Os donos de carro contra o resto da Humanidade ou a Ditadura dos Cabeças de Biela

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Em protesto contra as novas ciclofaixas, comerciantes incendiaram pneus e fecharam a rua Barão de Miracema em Campod dos Goytacazes (Foto: Redes sociais)

Por Douglas da Mata

Há muito tempo, quando pretendo debater algo que envolva proprietários de veículos e suas relações com os espaços urbanos, me lembro de um hilário desenho animado da Disney, tendo o Pateta como personagem principal (ver vídeo abaixo).

https://youtu.be/uV_K5qA2KLQ?si=GMxPwE-fo-1c5fgf

 É o filme chamado Mr Wheeler e Mr Walker, algo mal traduzido em Senhor Volante e Senhor Pedestre, que faz uma adaptação da história de dupla personalidade famosa dos filmes de terror, Dr Jhekyl e Mr Hide, ou o Médico e o Monstro.

No episódio recente que reuniu de um lado os donos de veículos, e de outro, o resto da cidade, ficou claro o nível de semelhança com as alegorias acima, onde motoristas enfurecidos atearam fogo a pneus, berraram nas redes sociais, conclamando a “revolução dos carros”.

Não adianta dizer que o interesse dos carros e da indústria automobilística moldaram os Séculos XX e XXI, onde as cidades foram construídas a partir de um único ponto de vista: o do banco de um motorista.

Com maior ou menor intensidade, sistemas de transportes de massa foram sucateados e orçamentos públicos foram todos desviados para a construção de ruas, avenidas, vias expressas, pontes, viadutos, assim como vários serviços públicos foram empenhados na garantia de ir e vir de quem tem um carro.

Hospitais, resgates, policiais, agentes de trânsito, etc.

 Toda uma rede de equipamentos e serviços dedicada às Vossas Excelências, o dono de carro.

 Isenções fiscais para compra de veículos? Claro!

 Anistia de multas e licenciamentos atrasados? Várias vezes.

 Desse modo, solidificou-se a noção de que o dono de um carro é uma versão menor de dono do Universo, tudo isso estruturado em leis e costumes que garantiram a esse grupo minoritário da sociedade uma gama de privilégios digna das castas indianas superiores ou das mais nobiliárquicas dinastias europeias.

 Nestes tempos recentes, o Prefeito de Campos dos Goytacazes, uma cidade plana e conhecida por seu uso intenso de bicicletas por sua população pobre, e talvez por isso, já que transporte público de massas ela não tem, decidiu intensificar a implantação de ciclofaixas, para dar um mínimo de segurança e ESPAÇO PÚBLICO para as bicicletas transitarem.

Foi o caos!

 Não se tratou de nenhuma desapropriação ou requisição de uso de nenhuma fatia privada do território da cidade, mas sim ESPAÇO PÚBLICO.

Os até então “pacíficos e ordeiros” proprietários de veículos, comerciantes e outras classes de motorizados deixaram vir à tona os monstros que habitam em seus íntimos.

 Como o personagem do Pateta no filme de animação mostrado acima, revelaram sua pior índole, assemelhando seus atos àqueles nomeados como terrorismo.

 Tudo isso para deixarem claro que o não há ESPAÇO PÚBLICO que escape ao “apetite” dos cabeças de bielas.

Irônico também foi a turma do “mas”, ou “tem que ter conversa antes”.

 “Ah, MAS não pode começar pelas ciclofaixas” ou “Ah, porque não conscientizou antes, ou conversou?”.

Uai, mas vai dar espaço para bicicletas começando por aonde, mandando eles subirem as calçadas para disputarem com os já ameaçados pedestres?

“Conscientizar, educar, conversar”? Como assim?

Tratam-se de crianças?

Então o Prefeito tem que pedir ou tentar convencer os bárbaros cabeças de biela que ele vai tentar devolver uma parte da cidade que pertence a todos?

Quem sabem não desejem esse pessoal que o Prefeito divida a cidade em feudos, com cancelas e muralhas, entregando a eles o direito de dizer quem pode ir e vir?

Milhões de mortos no trânsito ao longo dos anos, outros tantos mutilados, prejuízos imensos para famílias e sistemas previdenciários e hospitalares, mas nada disso é suficiente para sensibilizar os cabeças de biela.

Esperemos que o Prefeito faça valer sua autoridade…

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