O Fator “H” como ferramenta do negacionismo do combate à pandemia da COVID-19

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Um argumento que há algum tempo gera boas discussões na discussões que são feitas sobre a importância das pesquisas científicas e dos cientistas que as realizam acaba de emergir nas disputas entre os que defendem e atacam as medidas de isolamento social para conter o isolamento. Falo aqui do famigerado “Fator H” que foi sugerido em 2005 pelo pesquisador argentino Jorge Eduardo Hirsch, professor do Departamento de Física da Universidade da Califórnia-San Diego. 

O uso do Fator H para desacreditar cientistas brasileiros que têm estado na linha de frente dos debates sobre as melhores medidas para se combater a pandemia da COVID-19 no Brasil apareceu na página oficial do Instagram de Karina Michelin, que após alguma pesquisa descobri ser “uma modelo, jornalista e apresentadora, que foi eleita em 2006 «Miss Italia nel Mondo», que se tornou posteriormente apresentadora na Itália e no Brasil e atualmente é produtora e apresentadora do programa norte-americano Miami Lifestyle, voltado a brasileiros“. Em outras, Karina Michelin não é uma pesquisadora, e muito menos alguém que possua alguma autoridade para medir a capacidade científica de quem quer que seja. Entretanto, como o vídeo abaixo mostra, ela faz um uso até convicente do Fator H para dar crédito a determinadas vozes do debate, enquanto procura desacreditar outras, incluindo os pesquisadores Átila Imarino e Eurico Arruda, ambos ligados à Universidade de São Paulo (USP).

Mas sem querer me alongar ao conteúdo inteiro do vídeo, vamos ao que me parece essencial.  O principal argumento de Karina Michelin, apoiando-se na sua interpretação do que seria o Fator H, nos debates que estão ocorrendo em torno da pandemia da COVID-19 é que cientistas com índices maiores (e por isso mais gabaritados e de qualificação melhor) estão sendo negligenciados em prol daqueles que possuem valores menores (e por isso mesmo menos qualificados).

Se Karina Michelin tivesse se dado ao trabalho de ler o artigo publicado por Jorge Hirsch e Gualberto Buela-Casal no International Journal of Clinical and Health Psychology para explicar o significado do Fator H, ela teria visto que eles nunca tiveram a intenção de que sua proposição virasse a única forma de medir a relevância das pesquisas realizadas por um dado pesquisador. Aliás, eles mesmos indicaram que o Fator H seria apenas um indicador que partiria do pressuposto que o número de citações seria um melhor indicador de relevância por ter uma natureza quantitativa. Mas mesmo Hirsch e Buela-Casal advertiam em 2005 que isso não anularia outras formas de valoração que poderiam ser, nas palavras deles, mais subjetivos. A verdade é que o Fator H tende a valorizar cientistas que produziram mais e conseguiram melhor adesão aos seus postulados, mesmos que não tenham contribuído para nenhum avanço significativo no avanço do conhecimento científico. E número de exemplos de cientistas que possuem Fator H baixo, mas que lograram grandes descobertas não é pequeno.

Outro aspecto que merece ser desvelado é que Karina Michelin acabou usando o Fator H para comparar “peras e maçãs”. É que dois dos seus cientistas possuidores de Fatores H notáveis, Michael Levitt e Karl Friston, não são sequer epidemiologistas, e apenas foram ouvidos por possuírem credenciais científicas que os habilita a isso, mesmo sendo de fora da área de “expertise”.  É que enquanto Levitz é químico, Friston é um neurocientista especializado em modelagens matemáticas, Levitt é um biofísico especializado em modelagens matemáticas. Mesmo Didier Raoult, que é um infectologista, tem tido sérios problemas com a legitimidade da sua pesquisa, e sido obrigado a retirar ou ter retirado vários dos seus artigos que haviam sido publicados em revistas científicas.   

Já Átila Iamarino e Eurico Arruda Neto são infectologistas, sendo que o segundo é professor titular da cadeira de Virologia na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto e um dos principais pesquisadores do assunto no Brasil. Enquanto isso, o professor João Viola, que é vinculado ao Instituto Nacional de Câncer, possui larga experiência internacional e é  Presidente do comitê científico da Sociedade Brasileira de Imunologia. Em outras palavras, os três pesquisadores brasileiros são da área de estudo ao qual o novo coronavírus se insere e,  apesar de estarem em diferentes etapas da sua carreira científica, possuem a devida qualificação para serem ouvidos, a despeito de possuírem valores de Fator H inferiores aos “notáveis” escolhidos por Karina Michelin, sendo que dois deles sequer são da área de conhecimento relacionada.

A estas alturas alguém pode estar se perguntando sobre o porquê desta postagem se Karina Michelin sequer é pesquisadora ou nem tem relação profissional com a área científica.  É que, apesar dessa falta de ligação, os argumentos que ela apresenta tem sido sim usados amplamente no Brasil para determinar quem faz ou não ciência de qualidade, e o Fator H tem sido um dos principais parâmetros (senão o principal) usados para decidir quem recebe verbas de pesquisa. E isso vem ocorrendo sem que se preste atenção ao que o próprio idealizador do Fator H, Jorge E. Hirsch,  apontou quando idealizou este índice. 

A pandemia da COVID-19 nos oferece, entre outras coisas, uma oportunidade para reavaliar a real eficácia do Fator H para medir peso científico e seus impactos na alocação de recursos.  Uma boa leitura para começar a entender as limitações, e até a completa insignificância desse índice tão idolatrado na comunidade científica brasileira é o artigo de Cameron Barnes publicado no “Journal of Higher Education Policy and Management” em 2014 sob o sugestivo título de “The emperor’s new clothes: the h-index as a guide to resource allocation in higher education” (ou em português “As novas roupas do imperador: o índice h como guia para a alocação de recursos no ensino superior”). 

 

 

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