
Em meio às várias peculiaridades (vamos chamar assim) que marcaram a corrida eleitoral para a reitoria da Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro (Uenf), uma intervenção que ocorreu durante o debate entre as chapas concorrentes na última 5a. feira (14/9) deixou muita gente indignada. Ali, durante uma troca animada de opiniões, um dos candidatos a dirigir a reitoria entre 2024 e 2027, propôs que os “caciques” que supostamente impõe suas vontades sobre jovens pesquisadores fossem “ostracizados geograficamente”.
Essa proposta chocou a muitos dentro da universidade, na medida em que o seu idealizador Darcy Ribeiro foi uma das vítimas do “ostracismo geográfico” que foi imposta a milhares de brasileiros e brasileiras durante o regime militar instalado em 1964. Como todos devem lembrar, Darcy Ribeiro ficou exilado no Urugai após seu banimento público pelos militares.
Mas mais do que um mero escorregão em um momento de empolgação durante um debate, o que esta fala aponta é a explicitação ainda maior de um viés autoritário que já estava visível dentro da Uenf, mas que agora se mostrou mais claramente nos debates eleitorais.
Tais tentações autoritárias refletem bem o que tem ocorrido na Uenf sob uma gestão que desvaloriza a ciência para apostar no que eu tenho chamado de “prefeiturização” das relações da instituição com o seu entorno social. Um exemplo disso foi a participação de um secretário municipal na tentativa de angariar votos nas eleições que estão ocorrendo no polo de São Francisco do Itabapoana. Somado a isso, tivemos a tentativa dos membros da chapa do continuísmo de ignorar as decisões da Comissão Eleitoral designada pelo Conselho Universitário da Uenf e impor, por exemplo, o uso proibido de camisetas nas áreas de votação nos polos em que temos estudantes na modalidade de ensino à distância (EAD). E pensar que a Darcy Ribeiro tinha como ideal a participação da Uenf e dos seus membros na elevação da cultura política na nossa região!
Recuperar a autoestima e o compromisso com a produção da ciência é uma necessidade estratégica para os próximos anos dentro da Uenf. Sem isso, as tentações autoritárias vão se fortalecer e inviabilizar o desenvolvimento pleno das grandes potencialidades que o projeto de Darcy Ribeiro representa não apenas para a região Norte Fluminense, mas para todo o Brasil.