
O portal UOL trouxe ontem uma ampla matéria assinada pelo jornalista Wanderley Preite Sobrinho sobre a decisão do governo Lula de desengavetar o projeto de construção da chamada “Ferrogrão”, um projeto de ferrovia criado pelos gigantes do comércio global de grãos (ADM, Dreiffus, Bunge e Amaggi) para escoar soja do centro do Mato Grosso para um porto fluvial no Pará.
A notícia é péssima para quem se preocupa da floresta amazônica já que só para a construção da Ferrogrão será preciso desmatar 49 km2 de vegetação nativa, uma área que seria 11% superior ao território do estado do Rio de Janeiro. Mas esse montante seria apenas para construir a ferrovia, pois junto com ela viria o avanço da especulação de terras e ainda mais desmatamento.
E o custo desta brincadeira? Do ponto de vista financeiro seria inicialmente de R$ 34 bilhões, mas junto com isso viria a emissão de 75 milhões de toneladas de gás carbono, o equivalente a R$ 9,2 bilhões, considerando o preço de US$ 25 (R$ 119,95) a tonelada de carbono. Em outras palavras, para baratear o custo das gigantes do comércio da soja, o Brasil irá perder algo em torno de R$ 43 bilhões, apenas como estimativa inicial.
O curioso é que a reportagem mostra que essa devastação toda poderia ser evitada se alguém dentro do governo Lula parece para verificar que outras ferrovias em atividade e outras em fase de construção terão capacidade para transportar a produção agrícola do Centro-Oeste sem a necessidade da Ferrogrão (ver figura abaixo).

Apenas essa estripulia da Ferrogrão explica o porquê do governo Lula estar tão irritado com as demandas de mais proteção das florestas por parte da União Europeia, já que com os planos da Ferrogrão isso não terá mesmo como ser firmado.
Aliás, os problemas futuros no Brasil com a questão ambiental passam ainda pela exigência de que a produção brasileira não contenha tantos resíduos de agrotóxicos para que seja aceita nos países da União Europeia. Em que pese a hipocria desta demanda, já que são empresas europeias que abastecem o Brasil com grandes quantidades de agrotóxicos banidos no velho continente, essa é uma demanda real, e não haverá como escapar dela nos próximos anos.
O mais lamentável disso tudo é que o passivo ambiental dos projetos neodesenvolvimentistas dos governos Lula e Dilma está aí para quem quiser ver, incluindo os trágicos casos das usinas hidrelétricas de Belo Monte e as do Rio Madeira. Mas, aparentemente, há no governo Lula quem queira mais destruição ambiental e degradação social na Amazônia.
Eu sinceramente fico imaginando por quanto tempo mais as ministras Marina Silva e Sonia Guajajara vão aguentar a pressão de estar em um governo cujas práticas vão de encontro às necessidades de proteção ambiental e dos povos originários.