no meu caso, essas cenas levantam a sensação de falência não apenas do Estado, incapaz e indesejoso de exercer suas obrigações de conter uma pandemia letal, mas de set ores inteiros da população que, pelo prazer de sorver uns goles, acabam colocando a si e a todos nós sob o tacão da COVID-19.

Essas cenas de desconhecimento explícito das obrigações de segurança não estão ocorrendo no Brasil, e foram vistas em todos os países que saíram do confinamento causado pela pandemia. Entretanto, aqui a pandemia ainda está em expansão, o que deixa muitas pessoas perplexas com o descuidado e desleixo que fica explícito.

As respostas a estas cenas de flagrante desrespeito aos interesses coletivos certamente ainda embalarão muitos estudos acadêmicos.  Para mim, independente dos estudos que virão, o que fica explícito é que vivemos um cenário que torna explícito os custos da despolitização trazida pelo neoliberalismo que dissolveu regras básicas de solidariedade, desmanchando laços comunitários, deixando-nos isolados em individualidades amorfas. Isso, aliás, explica porque figuras como Marcello Crivella e Jair Bolsonaro acabaram sendo eleitas quando havia outras opções bem melhores do que eles.

Assim, para os que sobreviveram a esta pandemia, uma das primeiras tarefas a serem cumpridas será justamente reconstituir as pontes de convivência social, de modo a que nas próximas pandemias, ninguém precise morrer para que outros possam usufruir de suas identidades líquidas que são constituidas naquilo que o sociólogo polônes Zygmunt Bauman chamou de “modernidade líquida“. 

Agora, como o caso de Itabuna e de tantas outras cidades demonstra, é que, justamente por causa da despolitização que dificulta o entendimento do risco em que estamos imersos, a pandemia da COVID-19 não funcionará como um sistema de ondas, mas como uma sanfona que se abrirá e fechará até que não haja mais madeira para queimar nesse grande incêndio em que estamos imersos neste momento.

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