Liderança denuncia conflitos e invasões na Terra Indígena Parakanã no Pará

Relato dos Fatos e Nota de apoio ao Povo Awaeté-Parakanã

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Nesta segunda-feira (25/04), um coletivo de estudantes Awaeté e docentes, dos Cursos de Agroecologia e Magistério Indígena do Campus Rural de Marabá – IFPA, foram surpreendidos por volta das 13:15h com a intrusão abrupta de um grupo de não indígena (Tôria) com gritos, ameaças e a obstrução da entrada do Posto Taxakoakwera, na Terra Indígena Parakanã, às margens da BR-230 (Transamazônica). Estes se utilizando da coação e do preconceito a indígenas confessaram e afirmaram que três caçadores invadiram a T.I no dia anterior (26) para caçar e estariam desaparecidos, sendo isso responsabilidade de todos os Awaeté. Alguns Awaeté que presenciaram a situação descrevem que alguns dos intrusos que ali estavam portavam armas. Após cerca de uma hora de tensão, com a voluntária inação e parcimônia dos coordenadores do Programa Parakanã, os não indígenas desobstruíram a entrada do Posto Taxakoakwera e se dispersaram temporariamente. Paralelo a isso o IFPA comunicou a FUNAI sobre os acontecimentos, que por sua vez acionou a Polícia Federal e o MPF. Durante a tarde chegaram a Taxakoakwera algumas lideranças Awaeté, seguida de uma nova intrusão dos não indígenas.

Neste instante, uma liderança conduz uma interlocução com os não indígenas e os convida a aguardar fora do Posto, o que foi, com a mediação de uma das mães de um dos desaparecidos, de pronto aceito. Duas mães e um pai dos caçadores solicitaram uma reunião com os caciques o que foi prontamente atendido, e num gesto de solidariedade aos familiares foram convidados a entrar e a explicar o acontecido com calma aos Awaeté, que até então pouco compreendiam da situação de fato. As lideranças e estudantes Awaeté, ouviram a suplica dos pais dos caçares para que ajudassem nas buscas, bem como o reconhecimento que a caçada em terras indígenas é um ato ilícito. Por sua vez, as lideranças destacaram que a T.I Parakanã é o território soberano dos Awaeté e não é espaço de realização das caçadas esportivas dos toria.

A reunião fluía com a escuta mútua e promessa dos Awaéte, mesmo tendo a T.I invadida, que iriam ajudar nas buscas, quando um sargento da polícia militar de Novo Repartimento, sem nenhuma solicitação prévia, se introduziu na reunião. Tal sargento, parou a reunião, afirmando que teria recebido informações de um desaparecimento, seguido de “cárcere privado”. Os estudantes, lideranças e professores ficaram perplexo com fala do sargento. Um professor pediu a palavra e se dirigiu ao policial, explicando a situação por este vislumbrada até aquele momento: “O senhor ou seu informante não estariam equivocados? Aqui até o momento não houve ‘cárcere privado’. Até então o que temos é uma situação de desaparecimento”. Esclarecido por todas as partes, entre elas as mães e o pai presente, o policial se desculpou, disse que foi mal informado e que alguém tinha acabado de fazer um boletim de ocorrência de “cárcere privado” na delegacia da polícia civil mais próxima em relação aos familiares ali presentes. Todos de bom senso que presenciavam a situações e suas fricções desde meio dia se perguntavam.

Por que tanta desinformação? O que justificaria a construção tão rápida de argumentos incondizentes com o ocorrido? Por que tamanho ódio aos indígenas? Por que denuncias de cárcere privado aos familiares foram oficializadas e atendidas com mais celeridade do que o pedido de buscas aos desaparecidos? Por que uma mídia local reproduziria a narrativa do ‘cárcere privado’ no dia seguinte? Qual o interesse dos agentes políticos e econômicos da região nesta nova fricção com os indígenas Awaeté?

Cabe ressaltar que os Awaeté-Parakanã tem contato recente, cerca de 40 anos com os não indígenas (os Tôria). A maioria vem buscando estudar justamente para melhor se comunicar com os Toria; poucos são falantes do português. Vivem ainda sob as sequelas do deslocamento compulsório da Eletronorte para a Construção da Hidroelétrica de Tucuruí e de uma Tutela traumática do Programa Parakanã.

No dia 26, a rodovia Transamazônica foi bloqueada por familiares dos caçadores, em protesto a ausência das autoridades do poder publico para mediar o diálogo com os indígenas e iniciar as buscas pelos desaparecidos. Neste instante, além de uma longa fila de veículos no trecho da T.I. Parakanã, a entrada do Posto Taxakoakwera e de algumas aldeias Awaeté se encontram sitiadas devido aos protestos na rodovia. Áudios com ameaça a vida dos indígenas começam a circular. Um clima de insegurança e ameaças vêm aumentando devido a morosidade do poder publico competente em se fazer presente para mediar a interlocução das partes envolvidas e acelerar o processo de busca, o que preocupa os Awaeté e seus parceiros institucionais, como os/as professores/as dos cursos de Magistério Indígena e Agroecologia.

Toda nossa solidariedade aos familiares que procuram seus filhos e irmãos desaparecidos, esperamos que as buscas sejam efetivas e tão logo sejam localizados em segurança. Contudo destacamos que tais episódio expõe ataques ao povo indígena Awaeté e a cobiça pelo fragmento de território que compõe a T.I Parakanã. Soma-se a isso, a carga de preconceitos e etnocentrismo que vêm alcançando desdobramentos nos corpos indígenas com a possibilidade de um novo estado de exceção sobre suas vidas.

Cobramos de todas as autoridades responsáveis a máxima proteção aos Awaeté- Parakanã neste momento.

Assinam:

Ronnielle de Azevedo-Lopes – IFPA/ CRMB/GPTIE Ribamar Ribeiro Junior – IFPA/GPTIE

Tatiane Costa – IFPA/CRMB

Coordenação do Curso de Magistério Indígena (IFPA/CRMB) William Bruno Silva Araújo – Diretor de Ensino/CRMB

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